Arquivo | abril, 2012
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Brothers in arms – Dire straits

29 abr

E já se passaram quase trinta anos….

A NECESSIDADE HISTÓRICA DO ESTADO LAICO

29 abr

Vivemos em uma República? Se respondermos afirmativamente, devemos conhecer e reconhecer que o pilar do regime republicano é, exatamente, o Estado laico e dividido em três poderes, com autoridade igualmente distribuída (executivo, legislativo e judiciário). Se uma dessas condições for suprimida, teremos um regime de governo que poderá ser denominado de qualquer coisa, menos de República.

A origem desse tipo de Estado é histórica e tem sua razão de ser não apenas na política, mas na experiência humana. Muitos se esquecem (ou nem sequer sabem) como eram as sociedades europeias antes da Revolução Francesa e da idealização e aplicação de conceitos como república, democracia e direitos humanos. Vale a pena repensar alguns desses fatos antes de entrar nesta discussão.

A presença da igreja (qualquer igreja) no exercício oficial do poder não significava apenas a imposição da fé como uma obrigação do habitante local, significava também que, participando ativamente dos círculos internos do poder, as instituições clericais beneficiavam-se fartamente do erário público e assumiam funções de controle da população similares às dos setores de segurança pública.

Acobertadas por estados monárquicos aquiescentes, as instituições clericais eram isentas de impostos e beneficiavam-se de monopólios e prebendas adjudicados pelo poder, alimentando a venalidade, glutonaria e concupiscência de padres, bispos e pastores. Conspiravam na defesa de seus interesses à revelia do Estado que os beneficiava e favorecendo, sempre, a instituição clerical que representavam. Assim, fizeram e assassinaram reis e ministros, provocaram guerras e perseguições.

Na noite de 23 para 24 de agosto de 1572, em Paris, católicos promoveram a Noite de São Bartolomeu, massacrando os huguenotes que haviam sido convidados à cidade para o casamento da princesa Margot com o rei Henrique de Navarra. Para além da violação das mais sagradas regras de hospitalidade, esse massacre sinalizou o início de uma guerra sem trégua aos protestantes e os massacres se repetiram por toda a França durante meses. Isso porque a monarquia católica não aceitava a presença de protestantes em seu território.

Um Estado teocrático, seja qual for a religião que defenda, não pode tolerar, por princípio, a presença de outras formas de pensamento. As religiões do livro (judaísmo, cristianismo, islamismo) partem da ideia de que o deus escolhido por aquele determinado grupo é o único possível e verdadeiro e atribuem a todos aqueles que não concordam com o grupo um lugar de tormento neste e em um eventual outro mundo. A intolerância, aliada ao poder, sempre acaba por produzir perseguições, torturas e assassinatos em nome de seus deuses.ImageImage

Foi assim com Hipácia, a bibliotecária de Alexandria, barbaramente escalpelada viva pelos sequazes cristãos comandados por São Cirilo (e sim, muitos dos santos católicos canonizados que você adora foram assassinos, intolerantes, fanáticos e doentes mentais). Foi assim com Giordano Bruno, queimado pela Inquisição, e que teve a língua arrancada antes de ir para a fogueira para que não se dirigisse ao público. Foi assim com Miguel de Servet, queimado pelos calvinistas por uma questão meramente semântica de hexegese bíblica.ImageImageImage

Mas esses são os famosos, para cada um desses hereges conhecidos houve milhares de anônimos igualmente torturados, queimados e assassinados das mais variadas formas por se oporem à ideologia religiosa vigente naqueles Estados. Para a manutenção desse status quo, as instituições clericais sempre fizeram questão de manter o monopólio sobre o ensino, para poder impor seus valores desde cedo às crianças e dominar a mente dos adultos. E o domínio da mente passa pelo domínio do corpo, por isso os religiosos opuseram-se fortemente às pesquisas, avanços e benefícios da medicina, para poder manter as populações sob seu poder.

O resultado? Famílias extensas, enormes, sem acesso a uma educação de qualidade, pobreza, miséria, mortalidade feminina e infantil. E medo, sempre um medo pavoroso do inferno, do castigo dos deuses, da danação eterna, da opinião e execração pública promovidas pelos religiosos. E intolerância com todos aqueles diferentes física e ideologicamente: aborígenes americanos e australianos, negros africanos e nativos de todas as partes da Ásia sentiram o racismo cristão e foram obrigados a converter-se à força para poder permanecer vivos. Os que não, foram barbaramente massacrados.

Esse é o legado histórico dos estados teocráticos, que ainda vemos presente nos países do Oriente Médio (árabes, persas e judeus). O surgimento do ideal republicano destinava-se a varrer esse entulho criminoso das sociedades ocidentais, para que indivíduos como o papa Alexandre VI (Rodrigo Bórgia), Henrique I (príncipe de Joinville, Conde d’eu e Duque de Guise), Tomás de Torquemada (o inquisidor) e  o cardeal Richelieu não pudessem surgir novamente. E se isso não funcionou (vide Pio XII, o papa de Hitler) é porque ainda não conseguimos um estado verdadeiramente laico, ainda devemos lutar muito.

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A religião deve ser tratada como um assunto de foro privado. Para o respeito pleno e cabal dos direitos humanos é necessária uma legislação que garanta o ensino laico e gratuito de qualidade (mantendo as crianças a salvo da sanha moral cristã), o pleno acesso das mulheres à contracepção e ao aborto (impedindo que o corpo feminino continue como terreno dessa guerra ideológica) porque isso é uma questão de saúde pública e o despojamento do Estado, em suas dependências e em suas ações, de todo símbolo ou atitude religiosa.         Isso é inegociável.

A liberdade religiosa não poder ser sinônimo de liberdade para cercear o acesso aos direitos de mulheres e crianças e muito menos de impor o testemunho público da fé, constrangendo todos aqueles que não acreditam, não concordam ou não praticam a mesma fé. A prática dos rituais deveria se restringir ao ambiente dos templos e das residências e não ao espaço de convivência pública. E muito menos à escola.

Se você é contra o aborto, não faça. O fato de o aborto ser liberado não o torna obrigatório. Se você quer rezar, reze na sua casa ou na sua igreja, mas não me obrigue a rezar na escola ou no ambiente de trabalho. Se você está feliz com a sua religião isso é assunto seu, não bata á minha porta porque eu cuido apenas da minha vida e você deveria fazer o mesmo.

A defesa do estado laico passa por combater essas violências ideológicas que sofremos todos os dias, mas passa também por prestar atenção à pilhagem do Estado republicano promovida pelas instituições religiosas na forma de isenção de impostos, privilégios e acesso a verbas públicas através de emendas parlamentares para ONGs religiosas e igrejas propriamente ditas. E passa por não permitir essa invasão das esferas públicas pelos fatos religiosos.

Como se vê, temos muito ainda para lutar. Não apenas para conseguir um Estado verdadeiramente laico, mas também para defender as conquistas que custaram tantas vidas e todos os dias se vêm ameaçadas pela sanha de pastores, padres e bispos ignorantes e mal intencionados que querem mergulhar-nos novamente em um mundo medieval de valores bárbaros e opressivos.

Essa é a guerra entre a razão e a intolerância que vem sendo travada há quase dois milênios. Eu já nasci lutando. De que lado você está?

Vida – de Keith Richards e James Fox.

24 abr

Amei este livro. É irreverente, comovente, badass e interessantíssimo. Nunca fui uma grande fã dos Stones, gosto de uma música ou outra mas mudei muitas das minhas opiniões ao ler esta biografia. Richards é um cara como qualquer um de nós que saiu do meio pobre e se educou por ai. É inteligente, malicioso, não se endeusa e nem se desculpa. Dá um panorama bem realista e sem pudores ou mitos sobre o auge do rock e a vida de seus contemporâneos. Vale a pena.

As vinhas da ira – John Steinbeck.

24 abr

Se você já viu ou vai ver o filme, complete a experiência lendo o livro. Steinbeck foi um dos maiores de sua geração, o que não é pouca coisa já que seus contemporãneos foram Hemingway e Faulkner (isso para ficar só nos EUA). Na década de ’30, o meio-oeste estadunidense foi assolado por tempestades de areia de proporções gigantescas, que causaram devastação e desertificação. Isso somado à depressão que se sucedeu à quebra da bolsa de valores em ’29, criou o cenário de miséria, abandono e grandes migrações humanas em busca de comida e trabalho. Neste cenário, Steinbeck deu nova dimensão ao romance e criou uma das maiores obras da literatura universal.

Música ao longe – de Érico Veríssimo.

24 abr

Pequena jóia despretenciosa dentro da vasta obra desse maravilhoso autor. Recentemente me vi recomendando-o para minha filha como antídoto para as dificuldades da adolescência. Nunca me canso de reler um bom livro, com dimensão humana e bem escrito sob todos os pontos de vista. Precisamos resgatar Veríssimo, que hoje é ofuscado pela obra também importanto de seu filho. Reencontrar Clarissa e Vasco e outras personagens dessa galeria pode ser um bom caminho.

O romance da ciência – de Carl Sagan.

24 abr

Carl Sagan foi responsável por ter apresentado a ciência séria a duas gerações e foi um dos maiores lutadores contra as pseudociências tão valorizadas nos EUA. Este livro aborda alguns elementos fascinantes na trajetória do aprendizado humano sobre o universo. Pode até ser datado, mas foi com ele que meus olhos se abriram para dimensões que passavam muito longe da vidinha provinciana de Jundiaí e sou sempre grata por ter crescido ao lê-lo. É isso que um bom livro faz!

O nome da rosa – de Umberto Eco.

24 abr

Romance policial ambientado na Idade Média e cheio de referências eruditas e populares. É a prova de que pode-se escrever bem e ser popular. Umberto Eco é um dos intelectuais mais significativos da Itália pós-moderna e este livro parece muito mais um momento de lazer do que de reflexão. Lêdo engano! A Liberdade de pensamento, de expressão, de circulação é discutida de modo magistral e consegue ser atual sem cometer anacronismos. Tem saídas inteligentes para os impasses do clássico romance policial e é uma viagem para quem gosta de História e desse período. Se você ler Umberto Eco, nunca mais vai considerar Dan Brown a sério!