SOBRE AMÉLIAS, FEMINISMO, LEALDADE E IDENTIDADE.

22 nov

Já de algum tempo venho me questionando sobre a identidade feminina após o ciclo fértil. O que significa ser mulher quando os ovários murcham e a idade se faz sentir em um sem fim de detalhes mínimos, que nos transformam em mulheres de meia-idade. O busto cai, os problemas de saúde se acentuam, os ossos descalcificam, as articulações já não são tão flexíveis…

 

E, no entanto, malgrado o naufrágio da memória imediata, o cérebro continua tão arguto como sempre. Acumulando a vantagem da experiência e do conhecimento, o pensamento flui com uma capacidade assustadora e se torna fácil devanear através da filosofia. Aos olhos de nossa mente, ainda somos jovens…

 

Ainda amamos, mas o amor precisa adaptar-se às limitações do corpo e da vida social. Já não “pintam climas” se os filhos estiverem acordados. O corpo já não produz os hormônios necessários para a parte mecânica do sexo, então é preciso recorrer à reposição hormonal e aos produtos que facilitem a parte física do ato.

 

Muito já se discorreu sobre o orgasmo feminino e as particularidades físicas de nossos corpos, e, no entanto, é no cérebro que a maior parte da vivência sexual se dá, é no pensamento que despejamos nossas fantasias e que racionalizamos nossos atos de amor. É a lembrança dos momentos passados lado a lado, que forma o laço de confiança e lealdade, que permite que permaneçamos junto ao amado, mesmo quando ambos lutamos para controlar as barrigas e as dores e câimbras decorrentes do cansaço de nossas jornadas. É o pensamento que transforma a emoção em experiência, em memória e forja a nossa identidade dentro do casal.

 

E, nesse sentido, pouco importa de que tipo de casal se trata, podemos ter qualquer denominação sexual (hétero, homo, bi), religiosa (católico, protestante, espírita) ou política (comunista, anarquista, socialdemocrata), que ainda assim precisaremos definir nossa identidade como parte integrante de um relacionamento em que as memórias contam tanto quanto o cotidiano.

 

É por isso que alguns aspectos do feminismo mais clássico sempre me incomodaram. A luta por direitos iguais e tratamento igualitário dentro de todas as instâncias da sociedade, não deveria ter sido atrelada a uma competição de excelência contra o sexo masculino. Deveríamos ser complementares e não inimigos, afinal, dentro das lutas sociais que se nos apresentam, somos oprimidos por inimigos comuns, e o fato de nossos companheiros terem sido educados para esperar que desempenhemos determinados papéis, deveria ser visto com mais paciência e menos beligerância.

 

Incomoda-me profundamente o feminismo que escolheu o homem como inimigo e vendeu a ideia de que devemos viver sozinhas, já que o homem ideal ainda não nasceu. É um pensamento arrogante e tão preconceituoso quanto o modo como a sociedade nos impinge seus modelos históricos. E, no final, gera mulheres que dissociam sexo de amor e se comportam do modo que tanto criticam nos homens.

 

Não desdenho das conquistas históricas das gerações que me antecederam, mas me preocupo demais com a cobrança que ainda se faz à minha geração, de relegarmos o âmbito doméstico à esfera da escravidão. Na fala de algumas das minhas conhecidas, dedicar-se á família é “ser Amélia”, e numa leitura totalmente canhestra da música do saudoso Mário Lago, transformam um símbolo do companheirismo e da lealdade em um sinônimo de subserviência. Coincidentemente, são as mesmas mulheres que delegam às “auxiliares domésticas” a gestão de suas casas, pensando que combatem a opressão de gênero, quando de fato estão praticando opressão de classe.

 

Recentemente, devido aos ajustes do mercado de trabalho à modernidade, me vi sem função social e sem emprego, em uma idade em que dificilmente terei outra oportunidade. Por isso, precisei redefinir alguns aspectos da minha identidade e assumir minha casa, que antes eu “tocava” da melhor maneira possível, mas que mais de uma década de estudos acadêmicos haviam transformado em um segundo plano das minhas prioridades. E, para surpresa e frustração de algumas pessoas do meu entorno afetivo, me descobri feliz sendo “Amélia”.

 

Afinal, amélia é quem arregaça as mangas e apoia o companheiro nos maus momentos, tanto quanto nos bons, atuando como co-piloto na gestão da vida a dois, permitindo que a sua força seja o sustento emocional nas dificuldades. E, como dizia Mário Lago: “quando há amor, todos somos amélias”, não importa o gênero. E, se depois de uma vivência profissional variada, o que sobrar for o âmbito doméstico, precisamos estar preparadas para viver essa experiência sem transformá-la em sofrimento e frustração.

 

A nossa sociedade menospreza o trabalho doméstico por ter sido sempre desempenhado por escravos ou servos, por ser pessimamente remunerado além de repetitivo e contraproducente. Entretanto, alguém precisa limpar, ordenar, lavar, passar, cozinhar e assumir as responsabilidades necessárias para produzir uma dinâmica saudável na convivência cotidiana. É isso que separa um lar de uma residência, um refúgio de uma mera moradia.

 

O nosso problema talvez seja permitir que os outros definam nossa identidade a partir de seus preconceitos. Quando, na verdade, quem somos ou como nos vemos deveria ser um exercício de autoconhecimento constantemente aprimorado e exclusivamente pessoal. A relação de alteridade não pode tornar-nos reféns do olhar dos outros.

 

Modelos comportamentais pré-estabelecidos de gênero e sexualidade transformaram-se no único parâmetro de compreensão da realidade que a sociedade de massas impinge diariamente a todos nós. E quem não se enquadra nessas leituras fáceis, quando não tem seus comportamentos patologizados e medicalizados, acaba lutando ferrenhamente por direitos que, embora já garantidos constitucionalmente, precisam ser reivindicados e defendidos dia após dia contra a uniformização forçada. Na contrapartida, ao defender esses direitos, grupos sociais minoritários se voltam a excessos de agressividade e constroem modelos paralelos tão cerceantes quanto os que a sociedade impõe.

 

Em conclusão, não sou uma historiadora que, constrangidamente, “está” dona-de-casa. Sou historiadora porque o desemprego não me impede de produzir meu trabalho intelectual e décadas de estudos não desaparecem apenas porque não existe uma remuneração monetária. Mas sou também dona-de-casa porque minha capacidade criativa encontrou uma surpreendente válvula de escape e fonte de realização pessoal na culinária e nos aspectos comunitários da domesticidade. A minha identidade é uma soma desses aspectos, que não podem ser hierarquizados em termos de valor ou desvalor. A minha identidade me pertence para ser definida a partir dos meus próprios termos e sempre vou defender o direito de todos nós ao status de indivíduos, em detrimento dos papéis massivos socialmente estabelecidos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: