O HISTORIADOR E O ZÉ DA ESQUINA

19 ago

Estive pensando neste texto por vários dias. Calhou de acordar hoje e descobrir que foi criada uma efeméride dizendo que é nosso dia. Então, talvez, o que segue aqui ajude um pouco na reflexão sobre o nosso entorno social.

 

Para ser historiador é preciso estudar muito. Dominar técnicas de pesquisa de vários tipos, não basta saber paleografia para decifrar a escrita documental ou línguas mortas para entender documentos antigos, é necessário também um razoável nível de erudição sobre a época estudada para conseguir “ler” suas fontes de uma maneira contextualizada, sem cometer anacronismos. E é claro que um domínio minimamente sofisticado da produção teórica requer a leitura crítica de algumas centenas de obras consideradas primordiais.

 

História não é um curso para quem tem preguiça, para quem não gosta de ler ou para quem tem uma visão de mundo excludente e limitada. Se o historiador não tem a capacidade de refletir criticamente sobre a época que estuda, então ele vai apenas reproduzir repertórios de datas e fatos ou as versões oficialmente aceitas, que interessam aos detentores do poder e da informação. Se o pesquisador ou o professor não tem o treino para desconstruir e decompor os elementos dos discursos sociais e documentais, ele se torna um mero reprodutor de sensos comuns sem noção ou reflexão.

 

E vou repetir o que já disse dúzias de vezes dos vídeos e materiais do Cantinho da História, criticar não significa falar mal ou desancar. Uma leitura crítica implica em saber identificar os pressupostos teóricos do autor do texto, compreendendo assim porque cada autor “escreve como escreve” e conseguir dialogar com eles dentro das linhagens teóricas e historiográficas. Esse tipo de leitura implica em conseguir decompor o texto em suas partes essenciais e entender a mecânica de construção da narrativa.

 

Cabe ao historiador desmascarar os discursos dos poderosos, contrastando-os com a realidade social de suas épocas. Cabe ao historiador denunciar crimes, injustiças e genocídios “para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Cabe ao historiador fixar na trama do conhecimento as narrativas das épocas que já se foram para garantir a memória e a identidade de todos nós.

 

Mas também cabe ao historiador mergulhar em séries intermináveis de documentos e produzir tabelas e mais tabelas analíticas sobre demografia, clima, alimentação ou qualquer que seja o tema da pesquisa. Cabe ao historiador devassar centenas de processos judiciais, dominando a linguagem notarial e processual, para entender as estruturas da ordem e da punição na sociedade. Cabe ao historiador adquirir corpus de conhecimentos complexos quando sua disciplina entrecruza com o Direito, a Medicina, a Geografia ou a Filosofia.

 

E toda essa pesquisa deve ser vertida em uma narrativa que obedece a normas técnicas bem estritas. Deve dialogar com a corrente historiográfica em que se insere e deve apresentar seus documentos, tabelas e instrumentos de pesquisas dentro dos modelos academicamente aceitos. E deve estar sempre pronto para a refutação e crítica de seus pares.

 

Por isso textos acadêmicos são tão chatos? – perguntará aquele aluno rebelde e você lhe responderá que sua leitura só lhe parece chata porque ele não tem o treino e o conhecimento necessário para lê-los de maneira adequada. E, se você tiver sorte, vai conseguir passar a esse aluno uma série de ferramentas para que aprenda a ler adequadamente e não ande por aí dizendo besteiras. Mas, se não conseguir, você terá que se defrontar com mais um obscurantista defensor de autores irrelevantes só porque são de fácil leitura e que odeia os intelectuais porque não consegue acompanhar seu raciocínio.

 

E estamos em uma sociedade cheia deles. Autores mercenários que cometem desonestidades intelectuais medonhas apenas para vender livros, professores titulados que se esgoelam como energúmenos em noticiários popularescos e palestrantes que ganham fortunas para oferecer platitudes embrulhadas em verbosidades eruditas a plateias de basbaques e novos ricos. E o público em geral não tem o treino e nem a capacidade para distinguir essa História para consumo e descarte, dos trabalhos acadêmicos sérios que consomem a vida dos pesquisadores.

 

Hoje o historiador não enfrenta apenas a crítica abalizada de seus pares, enfrenta também o deboche de humoristas escatológicos e a opinião do Zé da Esquina. As maiores barbaridades são proferidas por um vulgo ignorante, mal informado e prepotente e somos obrigados a viver desfazendo as confusões causadas por esse tipo de desinformação. E, no meio dessas refregas, o Zé da Esquina tem tanta autoridade perante a sociedade quanto nós que somos especialistas.

 

Em um mundo cheio de “minas lacradoras” e gentes de “opiniões” fortes, a dura labor de aquisição de conhecimento é o que menos importa. Ganha os “debates” quem berra mais alto, quem abandona a civilidade e “cala” os outros. Perde quem procura racionalidade em meio à barbárie.

 

Ser especialista nos dias atuais virou crime. Muitas pessoas acreditam que o conhecimento é um fator de prepotência e que qualquer opinião leiga tirada do próprio traseiro tem o mesmo peso que o trabalho de pesquisa de décadas. Do mesmo modo, esses apologistas do pseudoconhecimento andam por aí incensado autores irrelevantes de décadas e décadas atrás para apoiar as falácias que defendem. E cabe a nós resistir e manter a integridade do “fazer” historiográfico.

 

Pirralhos arrogantes, que são incapazes de aceitar o contraditório, erguem a voz e colocam o dedo na cara de pesquisadores sérios e ainda nos chamam de agressivos quando desconstruímos suas certezas banais e demonstramos o caráter raso de seus conhecimentos de almanaque. A disputa por uma versão dominante na arena da divulgação da História nos arranca do dinamismo dos debates acadêmicos para mergulhar nesse ambiente de briga de rua das redes sociais. E, para vergonha suprema da humanidade, hoje no Brasil se chega às vias de fato discutindo a matriz ideológica do nazismo porque uma súcia de retardados anda propalando que Hitler era de esquerda.

 

E mesmo assim estamos aqui e hoje, homenageando Joaquim Nabuco, festeja-se nosso dia. Joaquim Nabuco que foi um erudito e um ativista abolicionista. Em uma sociedade que considera o ativismo dos professores um crime de lesa pátria. Certamente ironia pouca é bobagem.

 

Estamos aqui e não seremos calados. Nem por leis de mordaça, nem pelo desmonte das universidades e nem pela ignorância e agressões do público. Estamos aqui para ficar e para lutar por nossos conhecimentos e o direito à nossa produção acadêmica e social dentro dos cânones da ética e da seriedade que o ofício exige.

 

Legislações ultrapositivistas, destinadas a despojar a escola e a academia de seu poder libertador não podem silenciar mais de um século de aprimoramento teórico e metodológico. A pretensa neutralidade exigida e defendida por quem não tem compromisso algum com o conhecimento (e procura somente uma profissão em que se encostar) não é apenas ingênua, é vergonhosa. Que pensariam disso Marc Bloch, Lucien Fébvre, E. P. Thompson, Eric J. Hobsbawm e o próprio Karl Marx?

 

Ser historiador e professor hoje é resistir. É clamar no deserto enquanto se procura não perder a sanidade diante de um sistema que nos apequena, aprisionando alguns na produtividade acadêmica e silenciando outros tantos em um mercado de trabalho taylorizado. E é por isso que eu digo NÃO às mordaças, às ingerências e ao senso comum acéfalo de uma sociedade que prefere o consumo e o espetáculo da força e da violência, em detrimento do debate e do conhecimento.

 

Somos o que somos, para bem ou para mal, e vamos continuar aqui por muito tempo. Acostumem-se.

UMA DAS TANTAS CARTAS QUE ANDAM POR AÍ PARA O LULA

14 ago

Prezado Companheiro:

 

 

Permita-me a familiaridade de uma abordagem informal porque esta é uma carta de alguém que acompanha seu percurso desde o início. Desde o momento em que me tornei cidadã brasileira (nos anos 80) e consegui meu título de eleitor tenho votado em você a cada eleição em que foi candidato. Não sou uma pessoa de partido, sou comunista desde sempre e voto movida pela expectativa da mudança, que hoje a maior parte de seu partido já não mais representa, salvo raras e honrosas exceções.

 

Não quero falar aqui dos seus feitos, esses já tem um lugar garantido na nossa História e falam por si. Também não sou uma pessoa dada a adulações, beija-mãos ou delírios de fã-clube adolescente. Respeito sua pessoa e admiro sua trajetória, embora acredite que o tempo da conciliação acabou e que por isso você corra o risco de tornar-se um dinossauro político muito em breve.

 

E não creio que seja culpa sua, como afirmam muitos esquerdistas oportunistas que andam por aí vertendo rancor e inveja. O tempo da conciliação acabou porque a sociedade brasileira (aquela que está acima do limiar da pobreza) perdeu a ocasião histórica de apertar a mão que você lhe estendeu. Optaram pela via autoritária para preservar seus privilégios e “surfam” na onda conservadora que varre o planeta.

 

A cada dia nosso horizonte como país se apequena. Nós das Ciências Humanas estamos sendo visados e perseguidos pelo obscurantismo e pela ignorância e há uma ação coordenada das forças mais arbitrárias da reação para se apossar da narrativa da realidade e impor seu lixo ideológico baseado em preconceitos religiosos e sociais. Nesse sentido, a truculência e a intimidação hoje se tornaram físicas e é uma questão de tempo para que as esquerdas oportunistas consigam algum cadáver para chamar de seu.

 

É por isso que a conciliação, que foi sua marca política, hoje é uma impossibilidade histórica. O momento é de confronto e nem você ou eu temos como inferir qual será o resultado deste processo. Corremos riscos seriíssimos como indivíduos e como parte desta nação continente, tão vasta e tão complexa.

 

No momento em que você começa sua nova caminhada pelos sertões, sem ter sequer a garantia de que teremos mesmo eleições em 2018, eu me pergunto se existe um plano B. Afinal, a via eleitoral permanece incerta e, ao mesmo tempo, dado o arbítrio legislativo e judiciário sofrido por nossa presidenta legitimamente eleita, tenho a impressão de que o cargo majoritário está em vias de tornar-se irrelevante. E, na iminência da democracia representativa se tornar pró-forma, dada a parcialidade e o perfil exclusivista do Congresso, todos nós cidadãos nos tornamos descartáveis.

 

Passo noites sem dormir procurando respostas e soluções, afinal foi para isso que estudei. O esforço feito pela minha família para que eu saísse da fábrica e fosse à Universidade não foi apenas para ter uma segurança econômica que jamais veio, também foi para que crescesse como ser humano. E meu crescimento implica em pensar a sociedade e contribuir para o combate à desigualdade.

 

As ideologias supremacistas e totalitárias estão renascendo a olhos vistos e muitas pessoas já não tem pejo e nem vergonha de defender o racismo, a homofobia e as religiões que oprimem e torturam. Há ódio e rancor no ar e uma eletricidade negativa que transforma a sociedade em uma bomba relógio sempre armada. Haverá conflitos sem dúvida, a questão é descobrir onde e quando, para conseguir resistir e evitar um desfecho pior.

 

E, embora eu respeite e admire você, me pergunto com frequência se você percebe que este é o momento de ações coletivas e não de colocar a esperança de transformação em um único indivíduo. E quando digo “coletivo” não me refiro ao espectro das esquerdas partidárias, que se apresenta como uma fauna lastimável e egos e nulidades viciadas no processo eleitoral. Para mim, “coletivo” é o povo e precisamos motivar esse povo a tirar o traseiro da poltrona e começar a ser cidadão de verdade.

 

Para quem nada tem é claro que um teto, geladeira, luz elétrica e saneamento são o paraíso e eu admiro que você tenha feito um esforço hercúleo para levar o essencial a tanta gente que jamais sonhou com tais confortos. Mas está na hora de pensar maior, de envolver esses meninos lindos que estão nas universidades federais graças a você e suas iniciativas e garantir seu futuro enquanto se liberta a nação do obscurantismo. Precisamos levar ao povo não apenas o letramento precário da alfabetização, precisamos levar o pensamento crítico para que nunca mais se deixem manipular pelos sacripantas que hoje ocupam o poder na maior parte do território nacional.

 

E é esse o motivo desta carta, desculpe-me pela prolixidade que levou três páginas para atingir o ponto chave da argumentação. Se sobrevivermos a este ano aziago e a este governo golpista safado e desonesto, precisamos pensar algum tipo de programa radical de formação cidadã. “Para que nunca se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

 

Pense com carinho nisso. As grandes universidades brasileiras estão repletas de pessoas inteligentes que podem formular esses programas e de jovens cheios de energia, que podem aplicá-los pelo Brasil afora, desde que se lhes garanta as condições materiais e uma remuneração digna. E há um povo inteiro que precisa aprender que não se vira cidadão consumindo e sim pensando.

 

E vou além, a situação é tão urgente que talvez precise ser encarada independente de haver ou não eleições ou de você se sagrar vitorioso uma terceira vez. Talvez precisemos que esse programa seja feito a despeito do governo e à revelia do poder econômico, que hoje determina que voltemos à miséria absoluta para melhor remunerar o capital rentista. O que nos espera é ainda mais gigante do que aquilo que acabamos de deixar para trás.

 

Inclusive porque precisamos recuperar a esperança que nos roubaram. O estado de exceção, que hoje vivenciamos, sequestrou nossas perspectivas, nosso futuro e nossa capacidade de sobrevivência, deixando a possibilidade de transformar em curtíssimo prazo nossa sociedade em uma ruína pós-apocalíptica. E o que sobrou foi apatia, desânimo e medo.

 

Para recuperar a esperança e o protagonismo popular é necessário ir além da política partidária e do processo eleitoral. O compromisso com o futuro deve ser incondicional e o passado deve ser referência e horizonte. O que você fez, feito está e foi ótimo, o que falta fazer é o futuro.

 

É um mundão de coisas que você não pode e nem deve encarar sozinho. Chegou a hora da construção coletiva de todos nós, da sociedade que se importa e das pessoas que se preocupam. Pense nisso com cuidado e carinho, deixe um pouco de lado os gabinetes, os acordos de conciliação com os poderosos e não perca nunca mais o contato com o povo.

 

Um grande abraço, conte comigo enquanto eu tiver um cérebro e um par de braços para trabalhar e como já disse outro companheiro:

“Hasta la victória final!”

 

AVISO AOS NAVEGANTES

6 ago

Você não precisa ser um mentecapto defensor da eugenia e do genocídio para ser racista. Basta que você considere como natural o estado atual das desigualdades sociais, que você se sinta com direito às benesses sociais enquanto condena os que precisam de auxílios ou que você não sinta um mínimo de empatia sequer perante as tragédias anunciadas que assolam vários países africanos ou perante os jovens negros assassinados pela polícia nas grandes cidades do Brasil e dos EUA. O racismo é um sistema de valores que perpassa a economia, a sociedade e a História, e deixa atrás de si a desigualdade, a miséria e a morte.

 

Do mesmo modo que não precisa ser um agressor de mulheres para ser machista.  Basta que você considere como natural esparramar-se no sofá enquanto sua mulher ou sua mãe se esfalfam para manter arrumada uma casa que você só bagunça ou para preparar sua comida, mesmo que você sequer retire seu prato da mesa. O machismo é um sistema de valores que igualmente perpassa as várias instâncias sociais e históricas deixando seu rastro de desigualdade, miséria e morte.

 

Mas, preste muita atenção, para ser capitalista você precisa de capital. Quer seja cuidadosamente consolidado em uma carteira de investimentos, para que você possa auferir uma renda estável; quer seja em propriedades móveis ou imóveis, ligadas à produção ou ao comércio, mas que lhe permitam auferir rendas consideráveis e não precisar viver ao sabor do acaso. Para ser capitalista é necessário, em qualquer hipótese, dispor do capital que faz o sistema funcionar.

 

Se você toca um carrinho de pipoca ou vende um “dogão” no portão de casa após um exaustivo dia de trabalho, você não é empresário. Se você recicla lixo, revende produtos ou explora alguns pobres coitados oferecendo seus serviços a terceiros, você não é um capitalista. Você micro, pequeno e médio empresário é apenas mais um pobre entre bilhões de pobres descartáveis.

 

Ser capitalista não é uma condição do vir a ser; se você precisa da loteria ou da ilusão de uma vida inteira de trabalho duro, lamento informar, mas a probabilidade de você se tornar um capitalista de verdade é menos que irrisória. Você continuará apoiando e defendendo um sistema que o esmaga, milionários que o desprezam e políticos que tiram o pão da boca dos seus filhos e netos, e mesmo assim morrerá tão insignificante quanto viveu. Porque para ser capitalista não basta compartilhar a ideologia dos que o exploram, é preciso ter acesso ao dinheiro e ao poder que sustentam e impõem essa ideologia.

 

Cuidado, então, com passar sua vida ajoelhando-se, sacrificando aos deuses do mercado seu esforço, sua família, sua consciência e suas ilusões. Cuidado para não ser o palhaço que aplaude vivamente enquanto o sistema engole e regurgita seus irmãos. Cuidado para não ser o pusilânime que festeja as forças policiais espancando e matando negros, gays, mulheres, estudantes, professores ou jornalistas.

 

Porque a Revolução um dia vai chegar. Pode não ser agora, pode não ser a minha revolução comunista ou aquela anarquista que os meus amigos defendem. Pode não ser a milenarista que os cristãos esperam para sentar-se à direita de seu deus. Pode não ser a eugenista que os nazifascistas de plantão preparam para esmagar os diferentes. Mas ela vai chegar.

 

E vai chegar porque existe um limite para a exclusão, para a desigualdade, para a exploração e para o sacrifício. Existe um limite de expansão para essa economia predatória e para essas sociedades de poucos privilegiados e muitos esmagados. E, certamente, existe um limite para sonhar com mobilidade em uma sociedade que elimina a possibilidade de sobrevivência.

 

E quando a Revolução chegar, você que chorou pelas “princesinhas” Romanov, pelos poucos fuzilados da Revolução Cubana ou pelos “gusanos” parasitas vivendo em Miami da exploração da memória, tenha certeza que seu lugar no “paredón” estará garantido. Você que se regozija ao ver jovens negros amarrados em postes, trabalhadores reduzidos a uma condição bovina ou professores espancados em manifestações terá sua devida recompensa. Você que explora quem não pode se defender, enquanto obsequiosamente lambe o chão por onde os capitalistas de verdade passam, não perde por esperar.

 

Porque muito mais asqueroso que o rico explorador é o miserável que lhe inveja a sorte e aspira a tornar-se seu igual, voltando as costas ostensivamente e apoiando todo o mal que a sociedade destina aos seus irmãos de origem.

 

É uma questão de tempo.

 

E, por último, mas não menos importante, este texto tem altas doses de ironia. Se você fugiu da escola nas aulas sobre figuras de linguagem, cuidado. Peça para alguém capacitado ajudá-lo na leitura.

A UNIVERSIDADE PÚBLICA EM PERIGO

4 ago

Em fevereiro de 1987, quando fiz minha matrícula na UNICAMP e comecei minha graduação em História, fui informada pelo palestrante que recepcionou os calouros de que, naquele momento, eu passara a fazer parte do um por cento dos estudantes que chegava ao ensino superior. Havia um clima de celebração do privilégio e da meritocracia de destacar-se passando em um vestibular extremamente concorrido. Havia a sensação de que o ensino superior nas universidades públicas estaduais (consideradas centros de excelência) abriria as portas do mundo para todos aqueles estudantes, minoria das minorias.

 

O tempo provou que a meritocracia era relativa e o privilégio absoluto. Provou também que (ao menos nas Ciências Humanas) bem poucos de nós conseguiríamos cursar e perseverar no ensino superior sem algum auxílio. Os sistemas de bolsas (SAE, FAPESP, CAPES, CNPq) foram responsáveis por nossa permanência e nossa sobrevivência.

 

Naqueles tempos, as universidades federais estavam abandonadas e as estaduais permanentemente ameaçadas por cortes orçamentários. Mesmo assim, eram centros de produção de conhecimento e primavam pela formação de profissionais de primeira linha. O abismo no ensino superior, entre as instituições públicas e privadas, era de tal sorte, que as pessoas arregalavam os olhos quando mencionávamos onde estudávamos.

 

E como estudávamos!!!

 

Os cursos eram integrais e a carga horária e a quantidade de leituras eram consideráveis. Mas compensava porque nos abria a mente, transformando nossa maneira de ler, de pensar, de escrever e de argumentar. Entrávamos com uma carga de conhecimentos de almanaque, devido ao estado lastimável do ensino de Humanas durante os anos da ditadura e saíamos desconstruindo qualquer discurso.

 

Imaginem o que foi (no meu caso em particular) sair de uma fábrica e entrar em um ambiente em que todos os meus professores já haviam escrito mais de um livro. Encontrar bibliotecas imensas, com livros em várias línguas e uma carteirinha que franqueava as portas de um mundo de sonhos e acesso infinito à cultura. E as conversas sem fim pelos corredores e escadas, com colegas e professores, em que se ampliavam as discussões das salas de aula.

 

Nunca vou esquecer um episódio que aconteceu durante o meu segundo ano de graduação. Estava naquele ponto em que todos pensamos que aprendemos a escrever em “academiquês” e fiz um texto cheio de mesóclises em narrativa neutra e entreguei orgulhosa para o (logo quem) Sidney Chalhoub. Na devolução, ele me perguntou se eu era parente do Jânio Quadros e meu flerte com as mesóclises terminou ali de uma vez por todas.

 

Já fiz mais de um texto neste blog tecendo loas aos professores maravilhosos que conheci na universidade pública. Já deixei bem claro, em todas as mídias e redes sociais de que participo, a dívida insanável que tenho com os sistemas de financiamento que me permitiram sobreviver enquanto estudava. E já devolvi socialmente muito do que recebi, socializando o conhecimento que obtive para ajudar jovens estudantes em suas caminhadas.

 

Mas nem tudo foram flores nessa trajetória. Nos anos 90, o projeto de desmonte das universidades públicas deixava os sistemas de financiamento à míngua. À exceção da FAPESP, todas as outras bolsas demoravam e falhavam no atendimento aos estudantes, com uma frequência assustadora.

 

Os anos FHC foram de penúria para o ensino público em todas as instâncias. Mas a determinação de não abrir concursos penalizou sobremaneira as universidades, impedindo novas contratações quando a morte ou a aposentadoria levava algum docente. Houve casos de acúmulo de disciplinas para manter o calendário, com os professores lecionando na graduação e na pós, orientando alunos e ainda tendo que produzir publicações diante das exigências descabidas dos “novos paradigmas” de avaliação.

 

Foi nesses tempos que se institucionalizou a prática de chamar alunos de pós para ministrar disciplinas, para aliviar a pressão dos titulares e ganhar tempo enquanto se esperava a liberação de novos concursos. O sucateamento que já atingia as universidades federais acabou por alcançar as estaduais e nunca mais as abandonou, especialmente em estados em que o projeto de gestão neoliberal prosperou. E mesmo assim as universidades resistiram.

 

A década de expansão progressista que propiciou a abertura de novos campi federais pelo Brasil afora, acolhendo uma geração inteira de alunos ávidos, cujas famílias jamais sonharam com tais oportunidades, foi um período de otimismo e esperança. Os sistemas de financiamento socializaram o acesso à universidade pública e transformaram os perfis demográficos dessas instituições. Parecia que o Brasil finalmente era o que poderia ser.

 

Mas a ameaça sempre permaneceu latente. Os meios de comunicação, que pregam o neoliberalismo desde que seja para os outros, passaram os últimos quinze anos defendendo a privatização do ensino superior no Brasil. Como se já não bastasse a demonização dos professores, “eternos grevistas”, a universidade passou a ser vista como um custo, e não o investimento que ela realmente é.

 

A pressão constante dos discursos distorcidos criou uma imagem esquizofrênica de elitização do ensino superior, no primeiro momento em nossa História em que realmente a universidade adquiria uma feição mais plural e democrática. Neste momento, em que deputados recebem benesses e afagos para manter os golpistas no poder, as universidades têm seus orçamentos reduzidos. Enquanto os quadros da casta judiciária acumulam auxílios e penduricalhos, os professores e os alunos são considerados como uma carga para o Estado.

 

O sucateamento sistemático das universidades segue o roteiro neoliberal que desemboca (cedo ou tarde) na ruína dos interesses nacionais e na privatização acéfala dos maiores patrimônios materiais e imateriais que o país tem a oferecer. E essa é uma saga que vem se desenvolvendo implacavelmente à revelia das nossas lutas e das nossas contribuições à construção de um pensamento científico respeitável e respeitado. Nas mãos de tecnocratas, apadrinhados políticos medíocres e funcionários de capacidade duvidosa, as secretarias, ministérios e agências reguladoras responsáveis pelo ensino, mais destroem do que ajudam, com poucas e honrosas exceções.

 

Sim, a universidade pública está em perigo como nunca antes esteve. E muitos não percebem porque passaram tanto tempo com a navalha na jugular, que se acostumaram a viver sob ameaça. Especialmente aqui no “Tucanistão”, aonde uma sucessão de governos inimigos vem sucateando sistematicamente as maiores universidades estaduais do país.

 

Não podemos aceitar o fechamento das federais como se fosse uma coisa normal. A UERJ, as federais em Sergipe, na Paraíba e pelo Brasil afora estão diariamente pedindo socorro para sobreviver e a mídia parece querer transformá-las em exemplo para subjugar as outras, enquanto o governo golpista rifa nossos direitos, nosso futuro e nossas esperanças. E a sociedade nem sequer tem capacidade de avaliar o que se perde com isso.

 

Devemos lembrar que houve ao menos uma década em que o Brasil foi o que poderia ser. Abrindo as portas da pesquisa científica e da produção de conhecimento a uma geração social e racialmente diversa, que oxigenou as universidades federais e começou a romper o cerco da classe média nas estaduais. Levando esses conhecimentos de volta a suas comunidades como professores, cidadãos e profissionais mais completos e ajudando a pensar um futuro mais auspicioso.

 

E essa década provocou tal pânico nas hostes do obscurantismo dominante, que hoje pululam por aí projetos de lei para amordaçar e destruir professores. A construção de um ensino plural e diverso acena para uma sociedade mais igualitária e menos injusta, e isso apavora os conservadores, os religiosos, os racistas, os homofóbicos, os machistas e os detentores de benesses e privilégios públicos. E a sociedade está sucumbindo a esse canto de sereia da intolerância porque não consegue avaliar o aspecto positivo das mudanças sociais.

 

Delenda brasilis eu escrevi recentemente neste blog. E a destruição do ensino público é parte determinante da realização do projeto neoliberal de destruir a nossa sociedade, para moldá-la à feição solicitada pelo Grande Irmão do Norte. Resta saber até quando as universidades conseguirão resistir.

 

A concretização do golpe de Estado e das reformas que nos anulam como cidadãos correm soltos, em parte, porque as classes populares querem consumir como classes médias, mas não querem abrir mão da mentalidade tacanha e tosca inoculada por seus padres, pastores, pela mídia e por um sistema de crenças que nos quer mais consumidores que cidadãos. Não me levem a mal, é claro que casas, geladeiras e fogões são muito mais do que necessários, mas nenhum governo (ou escola) até hoje conseguiu fazer com que as pessoas (em geral) valorizassem os tesouros da mente, do mesmo modo como perseguem a prosperidade material. E a cidadania só se concretiza quando se aprende a valorizar os patrimônios materiais e imateriais, tanto pessoais quanto sociais e nacionais.

 

Eu devo demais à universidade pública para assistir ao seu desmonte calada e escondida. Mas só posso oferecer palavras porque a gasolina está cara demais para os “molotovs”. Então que sejam palavras:

 

Giordano Bruno disse que os mundos eram infinitos,

E foi queimado na fogueira com lenha verde,

Tendo sua língua cortada para que o povo não o ouvisse,

Mas os mundos continuaram sendo infinitos.

 

Galileu disse que a Terra girava em torno do Sol,

E foi reduzido ao silêncio e à penitência,

E mesmo assim a terra é redonda, se move,

E gira em torno do Sol.

 

Darwin disse que as espécies evoluem por seleção natural,

E professores têm sido impedidos de ensinar sobre isso

Pelo mundo afora e perseguidos e silenciados,

E mesmo assim a evolução é um fato.

 

O conhecimento persiste, subsiste, sobrevive e se multiplica,

Mesmo sob a ameaça das fogueiras, dos calabouços,

Da miséria e da tortura, porque o conhecimento somos nós,

E não podem silenciar-nos ou matar-nos a todos infinitamente.

 

O ANACRONISMO DE CONSIDERAR JESUS COMO SENDO CRISTÃO

28 jul

Ao leitor cabe um aviso, este é um modesto e ligeiro ensaio de análise da narrativa documental das escrituras judaico-cristãs. Não é um texto acadêmico porque está redigido de maneira a privilegiar o raciocínio analítico em detrimento das normas técnicas vigentes. E também não é um daqueles textos leves e líricos que costumo produzir para abordar temas complexos de maneira simples e agradável.

 

A premissa deste texto é retomar uma afirmação que foi muito criticada e massacrada quando produzi os polêmicos vídeos sobre as circularidades culturais entre Jesus e outras narrativas míticas e sobre a composição dos evangelhos cristãos (canônicos e apócrifos). Afirmava eu, nessas ocasiões, que Jesus não foi cristão e sim um reformista radical do Judaísmo, que foi na fé judaica que Jesus formulou seus postulados e confirmou seu batismo, tendo sido o Cristianismo uma construção narrativa posterior à sua morte. Isso, é claro, se for aceita a premissa de que Jesus teve uma existência humana concreta e que as narrativas sobre seus dias na terra são verazes e não uma coletânea de histórias com influências culturais e regionais complexas.

 

Devo começar, portanto, analisando o conceito de anacronismo. O anacronismo é considerado um dos maiores problemas para qualquer análise do passado e consiste em projetar percepções do presente em épocas em que essas mesmas percepções não existiam. É preciso dominar minimamente a trajetória histórica das ideias, dos conceitos, dos modelos de sociedades, dos instrumentos e até das matérias primas, para evitar situá-los erradamente no tempo e comprometer a análise histórica.

 

Cabe lembrar que, para o público leigo, o acesso a complexos textos acadêmicos é impossibilitado pelas circunstâncias da vida e da educação. A sociedade em geral aufere seus conhecimentos sobre História a partir do material didático, dos divulgadores (na maior parte jornalistas), dos documentaristas e da indústria cultural (cinema, quadrinhos, literatura ligeira). Nesses veículos de divulgação, a simplificação efetuada para tornar os processos históricos inteligíveis aos leigos é responsável pela proliferação dos anacronismos mais variados.

 

E nem estou falando aqui de coisas óbvias como filmes que mostram centuriões romanos usando relógios e roupas de tecidos sintéticos na França medieval ou catapultas medievais em batalhas da Grécia Clássica, esses são anacronismos tão idiotas que chegam a ser risíveis. Os mais perigosos são exatamente aqueles que fixam no público a impressão de que as pessoas do passado pensavam como nós e se nos pareciam fisicamente. O anacronismo dos egípcios e judeus brancos de olhos claros em tempos pré-cristãos ou do amor romântico (nos termos do século XIX) em períodos anteriores são falsidades que criam a ilusão de que o tempo não passa de uma sucessão de estilos de roupa e tecnologias e que as pessoas permanecem sempre as mesmas.

 

O trato ligeiro e superficial dado à temporalidade e à historicidade pela indústria cultural induz a acreditar que as ideias, os modos de sentir, de pensar, de se expressar podem ser intercambiados entre épocas e lugares diferentes, sem que isso seja um erro ou um problema. Mal sabem essas pessoas que, se houvesse realmente a possibilidade da viagem no tempo e elas conseguissem viajar para o Brasil do século XVI ou XVII, não conseguiriam entender a língua falada e nem a escrita, tal transformação que estas sofreram com o tempo. E, do mesmo modo, um diálogo com aqueles primeiros colonizadores esbarraria na ausência de referências culturais em comum e nas diferenças civilizatórias de etiqueta e praxes sociais.

 

E isso cria um problema imenso para nós que estudamos a História a partir de premissas científicas e acadêmicas, porque dificulta sobremaneira explicar ao leigo que o padrão de aparência e vivência ocidental e eurocêntrica não é aplicável como premissa de análise em qualquer outra época ou lugar. Que quando os pintores do Quattrocento retratavam Jesus com a aparência europeizada, estavam expressando um aspecto da criação artística que não correspondia à realidade histórica. Nesse sentido, as criações dos movimentos artísticos e da indústria cultural (em qualquer de seus veículos) não podem ser entendidas como afirmações de acontecimentos históricos ou míticos, mas sim como a interpretação pessoal de cada artista e da cultura de sua época.

 

É essencial entender, mesmo em se tratando de leitores leigos, que a passagem do tempo e as ações humanas nessa temporalidade são os objetos de estudo da História. Nesse sentido, para que a ação humana tenha historicidade, ela deve ser analisada em seu tempo, em sua época, dentro dos parâmetros materiais e intelectuais desse período específico. Não se poderia esperar que uma narrativa mítica da Antiguidade Clássica dialogasse com a Mecânica Quântica do século XX.

 

E não se pode atribuir aos seres humanos de vinte séculos atrás, ideias que não existiam quando eles andaram sobre o planeta. Foi seguindo essa linha de raciocínio, absolutamente óbvia para qualquer historiador solidamente formado, que argumentei e ainda argumento que é impossível referir-se a Jesus como sendo cristão, uma vez que o Cristianismo como corpus documental e ideário religioso ainda não existia enquanto ele esteve vivo. E isso é fácil de demonstrar, não apenas devido à idade dos evangelhos, mas também ao seu conteúdo.

 

É interessante começar pelo termo cristo que passou a adjetivar o nome de Jesus postumamente. Trata-se de um termo que não se origina nem do hebraico e nem do aramaico, as duas línguas que geográfica e temporalmente teriam feito parte do cotidiano do nazareno. Cristo vem do grego e significa ungido, tendo passado ao latim com o sentido de redentor ou messias.

 

E, embora existam trechos de manuscritos em aramaico que remetem aos evangelhos canônicos, o que mais se encontra na língua original são as histórias apócrifas, não aceitas nem pela igreja romana e nem pelas denominações protestantes. Os manuscritos mais antigos dos evangelhos canônicos são referidos como redigidos em grego e posteriormente, quando da consolidação da igreja romana, traduzidos para o latim. Embora muito semelhantes na estrutura, há diferenças no modo como esses quatro evangelhos narram Jesus e essas diferenças podem ser atribuídas ao fato de serem provenientes de pessoas de diferentes estratos sociais, escrevendo em momentos diferentes durante um período que vai do ano 70 ao ano 105 da era comum.

 

E como é que os evangelistas narram Jesus? Podemos, a partir dos formatos e das estruturas narrativas, entender como ele se enquadrava em sua sociedade? Podemos identificar nos evangelistas alguma ideia de como Jesus se via em relação ao seu ideário religioso?

 

Há uma lógica na narrativa, que insere Jesus no mundo judaico com absoluta convicção por parte dos evangelistas. Desde o momento em que se estabelece sua genealogia como pertencendo à linhagem da Casa de David, passando pela referência constante à realização das profecias bíblicas na pessoa de Jesus, até o momento em que se reivindica sua condição de messias. Todos os momentos marcantes na estrutura do texto procuram legitimar o nazareno como o filho do deus hebraico e o mensageiro do reino.

 

E está lá, para quem se der ao trabalho de ler, em Mateus, 5, 17-20:

 

“Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento. Eu garanto a vocês: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem sequer uma letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu. Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu.”

 

Essa passagem pode ser interpretada como uma declaração mais do que radical de fé judaica. Jesus arroga a si o papel de restaurador da aliança com deus, através do cumprimento incondicional das leis mosaicas. E não para por aí, em um trecho posterior ainda exorta seus seguidores a considerar a expiação não apenas dos pecados materiais contra os mandamentos, mas também dos desejos pecaminosos.

 

Se, por um lado, ele promete o reino para os humildes e os sofredores, por outro ele ameaça com violência os hipócritas e praticantes de rituais vazios. Em sua pregação, Jesus renega o comércio no templo (mesmo que isso fizesse parte da sociabilidade urbana) e insiste para que os hebreus se purifiquem, alegando que a chegada do reino está próxima e que ele (junto a seu pai) procederá ao julgamento dos ímpios e dos falsos. Oferece um modelo de vida em que a lei e os profetas devem ser seguidos à risca e até as últimas consequências, para que o reino se realize.

 

Mas em momento algum ele diz que está fundando uma nova fé, pelo contrário, em toda a sua pregação ele se insere na tradição judaica e a radicaliza, como outros tantos iluminados que lhe foram contemporâneos. E, alegando que seu reino não é deste mundo, exorta a uma vida de expiação e ao afastamento dos pecados mundanos. Acreditando ser o messias das profecias, Jesus leva até o fim o sacrifício, na expectativa de que o reino se concretize.

 

Constantemente arguido sobre situações concretas, o nazareno oferece suas interpretações sobre as escrituras como qualquer outro rabi diante de questionamentos práticos. Discursando para os grupos de seguidores e as multidões estranhas, em seu caminho em direção a Jerusalém, Jesus ora usa parábolas e histórias edificantes, que transmitem sua mensagem, ora responde a essas perguntas diretas com sua leitura original e radical das escrituras. E procura recuperar o despojamento presente na Torá, quando a tradição mandava perdoar as dívidas e cultivar a adoração de Javé sem artifícios.

 

Nesse sentido, é sintomático o episódio dos fariseus maliciosos que (querendo indispor Jesus com o Templo e as autoridades temporais) perguntam diretamente sobre a licitude dos impostos devidos a César. A Judéia ocupada pagava seus tributos ao Império Romano e fora transformada em mera província com governadores coniventes com a ocupação, que provocavam a ira e a revolta do povo. E Jesus se insurge contra a armadilha semântica e pergunta de quem é o rosto cunhado na moeda circulante, ao que é respondido tratar-se de César e, então, ele sentencia: “Pois devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. (Mateus, 22, 21.)

 

E isso vem sendo interpretado, nas Bíblias romanas, como uma afirmação de que o reino de deus não é deste mundo, e que por isso o dinheiro não lhe diz respeito. Efetivamente, Jesus exorta seus seguidores a abandonar não apenas os meios materiais, como também qualquer preocupação com família ou sobrevivência, indicando que o poder de deus proverá e determinará o destino de todos e cada um. Sua interpretação radical prega um abandono total da civilidade mundana em benefício de uma viagem interior de purificação, não apenas para renovar a aliança, mas sim para cumpri-la em face do fim que se aproxima.

 

O Jesus que nos é narrado nos evangelhos acredita firmemente que realizando as profecias, o reino de deus descerá na terra e o julgamento será realizado. Entretanto, após sua morte, mesmo para os que acreditaram em sua ressurreição, o reino não chega e nem o fim dos tempos. E mais, à medida que seus discípulos saem em missão de pregação, a mensagem se modifica.

 

A realização do reino tem que ser jogada sempre para o futuro, uma vez que o tempo de vida das pessoas se passa sem que novos sinais apareçam. E é quando surge Paulo de Tarso, um perseguidor de hereges convertido ao ideário de Jesus, que começa o processo de transformação da dissidência do nazareno no que hoje conhecemos como Cristianismo. Paulo vence os escrúpulos dos discípulos e começa a pregar para os gentios, afastando a palavra de Jesus de vez do Judaísmo.

 

Paulo, assim como toda uma nova leva de pregadores, quando arguidos sobre situações concretas, por não terem conhecido Jesus, interpretam seus ensinamentos a partir de si. E é relativamente fácil imaginar que, nesses tempos em que a oralidade é o veículo de expressão, as parábolas de Jesus sendo repetidas de boca em boca, sofreram acréscimos e interpretações de cada narrador. Assim como, quando inquiridos sobre situações que o nazareno não previu, os discípulos tiveram que dar um passo à frente e deduzir como Jesus teria pensado em relação a mais de um assunto.

 

As epístolas ou cartas, que (junto com a narrativa dos atos dos apóstolos) completam o Novo Testamento, deixam claro que Paulo e os novos discípulos, que nem mesmo conheceram Jesus, estavam tomando iniciativas para organizar seu culto e seus seguidores. E é assim que, ao fixar na escrita as tradições orais sobre Jesus, os evangelhos que posteriormente seriam considerados canônicos, surgem em grego. Ao contrário da rica tradição encontrada nas cavernas do Mar Morto somente no século XX e até hoje considerada apócrifa, que foi produzida em aramaico e recupera vozes das mais variadas e narrativas inclusive sobre a infância do nazareno e sobre sua família.

 

As orações e rituais que são atribuídos a Jesus foram interpretados de várias maneiras, dando lugar ao surgimento de várias tradições diferenciadas de Cristianismo. É por isso que temos os católicos romanos, os católicos ortodoxos (gregos, russos e armênios), os cristãos coptas, os protestantes tradicionais (luteranos, calvinistas, presbiterianos e metodistas, entre outros) e os evangélicos pentecostais e neopentecostais, que já ultrapassam as quinhentas denominações. Muitos desses últimos nem sequer se atém aos evangelhos, localizando suas pregações muito mais nos livros de Moisés que nos de Jesus.

 

Alguém poderia argumentar sobre a futilidade de questionar o uso do termo cristão para referir-se a Jesus, uma vez que seus seguidores o veem como o fundador do Cristianismo. E é aí exatamente que entra o papel do historiador, um tanto quixotesco, um tanto utópico, de se insurgir contra o senso comum banalizado, que leva as pessoas a reproduzir premissas equivocadas como se fossem fatos. Existe uma imensa diferença entre Jesus ter dado início a uma tradição de dissidência que veio a transformar-se no Cristianismo décadas após sua morte e entre ele ter sido cristão por profissão de fé.

 

A precisão e a prolixidade na análise dos conceitos nos obrigam a denunciar o anacronismo dessas visões simplistas. E não apenas porque o discurso dos vulgarizadores da narrativa religiosa induz os fiéis a pensar que sua fé está acima da História, mas também porque nessa trajetória obscurantista estão a um passo de considerar-se acima da lei e da sociedade. A alienação social gerada pela ausência de leitura crítica de sua própria fé conduz à credulidade e ao fanatismo que flagelam os processos civilizatórios e erodem a solidariedade humana com o diferente.

 

Uma visão histórica da composição dos textos considerados sagrados por qualquer religião auxilia à sua compreensão por outras ciências também, como a Antropologia e a Filosofia. Assim podemos entender as circularidades culturais e o intercâmbio de símbolos e rituais entre povos próximos ou distantes, mediante diálogo surgido da convivência ou mediante imposição surgida da invasão e do domínio político. E podemos constatar que essas mudanças ocorrem ao longo do tempo, incorporando novos significados, novos símbolos, absorvendo as transformações sofridas por cada sociedade.

 

Nesse sentido, alguns protestarão perguntando: qual o objetivo de seguir uma religião senão para acreditar que ela é a verdadeira e a única possível, imutável ao longo do tempo? Pois bem, poderíamos responder que essa visão absoluta é anacrônica diante do estágio em que se encontra o conhecimento humano; que ela induz à intolerância, à prepotência e à opressão dos que pensam ou sentem de modo diferente; que é uma expectativa limitadora e alienante diante das possibilidades da Vida e do Universo. Entretanto, diante da obtusidade induzida pelo senso comum banalizado, é provável que nossas palavras fossem repelidas sem conseguir penetrar os muros erguidos pelo fanatismo.

 

“E pur si mouve”…

 

AS MENINAS DO LAPA

22 jul

Amaral Lpa

 

Eu não sabia que era uma “menina do Lapa” até o dia em que Raquel Glezer entrou porta adentro da sala de Eni de Mesquita Samara e deu de cara comigo e Cristiane Fernandes Lopes (hoje Cristiane Veiga) recebendo orientações. E disse “ah, você está com as meninas do Lapa, precisamos enviar uma carta a esse homem, agradecendo a qualidade das orientandas que nos manda”. E aí a Eni soltou aquela gargalhada sonora e inesquecível e nós ficamos ali meio constrangidas, meio orgulhosas de saber como nos viam na USP.

 

Até então, o que eu mais adorava na “fefelech” (FFLCH – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) era o anonimato, poder andar pelos corredores com a impressão de que ninguém ligava ou sabia quem eu era. Diferente do “ifich” (IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP, onde foucaultianos e thompsonianos rosnavam uns para os outros pelos corredores, como troçara um dia do Paulo Miceli. Sempre pensei na USP como muito menos claustrofóbica que a UNICAMP e a comparação das duas experiências me fazia sentir mais afortunada e completa.

 

Conheci o Professor José Roberto do Amaral Lapa no segundo semestre de graduação, em 1987, era um homem simples, com um senso de humor delicioso e uma vocação e capacidade para a docência como poucos. Jamais o vi dizendo a alguém “você está errado” ou “esse seu texto é fraco”, ele lia com paciência qualquer besteira que nós escrevíamos e depois dizia algo como “que interessante, isso me lembra o texto tal de (e aí se seguia alguma referência), por que você não dá uma olhada? pode ser que ajude a organizar suas ideias”. E essa era a deixa para que nós fossemos estudar mais, qualquer aluno com um mínimo de inteligência corria para o texto indicado e percebia o quanto ainda tinha que aprender.

 

Nós, que éramos as “crias” de seu Centro de Memória, costumávamos referir-nos a ele apenas como “o Professor”. E todos sabíamos de quem se tratava, aos outros docentes chamávamos familiarmente por seus nomes, mas o Lapa era toda uma instituição. Suponho que ele devia achar muita graça em toda aquela deferência, sendo a pessoa despojada que era.

 

E tivemos muitos professores incríveis. Leila Algranti, Silvia Lara, Célia Marinho e “Mara” Trevisan, tão seguras e dominando vastas bibliografias que eu me sentia minúscula em sua presença. Sidney Chalhoub, Paulo Miceli, Michael Hall e Bob Slenes, que nos ensinaram a destrinchar textos e classificar autores, enquanto nos encantavam com suas aulas. Denise Bottmann e Marco Aurélio Garcia (que perdemos esta semana), cuja erudição e aulas impecáveis marcaram minha memória para sempre. Por sorte, em todo o tempo de graduação, encontramos apenas três professores autenticamente medíocres e dois verdadeiros picaretas.

 

Mas o Lapa era um caso único. As lições mais marcantes para a profissão e para a vida, que aprendi com ele, eu nem percebi que estava aprendendo. Ele moldou meu perfil de pesquisadora ao dosar as responsabilidades que me passava como bolsista de pesquisa e ao confiar em meu trabalho, sempre incentivando meu aprimoramento.

 

Era um senhor baixinho, com uma voz rica de simpatia humana, que nos acolhia sob suas asas paternais e nos brindava com suas histórias e experiências. E era um pária no “ifich”, visto pelos outros acadêmicos como uma figura folclórica de conteúdo local e sempre preterido (ele e seus orientandos) nas seleções de mestrado e doutorado. Mas não perdia o pique e não nos abandonava, e foi por isso que tantos de nós acabamos fazendo a pós-graduação na USP.

 

Quando eu terminei a graduação e prestei a seleção de mestrado na UNICAMP, minha pesquisa já tinha dois anos e um cadastro na FAPESP, mas a politicagem do departamento fez com que as duas vagas na linha de pesquisa de Escravidão e Trabalho Livre fossem para duas pessoas que mal tinham projeto, mas que tinham os orientadores “certos”. Depois de formada, essa não foi a última vez que o “ifich” me bateu com a porta na cara, das mais recentes prefiro nem comentar. Mas diante da recusa do departamento, o Professor me encaminhou imediatamente à USP e em seis meses eu já estava matriculada no programa de mestrado da “fefelech”.

 

Regina Célia Galante Spagnol e eu fomos as primeiras. Nos anos que se seguiram acredito que o Professor Lapa encaminhou mais meia dúzia de pesquisadores recusados pela UNICAMP que a USP aproveitou e acolheu. Sabe-se lá o porquê, a maioria de nós éramos mulheres, daí o “meninas do Lapa” que a Raquel Glezer usou com a pontinha de malícia de seu humor peculiar.

 

Nos anos que se seguiram, continuei frequentando o Centro de Memória e sendo incluída nos eventos, graças à deferência que o Professor dedicava ao meu trabalho. Quando concluí o mestrado, foi através dele que publiquei minha dissertação na coleção Campiniana. E tive a honra de ter minha pesquisa mencionada em seus últimos livros.

 

Numa das últimas vezes que o vi, íamos do Centro de Memória à Faculdade de Educação para um evento e eu estava ansiosa para contar sobre os avanços da minha pesquisa de doutorado, mas o conversa tomou um rumo inteiramente diferente. O Professor me perguntou preocupado se eu tinha babá e eu fui obrigada a rir, afinal não tínhamos nem onde cair mortos, quanto mais esses luxos, contei-lhe sobre as peripécias de revezamento que incluíam meu marido, minha mãe e até minha sogra, para que eu pudesse “tocar” o doutorado. E ele me falou do netinho pequeno, que morava em sua casa e que a esposa cuidava, estava escandalizado por uma série de reportagens sobre uma babá flagrada espaçando um bebê.

 

Depois disso, o contato ia e vinha esporadicamente porque eu estava subjugada pelo trabalho, a casa e a tese. Um dia, o telefone tocou cedo demais e o recado na secretária eletrônica me informava que o Professor se fora repentinamente. Tanta coisa ficou por dizer…

 

Nunca lhe agradeci o suficiente por tudo o que fez por mim. Por sua acolhida generosa, suas lições inestimáveis e a grandeza com que me encaminhou na carreira docente. Suponho que as palavras que eu não disse ficaram implícitas no trato das nossas conversas e que ele entendia, a seu modo, o meu constrangimento e a minha admiração.

 

Hoje, depois que o mercado me descartou e a internet me proporcionou a experiência de ter mais alunos em quatro anos do que teria em décadas de docência formal, ainda me sinto (com muita honra) uma “menina do Lapa” e ainda quero ser como ele quando crescer.

CACO ANTIBES NA PREFEITURA

21 jul

Lá pelos anos 90, quando o dinheiro havia sumido e a TV por assinatura era para poucos, assistíamos ao Sai de Baixo por pura falta de opção. Um amontoado de personagens caricatas, como é característico do humor considerado popular, que debochavam abertamente de domésticas, porteiros e quem mais fosse. A programação repetida e pobre ou focada nos esportes das outras emissoras era de acabar com a paciência e, no final, acabávamos assistindo esse “humorístico” mesmo sem grandes entusiasmos.

 

Caco Antibes, vivido por Miguel Falabella, era um aristocrata “venido a menos” (como dizemos em espanhol), decadente, arrogante, sarcástico e que não trabalhava em hipótese alguma, vivendo de golpes e à custa da família da esposa. Nem vou falar da Magda, a esposa, que era um insulto a todas nós mulheres e um estereótipo dos mais vis. O bordão favorito do Caco começava com “pobre” e daí se seguia alguma assertiva crítica, proferida com um esgar de desprezo e raiva.

 

Uma noite de domingo, Caco Antibes disse: “pobre não pode ver um bebê nascendo que já sai fazendo sapatinho de tricô e roupinha de crochê, uma cafonice, odeio pobre”, seguido da mesma ladainha de sempre, desejando a morte ou o sumiço dos pobres que tanto lhe ofendiam e incomodavam. E para mim foi a conta. Nunca mais assisti.

 

Durante uma boa parte da minha vida, tricotei mantinhas e sapatinhos para os bebês que chegavam, quer fossem da família, quer fossem dos amigos mais próximos. Era uma maneira de expressar que aquele bebê era bem-vindo e que seria muito amado por todos nós. Só parei recentemente porque as pessoas hoje são “cool” demais para entender esse tipo de gesto.

 

Quem nunca foi pobre ou viveu essa vida de família que caracterizava as pequenas comunidades do século passado, não tem a capacidade para entender nem imaginar esses nadas. Esses pequenos gestos de compartilhar tradições e costumes. A vizinha que benze as crianças quando estão doentes ou não, os rituais de passagem do nascimento à morte, os casamentos simples com lanchinhos de “boi ralado”.

 

Toda uma realidade de gente simples, mas trabalhadora, de lutas sem fim para pagar as contas, de tristezas e alegrias partilhadas. De comemorar tudo com comida simples e remetendo às nossas origens. De festejar a vida, ora em torno da igreja, ora em torno da família.

 

Para personagens como Caco Antibes, acostumado a ter a Riviera Francesa e Manhattan como referência, a vida suburbana dos pobres era uma cafonice imperdoável. Para alguém obcecado em ter e gastar grandes quantidades de dinheiro em luxos e ostentações, os sacrifícios e as dificuldades dos mais pobres não passavam de material para deboche e sarcasmo. A insensibilidade da personagem não refletia apenas sua ignorância, mas também sua ânsia por algum tipo de eugenia que a livrasse de ter que dividir o planeta com os pobres que tanto abominava.

 

Eu parei de assistir ao programa porque aquele comentário tornou Caco Antibes real. Ele deixou de ser uma personagem caricata de um imbecil decadente para tornar-se um tipo de ser humano que eu já havia encontrado mais de uma vez. E não era engraçado, não para mim.

 

Para quem vive no luxo e na opulência das alturas sociais, todos os pobres são sujos, todos os pobres são bêbados ou vagabundos que devem ser obrigados a trabalhar. Para quem acredita que sua “cultura” é a única possível, torna-se impossível decifrar a riqueza e a variedade de comportamentos, costumes e tradições, vindos de muitas partes do Brasil e do mundo, que os pobres compartilham. Para quem acredita que seu deusinho mesquinho, acostumado com suas hipocrisias de igreja, o colocou no mundo para ser superior aos outros, é fácil acreditar que a solução para as questões sociais é eliminar os pobres.

 

Hoje, Caco Antibes foi instalado na prefeitura da maior cidade do Brasil pelo povo simples que ele sempre abominou. E empreendeu uma cruzada cruel para eliminar os pobres das ruas, tirando-lhes cobertores e colchões, negando-lhes o acesso à comida, acordando-os com jatos de água fria nas geladas manhãs de inverno. Caco Antibes quer que os pobres morram e agora ele tem como realizar seu desejo.

 

E eu nem consigo expressar o tamanho da minha tristeza por ter que presenciar impotente este espetáculo de insensibilidade, arrogância e prepotência cruel.