TRANSGÊNICOS, BIORISCO E SEGURANÇA ALIMENTAR.

8 out

Este é um texto de reflexão sobre o que comemos, como comemos e sobre os significados históricos e culturais do processo de transformação do alimento em produto e do produto em alimento.

Nos últimos vinte anos, passamos por vários problemas de saúde aqui em casa, o surgimento da hipertensão, a necessidade de constante vigilância dos índices de glicemia e triglicerídeos (posteriormente o colesterol também), bem como (no meu caso) a perda da vesícula, acabaram ocasionando uma atenção maior aos alimentos e seu preparo. Não é de hoje que a nossa alimentação vem se modificando: nos anos 90 diminuímos o sal e cortamos boa parte da gordura, nos anos 2000 foi a vez de diminuir radicalmente o fast food e os alimentos processados e incluir na dieta o azeite extravirgem, as castanhas e o os peixes com ômega 3, finalmente na década em curso tivemos que diminuir o açúcar e incorporar as especiarias.

Agora chegou o momento em que tivemos que aderir aos produtos orgânicos e passar a vigiar radicalmente os produtos industrializados a procura do famigerado “tezinho” dentro do triângulo amarelo. Sim, porque os alimentos e produtos transgênicos chegaram sem avisar e invadiram nossa vida sem ser chamados. Hoje, soja e milho são transgênicos, em sua maioria, o que quer dizer que, além de geneticamente manipulados, recebem doses maciças de herbicidas agrotóxicos e não deveriam ser liberados para o consumo, apenas para a produção de combustíveis.

A consciência alimentar tem um custo, alimentos orgânicos são muito mais caros que aqueles produzidos com doses maciças de adubos químicos e herbicidas, em detrimento de nossa saúde. A carne, produzida sem aditivos químicos, além de rara é de tal modo cara que torna seu consumo impossível. Do mesmo modo, para nós que adoramos a comida japonesa, é necessário consumir shoyu, missô e tofu importados para ter certeza de que o produto não contenha soja transgênica.

E por ai vai, produtos norte-americanos devem ser evitados devido às deficiências em sua rotulagem e à operação quase criminosa da Monsanto na indústria alimentícia local. Do mesmo modo que, os laticínios argentinos também apresentam altos níveis de contaminação química. E sabe lá o que mais que nem sabemos…

A pergunta é: não podemos comer mais nada?????!!!!!

Não deveríamos, mas, como não temos alternativa, seguem aqui algumas dicas que venho desenvolvendo nos últimos meses para evitar males maiores.

  • Passe longe da seção de congelados do supermercado, os pratos prontos usam soja e amido de milho transgênicos para obter textura e consistência.
  • Pesquise as feiras de produtos orgânicos e compare preços com os mercados à procura de alimentos mais baratos; você também pode se aproximar dos produtores e estabelecer um canal de diálogo para negociar preços para condomínios, escolas ou famílias extensas.
  • Verifique sempre a fórmula ou composição dos produtos e alimentos industrializados, mesmo não sendo geneticamente modificados, podem ser tóxicos.
  • Pesquise o máximo que puder, sempre existem alternativas: procure receitas que ensinem a substituir os produtos contaminados por alimentos com funções similares.
  • Esqueça o fast food, faça em casa, dá trabalho, mas pode ser a ajuda que faltava para reunir a família em torno de interesses comuns.
  • INFORME-SE!!!!! Hoje, a informação é uma arma da qual não podemos prescindir e está tudo por ai na internet, é só ter paciência para procurar.
  • Se você for como nós, que vivemos do próprio trabalho e não podemos dispor de um grande orçamento, minimize: continue consumindo a proteína animal convencional, mas opte por frutas, verduras e legumes orgânicos.
  • Se os molhos e temperos no mercado usam soja e milho transgênico, plante ervas no seu quintal, ou em vasinhos na lavanderia, e abuse dos temperos naturais.
  • Tome cuidado com restaurantes, cantinas e marmitex, que são ótimos em emergências ou na pressa, mas podem mascarar uma comida nada saudável.
  • Recentemente descobrimos que o fermento químico (aquele mesmo da latinha Royal, que aprendemos a usar com nossas mães ao preparar o primeiro bolo) é um produto transgênico porque vem sendo diluído com maisena, pelo fabricante, visando um lucro maior. Já havíamos abolido a maisena devido ao “t” na embalagem e passamos a pesquisar um substituto para o fermento também. E, hoje, podemos garantir que encontramos a solução: uma parte de bicarbonato de sódio para duas partes de cremor tártaro e seu bolo ficará até melhor do que antes.

Mesmo assim, chegamos à conclusão de que não basta mudar a alimentação se não houver uma mudança na consciência e percepção do alimento e suas funções. Comemos por prazer, mas, biologicamente, comemos para obter os nutrientes que possibilitem a nossa sobrevivência nas melhores condições possíveis. Quando a comida deixa de cumprir sua função como alimento e, quando aquilo que lhe dá sabor torna-se veneno, então está na hora de parar e reavaliar.

Historicamente, passamos por um período em que a massificação do consumo transformou os alimentos em produtos e determinados produtos em alimentos, em detrimento de nossa saúde, da saúde do planeta e da sobrevivência de setores inteiros da sociedade, alijados da produção pelas grandes corporações agroindustriais e alimentícias. Isso significa que as famílias que sobreviviam da agricultura familiar em pequenas propriedades pelo planeta afora, hoje são pressionadas, social, política e economicamente para ceder seus espaços às grandes corporações.

As corporações alimentícias visam lucro, acima de tudo, e pressionam os setores do executivo e do legislativo (junto aos governos) para ter seus direitos assegurados e seus produtos aceitos sem crítica ou discussão. E as últimas duas gerações são cúmplices porque preferem abrir um pote ou uma lata e encontrar algo que levemente lembre um alimento, do que ir para a cozinha e transformar o alimento fresco em comida, como acontecia no passado.

Se estamos defendendo uma volta ao passado? De maneira alguma, hoje sabemos muito mais sobre o valor nutricional dos alimentos que duas gerações atrás. Mas não basta saber se o alimento usado estiver contaminado com genes manipulados ou herbicidas agrotóxicos. Temos que mudar algumas práticas cômodas e retomar o contato com produtos naturais.

Não temos todas as respostas, este é o início de uma caminhada que poderá definir nosso futuro como espécie. O que não podemos é permanecer indiferentes enquanto dispõem de nossa segurança alimentar para beneficiar uma dúzia de corporações que já possuem os governos de metade do planeta. A nossa única arma, neste momento, é a informação e com ela podemos criar pequenas ilhas de sanidade em meio ao massacre ideológico promovido por esses mercados.

INFORME-SE – PESQUISE – PENSE – RESISTA – MUDE!!!!!!

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