Arquivo | junho, 2012

Affonso Henriques de Lima Barreto.

24 jun

Hoje não recomendo um livro e sim um autor. Lima Barreto é um dos meus favoritos de língua portuguesa, de todos os tempos. Seu texto é apaixonado, sua narrativa emocionante e sua capacidade de retratar a própria época inigualável. Não concordo com aqueles que o opõem a Machado de Assis, prefiro pensar que um complementa o outro ao oferecer um panorama do Brasil imperial e republicano imperdível para quem se interessa por boa literatura e por história. Incompreendido, perseguido e várias vezes confinado ao sistema manicomial, devido à sua adicção ao alcoól e à profunda melancolia que o perseguia sem trégua, Lima Barreto retratou uma extensa galeria de personagens trôpegos, derrotados, quixotescos, impotentes perante o destino e, mesmo assim, profundamente humanos no mais patético dos sentidos. Impossível não identificar-se com Policarpo ou Isaías. Impossível ler e não tomar partido. Impossível não perceber a atualidade de suas análises sobre a política brasileira em Os Bruzundagas. Aqui vai uma lista, para quem jamais leu Lima Barreto:

Triste fim de Policarpo Quaresma.

Recordações do escrivão Isaías Caminha.

Clara dos Anjos.

Os Bruzundangas.

A nova califórnia.

Numa e a ninfa.

E por ai vai… Quem ainda não leu pode começar por Isaías Caminha, que tem um formato um pouco mais convencional e depois se aventurar pelos contos e crônicas ou pelos outros romances. Não vai se arrenpender!

Vídeo

Entrevista de Eduardo Galeano à RTP

23 jun

sensacional, sempre….

Woody Allen

14 jun

Hoje não vou recomendar um filme, mas um diretor. Sigo a carreira de Woody Allen há bem uns trinta anos e tem sido um dos meus diretores favoritos, mesmo com seus altos e baixos. Um dos grandes problemas do cinema estadunidense perceber-se como “indústria de entretenimento” é que o entretenimento se tornou mais importante que o vehículo que o produz e divulga. Em toda a minha vida, raramente fui ao cinema por divertimento, meus filmes favoritos são aqueles que me deixam noites sem dormir, que me arrancam lágrimas e soluços, que escondem uma ironia por trás de cada gargalhada, enfim que me marcam emocionalmente e me incentivam intelectualmente. Por isso defendo Woody Allen e recomendo sua filmografia a todos que querem algo além de alguns momentos de escapismo banal quando assistem um filme. E aqui vai uma lista dos meus favoritos que recomendo ver e rever:

Annie Hall (na tradução: Noivo neurótico, noiva nervosa – vai lá saber porquê…)

Manhattan

Memórias

A rosa púrpura do Cairo

A era do rádio

Crimes e pecados

A outra

Simplesmente Alice

Neblina e sombras

Igual a tudo na vida

O sonho de Cassandra

Scoop

Vicky Cristina Barcelona

Meia-noite em Paris

Cada um desses filmes é uma pequena obra-prima com imagens e trilha sonora irrepreensíveis, diálogos bem escritos e um profundo conhecimento da natureza humana em sua nuances mais escuras e sombrias, sem perder o humor autodepreciativo e a ironia. Se vocês gostarem desses, procuram mais e divirtam-se!

Vídeo

Sultans of swing – de Dire straits (com eric clapton)

13 jun

esse concerto para Nelson Mandela é uma lembrança dos meus tempos de juventude, do boicote ao apartheid, da mobilização para a libertação de Mandela, da idéia de que o mundo pode mudar para melhor ainda em nossos dias…

uma idéia e dois contos

13 jun

estes dois contos são uma variação em torno da mesma idéia e foram escritos em 2001 e são experiências com narrativa, uma vez que ainda não encontrei a forma definitiva de “contar” esta idéia, aceito sugestões e críticas.

O QUATORZE DE MAIO

Esta é uma narrativa fictícia, ambientada nacidade de Campinas.

            Então era esse o sabor… Belmiro encolheu-se levado muito mais pelo hábito que pela dor. Embora doesse, e como… A bofetada certeira do comerciante ferira-lhe a parte interna da bochecha e o gosto agridoce, enjoativo, do sangue misturava-se à náusea causada pelo grotesco da situação. Engoliu com raiva suas razões e seguiu enfrente à procura de um canto onde pudesse lamber suas feridas de cachorro abandonado e resolver o que faria para o resto de seus dias.

Belmiro era um negro esguio, mais para magricela, de seus vinte e poucos anos. Naquele quatorze de maio, como em todos os dias dos últimos anos, ao acordar, olhara para dentro de si e recordara todos os momentos significativos de sua curta vida. Com uma diferença… Aquele era o primeiro dia… O primeiro dia da Liberdade. E foi como um homem livre que o negro Belmiro pensou a si mesmo naquele primeiro dia, naquele quatorze de maio.

Nascera escravo, de mãe cozinheira e pai latoeiro. Criara-se “nos fundos” e pouco contato tivera com o pai, que vivia alugado lá pelas bandas de Jundiaí. Nas terras “onde o boi falou”[1] criança alguma ficava ociosa, assim, logo que pôde entender uma ordem direta, passou a ajudar a mãe, carregando água, lenha e o que preciso fosse. Suas lembranças de infância não iam além disso. Brincara com outros moleques em momentos roubados, acompanhara a negra Gertrudes, sua mãe, à igreja e quando um dos primeiros trens chegara à cidade, Belmiro correra junto à grita dos outros meninos para ver a soberba novidade.

O senhor de sua mãe, hoje nome de rua, fora um sujeito que se levara muito a sério e até acreditara-se um bom senhor. Naquela época, dureza e crueldade não surpreendiam a ninguém. Talvez o Barão não batesse em seus próprios filhos e agregados com a mesma violência com que castigava seus escravos, entretanto, naquela casa, cada um tinha seu quinhão.

Por ser cria da casa e um tanto franzino, não coubera a Belmiro a rotina do eito da cana ou do café. O Barão colocara-o, logo aos onze anos, como aprendiz de marceneiro em uma das tantas oficinas que floresciam na princesa do oeste paulista[2]. O patrão era um alemão forte, mas seco de carnes e com enormes mãos maltratadas, surpreendentemente hábeis na hora de dar acabamento às peças mais sofisticadas.

Belmiro começara, como todo aprendiz, executando as tarefas mais rudes e pesadas. Com o tempo, o artesão soubera avaliar o poder de concentração, a habilidade e determinação do menino e passara a ensinar-lhe os requintes da arte de entalhar. Luterano praticante, Herr Fischer não possuía a imaginação suficiente e o sentimento para dar vida aos santos e anjos, na hora de decorar um oratório ou uma capelinha mais modesta, por isso incentivava seus vários aprendizes a desempenharem esse tipo de tarefa. E foi assim que Belmiro tornou-se não apenas marceneiro de móveis em geral, mas principalmente um artesão na execução de trabalhos de arte sacra.

De seu jornal, uma boa parte ia para o senhor, mesmo quando alugado em outros povoados, devia semanalmente entregar a quantia estipulada ao Barão. De comum acordo com seu único irmão, que fora posto à soldada e vivia de agências[3], Belmiro ajuntara um pequeno pecúlio e conseguira libertar sua mãe. Embora todos soubessem que a abolição aproximava-se, Belmiro e Genésio, seu irmão, vinham ouvindo esse mesmo palavrório desde os tempos de ’71. E onde andavam os ingênuos? Onde os libertos? A escravidão não acabara e, muito embora corroída em seus alicerces, conservava uma ilusão de eternidade difícil de suportar para qualquer jovem impaciente e voluntarioso.

Como todo escravo, Belmiro, sabia encolher-se e sumir no momento certo para evitar agressões fortuitas, sublimando seu orgulho e sua raiva para o dia em que chegasse a Liberdade. E a Liberdade chegara… E houvera comemorações… E parecia que era o que todo mundo queria, mesmo se até o dia anterior muitos não passassem sem os serviços de seus escravos. E agora era quatorze de maio e Belmiro acordara e olhara para si e para o cortiço que dividia com sua mãe e seu irmão, e duas primas que chegaram na noite de treze de maio, expulsas pela Liberdade.

Era o primeiro momento, o momento em que todos olhavam em torno de si e precisavam procurar sua subsistência e uma nova aspiração para o resto de seus dias, uma vez que a Liberdade ali já estava. Passadas as primeiras horas de euforia, a enormidade do que estava acontecendo chegava a cada um de modo diverso. Alguns caiam na estrada procurando seus caminhos, muitos tinham medo da face que a sociedade lhes oferecia e encolhiam-se em si mesmos na ânsia de passar despercebidos, outros, ainda, enfrentavam a vida para arrancar-lhe seu quinhão.

Mas isso levou tempo, naquele primeiro dia, naquele quatorze de maio, poucos sabiam o que seria de si. Belmiro, no entanto, preparara-se para a ocasião. Usara algumas escassas economias para comprar um par de botinas de segunda mão; queria sair para a rua vestindo sua Liberdade nos pés, uma vez que, quando escravo, fora descalço. Queria andar com a espinha reta pelas mesmas ruas onde muitas vezes

precisara esgueirar-se para não tomar uma bela sova.

E fora assim que acontecera… Nada de espetacular, apenas uma repetição de situações anteriormente vividas… Ao andar a esmo pela cidade, passeando sua Liberdade, Belmiro esbarrara em um “bacalhau casca grossa” e o sujeito, ao ver que o rapaz não se afastara do caminho, vibrara-lhe uma tremenda bofetada, chamando-o de “preto atrevido”. Apesar de suas botinas, apesar de sua liberdade.

A surpresa e a raiva não foram suficientes para uma reação, afinal, o comportamento do comerciante apenas confirmava as desconfianças de muitos. A liberdade não transformara Belmiro em gente, para isso precisaria ainda de muita habilidade para saber retirar-se no momento certo e garantir um retorno certeiro. Assim, Belmiro salgou a bochecha ferida e retornou à oficina…

Anos mais tarde, o quatorze de maio era ainda para Belmiro o dia da bofetada, quando uma nova epidemia de febre amarela alastrou-se pela cidade de Campinas, varrendo do mesmo modo com libertos e imigrantes. O caos estabeleceu-se, quem tinha dinheiro fugia, os que não, morriam. O comércio ficou às moscas e o trabalho escasseou. A cidade passou por momentos de verdadeira fantasmagoria, quando tudo o que se podia fazer era recolher e enterrar os mortos.

O pânico causado pelos “amarelentos”, como eram chamados os doentes, produzia reações irracionais, e muitas pessoas foram abandonadas moribundas por medo do contágio. Entre as sombras espectrais que deslizavam recolhendo cadáveres, lacrando portas e queimando roupas, Belmiro desempenhava sua tarefa com a resignação dos prematuramente envelhecidos pelo sofrimento. Perdera a mãe e o irmão para a febre e agora, sem trabalho, pouco se lhe dava lidar com os corpos hediondos e o clima de putrefação da cidade.

Certa noite, ao descarregar o conteúdo macabro da carroça, na vala comum já aberta em campo-santo, Belmiro percebeu que um dos “amarelentos” não estava morto e delirava em meio aos corpos já enrijecidos. Ao aproximar-se, reconheceu o português que o esbofeteara em seu primeiro dia de liberdade. Magro, com as faces corroídas pela febre, o homem clamava por alguém de nome Afonso, talvez um filho…

Belmiro afirmou depois que não saberia dizer por quanto tempo ficou contemplando a agonia do velho. Sua reação imediata foi empurrá-lo para a cova e começar a cobrir tudo com a terra necessária. Entretanto, mal havia começado a jogar uma pá após outra, quando se sentiu acordar do torpor em que passara uma boa parte de sua vida.

Ali estava um homem debatendo-se em agonia e pouco importava sua cor e o que fizera de sua vida. Em meio a toda aquela fedentina de morte, alguém procurava ar fresco e ele, Belmiro, que passara toda sua vida lutando para respirar, estava-lhe jogando a terra podre, já infectada por dezenas de cadáveres. Rapidamente, espalhou a terra para os lados, puxou o moribundo pelo tronco e assestou-o na carroça novamente.

Com a lucidez da dignidade recuperada, Belmiro apressou-se em direção ao “lazareto dos amarelentos” e entregou sua carga ao atendente para que providenciasse o socorro. Provavelmente o português morreria cedo ou tarde, uma vez que seu estado não deixava lugar a dúvidas. Mas não seria com um crime que Belmiro iria libertar-se definitivamente do fardo da escravidão.

Ao deixar o lazareto, Belmiro abandonou a carroça no Largo da Cadeia, mais adiante e passou pela cidade adormecida, sendo seguido apenas por seus próprios fantasmas. O amanhecer veio encontrá-lo na estrada que leva a Jundiaí, sozinho, respirando fundo o ar da Liberdade, que finalmente encontrara. Pela primeira vez em toda a sua vida sentiu-se de fato um homem livre e descobriu que sua existência recomeçara no exato momento em que puxara o português para fora da cova, e não naquele longínquo quatorze de maio de mil oitocentos e oitenta e oito, quando, na ilusão da juventude, pensara que bastariam a canetada da princesa e um par de botinas usadas para transformá-lo em um ser humano completo.

Alguns disseram que Belmiro caminhou semanas e semanas até encontrar o mar, outros que se enfeitiçou pela capital e por ali ficou. Só o que se sabe é que dois anos mais tarde, quando a cidade de Campinas voltou a aprumar-se e superou as febres, Belmiro reapareceu e entalhou uma das mais bonitas capelas do lugar, onde muitos ainda hoje batizam seus filhos e pranteiam seus mortos…


[1] Alusão a uma conhecida anedota da história campineira. Nas terras de um certo barão trabalhava-se domingos e dias santos, sem trégua. Certo domingo de Páscoa, correu o boato de que um boi  falara chamando a atenção para esse pecado.

[2] Campinas.

[3] Vivia de biscates.

 

 

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O ÚLTIMO DENTE

 


1.

 Hipácia avaliou cuidadosamente o conteúdo das duas garrafas à sua frente, antes de escondê-las novamente. Há um ano atrás isso lhe teria bastado durante semanas, agora já não sabia se conseguiria ultrapassar as próximas quarenta e oito horas. Se pudesse encontrar alguma atividade com que preencher os longos períodos de insônia, talvez a bebida não houvesse tomado conta de sua vida.

Mas… Sempre o “mas”…

Desde pequena perguntava-se porque na vida sempre havia um “porém” para tudo. Não importava quanto as coisas fossem perfeitas, cedo ou tarde aquele maldito “mas” haveria de aparecer. E, nos últimos anos, a regularidade, a frequência desse aparecimento bastava para assustar.

Hipácia abriu lentamente a única janela de seu pequeno apartamento e debruçou-se para poder sentir melhor as impressões da madrugada silenciosa. A textura de veludo esmaecido da escuridão azulada acima de sua cabeça e, abrindo-se à sua frente, por toda a extensão que a vista poderia alcançar, a trama complexa de pequenos e grandes pontos de luz, formando desenhos intrincadamente entrelaçados. As luzes da cidade…

Podia lembrar-se de sua mais remota infância, talvez seus três anos, no banco traseiro do carro, cuidadosamente aconchegada em sua cadeirinha a passear a esmo pela cidade. Ainda podia ouvir as vozes tranqüilizantes de seus pais discutindo seus trabalhos e política e comentando as músicas que o rádio emitia a intervalos regulares. Tudo isso se filtrando através dos bancos da frente, na escuridão. Mesmo quando discutiam e sua mãe chorava, deixando-a tensa e ansiosa, ainda era bom tê-los por perto e ouvir seu pai dizendo:

– Olha Hipácia, quanta luz!

E podia ouvir sua própria voz de criança maravilhada ecoando:

– Quanta luz! Quanta luz!

Mesmo agora, após tantos e tantos anos, ainda se perguntava o que teria levado seus pais – tão queridos! – a dar-lhe um nome bizarro e incomum. As pessoas mais inteligentes, às vezes, não conseguem perceber as coisas mais óbvias. Vá lá, seu nome era tudo menos banal, e certamente não gostaria de engrossar a enxurrada de Julianas e Carolinas que lhe haviam sido familiares nos bancos escolares. Mas, Hipácia?

A da Biblioteca de Alexandria, dissera sua mãe, ao contar-lhe a triste trajetória de sua homônima. Pior ainda, pensara então. Que idéia dar-lhe um nome tão marcado pela tragédia! E, além do mais, quem se lembrava hoje da biblioteca ou de Alexandria. Com sorte talvez encontrasse alguém que soubesse onde fica o Egito. Com muita sorte…

Permitiu-se um pequeno esgar, que classificou como sorriso. Estúpida! Por que é que sempre deixava a brecha? Por que permitia ao passado infiltrar-se primeiro em recordações bucolicamente inocentes, abrindo caminho para o resto?

O resto…

Se pudesse passar ao menos uma noite sem lembrar-se!… E, no entanto, sabia que a única maneira de preservar a sanidade era continuar a recordar, noite após noite. A sentir na carne o aguilhão de dor contido mesmo nas lembranças mais doces.

Lenta e deliberadamente voltou ao armário, retirou uma das garrafas e abrigou-se no sofá. Serviu-se de uma dose generosa em uma taça de cristal finamente trabalhado. Cultivava a ilusão de que enquanto pudesse reproduzir esse ritual, ainda estaria a salva da degradação. Beber diretamente da garrafa? Jamais! Em hipótese alguma…

Gole após gole, o conhaque a aqueceu e confortou. Então pôde lembrar-se de Luís Felipe. Seu sorriso bonachão e fácil. Seus olhos atentos, sempre brilhando quando conseguia captar o sentido oculto dado por alguém às palavras mais banais. Luís Felipe… Gorducho e desajeitado, parecendo um querubim rosado ou um leitãozinho satisfeito, conforme quem o olhasse.

Seus sentidos amortecidos pelo conhaque ainda reagiam. Lembranças banais como sua mania de peidar sob os cobertores e depois se matar de rir quando ela fingia zangar-se. O modo como gostava de dormir abraçado esfregando o “bimbo” em seu traseiro. “Bimbo”, por que não? Jamais poderia referir-se àquela particularidade anatômica como “pênis” ou qualquer outro termo igualmente frio e correto.

Pequenas coisas que deixariam suas jovens colegas enojadas, mas que lhe eram tão naturais. Mesmo a lembrança de seus sonoros arrotos após engolir sem piscar meio litro de refrigerante, ainda a machucavam muito. Sentia como se uma faca cega rasgasse a esmo sua carne e mãos geladas mergulhassem em seus recessos mais íntimos, machucando, apertando, retorcendo as entranhas magoadas.

Não era apenas a morte… O que mais doía era o total aniquilamento de qualquer fiapo de esperança e a perspectiva de ser obrigada a viver mais vinte ou trinta anos a estontear as lembranças com bebida adquirida ilegalmente… As leis proibindo a produção, comercialização e ingestão de bebidas alcoólicas previam rigorosas punições aos infratores. O mercado negro incipiente não constituía uma garantia de fornecimento futuro.

A inexistência de moeda corrente forçava o estabelecimento de barganhas sórdidas na aquisição de mercadorias ilegais. Hipácia já sacrificara vinte e sete de seus próprios dentes, nos últimos anos para obter o conforto da bebida. É verdade que ninguém perceberia, pois as próteses de resina fornecidas pelo receptador, na aparência, pouco se diferenciavam de seus dentes verdadeiros. Mesmo assim, chegava a hora de pensar no futuro. Restava apenas um dente de verdade. E, uma vez sacrificado, e consumido o tanto de bebida dele decorrente, que restaria?…

Havia um interesse do mercado negro por material genético, mas este se restringia apenas a dentes e ossos. Em vão, Hipácia oferecera cabelos e unhas, o camarada com quem negociava permanecera irredutível. Dentes ou ossos. E não conseguia imaginar-se sacrificando um osso após outro e sendo obrigada a viver com próteses biônicas, enquanto os pedaços de seu corpo alimentavam a pesquisa científica clandestina, em algum esconderijo desconhecido.

E o que aconteceria quando o último dente fosse sacrificado, perguntava-se. O suicídio já estava descartado de antemão, bastara uma tentativa fracassada para curar-lhe qualquer intenção de repetir tal meio de fuga. As drogas oficiais de nada lhe serviriam. Só surtiam efeito em mentalidades primárias, e Hipácia tivera pais dedicados que lhe haviam desenvolvido todas as potencialidades possíveis e imagináveis. Não podia culpá-los, nem gostaria que tivesse sido diferente. Tinha suficiente inteireza de caráter para avaliar que tivera a vida certa no mundo errado. Talvez em outra época… Talvez não.

2.

             Campinas, 21 de setembro.

Este deve ser o vigésimo diário que começo em todos estes anos. Não sei como ainda não desisti. Estou sempre a repetir que é a solidão que me força a escrever. Talvez seja. Mas, mesmo quando Luís Felipe e meus pais ainda estavam vivos, muitas vezes me peguei escrevendo diários e mantendo anotações. É uma pena que tenha sido obrigada a queimar tudo. Às vezes, de quando em quando, gostaria de poder lembrar como eu era, sem que a amargura distorça minhas memórias. Sem que a dor transforme cada viagem ao passado em um sofrimento sem fim. E cá estou eu sendo piegas e dramática novamente. Era isso o que queria evitar. Queria começar um diário para refletir racionalmente sobre minha vida e não para continuar a lamentar-me pelo papel afora. Quem sabe amanhã o texto melhora.

 

22.

 

Para que ser tão precisa com a data? Isto não será lido por ninguém mesmo. Hoje saí para andar pelo centro velho da cidade. Sei que é perigoso, mas queria ver como andam as coisas de um ponto de vista pedestre. A degradação é indescritível. Já não há palmeiras na Irmã Serafina desde 2027, mas não pude furtar-me a derramar algumas lágrimas ao passar pelo Voga. Lembrei-me do meu pai comprando-me pastéis, na volta da escola, dos rapazes passando a massa pelo rolo de abrir, do cheiro de fritura… Se bem me lembro, depois que o Voga fechou abriram uma daquelas medonhas igrejas pentecostais, com seus fanáticos ululantes. Hoje, nem isso. Apenas ruínas ocupadas por famílias miseráveis. As pessoas se amontoam nos prédios que até vinte anos atrás eram referência para todos nós. E eu penso, ainda bem que encontraram esse abrigo, já que ninguém mais se ocupa de prever-lhes um espaço ou um futuro em nossa sociedade. Acho que desistimos delas há tanto tempo, que é surpreendente ver como sobrevivem a despeito de nós. E sobrevivem. Subi a Benjamin Constant e desci a Barreto Leme, o Pastelão e o Papai Salim nem sequer deixaram traços na paisagem urbana. Tudo é deterioração. Os nomes das ruas nem são os mesmos de minha infância, mas continuo a usá-los porque foi assim que os aprendi. Nem sequer me atrevi a passar perto do antigo pátio dos leões da PUCC e da casa do Dr. Ricardo. Acho que já tive o bastante.

 

            25.

 

            Ultimamente passo os dias lembrando-me de minha mãe. De suas mãos carinhosas ao escovar-me o cabelo; de seu colo aconchegante; de como me acordava todas as manhãs com beijos e as histórias que me contava às noites. E como eu sofria quando ficava de castigo, sem poder ouvir suas histórias. Levei muitos anos para conseguir entender minha mãe. E suponho que isso seja normal. Só lamento que, quando finalmente a percebi de verdade, já era tarde. Mas isso também deve ser normal. A presença constante dos seres queridos, a proximidade, impede que realizemos qualquer análise objetiva. Somente a distância física ou a própria morte, permite-nos o afastamento necessário para uma reflexão definitiva. Gozado, como nos momentos mais cruciais, é sempre a lembrança de minha mãe que me atormenta. Luís Felipe e Papai, apesar de presentes na memória, não têm para mim a densidade da figura da Mamãe.

 

 

3.

Hipácia lembrava-se vagamente da última vez que sentira vontade de sorrir. Da última criança que olhara com interesse. Da última vez que sentira esperança. Não podia deixar de sentir que, de alguma maneira, decepcionara seus pais, aonde quer que estivessem. A educação aprimorada que lhe deram, às custas de tremendos sacrifícios pessoais, sempre tivera por objetivo transformá-la em um ser humano especial e feliz. Não podia apenas responsabilizar ao mundo e à História por ter-se transformado em uma bêbada medíocre e infeliz. Faltara-lhe alguma coisa. Se pensasse e refletisse o bastante, talvez conseguisse precisar o que fôra.

É evidente que o regime capitalista tendo entrado em falência, após a orgia neoliberal, e acabado com quaisquer referências e perspectivas de vida, interferira para sempre no futuro de todos os seres humanos. Mas esse não deveria ser o seu caso. Seus pais previram que isso aconteceria e haviam-lhe descortinado várias alternativas de opções políticas e sociais, dentro daquilo que acreditavam. Entretanto, Hipácia não conseguira apaixonar-se por esses ideais, não com o romantismo de seu pai e Luís Felipe, e muito menos com o pragmatismo e o amor com que sua mãe sempre se abandonara aos sonhos de outros, em detrimento dos próprios.

Hipácia não amava a humanidade. Na verdade, mal conseguia conter a repulsa ao deparar-se com a maior parte dos seres humanos que constituiam seu mundo. Considerava o Homo sapiens apenas como um primata mesquinho, vil, dominado por seus instintos de poder, seu egoísmo incomensurável e sua luxúria insaciável. A cada geração, pensava, nasce meia dúzia de uns quatro ou cinco seres que transcendem a mera animalidade e podem ser chamados de humanos; normalmente são assassinados pelo sistema e transformam-se em lendas. O resto mal serve para fazer volume em um planeta superpovoado.

Tacitamente, incluía-se nesse resto. Não por considerar-se no nível da animalidade, mas por abominar sua própria índole pusilânime, sua incapacidade de tomar qualquer medida que fizesse diferença mesmo que fosse para um único ser desse amplo mundo. Hipácia desistira. Deixava-se arrastar pela vida e pelo tempo, acreditando que isso a conduziria inexoravelmente rumo ao fim. E que no fim encontraria a paz.

E os dias sucediam-se vazios, insossos, preenchidos por bebida obtida às custas de seus dentes, solidão e amargura. Esmiuçando lembranças, remoendo mágoas, evitando cuidadosamente envolver-se nos destinos do planeta. Ainda sentia vergonha de si, mas, com o embrutecimento produzido pela bebida, deixava cada vez mais que seu ressentimento infantil em relação à vida suplantasse qualquer sensatez. Hipácia parecia comprazer-se na infelicidade de seu destino trágico. Jamais ocorrera-lhe desafiar esse destino como uma heroína grega ou uma musa shakespeariana. A raiva que sentia por acreditar que a humanidade não merecia o sacrifício de seus entes amados impedia-a de apreciar esse gesto e, talvez, encontrar nele o que faltava em sua vida.

 

4.

01 de outubro.

 

            Papai e Mamãe eram marxistas. Não gostavam de partidos políticos ou discursos. Viviam de acordo com suas crenças e descrenças e eram felizes juntos. Amavam-se tanto que às vezes eu tinha a impressão de estar no meio de um daqueles filmes tolos sobre amores predestinados vida após vida. Papai era meio bruto e dificilmente conseguia demonstrar afeto, mas Mamãe era muito meiga e jamais perdia uma chance de abraçar e beijar a todos nós. Quando brava era uma megera desatinada, mas acho que todas as mães são assim. Os dois deram-me uma infância de sonho em um mundo que caía aos pedaços e hoje sei quanto tudo isso lhes custou. Pena o desperdício.

 

            05 de outubro.

 

            Eu mesma, que amei tanto Luís Felipe, não seria capaz de amar como Mamãe. Ano após ano lavando cuecas, corrigindo artigos, vendo se Papai comia adequadamente, se tomava seus remédios, se estava bem ou feliz, se corria perigo. Quantas noites não passou em claro cuidando de nós como se fosse a coisa mais natural deste mundo? Apoiando nossas tolices, dando bronca e sendo firme quando resolvíamos ir além de limites razoáveis, sustentando afetivamente nosso pequeno lar, enquanto ninguém lhe dava crédito. Muito menos eu. Foi somente quando Papai foi morto na revolta de 2007 e ela “pirou” que eu percebi que a família era ela, que existíamos por causa dela. Acho que nunca serei esse tipo de mulher. Sei que nunca serei mãe.

 

            (mais tarde)

 

            Papai morreu trucidado em uma escaramuça entre a turba e o exército. Cansou-se de ver a degradação de nossa vida e tomou em armas acreditando que era a única opção que lhe restava. Saiu de casa e sabíamos que dificilmente voltaria. Mamãe, entretanto, recusava-se a aceitar sua morte ou sua ausência. Eu tinha treze anos, ela “ligou o piloto automático” e continuou  tomando conta de mim, mas nunca mais foi a mesma. Seu carinho tornou-se triste, suas carícias carentes. Passava as noites acordada vagando entre as estantes de livros, incapaz de deitar-se e sentir a ausência de Papei em sua cama. Com o passar do tempo começou a desfazer-se de móveis para comprar estantes para os livros. Arrumava-os, organizava-os e catalogava-os como muitas vezes os ouvira planejar que fariam quando se aposentassem. Acredito que isso a fazia sentir-se próxima a Papai. Nunca tocou em meu quarto ou meus brinquedos, mas desfez-se de tudo o que tinha para transformar a casa em uma grande biblioteca. Um monumento ao amor de uma vida. Tive que amadurecer no espaço que sobrou. E não foi fácil. Uma manhã encontrei-a já fria e rígida abraçada a um volume de Shakespeare, no qual Papai declarara seu amor em meia dúzia de línguas, sentada a um canto no meio das estantes. Infarto. Mas acredito que morrera anos antes, quando Papai saiu de casa e não mais voltou. Quem terminara de criar-me não passava de um fantasma. Uma sombra.

 

            Não sei amar assim. Ainda bem.

 

 

5.

Hipácia olhou para seu último dente na mão do receptador e sentiu que chegara o momento de tornar-se adulta, finalmente, e transformar-se na mulher que seus pais sonharam. Recusou a bebida que lhe era oferecida e perguntou por armas ou explosivos. Conseguiu barganhar a duras penas a troca de seu dente por três bananas de dinamite enroladas em fita isolante e sem muita garantia de funcionamento. Escondeu-as por baixo do casaco e preparou-se para refletir dobre o que faria de seu destino.

Estava com quarenta anos e chegara ao seu limite, mesmo em matéria de degradação. Não estava pronta para uma ação heroica, não queria comete um atentado qualquer para ser capturada, submetida à lobotomia e transformar-se em outra feliz operária do regime. Seus pais haviam-lhe contado sobre os homens-bomba palestinos, sobre os pilotos japoneses kamikazes, sobre todas as formas de suicídio ideológico. E também não era isso o que queria.

Se bem que precisasse tomar um rumo e definir uma estratégia, não encontrava respostas adequadas no passado. Qualquer autoridade suprimida logo seria substituida por outra. Eram todos fantoches. O suicídio puro e simples também era ridículo e vazio de significação. Sentia-se impotente, parecia como se qualquer gesto individual estivesse fadado ao fracasso, à mesmice. Hipácia não pôde deixar de pensar e refletir sobre a futilidade dos gestos e a insignificância dos seres humanos, ironicamente, do fundo de seu desalento.

Dias e noites passou a contemplar as três bananas de dinamite, pateticamente enroladas em fita isolante. Que diferença poderiam fazer? De tanto pensar, esqueceu-se da bebida, da mágoa, da amargura. Surpreendeu-se ao constatar que três patéticas bananas de dinamite conseguissem preencher sua vida de tal modo. Passou meses vagando com o explosivo escondido por baixo da roupa, enrolado no próprio corpo, à procura de um momento propício, do instante exato, da causa justa. E nada acontecia. O tempo parara. As lembranças não faziam mais sentido. Certa manhã, ao acordar, constatou que não conseguia lembrar-se das feições de sua mãe, e chorou como a criança órfã que era.

Dois anos após o dia em que sacrificara seu último dente, Hipácia abordou o receptador novamente e perguntou-lhe se poderia trocar as três bananas de dinamite enroladas em fita isolante por livros. O camarada achou graça. Tinha depósitos e depósitos cheios de livros estragando. Ninguém mais sabia ler, ninguém queria. Deixou-a escolher dez livros em troca da dinamite, e disse-lhe que qualquer coisa que trouxesse seria melhor que os livros.

Então, certos vinte e dois anos após a morte de sua mãe, Hipácia reabriu a biblioteca de seus pais. Limpou cada livro, reorganizou os catálogos, recuperou espaços e memórias esquecidos. A cada semana, ao receber sua cota de comida do Estado, separava quase a metade e trocava por livros com o velho receptador.  Começou a receber as crianças da vizinhança e ensinou-as a ler, emprestou-lhes livros, deu-lhes alguns, ensinou-as como formar suas próprias bibliotecas. Distribuiu clandestinamente livros proibidos e escreveu para que todos soubessem que a única esperança de resgate da dignidade do ser humano encontrava-se nos livros.

E houve um dia, quando alguém referiu-se a ela como Hipácia, a bibliotecária, em que descobriu que entrara para uma grande fraternidade. Encontrara seu lugar. E finalmente aceitou o fato de que seus pais haviam escolhido o nome certo, correto e adequado.