DOIS VÍRUS EM UM MUNDO INSANO

26 maio

Deixem-me lembrar a vocês dos irmãos de Souza: Henrique (o cartunista Henfil), Herbert (o sociólogo Betinho) e Chico Mário (o economista, compositor e violonista). Todos os três eram hemofílicos e contraíram o vírus HIV em transfusões de sangue em meados dos anos 80, vindo a falecer quando desenvolveram Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (AIDS, por sua sigla em inglês). Henfil e Chico Mário faleceram precocemente em 1988, mas Betinho viveu até 1997, tendo-se transformado em um exemplo de luta contra a fome e a miséria nacionais, mas também contra sua própria doença.

 

Eram outros tempos? Os anos oitenta no Brasil foram marcados (entre tantas outras coisas) pela “transição democrática”, protagonizando o último governo militar (General João Batista de Figueiredo) e o primeiro civil (José Sarney, que assumiu em virtude do falecimento de Tancredo Neves), mesmo que sua escolha não tenha se dado de maneira lá muito democrática, uma vez que foi por Colégio Eleitoral e não por Eleição Direta. Cronologicamente, certamente sim, eram outros tempos.

 

Em meio à euforia com a volta da democracia, o fim da censura, o retorno (que já vinha ocorrendo desde o início da década) dos exilados e a retomada dos partidos de esquerda, nem tudo eram flores. Amargávamos terríveis escândalos de corrupção (que somente a Era Tucana seria capaz de superar em intensidade e volume de desvios), uma economia mal gerida e incapaz de manter os níveis mínimos aceitáveis de qualidade de vida. Terminaríamos essa década mergulhados na hiperinflação e na epidemia de AIDS, ainda que muitos preferissem minimizar ambas e ignorar os aspectos mais óbvios da má gestão política, em nome da governabilidade e por medo de uma retomada militar.

 

O HIV e a AIDS varreram uma boa parte do planeta naqueles tempos. A maioria das pessoas nem se preocupava, de início, porque era um vírus sexualmente transmissível associado à comunidade LGBT e parecia muito longe da nossa realidade cotidiana. Ao menos da minha realidade, que nem vida sexual tinha.

 

Isso foi mudando muito rápido e desnudando uma sociedade permeada pela mentira e pela hipocrisia. Artistas conhecidos que jamais haviam “saído do armário” começaram a morrer, inconspícuas donas de casa começaram a aparecer contaminadas devido à promíscua atividade sexual de seus maridos e crianças começaram a apresentar sintomas após transfusões de sangue não testado. Tanto no Brasil quanto em outros países muito mais desenvolvidos, a tragédia aumentava e os governos demoravam demais a tomar as providências mínimas.

 

O HIV escancarou o hábito de “honrados homens de bem” frequentarem prostitutas e travestis sem usar a mais mínima proteção, levando depois para suas esposas não apenas esse vírus, mas também o da Hepatite C e um vasto cortejo das chamadas “doenças venéreas”. Escancarou o sistema amador de controle dos bancos de sangue e das licitações para compra de derivados do sangue nos hospitais, o que colocava em risco não apenas os hemofílicos, mas também qualquer cidadão acidentado (meu sogro foi contaminado por Hepatite C em 1981, e só fomos descobrir isso recentemente após seu falecimento). E mais, deixou a nu uma sociedade homofóbica, em que a comunidade LGBT era obrigada a viver à margem, escondida, ignorada e forçada a perecer em silêncio, em nome da família e dos bons costumes cristãos.

 

Verdade seja dita, que isso não ocorria apenas aqui. Ronald Reagan (presidente dos Estados Unidos) se referia à AIDS como “câncer gay” e sonhava com uma “limpeza” social. E não era apenas ele, mundo afora muita gente abrigava essa perversão eugênica secreta de pensar que estavam morrendo apenas os indesejáveis.

 

Foram os cientistas, os médicos e a sociedade civil, bem como os ativistas LGBT, que tomaram as rédeas e começaram a combater a epidemia de HIV. Os governos só muito tardiamente passaram a endossar essas ações, e nem em todos os países. A hipocrisia religiosa continua a tentar impedir que se conscientize os jovens sobre prevenção e sobre uma atividade sexual responsável, causando ondas de contaminação recorrentes.

 

Perdemos para a AIDS muita gente que não precisava ter morrido se houvesse um mínimo de responsabilidade social e governamental na identificação e combate à epidemia. O mesmo está ocorrendo com a Covid-19, mais conhecida informalmente entre nós brasileiros como “coronga” (por analogia entre o vírus corona e a personagem Coringa, evidenciando uma vez mais a nossa falta de seriedade para lidar com as tragédias). Neste momento a contagem oficial de mortos já ultrapassa os vinte mil, mas dada a subnotificação podemos inferir que seja o dobro ou até mais.

 

Comecei a pensar nisso quando o falecimento do maravilhoso compositor Aldir Blanc fechou um dos tantos ciclos do descaso oficial. Muita, mas muita gente mesmo, nem sabe quantas letras musicadas por João Bosco (entre dezenas de parceiros) e imortalizadas por vários intérpretes eram de Aldir. Clássicos como O mestre sala dos mares, Rancho da goiabada, Amigo é p’ra essas coisas ou Kid Cavaquinho, que entusiasmaram mais de uma geração eram fruto de sua verve, ao mesmo tempo debochada e lírica.

 

Mas foi O bêbado e a equilibrista que me veio à mente instantaneamente quando fiquei sabendo de seu triste falecimento, por causa dos versos “Meu Brasil/ Que sonha com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu num rabo de foguete/ Chora a nossa pátria mãe gentil/ Choram marias e clarisses no solo do Brasil/, que aludiam aos irmãos Henfil e Betinho de Souza. Um dia, Aldir sentou para compor sobre o que era viver sob a ditadura e nos brindou com uma letra tristemente delicada e sutil, lembrando de Betinho “o irmão do Henfil”, que amargava um exílio por conta de seu ativismo. A ditadura acabou, um arremedo de democracia chegou e Henfil e Betinho (entre tantos) foram levados por um vírus em meio ao descaso das autoridades, décadas depois lá se vai Aldir em circunstâncias dolorosamente semelhantes.

 

E penso na homenagem feita por Angeli, Glauco e Laerte por ocasião da morte do Henfil, na forma de um quadrinho irreverente e corrosivo, como era o humor do próprio Henfil, em que Laerte diz diante do túmulo “queria que você tivesse nascido em um país menos filho da puta”…

 

Pois é, as areias do tempo passaram, tivemos pouco mais de uma década em que o país foi um tantinho (não muito) “menos filho da puta”. E, no entanto, quase um terço da população optou, de livre e espontânea vontade (muito embora em virtude de uma ampla manipulação midiática e virtual), por reconduzir ao governo um fantasma ideológico dos piores momentos da História recente. O pior sujeito (em todo e qualquer sentido possível e imaginável) para estar à frente de um país em um momento como este de pandemia.

 

E o “insano” ocupante da cadeira presidencial, em um de seus momentos diários de diarreia verborrágica, debochou tanto dos mortos por AIDS quanto dos mortos por Covid-19, ridicularizando o nosso luto. Muita gente, inclusive eu mesma, pensamos na burrice de comparar os dois vírus, uma vez que sua morfologia biológica, sua transmissão, seus sintomas e sua duração nada tem de semelhante. Nos escapou, na crueldade da fala, o que hoje interpreto como uma reafirmação da indiferença e do descaso no trato de qualquer vírus, desde que continue matando “as pessoas certas”, semelhança tristemente dolorosa entre esses dois momentos de nossa História.

 

…“Mas sei que uma dor assim pungente

Não há de ser inutilmente

A esperança dança

Na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha

Pode se machucar”…

 

E quem haverá de dizer, senão o tempo, o que será de nós?

Um papo com o camarada Barba Dialética

3 maio

Interlocuções 14: Michelle Perrot

3 maio

Ponderações 27: Brincando com Cultura Pop e Política

12 abr

CACHORRÊS (um short cut doméstico em tempos de quarentena)

3 abr

Ontem, faltando dois minutos para as onze da noite, o telefone tocou. Em tempos de pandemia, meu coração deu um “estalo” e eu torci para ser um daqueles telefonemas de cobrança ridículos, que sempre são sobre pessoas que nem conhecemos. Com tantos parentes em grupos de risco…

 

Antes que eu pudesse levantar, o Duda atendeu. E em poucos segundos, o ouvimos berrando algo como “em que cadeia você está seu filho da puta, vai fazer seus corre na puta que pariu” (confesso que era bem pior). E ele desligou o telefone furioso.

 

Era um daqueles telefonemas em que você diz “alô” e uma voz aflita diz “papai, papai” e segue-se uma história de falso sequestro para extorquir os incautos. Eu mesma já recebi mais de um e normalmente mando passear e desligo também, afinal eu não tenho filhos homens e conheço a voz dos meus sobrinhos o suficiente para identificar a fraude. O crime organizado, parece, permanece ativo em plena quarentena.

 

O Duda, que é uma dessas pessoas práticas, tentou identificar o número que ligou (como se fizesse diferença), mas tudo o que apareceu foi um conjunto de zeros. Provavelmente, o celular no presídio estava usando uma central clandestina para selecionar um número aleatório e encaminhar o telefonema e eu tentei explicar a ele como isso funciona. E como os presos adequam a interpelação inicial ao tom de voz e ao gênero de quem atende (“tecnologia de ponta”).

 

E foi aí que o Duda descontraiu e comentou “quer dizer que se a Athena atender, o cara vai latir?”. E começamos a rir sem parar com ele fazendo uma micagem de como seria o diálogo de latidos, emulando os tons de desespero do preso e de estranheza de quem atende tais telefonemas. A Débora, que saía do banho, parou na sala e aderiu à gargalhada.

 

Entretanto, a Athena (que estava dormitando em sua caminha) veio correndo totalmente “emputecida” latindo e tomando satisfações. Eu, que nessa altura já estava no pique da piada, mandei “tá vendo o que dá falar cachorrês sem saber, você deve ter ofendido toda a família dela, agora se vira p’ra pedir desculpas”. E, no meio da risada geral, a Athena ainda deu bronca toda séria, mas se acalmou.

 

Enquanto o Duda escovava os dentes, Débora e eu morríamos de rir com toda a sequência. Começamos a imaginar como seria se fosse um sketch da TV Quase, com o Renan contando a história e o Rogerinho dando a moral. No final, todos combinamos que seria necessário registrar por escrito para referência futura.

 

Eu nem imagino o que vai sobrar das nossas vidas quando os dias de covid-19 tiverem passado. Na maior parte do tempo prefiro nem imaginar, afinal, as cenas que nos chegam de outros países são tão dantescas que podem paralisar do mais destemido até o mais indiferente. Prefiro esperar do que sofrer por antecipação.

 

Por isso registro este pequeno momento de Humanidade, para que sempre nos lembremos de quem somos, não importa o que aconteça.

Interlocuções 13: Emília Viotti da Costa

2 abr

QUARENTENA

24 mar

Março costuma ser um mês esturricante em Campinas, com chuvas torrenciais à tardinha e dias mormacentos. Embora o meu bairro seja um ponto de convergência dos ventos, principalmente à noite, os marços de que me lembro sempre tiveram longas horas de ar parado e sol causticante. Por isso mesmo, quando a chuva chegava a partir do meio da tarde, era com alívio que a recebíamos.

 

Este ano não está sendo necessariamente assim. Há alguns dias que a temperatura teve um leve descenso, os ventos aumentaram, a chuva não chegou e o céu permanece de um azul intenso. Tivemos alguma chuva, mas não foi como esperado e sempre foi seguida pela queda no termômetro.

 

Hoje, ao estender a roupa no varal, a impressão de primavera em Montevideo era mais presente do que nunca. A primavera do início dos anos 70, com este mesmo céu azul, o vento um tanto geladinho, mesmo em presença deste sol radiante, ideal para empinar pipas e lotar praças e parques para desenferrujar os ossos após um cruel inverno. Foi em dias assim que caí muito de bicicleta e descobri que a atividade física não era para mim.

 

Dias assim sempre me marcam, não apenas pelas lembranças de infância que despertam, mas porque são raros neste Brasil de extremos climáticos, ao menos em Campinas. E são dias em que torço para que coloquemos a família no carro e possamos sumir durante horas em alguma estrada, com bastante horizonte pela frente e a perspectiva de algumas horas de alívio do caos político que nos rodeia. São dias em que a natureza parece dar uma trégua no aquecimento global e propor que reavaliemos a vida, ofertando-nos um espetáculo de beleza inusitada.

 

Não mais, estamos em quarentena. Não podemos sair para a nossa caminhada matinal; não podemos pegar a estrada e ir aos mercados de flores em Holambra; não podemos levar a Athena para dar seus passeios pelo bairro; não podemos nos aproximar de quem quer que seja. Em tempos de pandemia, tudo se resume a um sonoro e rotundo “não”.

 

E estamos presos sem saber o quanto a situação escalará. Se haverá comida suficiente, se sairemos ilesos ou se nossos entes queridos estarão aqui a esta hora no próximo março. Estamos presos enquanto o vírus varre o mundo lá fora.

 

Estamos presos à internet, onde gente sem noção nos chama de privilegiados porque temos um teto e alguma comida. Estamos presos, reféns deste governo cretino, incompetente e raivoso, que a cada dia nos “presenteia” com alguma arbitrariedade maior, na sanha de destruir o país, mas principalmente seu povo. Estamos presos enquanto o sol brilha lá fora.

 

Estamos presos em nós mesmos, deixando a imaginação traçar cenários apocalípticos e o medo atormentar as nossas mentes cheias de filmes catastróficos. Estamos presos assistindo ao mundo enlouquecer e vendo as classes dominantes em seu esplendor máximo de egoísmo, ambição, crueldade indiferente e mandonismo tosco. Estamos presos vendo a civilização (que já vinha em franco declínio) correr a passos largos em direção ao abismo.

 

E não sabemos. Não sabemos como esta praga nos deixará quando passar; não sabemos quem sobreviverá ou em que condições; não sabemos se o Capitalismo recrudescerá a níveis extremos ou se novas opções de organização econômica e social serão finalmente possíveis. Não sabemos.

 

E é por isso que eu estou surpreendentemente calma. Logo eu que sempre estou correndo para me organizar e prever os piores cenários e me preparar e lutar, mesmo que isso não leve a lugar algum. O fato de não ter como saber nem calcular, de certa forma, me livra da ansiedade de querer sempre antecipar o imponderável.

 

Estou presa, mas estou com as pessoas que amo e não poderia estar em melhor companhia. E a impossibilidade de saber finalmente liberta minha mente e permite que eu desfrute o sol e o vento neste quintal murado, com as plantas que trazem pássaros e insetos. Estou presa, mas nunca estive tão livre em toda a minha vida.

 

Eu não vou contar os dias e nem vou fazer diário de quarentena. Não vou acompanhar contagens de mortos nem relatar a nossa miséria moral para a posteridade. Outros já o estão fazendo.

 

Eu vou viver. Vou viver esta primavera fora de época e aproveitar o sol, o céu e o vento. Vou viver enquanto posso.

 

Quando isto acabar, teremos um compromisso muito maior com a vida e com a História. E, se estivermos vivos, teremos uma obrigação ainda maior de deixar um planeta e uma sociedade melhores para os nossos descendentes. Quando isto acabar…

 

Nunca pensei que a impotência diante da vida, que até ontem me paralisava, hoje seria a condição da minha liberdade. Quero viver e quero sobreviver, mas quero sair desta um ser humano melhor, para descobrir como ajudar de fato ao futuro. Quero reencontrar o espírito dos dias de primavera da minha infância, quando ainda havia uma vida inteira pela frente.

E é por isso que estou aproveitando a quarentena para limpar. Estou limpando a minha casa literal e metaforicamente. Estou limpando a minha mente e preparando-me para ser tudo o que sempre quis: um ser humano bom e feliz.