Arquivo | novembro, 2012

ORIENTE MÉDIO: Onde mitos e realidade se encontram.

25 nov

Antecedentes do conflito árabe-israelense.

 

            Para entender a atual situação do Oriente Médio, é necessária uma longa viagem ao passado histórico e ao imaginário mítico da civilização ocidental. Árabes e israelenses pertencem à mesma origem étnica mas encontram-se separados pela barreira intransponível da religião e de vários milhares de anos de conflitos territoriais.

Vamos começar nossa trajetória a partir dos mitos de criação surgidos na região. O Pentateuco, ou seja, o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), atribuídos a Moisés, representa um ponto de referência importante tanto para os judeus quanto para os cristãos. Esse conjunto de textos, também conhecido como Torah, entre os judeus, estabelece os mitos de origem daqueles que professam o Judaísmo e as diferentes religiões cristãs (Católica Romana, Ortodoxa e Protestantes).

A exegese dos textos bíblicos, principalmente do Antigo Testamento pode esclarecer-nos um pouco dos antecedentes do atual conflito e da mentalidade bélica israelense. Não devemos entrar no mérito se Moisés existiu ou se é verdadeiro o conteúdo de seus textos. O que de fato importa é que, as pessoas envolvidas no conflito, acreditam e regem-se por esses mitos, emprestando-lhes assim, o status de “verdades”.

Nesse sentido, devemos começar nosso questionamento no episódio conhecido como Dilúvio, e suas conseqüências. Acreditam judeus e cristãos, que após ter criado o mundo, seu deus enfastiou-se dele e resolveu destruí-lo. O motivo alegado foi a decadência moral gerada pela cópula entre criaturas celestes e seres humanos.

Totalmente decidido a arrasar a humanidade de então, esse deus convocou Noé e sua família, a quem considerou digno da sobrevivência, e conclamou-os a construir uma arca e preservar um par de cada elemento de “sua criação”. Prontamente obedecido, o deus dos judeus precipitou toneladas de água sobre a face da Terra e varreu definitivamente toda a vida que nela se encontrava. Quando as águas baixaram, Noé e os seus desembarcaram os animais e restabeleceram a vida a partir do Monte Ararat, que hoje acredita-se localizado na fronteira entre a Turquia e a Armênia.

Assim, judeus e cristãos compartilham a crença mítica de que todos os seres humanos descendem da posteridade de Noé. De maneira que, teríamos:

Sem = semitas

Cam = africanos

Jaffet = indo-europeus,

como origem da atual humanidade. Qualquer omissão quanto aos chineses, japoneses e indígenas em geral, pode ser analisada como conseqüência da ignorância e limitação quanto ao resto do planeta, por parte daqueles que escreveram os textos bíblicos e seus posteriores intérpretes.

Podemos, a priori, perceber que árabes, palestinos e israelenses pertencem a um mesmo grupo étnico, o dos semitas. Estabelecida sua origem mítica, devemos tentar entender os motivos do abismo cultural que hoje os separa. Devemos continuar este estudo dentro da formação religiosa desses povos.

Moisés, no Pentateuco, estabelece não só os mitos de criação do povo hebreu, mas também as principais bases para o estabelecimento de um “Estado Teocrático”, ou seja, de um reino governado a partir de uma perspectiva religiosa. Leis, totens e tabus que até hoje regem um contingente significativo de judeus praticantes, originaram-se do suposto diálogo entre Moisés e seu deus. As bases da religião e da nacionalidade judaica podem ser estabelecidos a partir de Moisés.

A figura de Moisés, em se aceitando sua existência (mesmo na ausência de evidência científica), constitui um estudo psicológico sumamente interessante. Filho de uma família de escravos no Egito, Moisés foi abandonado (por medo a que fosse executado junto com outras crianças judias recém-nascidas) e recolhido pela família do Faraó, sendo praticamente adotado e educado entre os egípcios, até o momento em que o deus dos judeus revelou-se-lhe e indicou-lhe a missão de liderar seu povo. A partir daí, Moisés rompeu com a única família que conhecera, a do Faraó (cuja identidade não é especificada no texto), e juntou-se a aquela que seria sua família original, para liderar o fenômeno que foi chamado de Êxodo.

Alguns perguntarão, qual o motivo do cativeiro dos judeus no Egito. A Bíblia apenas especifica que os descendentes dos doze filhos de Jacó estabeleceram-se no Egito, proliferando de tal forma que chegaram a ameaçar a unidade física deste reino, sendo então subjugados e escravizados. Seria esta a origem mítica das dozes tribos de Israel, ou seja, a descendência dos doze filhos de Jacó, filho de Isaac, que era filho do patriarca Abraão.

Entretanto, o Êxodo não foi fácil e nem mesmo rápido. Moisés precisou de anos para convencer primeiro os judeus de que era enviado de seu deus, e depois os egípcios de que deveriam deixá-los partir ou sofrer a vingança desse mesmo deus. Para provar o apoio divino, Moisés infestou o Egito de pragas malignas e cruéis, destruindo suas colheitas, seus estoques, seus primogênitos e seus exércitos. A se acreditar em toda essa fantasia, o milagre seria mesmo a sobrevivência do Egito, enquanto nação, depois da sanha vingativa da perseguição movida pelo deus de Moisés.

Após deixar o Egito e atravessar o deserto, Moisés e seu irmão Aarão conduziram os judeus àquela que seu deus chamava de “terra prometida”. E, como na popular e cruel piada do judeu que vende a mãe, mas não entrega, o deus de Moisés destinou a seu povo escolhido uma terra já ocupada. Moisés liderou seu povo, fornecendo-lhes uma identidade e um conjunto de leis a seguir para o estabelecimento de um reino guiado por seu deus, mas não viveu para ver a ocupação da “terra prometida”.

Quem liderou essa campanha, na região que durante muitos séculos depois seria conhecida como Palestina, foi Josué. E Josué varreu, uma após a outra, cidades inteiras para fixar os judeus na região e criar o reino de Israel. Diversos povos foram deslocados  ou assassinados para dar lugar  aos escolhidos de deus.

Se continuarmos na leitura atenta da Bíblia, chegarmos aos reinados de Davi e Salomão, que consolidaram a riqueza e o poder de Israel, mas que reinaram em meio a intrigas, violência interna e guerras intermináveis com seus vizinhos. No afã de edificar a glória de Israel e do Templo judaico, tanto Davi quanto Salomão extorquiam impostos e tributos de seu povo e de seus vizinhos, governavam com crueldade e violência, e cobiçavam sempre mais e mais riquezas (ouro, aromas, marfim, pedras preciosas, etc.). Nesse sentido, tornaram-se desde logo uma ameaça constante a sudeste do Mediterrâneo.

E agora já está na hora de abandonarmos os períodos míticos, não datáveis e sem comprovação, e ingressarmos na segurança da evidência histórica. Lá pelo ano 323  a.C., quando Alexandre Magno faleceu, a Palestina – conhecida então como Judéia – havia sido anexada ao Império da Macedônia. Isso explicava-se em parte porque Alexandre foi um daqueles guerreiros cujos exércitos varreram a região mediterrânea oriental, conquistando todos os povos e cidades em seu caminho. E em parte porque os judeus estavam sempre em guerra, quer fosse contra seus vizinhos, quer fosse entre si, o que os enfraquecia para resistir ao tipo de campanha movida por Alexandre.

Tendo falecido muito prematuramente Alexandre, seu império esfacelou-se, sendo os territórios divididos entre seus generais. Assim, a Judéia passou a integrar o Reino dos Ptolomeus, com base no Egito, em 301 a.C.. Este reino ainda subsistia por ocasião da expansão romana e manteve-se independente até 31 a.C. quando Júlio César,  liderando as legiões romanas, ocupou-o.

É nesse contexto que aparece um novo personagem nesta história, para o qual não temos evidências históricas plausíveis, e sim uma tradição oral, que foi fixada em texto e transformada em religião. Jesus, nascido em Nazaré, na região da Galiléia, e alcunhado “o Cristo”, protagoniza o principal cisma permanente conhecido da religião judaica. Sua trajetória, quer seja mítica, quer seja verdadeira, mudou a face do mundo, recriou e dividiu o calendário e foi responsável pelo atual perfil da sociedade ocidental.

No ano I de nossa era, datação arbitrária que toma como referência o presumido nascimento de Jesus, os judeus já levavam vários séculos subjugados por impérios maiores. Devido a antigas profecias, aguardavam a vinda de um “messias”, um rei guerreiro que os lideraria em direção à liberdade, em nome do deus, senhor de seus exércitos. Talvez em conseqüência dos séculos anteriores de guerra e barbárie, a única alternativa que os judeus aceitavam era a luta armada para expulsar os romanos da Judéia.

Mas não era essa a mensagem de Jesus. O novo profeta era portador de uma mensagem muito mais revolucionária que qualquer grito de guerra, entretanto, uma boa parte do povo judeu permaneceu-lhe indiferente. Todos sabemos como essa história terminou, traição, mesquinharia, indiferença e sadismo caracterizaram o suposto suplício de Jesus e, com seu martírio, criaram uma memória que alterou a divisão do mundo.

Após a morte de Jesus, no reinado de Tibério, seus doze seguidores receberam a missão de propagar a mensagem cristã na conversão dos judeus. Pedro, considerado o fundador da Igreja cristã, nem ao menos tolerava a hipótese de transmitir-se os ensinamentos do Cristo aos gentios ou aos povos pagãos do longínquo oriente ou do sul da África. Foi Saulo Paulo (nascido em Tarso de pais judeus de crença farisaica e que, acredita-se, viveu entre o ano 5 e o ano 67 de nossa era) que insistiu e conseguiu que a mensagem de Jesus fosse transmitida aos outros povos, incorporando o resto da humanidade ao Cristianismo. Em um primeiro momento, esse Paulo era um perseguidor incansável dos cristãos, em nome da ortodoxia judaica, mas converteu-se após um suposto episódio milagroso e passou a explorar as oportunidades oferecidas pela nova fé.

Versa a tradição oral cristã que, tanto Pedro quanto Paulo (posteriormente canonizados pela Igreja Católica Apostólica Romana) foram supliciados no reinado de Nero, por ocasião das grandes perseguições romanas aos cristãos. E durante as décadas que se seguiram, judeus e cristãos foram igualmente perseguidos e subjugados pelos romanos como potencial ameaça ao seu Império. A História, entretanto, reservou-lhes destinos muito diferentes.

Em 135 d.C., o imperador Adriano sufocou uma nova revolta dos judeus e expulsou-os de Jerusalém, negando-lhes o acesso a sua principal cidade. Data daí o início da chamada “Diáspora”, que levaria os judeus cada vez para mais longe da Judéia ou Palestina. Os cristãos, entretanto, disseminaram-se de tal maneira entre os súditos do Império Romano que chegaram com sua mensagem ao seio das famílias nobre de Roma. E em 313 d.C.,  Constantino, o imperador, garantiu a tolerância aos Cristianismo em todo o território romano.

Em 330 d.C., Constantino muda a capital do Império de Roma para Bizâncio, que passou a chamar-se Constantinopla, precipitando a decadência de Roma e a divisão do Império entre Ocidente e Oriente, em 395 d.C.. Abrigados pela tolerância romana, os cristãos modelam e erigem sua Igreja, regulam sua fé e seus mitos, e expandem-se em direção ao resto da Europa, criando uma longa trilha de santos e mártires entre seus pregadores. Sendo que, em 482 d.C. nasce aquele que finalmente alçaria o Cristianismo ao trono do Império, Justiniano.

Justiniano (482-565 d.C.) reina no Império Romano do Oriente quando Roma já foi totalmente derrotada pelas invasões bárbaras, transformando-se em um protetorado do Oriente, e o gérmen das atuais nações da Europa começa a fixar-se através dessas mesmas hordas bárbaras. Imperador reformista, Justiniano condensa os códigos de leis mediterrâneas e estabelece os princípios da nova legislação imperial com base no Direito Romano. Reunificador do Império e defensor do Cristianismo, Justiniano, assim como já o fizera Constantino, estabelece a última fronteira do Ocidente (Bizâncio – Constantinopla) contra os persas, árabes e turcos da Ásia Menor.

E é nesse cenário construído e deixado por Constantino e Justiniano, que surge um dos personagens definitivos desta epopéia: o profeta Maomé. Maomé viveu entre 570 e 632 d.C. e ofereceu aos árabes e outros povos da região uma nova religião e uma nova identidade: o Islã. Modificando definitivamente o panorama religioso do Oriente, Maomé estabeleceu, a partir do Corão ou Alcorão, a nova lei de Alá, o deus da península arábica.

É necessário que se entenda, desde já, que os árabes, tal qual os judeus em seus primórdios, não constituíam um povo com identidade e sim uma grande quantidade de tribos, clãs e famílias espalhadas pela península. Foi o Islã, a religião revelada por Maomé, que criou um laço em comum entre os povos árabes, e dentre estes os palestinos não judeus. Foi a unidade religiosa que permitiu a maravilhosa expansão do conhecimento e dos territórios árabes, no início do período medieval.

Do século VII ao X d.C., surge um novo poder neste velho mundo, o Islã articula-se, forma-se um império, ergue-se uma sociedade. De um cotidiano tribal e mercantil erguem-se cidades, floresce o mundo muçulmano e convive-se em harmonia com judeus e cristãos. Os árabes chegam a ocupar a península ibérica, criando um reino onde as artes, ciências e o conhecimento são finamente cultivados.

Entretanto, a partir de Roma e de Constantinopla, a Igreja de Cristo expande-se e conquista adeptos até mesmo na longínqua Irlanda. Padres são despachados constantemente aos quatro cantos do continente europeu em missão de conversão e evangelização. Em seu caminho, com uma intransigência quase similar à dos judeus, vão expulsando e banindo todos os outros cultos praticados pelas populações de origem celta, saxônica e germânica.

Por outro lado, a partir do concílio de Nicéia, em 325 d.C., tem início o primeiro cisma cristão, que dará origem, com o passar do tempo, à Igreja Cristã Ortodoxa, que se estabelecerá na Grécia, Rússia, Armênia e Constantinopla. No século VIII d.C., Constantinopla já havia abandonado definitivamente a igreja romana que, posteriormente, com o papa Gregório VII (c.1020-1085 d.C.), seria reformada e transformada na Igreja Católica Apostólica Romana, como a conhecemos. A Europa daquela época era um caos de peste e guerras, somente alcançando alguma estabilidade na península ibérica, onde os árabes reinavam com tolerância e ponderação.

Nesse meio tempo, o império árabe anexara Jerusalém, onde prosperava. É assim que o século XI encontra a civilização ocidental, com seus conteúdos religiosos definidos entre judeus, cristãos e muçulmanos, além de um grande contingente de povos que cultuam as mitologias germânicas. Nesse contexto, a religião começará a ser usada como álibi para a expansão territorial.

E são os cristãos que tomam a frente dos conflitos e se transformam em um flagelo para todos os povos mediterrâneos. Assim surgem as famosas cruzadas, em que os cavaleiros cristãos, que não tem espaço na sociedade medieval, pretendem enriquecer na pilhagem, usando a religião como desculpa. Primeiro cercam Constantinopla, pretendendo derrotar os cristãos ortodoxos, e depois partem para a tomada de Jerusalém, entrando em guerra contra os muçulmanos.

As Cruzadas:

Primeira: 1096 – tomou Jerusalém;

Segunda: 1187 – fracassou perdendo Jerusalém para Saladino;

Terceira: 1189 – Ricardo Coração de Leão retoma Jerusalém, mas perde-a na diplomacia para a esfera de domínio muçulmano;

Estas são as principais. Outras irão sucedê-las, inclusive uma composta unicamente por crianças (1212), que acabaram enganadas e vendidas como escravos no norte da África.

Mas, a partir daí, os cavaleiros cristãos, foco de instabilidade e violência na Europa medieval, haviam encontrado sua missão: a expulsão do Islã para as fronteiras árabes. Assim, o próspero e pacífico reino muçulmano de Córdoba, na Espanha, foi cercado, pressionado e varrido até a total reconquista, pelos cristãos, dos territórios da península ibérica. Nesse contexto, os judeus, que prosperavam e viviam pacificamente entre os árabes, começaram também a ser perseguidos pelos cristãos.

A trajetória dos judeus pelo continente europeu constitui ponto importante para a compreensão dos acontecimentos que irão ocorrer no século XX. Estigmatizados pelos cristãos como assassinos de Jesus, os judeus foram sistematicamente marginalizados e perseguidos durante séculos; forçados a converter-se ao Cristianismo para poder exercer as profissões liberais; e supliciados sempre que aparecia uma nova epidemia ou peste, por serem considerados seus causadores. Entretanto, o que ocorria na Europa, através dos judeus, era uma mudança significativa da ordem econômica, augurando os primórdios do maligno capitalismo.

Desde cedo, nos tempos medievais, os judeus encarregavam-se da agiotagem, sendo esta vedada aos cristãos. Grandes debates morais dividiam a sociedade cristã na França e nas cidades da península italiana, uma vez que o juro era considerado imoral. Acreditava-se que o tempo pertencia a deus e que não era lícito, e muito menos ético, cobrar juros pelo empréstimo que qualquer soma de dinheiro.

À margem desta discussão, e amparados por uma religião que sempre prezou o ouro, os judeus enriqueciam e prosperavam, criando os primeiros bancos. E foram os judeus europeus que financiaram as monarquias nacionais da França e da Espanha, que depois viriam a perseguí-los e despojá-los. Desde então, os judeus tem sido sistematicamente associados com a usura e o enriquecimento ilícito, no imaginário ocidental. Veja-se o Shylock de Shakespeare.

É neste terreno fértil de ódio cultural, que a Santa Inquisição prosperará do século XV ao XIX. Foi no dia 1.º de novembro de 1478, que o papa Sisto IV assinou a bula Exigit sincerae devotionis affectus, fundando a Inquisição espanhola, mas o manual  viria a formar os futuros inquisidores já havia sido escrito por Nicolau Emérico em 1376. Ali constavam desde as instruções para os interrogatórios, até as normas de Direito Canônico, que regulariam essa instituição.

A Inquisição promovida pelo Catolicismo constitui um fenômeno à parte na trajetória da crueldade humana. Alimentando-se da delação anônima, os processos inquisitórios eram instruídos com total independência das instituições judiciárias dos países onde foram instituídos (Portugal, Espanha e Itália). Seus procedimentos aceitavam a tortura sistemática dos suspeitos e interrogatórios concebidos de modo capcioso transformavam qualquer palavra em evidência contra o acusado.

Mas não foram apenas os judeus que se transformaram em vítimas da sanha dos inquisidores. Inúmeras dissidências do Cristianismo foram perseguidas, consideradas como heresias. Uma boa parte foi sistematicamente eliminada, mas as sobreviventes protagonizaram o cisma que deu origem às igrejas de base Cristã Protestante. E mesmo isso, após décadas de guerras civis sangrentas na França, nos Países Baixos, na Inglaterra e naqueles territórios que vieram a constituir, posteriormente, a Alemanha.

Entretanto, a categoria de “heresia” ampliada para englobar aqueles judeus que se haviam convertido ao Cristianismo para poder ocupar cargos públicos. A sutileza da Inquisição consistia em perseguir apenas cristãos, para enquadrá-los nos dogmas de sua própria fé. Nesse sentido, todo judeu converso, suspeito de continuar praticando o Judaísmo às escondidas, era uma vítima em potencial.

Outro agravante a ser considerado era o procedimento inquisitório de confiscar os bens dos acusados e dividi-los entre Roma e o governo secular reinante. A ambição humana mergulha em abismos insondáveis quando o poder torna-se absoluto e irrestrito. Do mesmo modo, o anonimato da delação propiciava ocasião para vinganças pessoais e toda sorte de mesquinharias.

Com o início da expansão ultramarina e a colonização da América, uma boa parte desses judeus conversos (alcunhados de “cristãos novos”), fugitivos da Inquisição, veio procurar abrigo no novo continente. Uma tentativa de estabelecerem-se os processos inquisitórios no novo continente não alcançou o mesmo nível de sucesso da Europa, preservando relativamente a integridade dos “cristãos novos”, ao menos no Brasil. Mas o estrago já estava feito na mentalidade ocidental e na proliferação do anti-semitismo entre os cristãos.

Nossa próxima parada nesta trajetória é o vertiginoso século XIX. Esse século marca a expansão imperialista com capitalismo europeu. A ocupação de novos mercados, uma vez que as campanhas de independência por toda a América Latina haviam sido bem sucedidas, criando um grande número de nações jovens, era a prioridade da Europa. E as novas tecnologias bélicas, de transportes, e de comunicações facilitaram essa expansão.

Nesse contexto, ingleses, franceses e alemães abateram-se sobre a África, o Oriente Médio e o sul da Ásia, como uma praga de gafanhotos. Chacinaram comunidades inteiras, inventaram países e fronteiras, alimentaram ódios tribais, e saquearam as principais riquezas de Marrocos até Bombaim. Do mesmo modo, impuseram a ferro e fogo suas religiões e seus sistemas políticos, como se estes fossem sinônimo de civilização.

Uma das conseqüências dessa visão egocêntrica e eurocêntrica do resto do planeta foi o surgimento das teorias de supremacia racial, ao longo da Segunda metade do século XIX. Negros, orientais, árabes e judeus passaram a ser percebidos como integrantes de uma sub-humanidade, colocada neste mundo pelo deus cristão, para servir aos grandes senhores brancos. Sob o rótulo de “raça”, um conceito inventado, abrigavam-se todos aqueles que fossem física ou religiosamente diferentes dos europeus.

Na Rússia e na Polônia, os judeus eram perseguidos e massacrados sistematicamente, na tentativa de suprimirem-se os guetos da diferença e obter-se uma população mais homogênea. Em 1700 anos, desde a expulsão dos judeus de Jerusalém por Adriano, estes se haviam espalhado por toda a Europa e imigravam maciçamente para o continente americano, quer fossem ortodoxos, quer fossem conversos. Muitos traziam consigo as novas idéias socialistas e anarquistas que estavam nascendo na Europa, outros apenas a vontade de enriquecer no comércio e colocar seus filhos nas profissões liberais.

Muitos judeus continuavam vivendo na Palestina, junto aos árabes, sem grandes conflitos, apenas com algumas limitações políticas. Entretanto, a região conhecida como Oriente Médio viria a transformar-se em um ponto estratégico da política e da economia do século XX, apanhando os árabes em meio a mudanças de uma magnitude para a qual não estavam preparados. Data daí o início do fim da tolerância islâmica e da boa vontade sempre demonstrada por seus sábios e estudiosos.

Há vários pontos a ser destacados ao encarar-se o século XX:

1.º A Segunda Revolução Industrial desenvolvida pelo surgimento do automóvel movido a gasolina;

2.º A constatação que o Oriente Médio encontra-se sobre as maiores jazidas de petróleo do planeta;

3.º As duas guerras mundiais que vieram mudar definitivamente a vida de árabes a judeus;

4.º O cenário do pós-guerra e o engajamento do planeta na Guerra Fria.

Os dois primeiros itens complementam-se e são o principal motivo do interesse despertado pelo Oriente Médio entre os países imperialistas. O segundo item deve ser encarado como um momento de invenção e redefinição de fronteiras políticas. E o terceiro item acoberta o recrudescimento dos conflitos locais, amparados por uma geopolítica estrutural, desenvolvida pelas grandes potências.

Para os árabes, a Primeira Guerra Mundial redefine uma série de fronteiras que haviam sido ocupadas pelos turcos, por quase trezentos anos. Tendo a Turquia se aliado à Alemanha, contra a França e a Inglaterra, os árabes foram seduzidos para apoiarem a causa anglo-francesa e, assim, livrarem seus antigos territórios do domínio turco. Quem não se lembra do tenente T. E. Lawrence, alcunhado Lawrence da Arábia, e suas temerárias aventuras para retomar os territórios ocupados pelos turcos?

Lawrence defendia a autonomia árabe e a recriação dos grandes reinos da antigüidade. Isso, entretanto, não interessava a seus superiores ingleses, que queriam servir-se dos árabes como aliados, mas não como iguais, pretendendo mantê-los (após a guerra) em sua esfera de domínio imperial. Hoje podemos concluir que Lawrence era um sonhador, um daqueles sujeitos que nasceram na hora errada e no lugar errado, e assim foi usado pelos dois lados na disputa pela autonomia árabe. No fim da Primeira Guerra, os ingleses tiveram que amargar o reconhecimento dos novos Estados árabes, alguns criados artificialmente a partir dos territórios recuperados aos turcos, como é o caso da Jordânia.

Todos sabemos da depressão amargada pela Alemanha, após ter perdido a guerra. Do mesmo modo, temos as informações necessárias sobre a ascensão de Adolf Hitler e do nazi-facismo, com a promessa da “solução final” para a questão judaica, que vinha preocupando os nacionalistas cristãos de extrema-direita durante as últimas cinco décadas, principalmente na França (caso Dreyfuss). Também já conhecemos com minúcia de detalhes os campos de concentração e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, com a derrota final do projeto nazista em 1944.

“Extermínio”, “Holocausto”, etc., são mais do que conhecidos, inclusive porque os judeus não nos dão a mínima chance de superá-los. A mídia norte-americana atual, controlada em sua quase totalidade por grupos com interesses judaicos, veicula grande número de documentários e filmes referentes ao assunto, a cada nova semana, sem trégua. E existe uma verdadeira indústria movida por pretensos “sobreviventes” dos campos de extermínio, cobrando pesadas reparações do Estado alemão, e de outras instituições da Europa.

Mas em 1944, os judeus já não sentiam clima para permanecer na Europa devastada pela guerra. Assombrados pelos seus próprios demônios, após haver mergulhado nos abismos da barbárie, muitos europeus responsabilizavam os próprios judeus pela guerra, e para outros, estes eram um constante lembrete das atrocidades cometidas. Assim, já em 1945, os judeus começam a emigrar e refugiar-se na América e na Palestina.

A Palestina, nesse momento, é uma área de influência militar inglesa, e os ingleses proíbem a entrada dos judeus ali, com medo de uma desestabilização da política local. Mas os judeus entram como imigrantes, comprando terras, como refugiados, como clandestinos e acabam subvertendo a resistência inglesa. Desse modo, em 1947, as Nações Unidas dividem a Palestina e criam o Estado de Israel, à revelia dos palestinos que ali habitavam.

Como qualquer pessoa sensata poderia esperar, os palestinos não concordaram com a divisão de seu território e recusaram-se a reconhecer o Estado de Israel. Aguardando o apoio das outras nações árabes, pegaram em armas contra os colonos judeus que não paravam de chegar. Complexos interesses econômicos e uma manifesta falta de vontade política da hesitante Liga Árabe abandonaram os palestinos à própria sorte, e precipitaram sua derrota perante o nascente Estado de Israel.

Em uma série de guerras bem sucedidas, Israel ocupou todo o território palestino e implantou um regime de segregação política similar ao apartheid da África do Sul. O histórico dos conflitos é o seguinte:

–          1948-1949: expansão das fronteiras e expulsão dos palestinos ali residentes;

–          1967: Guerra dos Seis Dias contra a Jordânia: anexação das colinas de Golan, da faixa de Gaza, da região de Jerusalém, e da península do Sinai;

–          1973: Guerra do Yom Kipur contra o Egito e a Síria.

–          1983: criação da zona de segurança de Israel, na fronteira com o Líbano.

Nas décadas de ’60 e ’70, firmemente apoiado pelos Estados Unidos, e a política cínica do chanceler Henry Kissinger, o Estado de Israel armou-se inclusive com mísseis nucleares e converteu-se em um foco de problemas para a comunidade árabe, financiando conflitos no Líbano, Jordânia, Síria e Egito. O fracasso de estabelecer o grupo dos países não alinhados às grandes potências da Guerra Fria, derrotou o sonho do General Nasser, presidente do Egito, de retomar o Pan-Arabismo e livrar-se definitivamente de Israel. Nesse contexto, os palestinos, expulsos, vivendo como refugiados e sem apoio político, caíram no terrorismo.

Ações fulminantes multiplicavam-se pela Europa, visando alvos ligados a Israel e à comunidade judaica. Seqüestros de aviões, carros-bomba atirados contra embaixadas e consulados, e o conhecido massacre dos atletas israelenses na Olimpíada de Munique, em 1972, bem como o seqüestro do avião carregado de judeus e israelenses, desviado para Uganda em 1976, e resgatado pelo exército israelense numa operação totalmente ilegal.  Grupos terroristas europeus apoiaram a causa palestina, mas o governo israelense desenvolveu seu serviço secreto, com formação militar, o famigerado Mossad. O Mossad é conhecido na mitologia hollywoodiana por suas bem sucedidas capturas de criminosos nazistas na América Latina. O que o cinema americano não divulga, é que seus agentes têm funcionado como assassinos muito bem pagos, para eliminar as lideranças palestinas e qualquer um que ameace a política expansionista israelense.

Essa guerra suja e desigual estende-se pelas últimas décadas cobrindo de vergonha a humanidade. Um dos exemplos mais patentes da canalhice israelense é o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Já se vão bem trinta anos este episódio vergonhoso, quando o Ariel Sharom comandou uma tropa de covardes que massacrou centenas de mulheres e crianças desarmadas e meio mortas de fome que se amontoavam nesses infectos campos de refugiados. Houve alguma punição?…

Diz o ditado popular que “vale tudo no amor e na guerra”, entretanto, se isso fosse verdade os tribunais para punir crimes de guerra não existiriam. Ariel Sharom era um criminoso da pior espécie, mas faltou vontade política à ONU para conduzi-lo à punição que merecia. Talvez se a sede da ONU estivesse fora dos Estados Unidos, a situação seria outra.

Nos últimos anos, governos democratas norte-americanos como o de Jimmy Carter e de Bill Clinton, pressionaram Israel para obter a paz no Oriente Médio. O líder palestino Yasser Arafat foi chamado à mesa de negociações e costurou-se um acordo para que Israel abandonasse os territórios ocupados e reconhecesse um Estado Palestino. Entretanto, uma reviravolta política à extrema-direita que coincidiu os governos de George W. Bush e Ariel Sharom arruinou totalmente a perspectiva de paz.

Assim, o assassino confesso Sharom, amplamente apoiado pelo “cowboy disléxico” Bush dedicou-se a massacrar sistematicamente os palestinos, enquanto o mundo contemplava estarrecido. E o visionário mas inoportuno Osama Bin Laden, ofereceu o álibi perfeito para que os Estados Unidos retomassem sua vocação covarde de interferir na política dos países emergentes e massacrar quem se lhes opõe.

De lá para cá, pouca coisa mudou, diversas tréguas foram acordadas e rompidas de ambos os lados. Hoje, quem diz falar pelos palestinos – Hamas, Fatah, Hezbolah – criou uma relação de interdependência cínica e cruel que se alimenta da violência de ambos lados do conflito, para manter os palestinos subjugados. A gestão de Barack Obama revelou-se tão canhestra e mal-intencionada quanto as dos presidentes anteriores, vetando qualquer resolução das Nações Unidas que vise limitar a ação do estado de Israel.

Uma boa parte da população israelense e dos judeus pelo mundo afora não apoia a política genocida do estado de Israel. Isso ficou evidente agora, quando o acesso à internet permitiu que cada vez mais os dissidentes se manifestassem e denunciassem as políticas de extermínio desencadeadas na faixa de Gaza. Entretanto, a crise financeira na Europa, que trouxe de volta o fantasma do passado na forma dos neonazistas, já propicia o surgimento de uma nova onda de antissemitismo e encontra nas atitudes de Israel o álibi perfeito…

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

OBRAS DE REFERÊNCIA:

ATLAS da História do mundo [The Times].  São Paulo, Folha de São Paulo, 1995.

ATLAS geográfico mundial [The New York Times].  São Paulo, Folha de São Paulo, 1994.

BIBLIOTECA  de História Universal Life.  ROMA IMPERIAL.  Rio de Janeiro, José Olympio, 1969.

GRANDES personagens da História Universal.  São Paulo, Abril Cultural, 5 volumes.

OBRAS DE REFERÊNCIA JORNALÍSTICAS:

COLLINS, Larry & LAPIERRE, Dominique.  Ó Jerusalém.  São Paulo, Círculo do Livro, s.d.

OBRAS DE REFERÊNCIA RELIGIOSAS:

O ALCORÃO.  Trad. Mansour Challita.  Rio de Janeiro, Associação Cultural Internacional Gibran, s.d.

BÍBLIA Sagrada.  São Paulo, Edições Paulinas, 1975.

HINNELLS, John R.  Dicionário das Religiões.  São Paulo, Círculo do Livro, 1984.

DIRECTORIUM Inquisitorum (Manual dos Inquisidores).  Escrito por NicolauEmérico em 1376 e revisto e ampliado por Francisco de La Peña em 2ªed.  Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos; Brasília, DF, Fundação UnB, 1993.

RELATOS PESSOAIS:

HITLER, Adolf.  Minha luta.  São Paulo, Editora Moraes, 1983.

LAWRENCE, T. H.  Os sete pilares da sabedoria.  São Paulo, Círculo do Livro, s.d.

HISTORIOGRAFIA:

BETHENCOURT, Francisco.  História da Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – Séculos XV-XIX.  São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

FINKELSTEIN, Norman G.  A indústria do holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus.  2ªed.  Rio de Janeiro, Record, 2001.

HOBSBAWM, Eric J.  Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

HOURANI, Albert Habib.  Uma história dos povos árabes.  São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

LeGOFF, Jacques.  A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média. 2ªed.  São Paulo, Brasiliense, 1998.

SOBRE AMÉLIAS, FEMINISMO, LEALDADE E IDENTIDADE.

22 nov

Já de algum tempo venho me questionando sobre a identidade feminina após o ciclo fértil. O que significa ser mulher quando os ovários murcham e a idade se faz sentir em um sem fim de detalhes mínimos, que nos transformam em mulheres de meia-idade. O busto cai, os problemas de saúde se acentuam, os ossos descalcificam, as articulações já não são tão flexíveis…

 

E, no entanto, malgrado o naufrágio da memória imediata, o cérebro continua tão arguto como sempre. Acumulando a vantagem da experiência e do conhecimento, o pensamento flui com uma capacidade assustadora e se torna fácil devanear através da filosofia. Aos olhos de nossa mente, ainda somos jovens…

 

Ainda amamos, mas o amor precisa adaptar-se às limitações do corpo e da vida social. Já não “pintam climas” se os filhos estiverem acordados. O corpo já não produz os hormônios necessários para a parte mecânica do sexo, então é preciso recorrer à reposição hormonal e aos produtos que facilitem a parte física do ato.

 

Muito já se discorreu sobre o orgasmo feminino e as particularidades físicas de nossos corpos, e, no entanto, é no cérebro que a maior parte da vivência sexual se dá, é no pensamento que despejamos nossas fantasias e que racionalizamos nossos atos de amor. É a lembrança dos momentos passados lado a lado, que forma o laço de confiança e lealdade, que permite que permaneçamos junto ao amado, mesmo quando ambos lutamos para controlar as barrigas e as dores e câimbras decorrentes do cansaço de nossas jornadas. É o pensamento que transforma a emoção em experiência, em memória e forja a nossa identidade dentro do casal.

 

E, nesse sentido, pouco importa de que tipo de casal se trata, podemos ter qualquer denominação sexual (hétero, homo, bi), religiosa (católico, protestante, espírita) ou política (comunista, anarquista, socialdemocrata), que ainda assim precisaremos definir nossa identidade como parte integrante de um relacionamento em que as memórias contam tanto quanto o cotidiano.

 

É por isso que alguns aspectos do feminismo mais clássico sempre me incomodaram. A luta por direitos iguais e tratamento igualitário dentro de todas as instâncias da sociedade, não deveria ter sido atrelada a uma competição de excelência contra o sexo masculino. Deveríamos ser complementares e não inimigos, afinal, dentro das lutas sociais que se nos apresentam, somos oprimidos por inimigos comuns, e o fato de nossos companheiros terem sido educados para esperar que desempenhemos determinados papéis, deveria ser visto com mais paciência e menos beligerância.

 

Incomoda-me profundamente o feminismo que escolheu o homem como inimigo e vendeu a ideia de que devemos viver sozinhas, já que o homem ideal ainda não nasceu. É um pensamento arrogante e tão preconceituoso quanto o modo como a sociedade nos impinge seus modelos históricos. E, no final, gera mulheres que dissociam sexo de amor e se comportam do modo que tanto criticam nos homens.

 

Não desdenho das conquistas históricas das gerações que me antecederam, mas me preocupo demais com a cobrança que ainda se faz à minha geração, de relegarmos o âmbito doméstico à esfera da escravidão. Na fala de algumas das minhas conhecidas, dedicar-se á família é “ser Amélia”, e numa leitura totalmente canhestra da música do saudoso Mário Lago, transformam um símbolo do companheirismo e da lealdade em um sinônimo de subserviência. Coincidentemente, são as mesmas mulheres que delegam às “auxiliares domésticas” a gestão de suas casas, pensando que combatem a opressão de gênero, quando de fato estão praticando opressão de classe.

 

Recentemente, devido aos ajustes do mercado de trabalho à modernidade, me vi sem função social e sem emprego, em uma idade em que dificilmente terei outra oportunidade. Por isso, precisei redefinir alguns aspectos da minha identidade e assumir minha casa, que antes eu “tocava” da melhor maneira possível, mas que mais de uma década de estudos acadêmicos haviam transformado em um segundo plano das minhas prioridades. E, para surpresa e frustração de algumas pessoas do meu entorno afetivo, me descobri feliz sendo “Amélia”.

 

Afinal, amélia é quem arregaça as mangas e apoia o companheiro nos maus momentos, tanto quanto nos bons, atuando como co-piloto na gestão da vida a dois, permitindo que a sua força seja o sustento emocional nas dificuldades. E, como dizia Mário Lago: “quando há amor, todos somos amélias”, não importa o gênero. E, se depois de uma vivência profissional variada, o que sobrar for o âmbito doméstico, precisamos estar preparadas para viver essa experiência sem transformá-la em sofrimento e frustração.

 

A nossa sociedade menospreza o trabalho doméstico por ter sido sempre desempenhado por escravos ou servos, por ser pessimamente remunerado além de repetitivo e contraproducente. Entretanto, alguém precisa limpar, ordenar, lavar, passar, cozinhar e assumir as responsabilidades necessárias para produzir uma dinâmica saudável na convivência cotidiana. É isso que separa um lar de uma residência, um refúgio de uma mera moradia.

 

O nosso problema talvez seja permitir que os outros definam nossa identidade a partir de seus preconceitos. Quando, na verdade, quem somos ou como nos vemos deveria ser um exercício de autoconhecimento constantemente aprimorado e exclusivamente pessoal. A relação de alteridade não pode tornar-nos reféns do olhar dos outros.

 

Modelos comportamentais pré-estabelecidos de gênero e sexualidade transformaram-se no único parâmetro de compreensão da realidade que a sociedade de massas impinge diariamente a todos nós. E quem não se enquadra nessas leituras fáceis, quando não tem seus comportamentos patologizados e medicalizados, acaba lutando ferrenhamente por direitos que, embora já garantidos constitucionalmente, precisam ser reivindicados e defendidos dia após dia contra a uniformização forçada. Na contrapartida, ao defender esses direitos, grupos sociais minoritários se voltam a excessos de agressividade e constroem modelos paralelos tão cerceantes quanto os que a sociedade impõe.

 

Em conclusão, não sou uma historiadora que, constrangidamente, “está” dona-de-casa. Sou historiadora porque o desemprego não me impede de produzir meu trabalho intelectual e décadas de estudos não desaparecem apenas porque não existe uma remuneração monetária. Mas sou também dona-de-casa porque minha capacidade criativa encontrou uma surpreendente válvula de escape e fonte de realização pessoal na culinária e nos aspectos comunitários da domesticidade. A minha identidade é uma soma desses aspectos, que não podem ser hierarquizados em termos de valor ou desvalor. A minha identidade me pertence para ser definida a partir dos meus próprios termos e sempre vou defender o direito de todos nós ao status de indivíduos, em detrimento dos papéis massivos socialmente estabelecidos.