A BRUZUNDANGA TEM PRESIDENTE, TALQUÉI!?

22 fev

Talvez não fosse preciso afirmar sua existência com tanta veemência se houvesse algum sinal positivo ou sensato de governança. Mas não é o que parece, afinal, a cada dia surge um escândalo envolvendo seu partido, sua campanha ou sua família, e o governo segue atabalhoado rifando o país. E nem assim conseguindo cumprir o que seus eleitores e seus apoiadores esperavam dele.

 

Nada a estranhar, uma vez que, oriundo de várias carreiras em que se revelou de uma inutilidade crassa, quem poderia esperar que pudesse ser um bom presidente? Militar prematuramente reformado por indisciplina e instabilidade mental, bem como deputado com quase três décadas de mandato sem ter jamais proposto ou aprovado qualquer lei relevante. E quando candidato, esquivou-se de debates e escondeu-se em hospitais, sob alegações variadas, e depois de eleito segue pelo mesmo caminho, isso para dizer o mínimo.

 

Seu programa de governo, se é que pode ser chamado assim, consiste em desmontar qualquer sistema de seguridade social e promover os interesses da Ianquilândia na Bruzundanga, mesmo que isso mate até o último de seus habitantes. Para tanto, as pautas de Saúde, Cultura, Educação, Meio Ambiente, Trabalho e Previdência vêm sendo sistematicamente destruídas e os direitos dos cidadãos (mesmo quando constitucionalmente garantidos) vêm sendo obliterados sob a égide de uma novilíngua hipocritamente atroz. E como solução para as mazelas decorrentes da pauperização deliberada da população, o beócio oferece a posse de armas de fogo e um discurso pateticamente anticomunista e perigosamente fundamentalista.

 

A julgar pelo andar da carruagem, os bruzundangas chegarão ao segundo quartel deste século pobres, sem chances de aposentar, dependendo de um sistema de saúde pública destruído, assolados por epidemias, violência, depressão e suicídios. Mas todos serão cidadãos de bem, tementes a seu deus surdo, defensores da família, da propriedade e de uma pátria que os rejeita para beneficiar o capital estrangeiro. E não aceitarão a doutrinação dos professores comunistas, ateus, hereges, defensores da Evolução, da Liberdade de Pensamento, da Justiça Social e da Igualdade Econômica.

 

Os setores médios da população, que precisaram de quase oitenta anos de favorecimento estatal para conseguir consolidar-se e apoiaram freneticamente a eleição do infeliz, hoje correm o risco de desaparecer por completo e juntar-se aos pobres, que tanto os incomodavam no governo anterior. Os pobres, que emergiram da miséria para um novo patamar de consumo e viraram as costas aos governos progressistas, abraçando a agenda conservadora como se fosse sua única identidade, já estão de volta às origens sem nem saber o que lhes aconteceu. Os ricos (os verdadeiramente ricos a ponto de figurar em listas de revistas estrangeiras e detentores de patrimônio e efetivos suficientes para três ou mais gerações de seus descendentes), esses continuarão enriquecendo e brindando à cobiça, à ignorância e à mesquinhez de seus compatriotas.

 

Mas a maior parte dos bruzundangas parece pensar que esse é um preço justo a pagar para livrar-se da “corrupção” e do “populismo” das agendas progressistas. Que seu deus surdo os livre e guarde de ter que conviver com famílias gays, mulheres independentes, cidadãos negros em condições de igualdade ou qualquer agenda minimamente civilizatória. Para eles qualquer genocídio é justificado desde que seja em nome de seus valores artificialmente fabricados pela mídia golpista e seus pastores fajutos.

 

Nesse sentido, o atual presidente cai como uma luva porque é a representação propriamente dita da mediocridade enfatuada, que seus ministros tanto alardeiam. Com sérias restrições cognitivas, parece incapaz de articular falas coerentes e análises minimamente aceitáveis da realidade, cobrindo de vergonha aqueles setores da população minimamente pensantes que ainda se preocupam com a opinião pública internacional. Chamá-lo de troglodita seria cometer uma injustiça com os homens primitivos, uma vez que a maior parte de seu comportamento violento, sádico e amoral provém mais de alguma sociopatia do que propriamente de algum atraso mental ou primitivismo.

 

E ele não vem sozinho, sua prole o acompanha. Três rebentos igualmente lombrosianos e (por que não dizer?) freudianos, mendigando a aprovação paterna através de gestos truculentos e intimidando os que consideram seus inimigos. Tempos atrás, porque eu acompanho a vida na Bruzundanga há décadas, pensei em apelidar ironicamente os rebentos de Uday, Qusay e Numsay, em referência evidente à malfadada prole do executado presidente do Iraque. Mal sabia eu que o tempo se encarregaria de transformar minha piada obscura em uma triste realidade.

 

O dito presidente da Bruzundanga mal esquentou a cadeira e já se revela um flagelo para seu povo, muito mais pela sua inutilidade e incompetência, do que pela sua agenda absurdamente destrutiva. Sua incapacidade para mediar os distintos setores do governo e sua falta de habilidade para articular o que quer que seja (a não ser petit crimes) diante dos outros poderes da República há de custar muito caro aos bruzundangas. Para regozijo das grandes corporações internacionais, dos banqueiros, da Ianquilândia e das elites endinheiradas que adorariam virar um protetorado ianque e abrir mão de sua identidade como país, tal sua natureza capachilda.

 

Mas, enquanto isso não acontece, os setores progressistas da Bruzundanga se estorcem à procura de uma saída, em meio à amargura e à depressão geral. Enquanto ministros fundamentalistas “expurgam” o setor público de qualquer simulacro de civilização, para implantar suas interpretações canhestras e infantilmente literais sobre educação, cidadania e religião, o presidente aplaude a vitória sobre a “conspiração comunista internacional”. Porque, no final das contas, a Bruzundanga está reduzida a ser governada por uma corja de saqueadores associada a um bando de malucos com papel alumínio na cabeça, replicadores das mais estapafúrdias lendas urbanas e teorias de conspiração.

 

E, a esta altura, o leitor amigo me perguntará: e você, a quantas anda na Bruzundanga? Qual é o seu papel enquanto Nero incendeia Roma? Será você Petrônio, aceitando a ordem de suicídio, ou será você apenas uma ninguém assistindo impotente à catástrofe anunciada?

 

Eu, meu caro leitor, sou uma ninguém impotente do ponto de vista do poder político e econômico. Mas também sou historiadora de formação e tudo o que me resta é preservar o conhecimento para as gerações futuras. E narrar e narrar e narrar e narrar e narrar a tragédia, até que ao menos alguém me tire este fardo ou se una a mim nesta missão.

 

Até lá, somente você meu leitor é testemunha de que os meus vaticínios de Cassandra do Apocalipse, neste blog, vão tornando-se a triste realidade nesta Bruzundanga tão sofrida e tão cega.

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UM MINISTRO NA BRUZUNDANGA

15 fev

A Bruzundanga anda ouriçada ultimamente com o ministério do novo governo, que a imprensa chama de “controvertido” para não ter que pensar no quanto é bizarro e ultrajante. A cada dia uma tragédia ou uma trapalhada e, às vezes, as duas coisas ao mesmo tempo, deixando o cidadão entre a perplexidade e riso diante da fauna ministerial tão escalafobética. Beatos hipócritas, fanáticos furibundos, ignorantes cheios de empáfia, mediocridades enfatuadas, tal é o naipe dos ministros disputando diariamente os holofotes.

 

E, dando sequência à nossa reflexão anterior, hoje observaremos o ministro da Educação, já que essa é uma das demandas mais importantes do mundo em geral e da Bruzundanga em particular. Dado o nível da carência nessa área, seria de esperar-se que um governo essencialmente reacionário chamasse algum luminar universitário das hostes conservadoras mais vetustas, para desempenhar o papel de “reconstruir” a pedagogia tradicional. Não foi o caso, o escolhido não é apenas uma nulidade que nada entende de Pedagogia, é também um mitômano contumaz, o que gera um péssimo exemplo quando vindo de um educador.

 

Esse senhor, que mais parece um vendedor de enciclopédias de retórica atabalhoada, defende valores conservadores, de fato, mas vai muito além do que esse governo poderia nos levar a imaginar. Monarquista ilhado em uma República, o ministro mantém ideias bizarras sobre o lugar de cada um na sociedade, chegando a afirmar (pasmem!) que as Universidades devem ser frequentadas apenas por uma “elite intelectual”. Aonde ele iria para encontrar essa “elite”, o infeliz não esclarece, mas isso não é de estranhar, uma vez que vivemos em uma época em que as frases de efeito se bastam, sem necessidade de conteúdo.

 

Convenhamos, meu estimado leitor, que esse tipo de afirmação implica em uma visão de mundo em que a grande maioria da população foi feita para permanecer na ignorância, recebendo apenas o treino necessário para ser explorada desempenhando tarefas insalubres, escorchantes e repetitivas. É uma percepção social que não destoa das ideias monarquistas desse senhor, uma vez que separa a sociedade entre uma elite beneficiária de todos os privilégios e uma vasta faixa populacional de pobres e remediados relegados às funções de servir e produzir para benefício dos primeiros. Para isso, inclusive, esse ministro defende (aliado a outras figuras não menos bizarras desse governo) que se difunda o Ensino a Distância e a Educação Familiar desde a mais tenra idade, até mesmo para a alfabetização.

 

Afinal, para que servem tantas escolas, não é mesmo? Escolas são lugares que deveriam servir para desenvolver o diálogo e o aprendizado, para a difusão de conhecimento, a troca de experiências, o crescimento coletivo e a amplificação dos horizontes pessoais. E, no entanto, os professores mais críticos do país inteiro são perseguidos, silenciados e hostilizados sob o olhar benévolo do ministro e de seus asseclas.

 

Ora, o leitor há de concordar comigo que uma população com uma carga exorbitante de trabalho não disporá de tempo para orientar os estudos de seus filhos e muito menos para ensiná-los em disciplinas que nem domina. Se os planos para alienar a população desse modo se destinam a resgatar relações sociais tão arcaicas de suprema exploração ou se é apenas hipocrisia, cinismo ou pura desfaçatez, entretanto, prefiro deixar para que o leitor decida. Certamente qualquer pessoa sensata poderá aquilatar o tamanho da desgraça que se abaterá sobre os bruzundangas se eles ficarem à mercê de tais absurdos.

 

Admira-me demais que uma pessoa que desconhece a tal ponto o modo como se processa o aprendizado pretenda considerar-se à altura de exercer tal ministério e arrogar-se o papel de luminar da Pedagogia. Não deveria surpreender-me tanto, uma vez que estes são tempos de charlatães e mistificadores tomando a si a narrativa do mundo e transformando o conhecimento em refém de interesses escusos. Tempos de beócios, que defendem a bizarra tolice de que nosso planeta é plano, e de basbaques, que acreditam que o nazismo era de esquerda, merecem, de fato, tal aparvalhado ministro.

 

Aparvalhado a ponto de não saber como elaborar uma referência bibliográfica e dar como coautores, de um seu artigo “científico”, os pensadores que estava analisando. Alguns atribuem esse tipo de erro à má-fé profissional do indivíduo, que já foi flagrado fornecendo em seu currículo um histórico de trabalho inexistente, eu prefiro acreditar que se trata apenas de parvoíce. Daquela característica tão triste de responder com desafios vazios quando se é flagrado em erro ou inconsistência, apenas para não perder a pose e a dignidade masculina.

 

Porque este é um governo de patética heteronormatividade, agressividade e fanatismo religioso, clivagem classista excludente e resgate de arcaísmos e projetos econômicos fracassados, onde tal ministro nem destoa. E alguns pretenderão (como de fato já ouvi) que a Bruzundanga é um país de valores conservadores e por isso deve ter um governo que represente exatamente seu povo. Um governo como esse, que defende a mais vasta gama de opressões sociais centenárias ou milenares, em nome da “moral” e dos “bons costumes” dos “cidadãos de bem” (que um dos auxiliares do ministério chamou de “cidadões”!).

 

Eu, entretanto, discordo plenamente do ministro, do governo e dos argumentos usados para justificar e legitimar tais aberrações, a Bruzundanga e seus cidadãos não merecem tal corte de bufões, que mais parece a Nau dos Insensatos. As crianças e jovens bruzundangas não merecem ter seu futuro rifado e suas vidas arruinadas para satisfação do mercado capitalista internacional e de um grupo social dirigente de gente branca tosca, arrogante, ignorante, colonialista, racista e homofóbica. Gente essa, que foi levada ao poder sem legitimidade numérica e, mediante manobras escusas, usando tecnologias de mídia absolutamente questionáveis.

 

Os bruzundangas são uma gente trabalhadora, que sacrifica sua saúde e sua sanidade para sobreviver. E que, por isso mesmo, estão sujeitos a todo tipo de manobras e manipulações ideológicas, uma vez que não tiveram as oportunidades necessárias para desenvolver uma visão mais crítica da vida e do mundo. São como outros tantos povos modernos, que se deixaram ultrapassar por um sistema econômico que é uma máquina de moer gente.

 

A Educação deveria redimir e não alienar. Uma Educação redentora teria proporcionado aos bruzundangas, que elegeram seus algozes apesar de todos os avisos, a oportunidade de desenvolver as ferramentas mentais para enfrentar a mentira e a manipulação. A Educação que o atual ministro defende, não apenas não o fará, como ainda destruirá o pouco de liberdade de pensamento que ainda existe nessa sociedade.

 

Pobres bruzundangas, que nem imaginam a barbárie que os espera ao albor da nova década…

Ponderações 16: A ditadura no Brasil foi mesmo a mais “branda” do cone sul?

5 fev

A EDUCAÇÃO NA REPÚBLICA DOS BRUZUNDANGAS

1 fev

E vamos continuar nossa viagem por essas terras tão pitorescas e conhecendo essas gentes tão bizarras e peculiares. Hoje falaremos sobre a estrutura educacional desenvolvida pelos bruzundangas nos últimos duzentos anos, que é quase a idade da independência dessa Nação. Afinal, um de seus pensadores mais controversos certa vez afirmou “um país se faz com homens e livros”.

 

As gentes na Bruzundanga dividem-se em várias categorias, a depender da abordagem do pesquisador. Do ponto de vista étnico podemos encontrar os habitantes originais da terra, os invasores oriundos da Europa, que vieram em levas durante quatrocentos anos e os povos africanos, que foram capturados e trazidos para serem escravizados na empresa colonial, mas que mesmo depois da independência continuaram escravizados e explorados. Do ponto de vista econômico existem os miseráveis, os pobres, os remediados, os que pensam que são ricos, os que são realmente ricos e os que são estupidamente ricos.

 

Os habitantes originais destas terras, que são chamados de indígenas, foram preteridos durante a colonização e quase exterminados também no período independente. São constantemente assediados por madeireiros, mineradores, latifundiários e cristãos de todos os matizes, os primeiros querem-lhes as terras, os últimos as almas e as consciências. Somente muito recentemente é que conseguiram acesso à instrução superior e mesmo isso se encontra ameaçado atualmente.

 

Durante três séculos, a Bruzundanga (colonial e independente) engajou-se ativamente no tráfico negreiro. Note-se que, ao contrário da escravidão, que é um investimento de remuneração mais lenta, o tráfico realiza seus lucros de maneira imediata: açúcar pode ser trocado por rum, que pode ser trocado por escravos, que podem ser leiloados e arrematados em dinheiro vivo. Os “criativos” bruzundangas continuaram escravizando os povos africanos, mesmo quando o tráfico já havia sido proscrito, e acumularam fortunas explorando o trabalho de escravos, libertos e gente livre miserável.

 

Quando o fim da escravidão foi decretado, após todo tipo de pressões externas e de lutas internas, os africanos e seus descendentes não interessavam aos bruzundangas que se viam como uma nação branca, a não ser que continuassem em posições subalternas. O mercado de trabalho foi inundado de miseráveis trazidos dos bolsões de pobreza da Europa no afã de “branquear” o perfil popular e os libertos e seus descendentes foram sistematicamente marginalizados no espaço urbano, na educação e no imaginário social. O racismo resultante dessa ordem econômica se transformou em um dos fatores estruturantes da sociedade bruzundanga e deixou marcas indeléveis em sua Educação e na Cultura do país.

 

Os descendentes de europeus, nem sempre tão brancos quanto gostam de se perceber, alinharam-se em grupos étnicos bem definidos e conservam identidades culturais que menosprezam a nacionalidade bruzundanga. Portugueses, italianos, espanhóis, alemães, suíços e holandeses criaram ilhas de adoração aos países de origem e desprezam a Bruzundanga “não branca”. E muitos bruzundangas internalizam esses preconceitos todos e odeiam sistematicamente seu país, seus compatriotas e sua sociedade.

 

Evidente que, em uma sociedade tão fraturada sob tantos pontos de vista, a Educação (que deveria ser um fator de transcendência social) tenha-se tornado um instrumento de poder e de dominação. Nem o governo mais abertamente progressista conseguiria quebrar as barreiras sociais e obrigar os bruzundangas-que-se-pensam-brancos a conviver harmonicamente e em termos de igualdade com a população mais pobre, mais marginalizada e mais explorada. E todos os governos que o tentaram foram rechaçados com ódio, escárnio e desprezo.

 

Nesse sentido, a Bruzundanga tem produzido alguns dos educadores e filósofos da Educação mais interessantes de seu continente, amplamente respeitados na Europa (que os basbaques que se pensam brancos tanto admiram), mas que são sobejamente desprezados e perseguidos em sua própria terra. Algumas universidades e muitos pedagogos, inclusive, preferem cultuar um charlatão suíço sem qualquer experiência empírica a não ser observar os próprios filhos em um ambiente que nem sequer era escolar. Isso para não falar no apego que as seitas neo pentecostais (que hoje pululam entre a população como cogumelos venenosos) demonstram em relação ao modelo da Ianquilândia, uma linha de produção de burrice enfatuada e falsamente patriótica.

 

Quem observa a Bruzundanga nas últimas três décadas deve ter percebido os altos e baixos de seu sistema educacional. Após uma sucessão de ditaduras militares e períodos de incipientes ideias progressistas, a Educação finalmente parecia disposta a incluir todos os grupos étnicos e sociais do país, quando uma reviravolta reconduziu ao poder os projetos mais retrógrados e segregacionistas disponíveis no cardápio dos absurdos políticos. Como se tomada por um episódio de histeria coletiva, a população bruzundanga (ou ao menos uma fração dela) levou ao poder um projeto totalitário, excludente e permeado pelo fanatismo religioso, e a Educação está sendo rifada junto aos Direitos Humanos e às garantias cidadãs.

 

Esse determinado grupo ideológico inventou todo tipo de patranhas para criminalizar a ação dos professores bruzundangas. Diga-se de passagem, um setor social marginalizado, mal pago, perseguido por governos locais e provinciais e assediado da maneira mais hedionda pelas famílias dos alunos ligadas a grupos religiosos e a outras tantas agrupações de fanáticos. A ideia defendida pelos basbaques é que uma educação crítica seria sinônimo de práticas de doutrinação e uma educação limitada, censurada, dirigida apenas a formar mão de obra de segunda classe seria sinônimo de liberdade.

 

O novo governo bruzundanga tem como ideólogo um gnomo histérico que se esconde em um bunker nos bosques da Ianquilândia. Ativo nas redes sociais, esse sujeitinho mistificador nem sequer possui a instrução regular requerida por lei, mas apresenta-se como Filósofo e produz textos e mais textos de banalidades pueris, que os bruzundangas apatetados veneram como escrituras sagradas. Até aí, seria mais um “louco da palestra” se não estivesse indicando ministros e secretários em setores chaves da Educação.

 

Sobre o gnomo e os ministros por ele indicados já narrarei com mais vagar futuramente. Basta por ora que se saiba que a maioria dos indicados ostenta diplomas discutíveis, de instituições bastante duvidosas e que não tem conhecimento nem técnico e nem acadêmico das áreas a que foram designados. O que, convenhamos, tem todos os ingredientes de uma tragédia anunciada.

 

Engajados em um projeto de destruição da pluralidade e do caráter inclusivo da Educação, esses fanáticos ignorantes defendem uma sociedade calcada em dogmas religiosos estapafúrdios. Denegando a identidade a todos os seres humanos que não se enquadram em seu modelinho tosco de uma biologia oriunda do século XVI, procuram essencialmente o controle social através da homogeneização forçada da população. Não são inteligentes, nem originais, nem honestos e muito menos capacitados para implantar qualquer modelo educacional, mesmo que seja esse lastimável que defendem, mas estão no governo…

 

Triste Bruzundanga, a República do Futuro, que não consegue ajustar as contas com seu passado e por isso repete seus erros sociais e históricos ad nauseam. Triste Bruzundanga, um Paraíso Tropical assolado pelas misérias mais cruéis, e povoado por setores sociais que se odeiam e odeiam sua identidade miscigenada e multicultural. Triste Bruzundanga, onde “santo de casa não faz milagre” e que vive com o sentimento colonial internalizado a tal ponto que se entrega com alegria e satisfação aos opressores, exploradores e saqueadores modernos.

 

Suas “elites” almejam a uma sociedade de castas inamovíveis, em detrimento das classes sociais em que vivem. Para isso procuram marginalizar, segregar e excluir vastos setores da população, a fim de que permaneçam em posições subalternas e se transformem nos “servidores” ideais. Se para obter tal resultado, uma vasta parcela da população tiver que morrer ou ser morta, tanto lhes faz.

 

A Bruzundanga adentrará à terceira década do século XXI profundamente marcada por suas heranças históricas mais lastimáveis e prometendo tornar-se rapidamente em uma distopia digna do “cinema catástrofe”. Os sinais de alarme já soam há anos, mas a maior parte da população os ignora ou prefere fingir uma realidade paralela forjada no mundo virtual. Quem viver, verá…

OS NOVÍSSIMOS BRUZUNDANGAS

26 jan

Por volta de 1917, Lima Barreto começou a produzir uma série de crônicas de sátira política e social, que chamou de Os Bruzundangas. Seus textos ácidos e certeiros tinham como alvo as elites políticas republicanas (que até poucas décadas atrás haviam sido ferozmente monarquistas) e suas pretensões “nacionalistas”. O talento de Lima Barreto, um dos nossos maiores expoentes literários, e seu desalento em relação à sociedade em que vivia, afloram desses textos de tal modo que quando os lemos parecem ainda pulsar de tão vivos.

 

Ao pensar em produzir uma série de perfis sobre as nossas mazelas e nossos algozes contemporâneos, foi-me sugerido que usasse desse mesmo tipo de expediente. Em parte porque vivemos tempos tão estapafúrdios quanto os do autor, em parte porque me pareceu uma homenagem devida e merecida, resolvi aceitar o desafio. E espero que isso anime você, meu leitor, a revisitar as obras de Lima Barreto, um dos meus escritores favoritos de toda uma vida.

 

Dedico estas pequenas crônicas ao Sidney Chalhoub, professor inesquecível que nos apresentou Os Bruzundangas e que, em tempos idos, apostrofou governos usando este mesmo expediente. E também ao Duda, que foi quem me sugeriu o estratagema e que vem apoiando minha produção literária desde sempre. Que eu possa produzir uma crítica que não envergonhe a qualquer um dos três.

 

 

 

 

A REPÚBLICA DA BRUZUNDANGA

 

Era uma vez um País que se considerava “abençoado por deus” e que vivia “deitado eternamente em berço esplêndido”, desfrutando de sua fama de local paradisíaco, cordial e agradável. Muito embora possuísse uma natureza exuberante e fartura de recursos naturais, o grosso de sua população oscilava entre o pobre e o miserável porque também era um dos países mais desiguais do planeta. Mas, aos estrangeiros, vendia-se como hospitaleiro e gentil.

 

Vendia-se é uma palavra que define muito bem o modo como os bruzundangas tratam seu país. A elite econômica não tem amor algum a sua terra e vive como se fosse apenas o capataz de alguma metrópole alhures, extraindo riquezas para os outros, mediante gordas comissões. Os brancos (e os não tão brancos também) desprezam as populações originais, os pobres, os negros, as mulheres, e todos aqueles que foram alijados do poder para beneficiar essa irrisória minoria de untuosos parasitas.

 

Um de seus expoentes, que rondou as antessalas do poder por décadas até finalmente ser eleito governador de uma das maiores províncias da Bruzundanga, é um bom exemplo dessa caterva predatória. Quando presidia um órgão qualquer de incentivo ao turismo, o sujeito teve a ideia de promover a imagem do País “vendendo” as mulheres da Bruzundanga como se fossem as mais belas do planeta. Depois de uma década de anúncios de promoção turística em que figuravam os portentosos traseiros das beldades bruzundangas, mal segurados por minúsculas tangas, não admira que o País tenha se transformado em destino certeiro do turismo sexual.

 

E vocês pensam que os bruzundangas se ofendem porque a Ianquilândia e a Eurolândia os consideram um gigantesco puteiro a céu aberto em meio à natureza exuberante? Que esperança! Os próprios repórteres da terrinha, quando algum estrangeiro de destaque os visita, nunca perdem a chance de perguntar “o que achou da mulher bruzundanga?” do mesmo modo como perguntariam do café ou de qualquer outro produto autóctone.

 

Os bruzundangas tem uma relação absolutamente esquizofrênica com seu País. Se por um lado o proclamam como belo, rico e paradisíaco e exaltam seus atletas, suas mulheres, seus monumentos e suas paisagens, por outro lado consideram-no o País mais corrupto do planeta e almejam abandoná-lo assim que tiverem uma chance. Morrem de amores por países que só conhecem através da imprensa e da literatura e sonham com uma “civilização” que se recusam a implantar na própria Bruzundanga.

 

Tudo o que admiram na Eurolândia, quando algum governante tenta implantar em seu País recebe o escárnio e o combate acirrado dessas elites, que não querem que a Bruzundanga deixe de ser colônia para poder continuar explorando seus conterrâneos mais pobres sem dó nem piedade. Muitos dos pobres bruzundangas comungam da mesma ideologia de seus algozes e almejam desesperadamente por ascensão social, poder e dinheiro para tornarem-se também exploradores dos mais fracos. É por isso que a única cultura econômica que existe na Bruzundanga é a do rentismo: para que investir em qualquer tipo de produção se existe a possibilidade de viver de rendas parasitando o sistema econômico?

 

Esse tipo de mentalidade estende-se por parte considerável da população, desde tempos coloniais, e é responsável pela corrida de multidões para brigar por cargos públicos. A cada concurso público para selecionar quadros para qualquer repartição da República (e de suas províncias e municípios), não importando se é requerido alto nível técnico ou se é apenas para servir café, os bruzundangas acorrem aos milhares para disputar um lugar vitalício e resguardado à sombra do poder. E os que mais exaltam os princípios liberais (e até mesmo “anarquistas”) são os que mais brigam para fugir das agruras do mercado de trabalho e “encostar-se” no setor público.

 

Os bruzundangas se ufanam demais por títulos esportivos, principalmente no caso do futebol, que denominam de “nobre esporte bretão”. Cada habitante desse peculiar País parece acreditar que domina os rudimentos do esporte de tal maneira, que se arvora em técnico e critica acerbamente seu time, seus dirigentes e seus atletas. Na derrota são maus perdedores e escorraçam seus atletas da maneira mais ignominiosa, mas na vitória são ainda piores e humilham seus adversários da maneira mais covarde.

 

Empunham as bandeiras de seus times com mais orgulho que o pendão pátrio, mas também usam e abusam da bandeira nacional para defender suas convicções políticas conservadoras. E a bandeira da Bruzundanga é um fenômeno curioso de Síndrome de Estocolmo, pois ostenta as cores das monarquias da Eurolândia, mas todos acreditam que celebra sua natureza exuberante. Assim, o amarelo da Casa de Habsburgo foi transformado em uma celebração das minas de ouro, que outrora enriqueceram a metrópole além-mar.

 

Guardadas as devidas proporções seria como se a bandeira inglesa ostentasse o verde dos Tudor, mas as crianças britânicas aprendessem na escola que a cor homenageia a singela cantiga medieval Greensleves. Não obstante esse nível de ridículo, não podemos esquecer que vem crescendo entre os bruzundangas a presença do ideário monarquista, representado por alguns patéticos remanescentes da família outrora reinante no País. Já que os governos republicanos parecem ter-se revelado tão frustrantes, alguns de seus habitantes (sérios candidatos ao manicômio) reivindicam o retorno da monarquia, em uma demonstração quase banal de sebastianismo pueril.

 

Aliás, entre as heranças ideológicas abandonadas nos trópicos por seus antigos colonizadores, o sebastianismo é uma característica marcante na sociedade bruzundanga, assolando os mais variados setores do espectro político e cultural do País. Estão sempre aguardando o retorno de “salvadores da Pátria” e “eras de ouro” que jamais aconteceram, mergulhados no misticismo religioso e transpondo sua sede de milagres para a vida política da Nação. Não admira que busquem seu futuro mergulhando de cabeça no passado, mesmo quando esse passado nada de bom augura.

 

Nesse sentido, sua obsessão por protagonismo diante do mundo, que contrasta radicalmente com o ódio que destinam a seu próprio País, os leva a criar mitos de origem e lendas falaciosas sobre si e suas coisas. Vivem apregoando que a palavra “saudade” não tem tradução e nem existe em outras línguas, quando do outro lado de suas fronteiras existe “añoranza”, palavra fartamente usada por seus irmãos latinos para definir sentimento idêntico à saudade. Como no resto do planeta, uma vez que a Humanidade vem se revelando tão triste e patética para além de qualquer fronteira, preferem acreditar em seus mitos a enfrentar a realidade que os confronta diariamente.

 

E é sobre os bruzundangas ilustres, sobre os bruzundangas anônimos, sobre os ignóbeis e sobre os heroicos que pretendo escrever a partir de agora neste blog. Quem sabe se desnudando a alma desses seres tão peculiares, não conseguiremos encontrar uma saída para a encruzilhada em que se encontram. Que Lima Barreto possa nos ajudar!

UM DUPLO PADRÃO

20 jan

Em 1982 eu começava em meu primeiro emprego, na Indústria de Meias Aço S.A., com carteira assinada e tudo. Meu trabalho consistia em fazer o correio interno várias vezes por dia e auxiliar em várias seções quando fosse necessário. Do Grêmio dos funcionários à seção de Métodos e Tempos, eu repassava romaneios e conferia cálculos, atendia pessoas e tinha que entrar em todas as seções levando papelada e pequenos pacotes.

 

Até então, esse trabalho era feito por rapazes, uma vez que envolvia essa passagem nada confortável pelas seções masculinas da fábrica. Talvez porque meus pais trabalhavam lá e eram pessoas mais velhas e respeitadas, o encarregado do pessoal não viu problema em me colocar nessa posição. Era uma “entrada” para o trabalho, após um ou dois meses era normal que o iniciante fosse encaminhado a alguma outra seção.

 

Fiquei pouco ali, em parte porque, mesmo com o respeito que meus pais inspiravam, a minha presença causava constrangimento nos setores masculinos. Em parte também porque os escritórios sempre estavam precisando auxiliares, e logo surgiu uma vaga para cobrir na seção de vendas. E fiquei feliz de sair porque me incomodava mais que os olhares masculinos, o despeito e o sarcasmo das “meninas” da fábrica que se referiam ao “correio elegante” entre risadas.

 

Minha encarregada no escritório era fã incondicional de Rita Lee e estava sempre me perturbando porque eu não gostava. E eu não gostava mesmo, tinha uma tremenda implicância com essa rebeldia de boutique e esse roquinho sem-vergonha cheio de plágios astutos. Até hoje quando ouço o pianinho de Ray Mazareck em Riders of the Storm, reproduzido como quem não quer nada na abertura de Mania de Você e a gaita de Dylan em If not for you disfarçada em Lança Perfume, sinto uma gana assassina.

 

Quando eu argumentava que Rita Lee era uma “plagiadora”, minha encarregada ria e dizia que ela plagiava até a si mesma. Isso, claramente, nem era uma questão para ela, ao passo que para mim (que era jovem demais para reconhecer as áreas cinzentas da vida) era inaceitável. Aprendi a duras penas, no meu primeiro emprego, entre mais de um tipo de assédio, que o mundo era muito diferente dos princípios estritos em que eu fora educada.

 

E eram tempos difíceis porque as pessoas não entendiam que era algo inaceitável quando o Roupa Nova copiou My kind of lady do Supertramp para criar Anjo. Uma das minhas colegas argumentava que para ela o Supertramp nem existia porque ela não entendia inglês e preferia as músicas em português. Aparentemente, o fato de que era desonesto copiar o trabalho de outras pessoas para ganhar dinheiro nem passava pela cabeça das minhas colegas.

 

Isso nem teria sido tão frustrante se, tempos depois, ao discutir a polêmica que envolveu a reprodução por Rod Stewart em Do you think I’m sexy? de um trecho inteiro de Taj Mahal do Jorge Ben, essas mesmas pessoas não tivessem “caído matando” no cantor britânico. A hipocrisia dos duplos padrões, que nos acompanham diariamente, não parou de me assombrar desde então. Do sexismo e da misoginia à política partidária e às reações em relação ao nepotismo e aos desvios financeiros, tudo na sociedade em que vivemos transpira padrões duplos de moralidade duvidosa.

 

É sempre o outro que é o desonesto, mesmo que as práticas dos diversos grupos sejam similares. Fora a questão da “intensidade” em que se o outro for mais corrupto, mais cruel ou mais bandido, então não importa que o nosso grupo também não seja inteiramente correto. O que enseja esse festival de acusações mútuas sem o menor pudor ou culpa.

 

Convenhamos que, entre as esquerdas, era comum justificar desvios de dinheiro em sindicatos e centros acadêmicos alegando que era para o “partido” e não para enriquecimento pessoal. Como se isso estabelecesse uma hierarquia em que haveria desvios “justificáveis” e os meramente desonestos. Vi essa ginástica mental feita por mais de um partido a partir dos anos 90, quando comecei a notar esse fanatismo com mais frequência.

 

Irônico, que os desvios que realmente acontecem nunca foram perseguidos pela “Justiça”, mas que preferiram inventar processos sem provas para conseguir realizar seus objetivos políticos. Escândalos fabricados pela mídia celerada, que deliberadamente escolhe com muita seletividade o que quer ou não denunciar, deixaram várias pessoas de esquerda que eu conheço muito bem, confortáveis para continuar ignorando as deficiências morais de seus próprios partidos. Isso para nem entrar no mérito do cinismo hipócrita dos paladinos das direitas e do centro, que bradam contra a corrupção enquanto compactuam com a pilhagem secular do Estado.

 

Os desvios bilionários praticados por aquele partido associado a um pássaro da nossa fauna jamais foram problema para a mídia e a imensa maioria da população brasileira. Dando a impressão de que ser branco, proceder “de família boa” e viver engravatado torna normal se apossar com cobiça obscena dos recursos do Estado, deixando a população à penúria. E uma parte considerável do “povo” ainda agradece com mil salamaleques, sapecando o tratamento de “doutor” nesses parasitas, mesmo que jamais tenham passado sequer perto da pós-graduação.

 

Atualmente, a direita (que de nova nada tem) está patrocinando uma apropriação desonesta do discurso historiográfico para reabilitar o período ditatorial de 1964-1985. Entre platitudes perigosas como dizer que jamais ocorreu tortura, que a ditadura brasileira foi muito mais “branda” que suas congêneres do cone sul e que a corrupção (se é que houve) era praticada pelos civis no governo e não pelos militares, esse novo discurso ganha as redes sociais e as ruas. Pela boca dos “tiozões do pavê” e de vários historiadores que autoalimentam rancores acadêmicos, minimiza-se todo o arbítrio cometido e se resgata um discurso falacioso sobre a legitimidade das Forças Armadas.

 

Da mesma forma que, nos últimos vinte anos, tudo serviu para criminalizar os petistas e criar uma jurisprudência falsificada que consiste basicamente em adulterar as teorias jurídicas para poder condenar sem provas. Desde o falso escândalo do Mensalão, que transformou por obra e arte da mídia e dos delatores (nada interesseiros, né?) o já prosaico Caixa Dois de campanha em uma grande conspiração para compra de votos e que conseguiu convencer o vulgo de que os cinquenta milhões desse desvio eram muito mais que os vários bilhões do escândalo do Banestado. Até a condenação sem provas no caso do triplex, igualmente baseada na palavra de delatores com confissões instruídas por promotores e juízes e movida por indícios e convicções, contra o ex-presidente Lula, para impedi-lo de disputar as eleições e assim alijar o partido de seu quadro mais importante.

 

Note-se que eu não digo nem que o PT é inteiramente inocente e nem que desviou menos que os demais partidos como se isso se justificasse. O que digo é que o PT tem culpas e responsabilidades tanto quanto qualquer outro partido, mas que é somente a ele que a “Justiça” de uns e outros criminaliza e a narrativa midiática transforma em “quadrilha”. E isso devido ao duplo padrão de moralidade das “pessoas de bem”, que percebem um partido popular (operário ou camponês) como um bando de celerados.

 

O que eu argumento é que a nossa sociedade vive presa nessa armadilha da duplicidade de padrões por causa de um apego quase religioso às moralidades rasas, que prescindem de princípios éticos. No discurso, ninguém é racista, ninguém é misógino, ninguém é homofóbico, ninguém é corrupto, são sempre os outros, mas na prática, cada um segue o roteiro social de forte ranço colonialista para “se dar bem”. É um combo que implica em prestar concurso público e passar a qualquer custo para depois acumular as benesses e os penduricalhos do Estado, mas maldizer todos os outros que aspiram ao mesmo objetivo como “parasitas”.

 

Sabemos muito bem o que é certo e o que é errado, mas fazemos as vistas grossas porque na vida real é muito difícil sobreviver sendo inteiramente ético e incorruptível. Então, em nome de um pragmatismo que raramente nos favorece, passamos a considerar-nos os paladinos do Bem e da Justiça, relegando ao outro lado todos os pecados, defeitos e ruindades que conseguirmos imaginar. As esquerdas com seu ascetismo de forte ranço cristão não conseguem superar essa armadilha dos duplos padrões e naufragam em níveis planetários pelo apego a discursos que já não encontram referendo em suas práticas.

 

Precisamos de um projeto social sólido e não dessas balelas de pelejas morais. Quando demonizamos nossos adversários e não estamos à altura da “pureza vestal” que apregoamos, a tendência é que a legitimidade social da nossa voz seja silenciada pelo escárnio e pela vergonha. O atual presidente eleito com base em fraudes de rede social e mentiras de mídia é o defensor de um projeto que visa tornar legítimos os discursos da exclusão social e dos preconceitos mais atrozes, e encontra eco popular porque muita gente considera isso mais “honesto” que o “politicamente correto” de vários setores das esquerdas.

 

A “honesta maldade” dos bolsonaristas parece ser mais palatável ao Povão que a “hipócrita santidade” de muitos lulistas. E eu não digo que concordo com essas percepções ou que igualo os grupos e interesses políticos de uns e de outros. O que afirmo é que precisamos prestar atenção a como nos parecemos diante de nossos concidadãos, ao invés de pensar que nossas crises de identidade dostoievskianas importam a mais alguém além de nós mesmos.

 

De fato, a vida e o trabalho me ensinaram muito sobre as áreas cinzentas das moralidades ocidentais, mas ainda não me ensinaram a tolerar quem cafetina o trabalho dos outros para enriquecer ou quem copia e cola para mascarar a própria incapacidade, seja qual for seu colorido ideológico.

Ponderações 15: Estado, Governo e Povo

16 jan