A SEDUÇÃO DO MAL EM SCARLETT O’HARA

16 jul

A indústria cultural estadunidense tem o triste hábito de mascarar os piores exemplos de racismo em obras de irretocável mérito cinematográfico. Foi assim com O Nascimento de uma Nação (1915) de D. W. Griffith, que justifica o surgimento da Ku Klux Klan retratando a época da Reconstrução Radical como um período de abuso e corrupção contra os “pobres brancos indefesos do Sul”, após a derrota na Guerra de Secessão. A adaptação do romance The Clansman, de Thomas Dixon (Jr.), não apenas romantiza o surgimento do mais antigo grupo terrorista em ação nos Estados Unidos, como também demoniza a percepção da população negra usando atores brancos em blackface, com um gestual grotesco e sugestões animalescas.

 

Durante décadas, esse filme tem sido glorificado por professores e cinéfilos por ter introduzido uma série de planos e trucagens de câmera, que teriam precedido e se equivaleriam à grande revolução estética promovida por Serguei Eisenstein. Não é apenas que a ânsia de superar qualquer produção soviética tomasse conta da sociedade estadunidense durante a Guerra Fria a ponto de cegar os espectadores para o racismo escancarado da produção. É, principalmente, que o racismo era considerado um mal quase irrelevante diante da “contribuição” da obra para a História da Sétima Arte.

 

Fenômeno parecido atinge o edulcorado … E o vento levou (1939), de Victor Fleming, baseado no medíocre romance Gone with the Wind, de Margaret Mitchell. A belíssima fotografia colorida, em planos abertos que abusam da iluminação romantizada, mascara a tentativa de vender como superação feminina, uma história repleta de saudosismo da escravidão e ausência total de escrúpulos morais. A narrativa, centrada na personagem Scarlett O’Hara, trata a escravidão como algo idílico (quase “gilbertofreyriano”) e a população sulista como vítima, que perdeu uma vida perfeita por causa da ganância nortista.

 

Há que se evidenciar que o filme é muito menos explícito em seu amoralismo que o próprio romance, uma vez que para beneficiar o ritmo da narrativa cinematográfica, uma parte considerável dos detalhes do romance foi suprimida. Mas não é apenas isso, a própria personagem Scarlett (vivida no cinema pela atriz britânica Vivien Leigh) foi atenuada a ponto de tornar-se um ícone de superação, quando na verdade é retratada no livro como alguém totalmente amoral na luta para manter sua riqueza e privilégios. Talvez o fato de Margaret Mitchell jamais ter percebido o caráter monstruoso de sua heroína, tenha ajudado a criar a mística que até hoje envolve tanto o livro quanto o filme.

 

Ao analisar a adaptação, cabe ressaltar que mais importante que as escolhas narrativas efetuadas pelos roteiristas, são as omissões em relação ao romance. Uma das mais importantes são os filhos de Scarlett oriundos de seus dois primeiros casamentos, suprimidos do filme, mas que no livro compõem parte da caracterização do oportunismo e do egoísmo da personagem. Não creio que se trate apenas de reduzir a complexidade da trama para ganhar agilidade, parece muito mais que (ao contrário de Mitchell) os roteiristas perceberam que seria impossível retratar uma heroína que é uma péssima mãe.

 

A vida amorosa de Scarlett é marcada por uma sucessão de escolhas questionáveis e amorais. Loucamente apaixonada por Ashley Wilkes, que não lhe corresponde, casa-se por despeito com o jovem Charles Hamilton, a quem jamais sequer respeitou e que logo morre na guerra. Ao ficar na miséria, engana Frank Kennedy, o noivo de sua irmã, para poder ter acesso a seu dinheiro e poder reconstituir sua posição social, sendo que este segundo marido irá morrer devido a suas atitudes temerárias e inconsequentes. Quando finalmente se casa por terceira vez com Rhett Butler (o único homem que jamais foi enganado por suas manobras e manipulações e que a ama mesmo sabendo que ela não tem a capacidade para amar pessoa alguma a não ser a si própria), ainda acredita estar apaixonada por Ashley e há uma sugestão muito velada no livro de que seu interesse em Butler é meramente sexual.

 

Em decorrência dessas idas e vindas, Scarlett engravida quatro vezes, sendo que na quarta vez se atira escadas abaixo para abortar uma criança que não quer. Wade (surgido da única relação sexual de Scarlett com Charles Hamilton) é um menino enfermiço e apavorado, traumatizado pela guerra e pelo tratamento ríspido da mãe que o despreza. Ella Lorena (filha de Frank Kennedy) é vista por Scarlett como burra e lenta e logo relegada da maneira mais negligente. Até mesmo Bonnie (a linda filha de Butler, que logo morrerá tragicamente) não desperta mais do que ciúmes em sua mãe narcisista.

 

Mas eu comecei minha argumentação chamando a atenção para o caráter racista do filme, por isso não vou me ater às questões envolvendo o fato de que Scarlett considerava os filhos como apenas um efeito colateral do casamento. Essa transformação de seu caráter, visando ressaltar a “fraqueza” da maior parte das outras personagens da trama, provavelmente visava engrandecer sua trajetória oportunista e associar suas “virtudes” na hora de recuperar a fortuna da família a algum traço mais masculino. E essa é uma discussão complexa e cheia de armadilhas.

 

Diferentemente de O Nascimento de uma Nação, que é asquerosa e explicitamente racista, … E o vento levou transforma a escravidão (e o racismo dela decorrente) em uma não-questão. E, nesse sentido, o filme inventa situações para ressaltar a infantilização das personagens negras, que nem existem no livro, como é o caso de toda a sequência da covardia de Prissy durante o parto de Melanie. Os “negros da casa” de Scarlett são “família” no pior sentido empregado até hoje pelos defensores da exploração doméstica.

 

E isso porque, tanto Margaret Mitchell quanto os roteiristas do filme que “compraram” sua voz discursiva, consideram a escravidão como apenas um componente em um “estilo de vida que se perdeu”. A plantation, estrutura econômica colonialista presente nos Estados Unidos, Brasil e Caribe, caracterizava-se pelo trinômio latifúndio-monocultura-escravidão e seu impacto nessas sociedades (uma vez abolida a escravidão) foi o empobrecimento sistemático e um racismo estrutural que persiste mesmo mais de um século depois de seu fim. E, por ser estrutural, esse racismo se traduz em não aceitar críticas aos tempos “idílicos” desse passado perdido.

 

Após o final da Guerra de Secessão, em 1865, entrou em vigor a Décima Terceira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que decretava o fim da escravidão e dos trabalhos forçados (a não ser em caso de presos devidamente condenados). E é importante que se preste atenção nessa ressalva para entender o porquê de, mesmo atualmente quando a população negra nos EUA não ultrapassa os quinze por cento da população total, ainda assim a população carcerária no país apresenta índices de mais de sessenta por cento de encarcerados negros. Leis mais restritivas e uma abordagem punitivista do Direito, proporcionam mão de obra forçada a empresas privadas e ao Estado, nesse país.

 

Quando (depois da cena patética em que jura nunca mais passar fome) Scarlett O’Hara resolve usar o dinheiro de Frank Kennedy para reconstituir a fortuna de sua família destruída, não consegue pensar em uma maneira de extrair lucro da mão de obra, que não seja a escravidão. Ela recorre, então, ao sistema prisional (que então além dos presos comuns ainda contava com a presença de soldados sulistas capturados pelas tropas ianques durante a guerra) e solicita prisioneiros para escravizar. Isso tem uma repercussão péssima entre seus concidadãos e ela é hostilizada e vista como alguém cruel e sem escrúpulos.

 

Tanto o livro quanto o filme transformam a escravidão em uma não questão, quando passam a abominar seu uso em relação a prisioneiros brancos, e continuam considerando a escravidão negra como apenas um idílico estilo de vida tragicamente perdido. Que Margaret Mitchell, uma senhorinha sulista melancolicamente nostálgica de um passado que nem conheceu, cometesse esse tipo de atrocidade narrativa é constrangedor, mas compreensível. Que Hollywood endossasse esse discurso e o transformasse em um blockbuster longo, tedioso e melodramático em deslumbrante tecnicolor, aí cabe discutir a responsabilidade da indústria cultural na naturalização do racismo.

 

A oitenta anos de seu lançamento, o filme ainda exerce um fascínio malsão em pessoas que nem sequer conseguem realizar uma leitura crítica dos fatos históricos mascarados por sua narrativa. E Scarlett O’Hara passeia pela tela seu narcisismo, seu oportunismo amoral e sua incapacidade de amor e empatia junto com seus suntuosos vestidos, quer fossem de cetim ou do veludo das cortinas. Enquanto Vivien Leigh pisca seus imensos olhos azuis, o público aceita sem piscar as personagens negras estereotipadas e infantilizadas como se fossem absolutamente naturais. E ninguém se vê ou se pensa como racista.

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Ponderações 18: Uma negativa polida ainda é um NÃO

11 jul

PAVÃO MISTERIOSO

9 jul

Era o ano de 1976. Poucas famílias podiam se dar ao luxo de ter um aparelho de televisão que transmitisse a programação em cores. Em meu meio social todos assistíamos à vida e à ficção em preto e branco.

 

E havia apenas seis ou sete canais disponíveis, que você nem sempre conseguia sintonizar, dependendo de onde morava. Às vezes a antena não era suficiente e havia muitos locais no Brasil a que mal chegavam dois canais, isso quando as pessoas podiam ter os aparelhos. Em casa víamos mais a Tupi, a Cultura e a Bandeirantes.

 

Meus pais não gostavam de novelas, então levamos muito tempo para vir a assistir alguma sistematicamente. Abríamos exceção apenas para as novelas de época baseadas em livros clássicos, desdenhando a maior parte do que tivesse uma narrativa contemporânea. Machado de Assis, José de Alencar (com quem embirro até hoje), Joaquim Manuel de Macedo, Marques Rebelo e Lima Barreto foram autores que eu conheci primeiro nas adaptações televisivas e somente chegando à juventude fui ter acesso a seus livros.

 

Eu mesma até hoje não tenho paciência com esse tipo de teledramaturgia binária e, ao longo do tempo, acredito que acompanhei provavelmente menos de uma dezena das novelas centradas na atualidade, até o início dos anos 90 quando parei completamente. E gostei somente de dois autores, Dias Gomes e Silvio de Abreu, por motivos bastante óbvios (Silvio de Abreu pela temática paulistana repleta de tipos extravagantemente caricatos e Dias Gomes por uma questão de solidariedade comunista). E, para mim, Dias Gomes é em preto e branco e Silvio de Abreu em cores, dada a distância e as reminiscências desses tempos.

 

Era o ano de 1976 e era Saramandaia e eu tinha apenas doze anos. Alguém havia “assoprado” para os meus pais que o autor dessa novela era comunista e ao ver as referências a García Marques na construção da trama, começamos a acompanhar. Era um deleite procurar e encontrar significados escondidos, em meio à censura do governo Geisel.

 

Com apenas dois anos de residência no Brasil, nosso repertório de informações sobre a cultura regional era escasso e muito pobre. Morávamos em São Paulo e conhecíamos muito pouco da cidade, sobre os outros estados e cidades só sabíamos o que nos contavam e o que aparecia na telinha, uma vez que as nossas referências literárias estavam centradas em Érico Veríssimo, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Foi a música que nos abriu as portas do regionalismo, dos sotaques, das formas de expressão, das cores e das sonoridades nordestinas.

 

Ednardo foi meu primeiro deslumbre, mas era muito difícil ter acesso a seus temas, fora da novela. Depois viriam Alceu Valença (que é uma das minhas paixões até hoje), Zé Ramalho e mais recentemente Chico César e Zeca Baleiro. Mas foi o Pavão Misterioso a primeira música que me apresentou a essa lírica elaborada, com um excelente uso dos recursos linguísticos e repleta da mística quase medieval dos romances e cordéis.

 

E me marcou tanto, que hoje (a dois dias de completar cinquenta e cinco anos) ao relatar à minha filha a cena final do voo de João Gibão e os versos de Ednardo, enquanto caminhávamos, comecei a chorar de emoção. Talvez porque estamos novamente enfrentando tempos obscurantistas e procurando a solidariedade nos trabalhos dos colegas. Talvez porque a falta de perspectivas para nosso país e nossa gente seja tão avassaladora sob a gestão desses lombrosianos brancos, cristãos e heterossexuais. Talvez porque eu não tenha mais doze anos e não consiga mais sonhar com ter asas.

 

“Não temas minha donzela

Nossa sorte nessa guerra

Eles são muitos, mas não podem voar”

 

Foram estes os versos que tornaram a cena de João Gibão soltando suas asas e voando sobre a cidade tão inesquecível, por ser metáfora dos nossos sonhos censurados pelo regime ditatorial; foram estes os versos que uma amiga virtual muito querida (a quem jamais tive a chance de abraçar pessoalmente) me mandou por mensagem no Facebook, no dia em que a eleição do atual mandatário foi confirmada; foram estes os versos que me fizeram chorar hoje, diante de tanta injustiça, mesquinhez e desesperança.

 

Mesquinhez representada pela gentinha reles e vil que criou o perfil falso, usando o nome da canção para espalhar mentiras torpes e covardes. Um grupelho cuja calhordice só é superada pelos ignaros que lhe dão crédito e os crápulas que lhe dão suporte. Triste sinal destes tempos tão reles e sombrios.

 

Ednardo, onde quer que se encontre, certamente não concordará com o uso tão vil de seus lindos versos de esperança. A ele a minha solidariedade e meu muito obrigada por ter me apresentado (ainda adolescente) a esse Brasil maravilhoso (povoado de lendas e romances), que me ajudou a aceitar a nova pátria com que o aleatório da Vida me presenteou. Sonhos de liberdade, em meio a ditaduras, não têm preço.

Interlocuções 4: Perry Anderson

1 jul

#LulaLivre

27 jun

E chegou o dia que eu pensei que nunca chegaria. Aqui estou usando uma hashtag e provavelmente usando da maneira mais errada possível. Afinal, o estereótipo de “tiazona na internet” não surgiu à toa.

 

E escolho esse título para o meu texto visando deixar claro qual é o meu lado nesta contenda. Não que isso represente alguma novidade para quem frequenta este blog. Mesmo tendo acerbas críticas ao Partido dos Trabalhadores, nunca duvidei do caráter equívoco da República de Curitiba.

 

Quem me lê há mais tempo há de lembrar que escrevi uma carta ao Lula há um bom tempo (https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2017/08/14/uma-das-tantas-cartas-que-andam-por-ai-para-o-lula/ ) e também fui uma das primeiras a contatar que sua prisão era política (https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2018/11/22/golpes-e-refens/). E, muito embora não sendo nem lulista e nem petista, me bati contra o golpe de 2016 com todas as minhas forças, uma vez que vinha engendrado e defendido por algumas das figuras mais espúrias da nossa política. Enquanto comunista sem partido, nunca me iludi com a política de conciliação, mas também nunca comprei o discurso fundamentalista do antipetismo.

 

O que se constata hoje, para além da inocência ou da culpa de Luís Inácio nas corrupções comezinhas que caracterizam o Estado brasileiro desde priscas eras, é que os processos urdidos em Curitiba estão eivados de irregularidades. A divulgação das comunicações promíscuas entre o juiz da causa e seus promotores já serviriam por si sós (em qualquer sociedade civilizada) para anular o processo e exonerar (quando não encarcerar) os funcionários judiciais envolvidos. Serviriam…

 

Mas existem outras abordagens que devem ser analisadas:

 

  1. Se não houve maneira de ligar os bens em questão ao ex-presidente, a presunção de inocência deveria ser observada pois essa é uma das bases dos tratados de Direitos Humanos, de que o Brasil é signatário.
  2. Se não houve maneira de ligar Lula aos desvios da Petrobrás, então o juízo de Curitiba é incompetente para julgá-lo. E, cabe observar, que o termo “incompetente” significa que não faz parte das atribuições e competências desse juízo julgar processos que não lhe cabem, seja por jurisdição ou por objeto.
  3. Não existe no Direito Penal a figura de “crimes indeterminados”. Para que alguém seja julgado e condenado, os crimes de que é acusado devem estar devidamente tipificados na forma da Lei.
  4. A promiscuidade do conluio entre juiz e promotores contraria todos os ideais republicanos e o modo como o nosso sistema de Justiça é organizado, constituindo em si um crime muito mais grave do que aqueles de que o réu era acusado.
  5. As instâncias superiores têm sido não apenas coniventes com essa mixórdia vulgar promovida em Curitiba, mas também cúmplices ao “melhorar” a pífia sentença do juiz local, corrigindo suas asneiras e dando um verniz de legalidade ao que não passa de auto de fé inquisitorial, visando a destruição de um homem e de seu partido.
  6. Houvesse algum laivo de honestidade no magistrado em questão e ele jamais teria aceitado integrar o ministério do candidato a quem suas atitudes favoreceram.
  7. Houvesse uma grande imprensa honesta (e não apenas uma corja de empresários promiscuamente envolvidos em todas as instâncias políticas do país) e toda essa barbaridade teria sido denunciada há muito tempo. Dá para contar nos dedos os poucos jornalistas que permaneceram íntegros nestes últimos seis anos.
  8. A omissão do STF, que apoiou o golpe de 2016 e tudo tem feito para não incorrer no desagrado de milicos e fundamentalistas da atual administração, bem como do mordomo golpista anterior e sua trupe de indiciados, ainda deverá ser devidamente qualificada como uma das maiores desonras contemporâneas (e olha que não são poucas as desonras protagonizadas pelo atual governo).

 

Enquanto permanece aprisionado indevidamente, Lula vai acumulando um capital político internacional inestimável. Evidentemente que o sofrível desempenho de Jair Bolsonaro como presidente e como ser humano tornaria até Geraldo Alckmin mais palatável. Entretanto, cada fala de Lula (primorosamente articulado e dando sinais da argúcia que sempre o caracterizou) atravessa as paredes da prisão para os anais históricos.

 

E isso é exatamente o que mais me incomoda. Como já relatei anteriormente ( https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2017/01/10/a-disputa-pela-narrativa/ ), o Partido dos Trabalhadores está interessado demais em controlar narrativas e em fixar sua historicidade em seus próprios termos, fazendo com que negligencie as pessoas, as causas e a realidade objetiva. Luís Inácio ficará bem na foto, mas a que preço para o resto de nós e da grande população deste país?

 

Meu texto que figurou na coletânea dos Historiadores pela Democracia ( https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2016/03/22/a-justica-burguesa/ ), chamava a atenção para o ganho histórico constituído pela justiça burguesa e para o caráter inquisitorial do tribunal curitibano. Ainda acredito que, na falta de uma justiça popular e revolucionária, o ideal iluminista é o menos pior em termos de equanimidade. É uma pena que o Judiciário no Brasil ainda não tenha sequer chegado próximo de entender Montesquieu ou Beccaria.

 

Nesse sentido, ao jogar visando a História e não a realidade material presente, Lula e seu partido acabaram endossando a farsa dos golpistas e legitimando uma trupe lastimável que ocupa os segundos escalões nos três poderes da República, perpetuando um poder de classe inaceitável em uma democracia. Juízes, promotores, secretários, administradores, assessores ministeriais e outros que tais, todos muito brancos, muito seguros de suas sexualidades normativas, de seu cristianismo farisaico e de seu pertencimento aos extratos médios da população, transformam seus privilégios de classe em um discurso meritocrático hipocritamente falseado.  E é contra essa casta inamovível que o Partido dos Trabalhadores deveria estar lutando, uma vez que a ultradireita, os fisiologistas, os fanáticos e os milicos alucinados dependem exatamente deste grupo em particular para influir nos destinos do país.

 

Se Lula vier a ser libertado ainda em condições de ser um agente político efetivo, e não apenas mais um mito maior que sua própria história, deverá enfrentar esses setores do funcionalismo público que ele mesmo fortificou. E que o odeiam de modo tão figadal, que preferem ver o país destruído nas mãos de um insuficiente mental a aceitar uma nova gestão petista. A medida desse ódio está em seu apoio a projetos espúrios como Escola sem Partido, em nome de uma imparcialidade que nenhum deles sequer finge possuir.

 

Eu não peço autocrítica ao Lula e a seu partido, uma vez que nós da esquerda consumimos uma boa parte de nosso tempo efetuando todas as críticas possíveis e imagináveis. Eu já nem peço coerência e união ao resto de nós, as diferenças ideológicas dentro de amplos setores da esquerda se revelam mais irreconciliáveis a cada dia. Será muito pedir que se abandone essa obsessão narcisista com narrativas e historicidades e se pense em soluções práticas para o abismo imediato que nos espreita?

 

Eu defendo a liberdade de Lula porque é a única atitude coerente diante da realidade dos fatos. Eu defendo a liberdade de Lula porque, enquanto ele permanecer na prisão, todo e qualquer discurso democrático será mera hipocrisia. Eu defendo a liberdade de Lula porque precisamos sair das cordas e começar a ofensiva de algum lugar.

 

O cidadão Luís Inácio, torneiro mecânico de profissão e ex-presidente desta República, é um preso político. Ele é um ser humano como qualquer outro, com suas qualidades e seus defeitos, seus erros monumentais e seus acertos homéricos. Tão perigoso no uso da palavra que seus captores têm medo de deixa-lo junto aos presos comuns, pois poderia conquistá-los para seu projeto de país.

 

Não sou sebastianista para acreditar que Lula é o único salvador da Pátria. Não sou jurista para deblaterar sobre os aspectos e questiúnculas legais deste caso. Sou uma cidadã preocupada, que por acaso tem formação em História.

 

Tenho feito deste blog um registro de nossos tempos tão tristes e nunca me furtei a tomar partido do lado que considero certo. O que ofereço é o meu ponto de vista, construído a partir de muito estudo, muita leitura e muito diálogo com as evidências. Quer se goste ou não de Lula, ele deve ser libertado e seus processos em Curitiba devidamente anulados.

 

#LulaLivreUrgente

 

EDIÇÃO

19 jun

João Soares olhou para a tela do computador e sorriu satisfeito. Não havia uma única palavra supérflua em seu romance. Cada parágrafo havia sido cuidadosamente confeccionado e o resultado era melhor do que jamais sonhara.

 

Era um romance sóbrio, contido como ele próprio. Com os efeitos dramáticos deliberadamente diluídos na narrativa para que apenas o leitor mais cuidadoso lhe desvendasse a trama. Era um livro como ele mesmo gostaria de ler.

 

E João era mesmo sóbrio. Todo construído em tons neutros, magro, com entradas incipientes na testa e um nariz pronunciado, mas que combinava tanto com a discrição de seu rosto, que mal se notava. Mesmo sua pele, tristemente vincada pelos vestígios da acne adolescente, era de um tom indefinido.

 

Tímido e observador, passava despercebido nos mais variados ambientes. E isso lhe permitia presenciar toda sorte de eventos, do trágico ao risível, e recolher o material de suas histórias. Escrevia desde os onze anos, mas desta vez tinha certeza de ter conseguido realizar o trabalho de sua vida.

 

E o que faço agora? – perguntava-se perplexo. – Como vou publicar? A quem devo procurar?

 

Nunca tivera coragem de enviar seus originais para a leitura de editoras ou de terceiros. Vinte contos e quatro romances, cuidadosamente impressos na papelaria e encadernados em espiral, encontravam-se empacotados e guardados em uma caixa fechada no canto superior de seu guarda-roupa. Mas este era diferente e João vacilava em dar-lhe o mesmo destino de sua produção dos últimos quinze anos.

 

João passou dois dias perambulando pelas dependências da Faculdade de Letras, com uma via impressa de seu romance e duas cópias em arquivos digitais, à procura de alguém que lhe indicasse o que fazer. Tinha vergonha de abordar sua orientadora, sempre tão crítica, e procurava em vão algum professor com quem se sentisse à vontade. No terceiro dia, entre uma aula e outra, deparou-se com Vera Lins, uma professora veterana, exímia poetisa e atenta orientadora, com quem sempre sonhara trabalhar.

 

Vera sempre incentivara João, quando ainda era seu aluno, mas não tivera como aceitá-lo em seu grupo na Pós, havia quase uma fila de espera de alunos ansiosos por sua orientação. Aliviado, o jovem explicou-lhe que escrevera um romance, o quinto de sua lavra, mas mesmo assim o primeiro que se atrevia a mostrar. Pediu-lhe a indicação de uma editora ou algumas dicas sobre como publicar ficção fora do meio universitário.

 

Mostrou-lhe o impresso que carregava tão cuidadosamente. A professora folheou o texto interessada. Sentou-se na beirada de um canteiro e leu atentamente durante meia hora.

 

É a sua cara! – exclamou.

 

E, para sua surpresa, Vera puxou um cartão de dentro de uma divisória da bolsa e escreveu meia dúzia de palavras e lhe entregou. Era de um editor e bastava entrar em contato e dizer que ela o havia indicado.

 

Seja firme e não permita que lhe indiquem um editor para “melhorar” o texto. Isso é moda agora e parece uma epidemia. Seu texto está impecável, embora um pouco ingênuo, mas isso é por causa da sua juventude e até dá um certo frescor.  – e foi assim, dando-lhe vários conselhos e encaminhando-o ao editor, que Vera se despediu e seguiu pelo corredor em direção a sua sala, onde vários orientandos a aguardavam impacientes.

 

João nem duvidou e nessa mesma tarde enviou uma mensagem ao editor, apresentando-se, dando suas credenciais e solicitando a devida permissão para enviar seu original. A recomendação de Vera Lins prontamente lhe abriu as portas e o editor se mostrou bastante compreensivo com seus receios e sua inexperiência. Entretanto, foi inflexível na necessidade de indicar-lhe um editor pessoal para aprimorar o texto, isso era contratual e companhia não podia investir em uma obra que violasse o formato desenvolvido para dar lucro.

 

E assim começou o calvário de João Soares. Foi apresentado a Virgínia Mastrobuono, jovem bonita, decidida, autoritária e célere. E esta tomou-lhe o romance das mãos e passou a “trabalha-lo” para poder editar.

 

Em pouco mais de uma semana João percebeu o que Vera Lins tentara avisá-lo, mas já era tarde demais. Demasiado tímido para defender seu texto, viu trechos inteiros sendo remanejados, palavras sendo substituídas e sentiu-se impotente diante da vivacidade e da energia de Virgínia. Seu romance fugia-lhe, sendo transformado em um candidato a best-seller.

 

– Por que você usou “cacofonia” aqui? Nem dez por cento da população conhece essa palavra. Coloque “barulheira” e atingirá um público muito maior. – dizia-lhe e já efetuava a “correção”.

 

Depois foi seu nome. João Soares era muito comum e foi sugerido que assinasse Henry Sommers, o que facilitaria na eventualidade de conseguirem negociar alguma tradução para o exterior. E João cedeu, constrangido.

 

Às vésperas do lançamento, foi chamado a participar da divulgação em jornais e programas de televisão. Apavorado, João recusou, não se sentia responsável pelo resultado final, não podia honestamente defender um romance que fora tão mutilado que já nem se lhe parecia. Escondeu-se atrás da timidez e disse para Virgínia que não tinha qualquer condição de enfrentar o público.

 

Para sua surpresa, Virgínia concordou e propôs-lhe usar uma espécie de sósia. Um ator que daria as entrevistas em seu nome (que na verdade nem era mais seu nome) e que já recebia da editora um salário para isso. Tudo sairia às mil maravilhas, afirmou.

 

João foi para cada amargurado e aguardou. O lançamento foi um sucesso. O dublê de Henry Sommers era simpático, bonito e fazia furor nas entrevistas. Em menos de seis meses o livro estava bem classificado e a editora já cogitava versões em inglês e espanhol.

 

Foi nesse momento que o jovem viu a oportunidade. Resolveu negociar os direitos tanto do texto como das traduções e até mesmo eventuais versões para o cinema. Ofereceu à editora a chance de ficarem com o livro e todos os seus direitos em troca de uma quantia bastante modesta, se comparada com os valores de mercado.

 

Os editores nem duvidaram, tinham nas mãos o sucesso do ano e precisavam fazê-lo render antes que fosse descartado pelo sucesso seguinte. João assinou papéis, recebeu seu modesto cheque e despediu-se aliviado, enquanto o editor e Virgínia ofereciam seus préstimos para publicações futuras.

 

Uma vez em casa, João ligou interurbano para sua avó e avisou que queria passar uma temporada com ela. D. Lucrécia ficou entusiasmada e perguntou como iam as coisas.

 

Vendi um livro para uma editora e estou com algum dinheiro. Queria colocar na sua conta, vó, e morar uns tempos com a senhora. Entregar o apartamento aqui e levar minhas coisas. Depois vejo o que faço. Isto aqui não é para mim, não. Posso escrever aí com a senhora e ajudar com os cogumelos. – disse.

 

Mas quanto você ganhou, meu filho? – perguntou D. Lucrécia surpresa.

 

Quarenta e cinco mil, dá para a gente viver um bom tempo e a senhora não precisa mais se cansar que eu assumo o pesado. – João estava contente e animado. – Deposito hoje mesmo na sua conta!

 

Ótimo meu menino e venha assim que puder, você sabe que sempre sinto sua falta quando você demora demais. – D. Lucrécia desligou o telefone pensativa e aguardou para descobrir o que desiludira tão fortemente o seu neto a ponto de largar até a Pós em Letras para cultivar shitakes e shimejis.

 

João respirou aliviado pela primeira vez em anos.

FAROESTE CABOCLO

18 jun

Na segunda metade dos anos ’70, a TV Record ainda não pertencia às hostes do bispo midiático e sua programação era marcada pelo “jornal da tosse”, uma mesa jornalística comandada por Hélio Ansaldo e que se compunha de comentários às notícias mais que de notícias propriamente ditas. Também havia o Pullman Junior, que exibia animés e uma rotina de estúdio bastante brega e cheia de micos (certa vez, a apresentadora resolveu puxar um coro de Natal com as crianças e só muito tarde percebeu que o único jingle bells que conheciam era aquele em que acabou o papel). E havia os bangue-bangues ou faroestes, que reinavam todas as noites na forma de séries e filmes.

 

Bonanza, Laredo, Laramie, Gunsmoke, Chaparral, Hondo e outras tantas séries que nem vou lembrar passavam na faixa das oito da noite e eram seguidas por filmes na Sessão Bang-Bang e nos dias de Bang-Bang à Italiana (westerns spaghetti). E meu pai assistia todos no aparelho de televisão em preto e branco, a ponto de marcar uma parte das nossas vidas com essa iconografia cinematográfica tão específica e maniqueísta. Nos tempos em que não existia acesso a tevês por assinatura, nós que não éramos habituados a assistir novelas e programas de auditório, encontrávamos uma opção nessa programação tão restrita.

 

As séries eram simplistas e bem-humoradas, somente algum tempo depois é que surgiram Quest, As aventuras de James West, O Homem das Montanhas e Alias Smith & Jones, que (salvo eu muito me engane) passavam na Bandeirantes. Mas nós nos divertíamos, eram tempos mais simples e as dificuldades da vida nos tornavam menos exigentes. Pessoalmente, até gostava (claro que, como adolescente, jamais admitiria isso para o meu pai) dos westerns spaghetti porque Franco Nero e Giuliano Gemma eram lindos.

 

Esses filmes e séries seguiam modelos e estereótipos fixos, somente em ocasiões memoráveis é que algum questionamento moral ultrapassava a couraça de machismo, maniqueísmo e crueza de sua estética. Os xerifes eram sempre “mocinhos” e os bandidos eram sempre vilões, a vida real ali não tinha espaço e mesmo quando retratavam histórias verídicas a lenda sempre se sobrepunha à narrativa. Para várias gerações era impossível acreditar que Wyatt Earp era delegado e (ao mesmo tempo) administrava o prostíbulo junto à esposa cafetina; ou que Billy the Kid era um farrapo com sérios problemas mentais; ou que Jesse James não passava de um sulista ressentido.

 

A estética de John Ford, embora mais crítica em relação à moralidade, ainda rescendia macheza e machismo em um nível claustrofóbico. Sérgio Leone era mais despojado, mas ainda assim seu “estranho sem nome” é um marco do estereótipo do herói másculo e frio. E todos esses filmes eram profundamente racistas, transformando negros e mexicanos em alívios cômicos e construindo estereótipos ridículos, que hoje mal temos estômago para ver, mas que à época essas discussões nem se propunham.

 

Em uma cidade padrão do Velho Oeste, haveria um saloon cheio de “moças”, carteado e bebida. Haveria uma igreja em que o pastor se calaria diante dos poderosos e só serviria para condenar as moças de “vida fácil” e encomendar os mortos. Haveria um xerife corajoso e seus ajudantes, sendo que um deles sempre deveria ser um covarde que se reabilita na hora perigo.

 

E haveria um Juiz. E, nesse caso, dois estereótipos de juiz se sobressaíam nas narrativas: o bonachão e o enforcador. Ambos com suas bíblias sempre à mão e sua subserviência aos grandes proprietários, o bonachão era um “bem-mandado” que condenava de acordo com as conveniências da cidade, mas o enforcador era “durão”, um sujeito que aplicava a pena capital até para ladrões de galinhas e gostava disso.

 

Não devemos esquecer que tanto delegados quanto juízes eram “eleitos” dentro de suas comunidades e, quase sempre, estavam estreitamente ligados aos grandes latifundiários, às famílias importantes e seus interesses raramente justos. Em áreas de fronteira e quando do advento das ferrovias, as disputas territoriais sempre pendiam contra os pobres, os remediados e os estrangeiros, e a Justiça estava mais obcecada em servir a seus próprios interesses do que em defender inocentes. Os conflitos que hoje (?) fariam com que qualquer juiz devesse renunciar e declarar-se suspeito ao julgar determinadas causas, naquela época só eram formulados de acordo com a conveniência dos poderosos.

 

Porque a Justiça no Velho Oeste servia para garantir dos direitos dos proprietários e perseguir os indefesos, e mesmo séries e filmes mais leves ainda guardavam esse traço de punir o roubo tanto quanto o homicídio com a pena capital. Westerns mais reflexivos poderiam questionar essa moralidade primitiva e cruel (e vários surgiram nas décadas posteriores), mas os estereótipos narrativos desse gênero cinematográfico e televisivo ainda perduram. E dialogam com um amplo espectro da literatura e da filmografia (inclusive no gênero policial dos anos ’70 e ’80) porque remetem a um tipo de atavismo e de simplismo, que quando se alia à religião produz autoridades punitivistas e controladoras.

 

O que nos traz ao motivo deste texto. Saudosismos (ou nem tanto) aparte, cabe lembrar que estamos sendo governados por um “desprojeto” de moralidade dúbia que a cada dia nos aproxima mais dessa mentalidade binária e simplista dos faroestes. O culto às armas, à violência, à repressão, à tortura e à condenação sumária são a identidade “máscula” de um governo que abriu mão de qualquer compromisso com o projeto civilizatório.

 

O indivíduo que ora ocupa a presidência não esconde sua admiração incondicional pelos inventores do gênero faroeste e saúda sua bandeira com o despudor dos capachos. Afeta uma masculinidade que é quase uma performance empobrecida de Clint Eastwood (meio “poncho”, meio Dirty Harry), com seu culto fálico aos coldres e canos. E encontrou no juiz enforcador de plantão o paradigma para sua Justiça de conveniências e interesses.

 

Nada falta a este arremedo de faroeste caboclo. Desde os filhos valentões e inúteis (que do OK Corral à fronteira de Sierra Nevada sempre foram o motivo do justiceiro solitário ir contra a o grande fazendeiro, nos filmes) aos alívios cômicos representados pela ala “maluca” do governo, não faltam estereótipos cinematográficos tristes e deprimentes ao presidente. Inclusive em seu juiz enforcador transformado em ministro, após servir com denodo o projeto idealizado alhures para promover o desmonte da década progressista.

 

Houvesse no Brasil a pena de morte, ora estaríamos tentando reabilitar memórias e não apenas cancelar processos eivados de irregularidades. Houvesse no Brasil a pena de morte, e generais de vetustas cãs não protagonizariam “xiliques” histéricos e patéticos perante a imprensa, uma vez que poderiam “justiçar” seus desafetos ao amparo da lei. Há no Brasil a pena de morte, promovida por milicianos e justiceiros, por uniformizados de “dedo nervoso” ao gatilho, mas só se aplica aos negros e aos pobres, que não tem quem os defenda e nem proteja.

 

Nosso faroeste caboclo é chinfrim demais para figurar na iconografia cinematográfica. Cruel, tosco e ignorante demais para ser aceito em pleno século XXI. Mas o que esperar de um grupo político que saltou da ribalta do baixo clero para protagonizar uma produção barata de um gênero sem categoria?

 

Três anos e meio de bravatas, despistes, aberrações jurídicas, diretrizes econômicas apocalípticas, fanatismo religioso e machismo sem cérebro ainda nos aguardam. Em caso de afastamento, o vice é igualmente racista, homofóbico e pró-EUA, se bem que muito menos burro, o que por si só já o torna extremamente perigoso. O que pode significar que este governo arrastará seu próprio cadáver putrefato ao longo dos intermináveis meses que nos separam da próxima eleição, promovendo a destruição do Estado (como se fosse um ferrenho anarquista) e o desmonte do país e seu território.

 

Isso sim, com a trilha sonora de ódio e mesquinhez que o caracteriza. Liberando as hordas de “machinhos” ensandecidos para descarregarem sua testosterona (e seus “berros”) nos pobres, nos negros, nos lgbts, nas mulheres e em quem mais se interpuser a seu “desprojeto” revisionista da vida. E sendo legitimado por pastores mercadores da fé e por padres fanáticos defensores do retrocesso.

 

Nosso faroeste caboclo não terá locações épicas e nem formato heroico. Será como os westerns spaghetti, só poeira, lama, pólvora, sangue e bosta de cavalo. Sem Franco Nero e sem Giuliano Gemma, apenas com essa corte de branquelos velhotes lombrosianos, fardados ou não.

 

Sem vinheta. Sem trilha sonora de Enio Morricone. Sem technicolor.

 

E se você chegou até aqui “achando” que eu falaria de Legião Urbana, vale lembrar o bom e velho Rogerinho do Ingá…