A nova eugenia.

13 abr

Nas últimas décadas muito se tem falado sobre a decadência do ensino fundamental público. Até o momento as soluções implementadas tem sido pouco mais do que risíveis e, a continuar nos mesmos patamares, a tendência é de que a educação se perpetue como supremo fator de exclusão social. O despreparo intelectual dos alunos oriundos do sistema público já forma a segunda geração de profissionais com endereço certo em um mercado de trabalho totalmente dominado pelas “teorias” da espúria “ciência” da administração.

 

Entretanto, outro fenômeno cresce a olhos vistos sem receber a devida atenção da sociedade. As escolas particulares encontram-se em uma guerra sem quartel, transformadas em empresas, para obter lucros e renome em um mercado que se tornou o alvo das grandes franquias e corporações de ensino. O aluno, nesse cenário, não passa de cliente ou dano colateral.

 

Métodos de ensino que associam de modo canhestro o adestramento taylorista com os mais pífios clichês da cultura de auto-ajuda, proliferam, concorrendo com a conhecida “ética” cristã do sofrimento construtivo. Palavras de ordem como “formação de excelência” ou “formação de líderes” mal conseguem mascarar o processo de massacre a que estão sendo submetidos crianças e adolescentes cujos pais procuram um ensino de alguma qualidade. Uma nova eugenia está sendo realizada todos os dias, diante da apatia do ministério de educação.

 

Seria necessária, neste momento, uma pesquisa abrangente sobre as condições de saúde dos alunos do ensino privado no Brasil. Gastrites, enxaquecas, ansiedade, stress e pânico são alguns dos distúrbios que estão presentes no dia a dia de uma geração que está perdendo a oportunidade de viver a vida para passar no vestibular. Um ambiente de cobrança passivo-agressiva e de competição falsamente glorificada está matando os valores essenciais de solidariedade e humanismo em nossas escolas.

 

Em seu lugar, um discurso camuflado de retomada de ideologias religiosas, sabidamente ilegais em um estado laico, completa o assédio institucional. Ao invés de ensinar e praticar os valores humanistas que defendem no discurso, muitas instituições apoiam a hipocrisia religiosa camuflada em cidadania. E, às vezes, nem tão camuflada.

 

Crianças do sexto ano (antiga quinta série ginasial) são submetidas a experimentos sociais de valor pedagógico duvidoso e que mais parecem ter suas origens em um workshop das waffen SS do que em centros de pesquisa educacional. Um dos exemplos que podemos discutir é a “experiência da canoa”, que pretende ensinar como selecionar colegas para atividades em grupo e consiste em fingir que, após um naufrágio, o grupo dispõe de uma única canoa para sobreviver e nem todos cabem nela. Assim, as crianças deverão debater os prós e os contras de jogar alguém para morrer no mar em benefício de seu pequeno grupo.

 

Uma experiência como essa só se justificaria se o professor que a aplicou tivesse desconstruído o que existe por trás de tal manipulação e mostrasse às crianças as raízes históricas desse tipo de monstruosidade e as consequências sociais de sua realização. O que, não apenas não é feito, como também se acredita estar formando o caráter e a disciplina necessária à vida moderna e seus mercados. Nesse pacote de nonsense conceitos como empreendedorismo e liderança são “martelados” às crianças de maneira absolutamente insidiosa.

 

Entretanto, esse sistema não forma líderes, porque é uma falácia acreditar que a liderança poder ser ensinada. O que está sendo de fato ensinado é a obediência cega a pretensos líderes e a sistemas de crenças que não podem e nem devem ser contestados. Nossas escolas particulares de classe média não formam líderes e sim uma casta de burocratas e tecnocratas, que certamente irá desempenhar de modo acrítico as funções que o sistema lhes delegar.

 

Quando se aprendeu em tão tenra idade que é lícito jogar ao mar o “peso morto” em benefício da sociedade, torna-se fácil cortar benefícios sociais e direitos das populações menos afortunadas. Torna-se lícito fechar os olhos à miséria e responsabilizar suas vítimas pelo estado em que se encontram. Torna-se plausível sentir-se superior e ignorar os valores humanistas essenciais como solidariedade e resistência.

 

E quando nossas crianças das escolas públicas e privadas se encontrarem no cenário social do futuro, o que irá acontecer? Os mesmos adolescentes que praticam a hipocrisia da páscoa solidária, recolhendo donativos para os desafortunados, são os que infestam as redes sociais acusando os pobres de parasitismo e queimam mendigos por considerá-los sub-humanos. O que vai acontecer quando essa massa de manobra de classe média, pretensamente educada, não conseguir ocupar o lugar social que acredita corresponder-lhe e voltar-se contra seus compatriotas que já foram excluídos por uma combinação perniciosa de políticas públicas indiferentes e abismos históricos recalcitrantes?

 

Não temos o direito à ilusão. Vivemos em um mundo superpovoado, com recursos naturais finitos e em um sistema econômico que agoniza esmagado por sua própria arrogância. O mundo que essa geração vai herdar requer muita força de vontade e caráter para ser levado a melhoras visíveis e isso só poderá ser feito se houver algo em comum entre os seres humanos.

 

Quem acredita que sua cor, sua religião, seu gênero e sua origem social são superiores não vai lutar por melhorar as condições de vida ou defender a sobrevivência daqueles que mal considera humanos. Esse é o novo “ovo da serpente” que já se encontra entre nós. É uma questão de tempo para que novas “soluções finais” seduzam tanto aqueles que mal têm formação educacional, quanto os que tem esse tipo de formação acrítica de viés fascista.

 

A pedagogia do vestibular é uma indústria que serve a mais de um propósito, e todos eles são escusos. E quando alguém se insurge contra todo esse absurdo é tratado como se acabasse de chegar de Marte e não entendesse nada… Mas é exatamente por entender perfeitamente o que está acontecendo que alguns de nós temos medo…

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Uma resposta to “A nova eugenia.”

  1. Eduardo Dezena abril 16, 2012 às 11:52 am #

    O pior em tudo isto é ver que as pessoas, que deveriam de fato atentar para que os alunos tivessem condições de estudar, a cada dia criam mecanismos de controle rídiculos, tentando quebrar a resistência, forçando ao obedecimento cego de quaisquer determinações feitas pela direção das escolas, ou pelos seus prepostos.

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