REFLEXÕES SOBRE PAIS E FILHOS

16 jul

Quando eu me encontrava com três para quatro anos (não me lembro ao certo) tomei os comprimidos para dormir de minha mãe. O que de fato me lembro é que devia ser domingo porque, após o almoço, meus pais decidiram que para dormir a siesta era necessário separar-nos, ficando embaixo minha mãe e minha irmã e no andar de cima eu e meu pai. Devia ser verão porque estávamos deitados no chão do corredor perto da porta da varanda, provavelmente para tomar o ar mais fresco. Também me lembro de que comecei a tossir, uma tosse seca e intermitente e tive muito medo de acordar e incomodar meu pai que dormia e por isso fui ao quarto dos meus pais e peguei o primeiro remédio que vi, na esperança de que a tosse parasse.

Depois disso, não sei quanto tempo, ainda sou capaz de sentir meu pai me arrastando para o quintal, segurando-me pelos cabelos da nuca, enfiando dois dedos em minha garganta e virando minha cabeça em direção a um ralo para vomitar. Posso sentir perfeitamente o toque duro de suas mãos e nunca vou esquecer seu rosto zangado, furioso comigo e seu tom de voz implacável fazendo-me sentir, pequena, ruim e errada. Levei mais de quarenta anos para superar isso e poder engolir remédios sem que minha garganta se feche e a angústia tome conta de mim.

Minha relação com meu pai, entretanto, jamais se recuperou. Meu pai salvou a minha vida naquele dia e, ao mesmo tempo, me fez sentir tão indesejada que, pelas duas décadas que se seguiram, a morte sempre me parecia preferível à minha existência. Hoje, dez anos se passaram desde que meu pai descansou e ainda não consigo dimensionar porque tive de carregar a culpa de tudo isso.

Eu não tinha idade para saber como proceder e, mesmo assim, durante os anos que se seguiram, meus pais me fizeram assumir a responsabilidade pelo acontecido. Em momento algum foi cogitado que manter remédios e produtos químicos fora do alcance das crianças é obrigação dos pais, bem como não dormir deixando crianças pequenas acordadas. Mas, acredito que a maioria dos meus contemporâneos concordará que nossos pais educavam revezando medo e culpa e negando afeto e aprovação para conseguir moldar-nos de acordo com o que consideravam adequado.

Suponho que foi isso que levou muitas mães da minha geração a aderir a novas escolas de educação que rejeitavam essa prática punitiva judaico-cristã. Sei que foi o meu caso, porque, uma vez que me tornei mãe, passei a fugir com horror de qualquer comportamento que se assemelhasse ao dos meus pais. Sempre que tentei educar minha filha, procurei deixar claro que meu amor era incondicional e que eu jamais condicionaria meu afeto á sua obediência.

Não sei se consegui. Cometi erros, como todos cometemos e me arrependo de diversas atitudes que tomei no calor da hora, principalmente porque nesses momentos descobri as marcas condicionantes profundas que meus pais deixaram em minha psique. Nos momentos em que me surpreendi reagindo como eles, precisei de toda a força de vontade que pude conseguir para romper esse ciclo freudiano.

Entretanto, o que nunca consegui foi parar de desejar a aprovação dos meus pais, mesmo sabendo que nunca poderia obtê-la porque eles pertencem a uma geração que acredita que o elogio “estraga” as pessoas e que se você age corretamente “não faz mais que a obrigação”. A ausência de reforço positivo é responsável pela grande maioria de nossas inseguranças e carências, por isso acreditamos que fornecendo esse tipo de reforço estamos ajudando nossos filhos a superar uma etapa da vida. E não temos como saber se o raciocínio está correto até que nossos filhos se tornem adultos…

Quando eu estava na minha primeira juventude não queria ter filhos porque acreditava que, se não conseguisse superar os traumas da minha criação, seria uma péssima mãe. Hoje eu sei que levamos uma vida inteira e dificilmente conseguimos superar ou ajustar contas com nossos pais e os recalques que nos causaram. E que são esses mesmos recalques e traumas e, principalmente, o modo como lidamos com eles que nos definem como pais.

Uma coisa parece não ter mudado muito em nossa sociedade, os pais ainda não assumem a responsabilidade pelo que acontece a seus filhos. Ao invés de educar e impor os limites necessários à vida em sociedade, muitos pais delegam à escola e a outras instâncias sociais suas obrigações. Outros, ainda, preferem dopar seus filhos ao invés de conversar, quando seu comportamento se revela socialmente inadequado.

Até hoje me pergunto se eu seria uma pessoa diferente se meus pais algum dia tivessem se desculpado por não tomar conta de mim direito no episódio dos remédios… É por isso que uma das atitudes que sempre defendo perante pais e educadores é a de assumir nossos erros e pedir desculpas às crianças. Isso não vai tirar nossa autoridade ou fazer que nos respeitem menos. Ao contrário, acredito que se educamos pelo exemplo, então nosso comportamento deve ser honesto e responsável e nunca devemos esquecer que uma criança é um ser humano em formação e merece ser tratada com o mesmo respeito que dedicamos a qualquer adulto.

Isso não significa que devemos permitir que se comportem como “monstrinhos” no espaço público, na escola ou em casas de outras pessoas. Que subam em móveis, que toquem tudo o que veem ou que gritem quando lhes dá vontade; que andem descalços em lugares perigosos, que agridam seus colegas e professores ou que corram por ai sem ver onde andam. É nossa obrigação cuidar para que não se machuquem e educá-los para que se tornem pessoas decentes.

Quando tem um comportamento inadequado ou cometem um erro devemos olhá-los com franqueza e honestidade e deixar claro que isso não deverá ser repetido, mas devemos demonstrar-lhes que, como crianças, estão aqui para aprender e que um erro não as torna pessoas ruins e não compromete nosso afeto. Um “não” honesto tem mais valor que chantagem emocional, castigos físicos ou todo o arsenal judaico-cristão de medo e culpa. Excesso de permissividade é tão prejudicial quanto a repressão propriamente dita.

Assumir nossas responsabilidades deve incentivar nossos filhos a assumir as próprias e não tirar-lhes a autonomia e a culpa totalmente. Se quisermos adultos decentes e responsáveis não podemos facilitar sua vida a ponto de que pensem que a responsabilidade pelas suas vidas sempre será nossa porque os trouxemos ao mundo. Senão teremos passado de carregar as culpas de nossos pais para carregar as de nossos filhos…

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