Ponderações 13: Uma pergunta impertinente

4 dez

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A VERDADE DE CADA UM

2 dez

Em algum momento ou outro da vida, cada um de nós precisou calar-se diante da ignorância, da burrice ou da empáfia, não importa a época. Atualmente esses momentos se multiplicam com uma constância deprimente, mas não são um fenômeno novo, apenas tornaram-se recorrentes. É importante ter consciência de que nunca houve uma Idade da Razão ou algum momento da História em que a população pugnasse por ter algum tipo de comedimento diante de situações de enfrentamento.

 

Este blog tem sido um veículo para minhas histórias de vida, na tentativa de dar sentido ao presente caótico, mediante a interrogação sistemática do passado. Quem me acompanha sabe que acabei desenvolvendo uma certa habilidade para relatar essas pequenas histórias e dar-lhes uma significação que jogue alguma luz sobre as atribulações do nosso cotidiano. Por isso, aqui vai mais uma das minhas memórias e espero que vocês possam apreciar toda a ironia da minha narrativa.

 

Nos idos de 1976 começamos (minha irmã, algumas amigas e eu) a ouvir Queen. As duas primeiras músicas, de que me lembro de ter visto os clipes no TV2 POP SHOW (que depois se chamou SOM POP) na TV Cultura, foram Somebody to Love e We are the champions. Depois viriam muitas outras e compramos os vinis e gravamos fitas e trocamos com amigos e copiamos as letras das músicas para poder cantar.

 

O Queen foi uma banda tão presente em nossa casa, nos meus tempos de adolescente e jovem, que quando Freddie Mercury se foi, minha Mãe chegou a comentar que era como perder alguém da família. Cantávamos e cantávamos até que a agulha estragasse os vinis na vitrola e ouvíamos no rádio e víamos os clipes nos programas de música na TV. E até hoje não sei quantas vezes assisti Highlander por causa da trilha sonora, para Flash Gordon não tive o mesmo entusiasmo, entretanto.

 

Quando terminei o colegial não havia a menor possibilidade de entrar em uma universidade pública e acabei indo trabalhar, uma vez que eu nem sabia como viabilizar meu futuro. Anos depois consegui reunir coragem e algum dinheiro e fui “fazer cursinho” e entrar na paranoia do vestibular e finalmente consegui ser aprovada e voltar a estudar. Por esse motivo é que comecei minha graduação aos vinte e dois anos, enquanto muitos dos meus colegas eram mais jovens e recém-saídos do colégio.

 

Nesse sentido, tive poucos amigos durante a Graduação e muita dificuldade para me enturmar com meus colegas de 87, bem como os que entraram em 88, mas conversava bastante e sem embaraço com os 89 e 86. A flexibilidade do currículo somada à minha necessidade de trabalhar para manter-me na UNICAMP (em uma época em que não existiam aulas noturnas) me fazia conviver com todas as turmas em andamento. Minha sociabilidade agressiva e muitas vezes sarcástica mascarava o constrangimento de ter que lidar com situações e pessoas que estavam sempre evidenciando o abismo social que me separava da maioria dos meus colegas.

 

Havia um grupo de “meninas” na turma de 86 que era considerado inseparável. E eu acabara fazendo uma disciplina com uma delas e desenvolvendo algum diálogo, devido a referências em comum na pesquisa documental. À medida que selecionava as disciplinas da linha de pesquisa de Escravidão e Trabalho Livre passei a conviver mais com ela e mais duas do grupo e a estudar juntas alguns autores.

 

Em momento algum me ocorreu entrar para o “grupinho”, mas passei a ter simpatia por elas e a gostar de conversar e trocar ideias. Mas não eram meu grupo porque eu não tinha afinidades suficientes para me enturmar com ninguém, mesmo me dando bem com uma porção de gente. Uma porção mesmo, que até hoje se encontrar na rua poderei conversar e relembrar todo tipo de momento engraçado e figuras alegóricas daquela época.

 

Em algum momento que eu nem sei precisar, uma das seis (com quem eu não mantinha contato algum) começou a ressentir-se da minha presença na biblioteca e nos corredores. E eu percebi que as outras passaram a me evitar, a ponto de viajarem nas férias para São Tomé das Letras sem contar a nenhum de nós, talvez para evitar que quiséssemos ir junto. Algo desnecessário e profundamente grosseiro, que “pegou mal”, não apenas porque eu sequer teria dinheiro para acompanhá-las, mas também porque jamais vou aonde não me convidam (frequentar os mesmos museus e os mesmos arquivos por necessidade não deveria ser considerado “convidar-se”).

 

Foi nesse clima de estranhamento que, em algum momento de 1989, se a memória não me trai, aconteceu um encontro da ANPUH na UNICAMP e eu nem me lembro se era regional ou nacional. Eu nunca tive chance de viajar para a ANPUH durante a Graduação, mas vários dos meus colegas conseguiam financiamento ou subsídios e voltavam sempre cheios de contatos com alunos das federais. Era o caso das “meninas”, que haviam conhecido um grupo de alunos da Bahia e agora estavam felizes de recebê-los na nossa universidade.

 

Lá pelas tantas esse pessoal chegou e foi toda uma efusão e começaram falar de Daniela Mercury, que começava a despontar no fenômeno dos blocos e bandas de Axé. Eu, que nem conhecia a figura, perguntei se era por causa de Freddie Mercury, e um deles me respondeu rispidamente que ela já cantava antes “desse aí ser conhecido”. Quando eu me preparava para perguntar se ela já cantava desde 75, uma das meninas me cortou e me silenciou com o olhar.

 

A impressão que tive era que elas consideravam seus amigos da federal incapazes de lidar com a minha ironia e não queriam passar vergonha por minha causa. Posso estar redondamente enganada, talvez estivessem me preservando de um desgaste maior, mas eu nem por sombra acredito nisso. Mas guardo a lembrança que a sensação de ter que ficar quieta diante da burrice alheia me causou, não foi a primeira e nem a última vez que vivi situações assim, mas esta ficou registrada pela enormidade da ignorância do rapaz, que esperava ser historiador um dia.

 

No ano seguinte perdi de vista as “meninas” e consegui me formar e tocar a minha vida. Nunca mais vi a maioria delas, somente quando corrigia vestibular (no início dos anos 2000) reencontrei aquela que foi meu contato inicial e que agora estava concursada no Pará e em algum momento posterior dei de cara com outra delas ao descer de um ônibus e descobri que abandonara a História e trabalhava com marketing. Em ambos os encontros, apesar da minha vontade de retomar contato e superar o passado, um constrangimento mútuo impediu que resgatasse aquelas pseudo-amizades.

 

Vez por outra, como hoje, ao ouvir Somebody to Love, essa historinha me vem à lembrança e me leva a imaginar que fim terá levado o futuro historiador que acreditava que música começava e terminava na Bahia. Onde estarão as “meninas” hoje chegando aos cinquenta e se ainda conservam as amizades que consideravam mais importantes que a nossa (não fui só eu a excluída na ocasião). E como se movimentam neste presente de ignorância ululante, se serão minions bolsonetes ou se alguma delas algum dia chegou a ser petralha.

 

E resolvi contar esta pequena sequência de erros para vocês para lembrar que quanto mais absurda a afirmação do ignorante, mais fundo cala em nós o silenciamento. Especialmente quando a iniciativa de nos silenciar parte daqueles que sabem que estamos certos, mas que por interesses pessoais preferem bajular o ignorante. É assim que se preservam egos frágeis e sociabilidades defeituosas e se constroem as bases para uma sociedade em que o real vem sendo erodido há muito tempo.

 

A pós-modernidade vem relativizando fatos e versões há décadas. Isso não começou com as redes sociais e não vai acabar com elas, embora possa destruir nosso convívio social definitivamente se continuar a escalar em níveis de erosão do real. Atualmente as afirmações mais estapafúrdias encontram abrigo na imaginação dos ignorantes e um espaço de expressão no convívio público e pouco podemos fazer para impedir todo esse non-sense.

 

Mas, continuo afirmando, isso sempre existiu de uma forma ou de outra. Afinal, como qualquer pessoa poderia constatar no fim dos anos 80, Daniela Mercury devia estar saindo da infância quando o Queen já era famoso e se apresentava pelo mundo inteiro. Somente um energúmeno poderia afirmar tão categoricamente que ela o precedera e mesmo assim isso aconteceu.

 

Hoje eu não me calaria…

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE AS ORIGENS DO ATEÍSMO E SEU PAPEL NA LUTA PELA DEFINIÇÃO E DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS

30 nov

Roteiro para a participação no evento I ENCONTRO INTER-RELIGIOSO ANTROPOLÓGICO: CONTRIBUIÇÕES INTERCULTURAIS PARA OS DIREITOS HUMANOS pelos 70 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

 

Minha tarefa não é fácil, aqui estou em um encontro inter-religioso para defender a causa da descrença. E não apenas para desmistificar a carga de hostilidade que o ateísmo desperta nas sociedades e comunidades religiosas, mas também para salientar o modo como o ceticismo e o racionalismo se inserem na História das Ideias. Como as ideias de Liberdade e Igualdade, que estão no cerne do desenvolvimento do conceito de Direitos Humanos, pertencem também ao escopo do pensamento ateísta.

 

Para isso devo retroceder à primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ratificada pela Assembleia Nacional Constituinte da França em 26 de agosto de 1789, e sua história. Inspirada nas ideias Iluministas e no texto da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776), a formulação francesa apresenta ecos também da Magna Carta britânica (1215). Estes três documentos, guardadas suas especificidades históricas, marcam as diversas tentativas de estabelecer um status de Liberdade e Igualdade entre os homens.

 

A Magna Carta, imposta a João Sem Terra em 1215, estabelecia uma série de preceitos para submeter o Rei à autoridade da Lei (e do Papa, uma vez que João havia sido excomungado por Inocêncio III em 1212) e preservar os direitos dos cidadãos nascidos livres (isto é, que não estavam ligados à terra por laços de servidão). Este documento recebeu várias redações posteriores e está na origem da Constituição inglesa, bem como no imaginário popular como a principal garantia de liberdade do cidadão comum. Para os movimentos radicais dos séculos XVIII e XIX é uma das referências também para a reivindicação da igualdade e da necessidade de submeter os reis à autoridade do parlamento.

 

O texto da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) tem sido citado como um dos primeiros momentos em que se afirma que todos os homens nascem livres. E foi redigido por um grupo bastante heterogêneo de legisladores, que incluía deístas, ateus, agnósticos e livre-pensadores de vários matizes. Thomas Paine, revolucionário britânico responsável por alguns dos textos mais incendiários da época sobre a inutilidade da monarquia e do direito à liberdade do homem comum, esteve presente nas duas Revoluções, a Americana e a Francesa.

 

É evidente que o “homem livre” a que todos estes textos se referem é o homem branco, uma vez que os escravizados de origem africana ou asiática, bem como as mulheres em geral, não foram contemplados nessa noção de Liberdade e nem de Igualdade. Nesse momento, a ideia de cidadão ainda é muito incipiente e passará por inúmeros percalços até chegar à acepção plural e diversa que lhe damos hoje. Ao longo do tempo, a prática de “desumanizar” as classes populares, os estrangeiros e os inimigos tem sido o maior obstáculo à defesa dos Direitos Humanos.

 

Entretanto, cabe ressaltar que a batalha travada pelos idealizadores da declaração francesa estava centrada no embate contra os privilégios da aristocracia e do clero. Desde o momento em que o Papa Leão III coroou Carlos Magno como Imperador do Ocidente (800), ungindo-o com os óleos e a benção divina, a aliança entre essas duas castas sociais havia-se tornado indissolúvel na França. O papado percebia em Carlos Magno, rei dos francos, um novo Constantino disposto a restaurar o poder da cristandade e as fronteiras do Império Romano na Europa, agora na forma do Sacro Império Romano Germânico.

 

O papado afiançava o caráter divino dos reis franceses e isso se tornou meio que um modelo quando os Estados-Nações começaram a emergir na Europa a partir do século XI. O delicado equilíbrio entre papas, reis e imperadores mergulhava esse continente em um nunca acabar de guerras, assassinatos políticos e vaivém de famílias poderosas. E, no caso da França, permitia que o clero exercesse um considerável poder político, bem como se beneficiasse de rendas, monopólios e prebendas garantidos pelos reis.

 

Nesse sentido, quando as ideias da Reforma começam a espalhar-se a partir do século XVI, a aliança entre o clero e a aristocracia na França torna-se mais estreita e letal. A hostilidade aos huguenotes (protestantes franceses) vai crescendo até culminar com o massacre da noite de São Bartolomeu (23-24 de agosto de 1572), quando os convidados protestantes ao casamento de Henrique de Navarra e Marguerite (Margot) foram caçados e chacinados sem piedade pelas ruas de Paris (por iniciativa do Duque de Guise, católico fanático) e os assassinatos se estenderam pelos meses seguintes e por outros municípios. Henrique, que se convertera ao catolicismo para poder realizar esse casamento, foi confrontado com a realidade de que não bastava uma missa para ingressar nessa aliança tão poderosa.

 

Na esteira desse ambiente volátil de guerra religiosa, a descrença sempre foi perseguida e condenada, em todas as suas formas, tanto pelo Estado quanto pela Igreja. Católicos e Protestantes queimaram ateus do mesmo modo que queimavam hereges e bruxas. Em sociedades em que o poder político recebia chancela do poder religioso para existir, não havia lugar para comportamentos ou ideias divergentes.

 

Nesse sentido, a demonização da descrença e a perseguição e repressão aos descrentes criou uma tradição de radicalismo em algumas das principais manifestações do ateísmo. E atrelou à descrença toda uma série de valores como a defesa da Liberdade, da Igualdade, da busca sem obstáculos pelo conhecimento, da construção de arcabouços filosóficos e científicos, que culminaria no Iluminismo e nas principais “ideias francesas” dos séculos XVIII e XIX. Mesmo com o caráter absolutamente heterogêneo dos Iluministas e dos revolucionários franceses, o ceticismo e o racionalismo encontram ecos profundos em suas ideias e lutas.

 

E devo salientar que o Ateísmo não é um fenômeno coeso e homogêneo ao longo do tempo e da História. Não se trata de um movimento organizado ou de uma força ou poder com assento garantido na organização ou nos destinos do mundo ocidental. O estigma conferido aos ateus por séculos de calúnias e mentiras é tão poderoso que, no Brasil contemporâneo, seis de dez eleitores votariam em um candidato à presidência abertamente gay, mas não votariam em um ateu.

 

Nesse caso, nunca é demais frisar que nós ateus não somos satanistas, uma vez que deus e diabo são partes da mesma mitologia e se não se acredita em um é impossível acreditar-se no outro. Também não somos amorais, apenas seguimos uma ética que não está sujeita ao julgamento divino e que por isso não teme nem céus e nem infernos e não precisa do pavor do castigo divino para respeitar os preceitos sociais. Não acreditamos que as religiões detenham o monopólio da moral no sentido mais estrito, preferimos defender uma ética humanista, cética, racional e materialista no sentido filosófico (não no sentido consumista que geralmente lhe é dado pelo senso comum).

 

Quando o Abade Yvon redigiu o verbete sobre Ateísmo para a Enciclopédia, justificou a eliminação física dos ateus devido a que estes não estariam sujeitos à moral cristã e seriam uma constante ameaça à organização da sociedade francesa pré-revolucionária. Prolixo e erudito, o abade construiu um verbete que remete as origens do Ateísmo à Grécia Clássica, mas que lhe atribui um pretenso amoralismo devido à inutilidade de ser virtuoso em um mundo sem deus. Para o Abade Yvon, bondade, retidão e virtude só tem sentido quando destinadas a angariar a aprovação da divindade e a consequente passagem para um após-vida paradisíaco.

 

Note-se que esse tipo de interpretação persiste nos lugares mais inesperados. Otto Maria Carpeaux (1967), em seu prefácio à edição brasileira de Justine ou os infortúnios da virtude, novela escrita pelo Marquês de Sade, atribui a este último a condição de ateu por excelência devido a seu desrespeito pela vida humana e pela moral sexual cristã. Carpeaux chega a afirmar que qualquer ateu que se atenha a alguma espécie de código moral ainda acredita em deus, ignorando deliberadamente os séculos de tradição humanística e a possibilidade de uma ética cidadã dentro do Ateísmo.

 

Conceitos historicamente construídos em função dos regimes republicanos como o Estado Laico, a Escola Pública (laica, universal e gratuita) e o Sufrágio Universal estão diretamente ligados à defesa ateísta de valores humanistas. E não digo com isso que essas bandeiras sejam exclusividade nossa, mas sim que temos um papel importante a ser considerado nas sociedades que evoluíram para esse tipo de modelo. Da mesma forma que a luta contra o obscurantismo na busca do conhecimento científico também contou e conta com a ação incansável de ateus, agnósticos e outros descrentes.

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi redigida perante os excessos praticados durante a Segunda Guerra Mundial, quando a desumanização de grupos sociais inteiros desembocou no genocídio organizado. Campos de concentração e de extermínio, estupros, assassinatos, bombas nucleares e a total incapacidade de perceber o “outro” como um igual ceifaram as vidas de mais cinquenta milhões de pessoas, quer fossem judeus, comunistas, Testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, cidadãos civis abatidos propositalmente ou soldados em luta. Tal morticínio exacerbado não acabou com a redação da Declaração ou com a assinatura de tratados internacionais, apenas acabou pulverizado em centenas de conflitos menores e igualmente letais.

 

Atualmente, a defesa e a reafirmação da Declaração tornam-se mais necessárias que nunca, uma vez que o planeta enfrenta uma onda conservadora de retrocessos políticos, econômicos e sociais. E com essa onda, um recrudescimento da intolerância e do fanatismo religioso que patrocinam toda uma ideologia anti-ciência e a cristalização de comportamentos xenófobos e racistas. Homofobia e misoginia acompanham esse “combo” de barbárie e violência.

 

Ateus sempre estiveram nas linhas de frente na defesa da Liberdade e da Igualdade. Fico feliz de ter sido incluída neste evento que procura reafirmar os valores da tolerância e do diálogo inter-religioso, a defesa dos Direitos Humanos e uma ação cidadã para os tempos difíceis que se aproximam. Aqui estou para defender um legado histórico e filosófico considerável e não para impor a descrença a quem quer que seja.

 

BIBLIOGRAFIA

 

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio.  São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

 

DIDEROT, Denis.  Enciclopédia, ou Dicionário razoado das ciências, das artes e dos ofícios.  Volume 6, Metafísica.  São Paulo, Editora da UNESP, 2017.

 

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro, Imago, 1997.

 

HILL, Christopher.  A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII.  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

 

_______________.  O mundo de ponta-cabeça: ideias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640.  São Paulo, Companhia das Letras, 1987.

 

LE GOFF, Jacques. Para uma outra Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente.  Petrópolis, Vozes, 2013.

 

ONFRAY, Michel.  Tratado de ateologia: física da metafísica.  São Paulo, Martins Fontes, 2007.

 

SADE, Marquês de. Justine ou Os Infortúnios da Virtude. Rio de Janeiro, Editora Saga, 1967.

 

THOMPSON, E. P.  A formação da classe operária inglesa. Volume I, A árvore da liberdade.  Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

 

VEYNE,Paul. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2010.

GOLPES E REFÉNS

22 nov

Uma das características mais cruentas da ditadura militar uruguaia (1973-1985) foi a total desarticulação da guerrilha tupamara a partir da conversão de seus líderes em “reféns do regime”. Nove dirigentes guerrilheiros (Pepe Mujica, Maurício Rosencof, Eleuterio Fernández Huidobro, Raúl Sendic, Adolfo Wasem, Julio Marenales, Henry Engler, Jorge Manera e Jorge Zabalza) foram submetidos à condição monstruosa de cativos sem status prisional e mantidos em condições de constantes torturas físicas, psicológicas e emocionais. E usados pelo governo uruguaio como garantia para a cessação completa das atividades guerrilheiras e da oposição política.

 

Incapaz de enfrentar a guerrilha urbana, apoiada por alguns setores da população, o governo uruguaio optou por uma solução medieval. Imitou os senhores que estabeleciam tréguas entregando seus filhos como garantia aos inimigos. Só que neste caso não houve troca e sim a tomada calculada de reféns para assegurar a total desarticulação e imobilização do “inimigo interno”.

 

Das masmorras aos reféns, a ditadura uruguaia foi uma das mais bárbaras do cone sul, e isso diz muito, uma vez que Argentina, Chile e Brasil (países muito maiores) têm suas próprias histórias de sequestros, torturas, sevícias e assassinatos para contrapor. Mesmo com todo o revisionismo que nos assola na imprensa e por parte de alguns pseudo-historiadores, documentos existem, testemunhos físicos e sobreviventes ainda podem recontar essas histórias de barbárie e Terrorismo de Estado. Somente a insanidade destes tempos de “realidades” virtuais (ou a total ausência de caráter) permitiria que se negasse a evidência histórica existente.

 

O Brasil de hoje, assolado pelo negacionismo e por um revisionismo mequetrefe, patrocinado pelo obscurantismo militarista e neopentecostal, também mantém um refém político. Luis Inácio da Silva, o Lula, o ex-presidente que liderou uma década dourada de prosperidade, inclusão e respeito internacional, permanece encarcerado em Curitiba, “condenado” sem crime por uma leitura enviesada e partidarista por parte de promotores e juízes. E isso não deveria nos surpreender, afinal, o golpe era para ser “com o Supremo, com tudo” e está sendo.

 

Para nós, que temos mais “cancha”, isto é, que estamos há mais tempo no gramado atrás da bola, a perseguição e a demonização de Lula não é novidade. No fim dos anos 70 o boato era de que o metalúrgico e líder sindicalista possuía uma mansão no Morumbi (que era o bairro mais caro de São Paulo no imaginário popular). Nas eleições de 1989, seu adversário chegou a acusá-lo de “ter um 3em1 em casa”, como se um operário não tivesse dinheiro para comprar um aparelho de som (vitrola, gravador/tocador de fitas cassete e rádio AM/FM em um bloco e acompanhado por duas caixas acústicas) parcelado em qualquer magazine.

 

A própria esquerda mais tradicional se ressentia de sua presença no cenário político e social. Um conhecido caudilho chegou a chamá-lo de “sapo barbudo”, e embora seus seguidores hoje afirmem que se tratou de um ato carinhoso, à época a hostilidade com que era tratado era evidente. Hostilidade, inveja e um tantinho de mesquinharia por parte de quem não lhe perdoava a ousadia.

 

Afinal, para muitos desde sempre (até mesmo entre certa esquerda) o Brasil é um país onde “cada um deveria saber seu lugar” e deixar as atividades públicas e a política para quem tem o poder de mando herdado através do berço. Ou para quem tem o poder econômico obtido através de acordos sociais espúrios e exploração sistemática, ou mesmo para quem invoca a meritocracia embora tenha recebido todo o apoio do sistema para obter suas “conquistas”. Em resumo, para quem tem seu falo ungido e abençoado pelo privilégio social, econômico ou racial.

 

O resto de nós deveria continuar pertencendo às classes populares e carregando os estigmas de uma cidadania somente tolerada. E deveria manter-se obedientemente a postos para realizar a riqueza e o poder dos “grandes”, sem reclamos e sem questionamentos. E olhar sempre respeitosamente de baixo, e nunca erguer a voz ou sustentar o olhar de quem manda.

 

Lula desafiou esse roteiro, tomando o comando de um Partido dos Trabalhadores que havia sido fundado com mais apoio do meio intelectual que trabalhista. E usou sua sina de retirante para construir uma carreira política tenaz e persistente, conquistando uma vaga no Congresso e posteriormente a presidência da República. E foi o melhor presidente de que se tem notícia neste país, comparável em termos de impacto social somente ao velho imperador de barbas brancas.

 

Tal trajetória, em qualquer país minimamente desenvolvido, seria festejada como um triunfo da meritocracia capitalista. O menino pobre, que superou todos os obstáculos e as dificuldades e chegou ao cargo máximo do país para resgatar seu povo da miséria e da ignorância. Não no Brasil, aqui tal ousadia é vista como um crime de lesa majestade, como uma usurpação imperdoável de um poder destinado a poucos (famílias tradicionais, potentados econômicos e milicos cujo prestígio se restringe ao fato de terem algum dia envergado uma farda).

 

Os discursos e narrativas para a destruição de Lula se sucedem há décadas, mas somente agora que uma boa parte da população passa a vida com a cara enfiada no telefone celular, ao invés de pensar, é que conseguiram ter sucesso. E não foi um mero fenômeno produzido pelo impacto da presença das redes sociais em nossas vidas, longe disso, foi uma ação orquestrada através da disseminação de notícias falsas em bombardeios coordenados e direcionados com base em cálculos estatísticos de manipulação ideológica. E isso não custou barato, Steve Bannon (o inventor da “internacional de extrema-direita” na Europa e responsável pela eleição de Donald Trump e da vitória do Brexit) que o diga.

 

Isso custou algumas dezenas de milhões de reais aos empresários financiadores da campanha do candidato recentemente eleito à presidência, bem como aos barões da mídia nativa, extremamente interessados em uma derrota do PT, com ou sem o Lula. Mas também custou à nossa sociedade uma fratura irreparável e o ônus do aumento da violência, quer seja verbal, quer física, por parte de um público que foi exacerbado pelo discurso agressivo e canhestro de seu candidato vitorioso. E custou os últimos neurônios ativos em mais da metade da população, que se permitiu acreditar em mentiras deslavadas porque quis, porque estas mentiras afagavam seus egos e reafirmavam seus preconceitos mais atávicos e primitivos.

 

E a nós, combalida esquerda, custou o fim definitivo de qualquer inocência republicana. Eu, que defendi neste blog o bom combate e a decência, imaginando que cedo ou tarde as instituições reagiriam de acordo com sua responsabilidade histórica, hoje já não albergo quaisquer ilusões. O golpe foi “com o Supremo, com tudo” e nada sobrou do parco arcabouço republicano que tentamos a tanto custo erguer e preservar.

 

Ao fim cada vez mais próximo deste ano aziago (o quinto ano seguido de um processo de destruição social bem sucedido) podemos constatar o seguinte saldo:

– um golpe de Estado à hondurenha,

– um refém preso político à uruguaia,

– um processo eleitoral movido a manipulação ilegal à moda dos EUA,

– um judiciário que pratica lawfare à moda de Singapura,

– uma caça às bruxas contra os professores à moda da Revolução Cultural chinesa,

– e uma perspectiva de desmonte social ao melhor estilo do neoliberalismo radical, o coveiro do capitalismo.

 

Quando tocar a última badalada da meia-noite de 31 de dezembro de 2018 e as gestões para a posse do governo recentemente eleito estiverem concluídas, estaremos nas mãos do defensor da tortura e de seu gabinete de lastimáveis lombrosianos, um mais inútil do que o outro para a gestão pública, mas todos com sagradas convicções e projetos pessoais questionáveis. Do juiz carrasco aos representantes dos bancos e do latifúndio, todos têm sua listinha negra de desafetos e alvos para silenciamento e destruição. E quem afiança sua sanha de rapina e vingança contra o povo brasileiro é o sistema que mantém refém, em Curitiba, aquele que um dia foi o candidato favorito às eleições.

 

E eu, que passei a minha Graduação inteira (e a Pós também) criticando a História Comparada e a História do Tempo Presente por não conseguir perceber-lhes a menor solidez teórica, aqui estou bancando a Miss Marple e transformando a leitura do presente em uma crônica de paralelos. Narrando o golpe como um violinista do Titanic. Até agora.

A VERDADEIRA DOUTRINAÇÃO

18 nov

Você sabia que, mesmo o Brasil sendo um país legalmente laico, muitas escolas públicas coagem seus alunos a rezar antes das aulas? Isso acontece em escolas particulares também, mesmo quando não ostentam qualquer filiação religiosa. Há escolas em que as crianças são ensinadas a dar graças pela comida, mesmo que isso seja uma clara violação ideológica.

 

Diretores e coordenadores pedagógicos carismáticos e neopentecostais contam com a omissão de quem deveria verificar e fazer cumprir a Constituição e desrespeitam a individualidade e a liberdade de pensamento de seus alunos. Alguém já viu o Ministério Público se incomodando com isso, com tanta sanha quanto a que usa para perseguir seus desafetos políticos? Pois é, eu desconheço qualquer iniciativa das autoridades para coibir esses abusos de poder.

 

Isso porque o caráter laico do Estado brasileiro, que até hoje era uma ficção bem comportada com os crucifixos reinando impávidos nos tribunais que deveriam garanti-lo e resguardá-lo, agora passou a ser uma rematada hipocrisia. O novo governo (recentemente eleito, mas ainda não empossado) já se comporta como se de uma teocracia bárbara e primitiva se tratasse. Ameaça enquadrar ou destruir todos os que pensam de modo diferente e vai loteando os gordos pedaços da administração para conhecidos estelionatários da fé, levando a farsa muito mais longe do que todos os governos anteriores.

 

Pergunto-me se o cidadão médio tem alguma noção do estrago que essa junção entre o delírio militarista e o fanatismo religioso pode causar em nosso tecido social já tão esgarçado. A impressão que tenho é que o pavor do ateísmo, inculcado desde os púlpitos, é tão irracional que as pessoas preferem as fogueiras inquisitoriais à liberdade de pensamento. Algumas das mais radicais votariam em um candidato gay (mesmo odiando os gays) em detrimento de um candidato ateu, tal o tamanho da aversão e do preconceito desenvolvidos através da doutrinação religiosa.

 

Esse fenômeno, que alguns de nós (à falta de alguma designação) chamamos de Talibã Evangélico, conta com o apoio involuntário de muitos católicos fervorosos. O pavor fanático das pautas progressistas (descriminalização do aborto, autonomia da mulher diante de seus direitos reprodutivos, descriminalização da maconha para usos médicos e outros, reconhecimento médico, social e cidadão dos diversos gêneros para além do sistema binário ultrapassado) irmana católicos, evangélicos e outros tantos, em uma frente unida em defesa do atraso histórico, bem como da perseguição e da eliminação de todo e qualquer pensamento ou comportamento diferente. No momento em que as ideias progressistas alcançaram finalmente o Brasil, esse contingente de órfãos da razão se refugia na segurança da uniformização massiva para evitar ter que pensar ou conviver com o que não conhecem e nem entendem.

 

Em parte porque o Brasil se transformou em um país tristemente fictício:

– vivemos em uma República que desconhece os princípios republicanos básicos;

– fingimos que o racismo não existe, mesmo quando vivemos uma sociabilidade mediada por seus efeitos mais perversos;

– tratamos o machismo e a misoginia como se fossem a ordem natural das coisas e não perversões ideológicas;

– sacrificamos princípios de todas as espécies no altar capitalista para fingir que somos uma sociedade bem sucedida;

– e hoje transformamos o ódio em motor social, esbravejado em templos e púlpitos, mesmo quando as religiões professadas mantém a ficção do “amor ao próximo”.

 

Essa ficção de um país democrático, amistoso, diverso e tolerante foi estraçalhada pelo pânico conservador, movido a teorias de conspiração, notícias mentirosas, memes toscos (esse povo não sabe nem usar o Photoshop) e delírios religiosos. E o que se desenha em substituição é um amálgama mal ajambrado de ignorância, preconceito, burrice crônica e violência cega, sem pudor ou vergonha alguma de ostentar essas barbaridades como se fossem virtudes. É o reinado de quem grita mais alto a imbecilidade maior.

 

E, não me interpretem mal, toda Nação é uma ficção de um modo ou de outro. Desde as fronteiras históricas, fixadas a partir de disputas sangrentas ou mediante a compra do que não estava no poder de povo algum vender, até as identidades forjadas a partir de narrativas épicas nem sempre verdadeiras ou exemplares. Nós nos inventamos “brasileiros”, “franceses” ou “filipinos” a partir de um passado eivado de exclusões, colonialismo, massacres e muita doutrinação religiosa.

 

O atual estágio de conhecimento das Ciências Humanas pelo mundo afora pode explicar cada passo dessa caminhada, desde as cavernas e savanas até nossos estados nacionais com suas ficções de “pureza” racial e cultural. E pode explicar o impacto histórico das religiões, as guerras e massacres por elas promovidos e seu papel nos genocídios empreendidos pela humanidade nos últimos vinte séculos. Em outras palavras, a estreita ligação entre estados e igrejas na promoção de interesses comuns e de uso da fé como principal ferramenta do controle social.

 

Nesse sentido, o Brasil enfrenta uma ruptura civilizatória dramática. Estamos deixando para trás o país maravilhoso, que sempre aspiramos, mas nunca chegamos a ser, para transformarmo-nos em uma caricatura patética do que de pior existe na escala planetária do fanatismo fundamentalista. E isso acontece com o aval das urnas.

 

O pânico (mentirosamente estimulado) de uma suposta doutrinação política e ideológica levou uma parte considerável da população a optar pela doutrinação religiosa (de viés mais visceralmente manipulador) como uma solução viável. Não será. Será apenas a redução do Brasil à absoluta sujeição a um simulacro hipócrita de religiosidade, que mascara a rapinagem aos bens públicos e a espoliação completa dos fiéis incautos.

 

E quem poderá prever até onde toda essa insanidade, ignorância, ganância e ódio poderão nos levar? Haverá exércitos de “irmãos” parodiando a guarda islâmica iraniana e vigiando decotes, saias, bundas, peitos e cabelos? Queimarão livros em praça pública? E depois seus autores e seus leitores? Lincharão mulheres por causa de cortes de cabelo ou de supostos pecados? Continuarão impondo às crianças sua visão deturpada da sexualidade, do amor, da ciência e do mundo, como faziam corriqueiramente antes do advento do racionalismo? Ou será que encontraremos forças para deter essa maré monstruosa de destruição de mentes, consciências e liberdades?

 

Eu não sei e tenho medo de descobrir.

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