Sobre as categorias e sua análise histórica.

30 set

Recentemente participei de um evento em que um dos palestrantes analisava a situação atual do movimento sindical e usava termos como “modo de produção capitalista”, “forças produtivas”, “burguesia” e “classe operária”, com uma naturalidade tal, como se essas categorias dessem conta de explicar o mundo em que vivemos e a realidade dos movimentos sindicais mundo afora. A estranheza que senti, levou-me a questionar em que mundo vivem as pessoas que analisam a realidade a partir de categorias centenárias e esquecem de perceber que a história está viva, é dinâmica e o mundo mudou muito em cento e cinquenta anos. A partir disso, resolvi refletir um pouco sobre o assunto.

Há mais de vinte anos, quando comecei minha produção historiográfica, já não conseguia entender-me com o mundo e a história entendidos a partir de categorias mecanicistas, que o marxismo ortodoxo defendia. Nesse contexto, tive sorte, de ter feito a minha graduação quando a academia brasileira descobria Thompson, Ginzburg, Foucault, LeGoff e Duby, o que me deu uma amplidão teórica maior e uma profundidade na minha análise documental, que as categorias do marxismo ortodoxo jamais alcançarão. Não que estes historiadores não apreendessem o mundo através de categorias, também, a diferença radicava na possibilidade de transcender a categoria através da análise documental, criando novas interpretações e atribuindo novos sentidos aos comportamentos de grupos sociais e indivíduos.

A possibilidade de transitar do grupo ao indivíduo, e assim perceber a sociedade tanto em seus momentos de confronto, quanto naqueles de negociação e acomodação, bem como as durações temporais e sua importância cultural na auto-percepção histórica dos sujeitos em seu devir e agir, são aspectos jamais encontrados nos trabalhos marxistas ortodoxos, que pensam o Brasil. E sempre me perguntei o porquê, uma vez que Marx, ele mesmo, não era tão limitado em suas análises, a bem da verdade, a julgar por seus textos, Marx nem era marxista… Sim, embora Marx defendesse a revolução social, em seus trabalhos acadêmicos jamais a encarou como uma inevitabilidade determinista universal.

O que me levou a refletir que, bem antes de Francis Fukuyama, muitos marxistas já profetizavam o fim da história, ao acreditar piamente em um devir histórico etapista, determinista e que levaria infalivelmente à revolução comunista. De um modo ingenuamente milenarista, diversos historiadores, sociólogos e cientistas políticos passaram gerações discutindo os porquês da alienação das classes populares, que não percebem sua vocação revolucionária. Atribuindo culpas aos capitalistas, sua mídia manipuladora, sua sociedade de massas e sua propaganda consumista, sem sequer questionar se existe mesmo uma vocação revolucionária nas classes populares, ou se isso é uma construção ideológica historicamente datada.

A historiografia já transcendeu, felizmente, essa etapa. O movimento sindical e muitos cientistas políticos, ainda não. Vem daí a linguagem anacrônica e a cegueira na hora de perceber a realidade social contemporânea.

O que é “a burguesia”? Não seria mais correto pensar em setores burgueses da população, uma vez que o ideário tradição-pátria-família transcende os limites econômicos de classe? Um médico, um burocrata e um empresário são teoricamente burgueses, mas será que podem ser percebidos como um bloco monolítico de interesses políticos e econômicos afins?

As mesmas perguntas podem ser dirigidas à tão propalada classe operária, que não passa de uma colcha de retalhos composta de setores com interesses muitas vezes antagônicos e que não dialogam entre si. Alienados? Eu teria muito receio de incorrer na arrogância de julgar seus comportamentos desse modo, afinal eles estão lutando para sobreviver e, se para isso precisam recorrer à acomodação, por que deveriam ser condenados por uma casta de intelectuais que, em sua maioria, são funcionários públicos de um estado que condenam?

Quanto ao “modo de produção capitalista” e as “forças produtivas”… Em que mundo vivem certos analistas, que não perceberam a revolução tecnológica dos últimos cinquenta anos? Afinal, quanto mais os mercados financeiros e instituições bancárias se entrelaçaram, com a conivência dos estados, e utilizando os recursos eletrônicos para multiplicar dinheiro virtual, mais insignificante se tornou o ser humano, que hoje habita um planeta superpovoado e realiza a produção em condições sub-humanas, quando não foram totalmente eliminado do sistema econômico e sobrevivendo às suas margens.

Os poucos setores trabalhistas organizados, no Brasil, obedecem a sindicatos de cunho varguista e estão, em sua maioria, no setor público… No setor privado, metalúrgicos, bancários, químicos e afins, foram migrando para sindicatos que optaram pela acomodação e de revolucionários nada tem. Nesse contexto, é evidente que quem percebe os mundos do trabalho através da ótica marxista ortodoxa está “mais perdido que cego em tiroteio”, no dizer popular…

Seria mais honesto constatar que nossas ideologias não dão conta da complexidade do momento vivido e que precisamos pensar e repensar muito para chegar a um novo patamar de entendimento das lutas sociais. Sair para a rua pregando a revolução, sem saber o que se fará com o poder, se vitorioso, ou como organizar uma população que permanece indiferente, apesar de tudo, me parece de uma ingenuidade criminosa. E uma cegueira imperdoável.

O operariado é uma minoria entre as classes populares e está longe de ser hegemônico entre si. E se, dadas as condições de mudança, as classes populares optarem pelo sistema que ai está, já que são maioria? Será que os revolucionários de plantão engrossarão as fileiras dos “classemédiasofre”?

A bandeira revolucionária está em crise há décadas porque as pretensas vanguardas não têm autocrítica e pretendem saber melhor o que convém a toda a sociedade, do que a própria sociedade e ignoram as mudanças temporais e históricas, recorrendo a uma retórica centenária; lendo o mundo através de referências defasadas e defendendo pateticamente um protagonismo social que jamais tiveram. A vida passa ao largo e as classes populares vão sobrevivendo e negociando seu trajeto pelo mundo apesar das vanguardas, e não por causa delas. A história não é uma entidade sobrenatural e sim o modo como os homens entendem e contam seu trajeto pelo mundo.

Nesse sentido, ninguém é dono das soluções finais para o mundo e suas gentes, muito menos é capaz de saber melhor que setores inteiros da população aquilo que nos convém. Se essa crítica serve para julgar a atuação das elites, também deveria servir para avaliar os setores da esquerda, revolucionária ou não. Ninguém está acima do bem e do mal e nenhuma ideia é tão boa que não possa ser contestada.

Aonde vamos e o que faremos é algo que nos toca descobrir ao longo da caminhada juntos, o mais não passa de anacronismo…

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2 Respostas to “Sobre as categorias e sua análise histórica.”

  1. Eduardo Roberto março 30, 2014 às 11:53 am #

    No final, o pessoal conservador (que não é conservadora por más intenções) acaba ficando com raiva dos esquerdistas, pois geralmente a esquerda ortodoxa (que pelo que eu entendi, é dominante aqui no Brasil, certo?) não está aberta para discussões. Ou você concorda sem questionar, ou é taxado de reacionário alienado que só serve pra ser motivo de chacota.

    O tiro acaba saindo pela culatra.

    • annagicelle março 30, 2014 às 4:36 pm #

      É, Eduardo, o sectarismo é muito triste e limita demais nossas opções de diálogo. Mesmo assim, ainda existe uma boa quantidade de professores com quem se pode trocar ideias e enriquecer nossas experiências!!! Obrigada pelo seu comentário e um grande abraço!

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