SOBRE O PRECONCEITO LINGUÍSTICO.

7 jan

Há umas quatro décadas, estávamos conversando com minha mãe e ela nos contava que fora abordada por duas freiras solicitando donativos, e estranhara que não estivessem vestindo seus hábitos. Não sei se por fugirem-lhe as palavras corretas, ou se por alguma razão específica, minha mãe disse que as freiras “iban de particular”, expressão que em espanhol normalmente designa quando policiais se apresentam sem uniforme. A partir desse momento, minha irmã e eu passamos a perceber que havia uma vida para além dos uniformes que as pessoas vestiam em situações profissionais, que havia mais de uma instância social.

Por aqueles processos de associação mental, que só Freud explica, com o passar dos anos e a aquisição do português como segunda língua, que acabou por suplantar a primeira, aquele “iban de particular”, se transformou em “na vida civil” para designar aqueles momentos em que não nos revestimos da aura e da roupa das nossas vivências profissionais. Assim, “na vida civil”, meu nome é Anna e eu jamais uso meus títulos universitários, hoje, nem sequer para vencer discussões sobre assuntos pertinentes à minha área de conhecimento que é a História.

Toda família tem esse tipo de cumplicidade linguística, composta de piadas, expressões, palavras e meias-palavras, que só fazem sentido para aquele grupo específico de pessoas. Assim, minha irmã e eu, quando alguém nos deixa falando sozinhas e depois nos corta a palavra, saindo-se com algo totalmente extemporâneo à conversa, sempre olhamos uma para a outra e dizemos “kashubuki”, ou ao menos pensamos, devido a uma tirinha da Mafalda que expressava uma situação semelhante. E assim nos entendemos.

Ao longo da vida desenvolvi toda sorte de “códigos particulares” também com meu marido e minha filha. Muitas vezes esses comentários telegráficos chegam a agredir as normas de uso da língua, como quando dizemos “houveram pobremas” para expressar que algo deu muito errado. Sabemos perfeitamente que essa expressão é uma atrocidade, mas é a NOSSA piada particular, feita na intimidade do nosso lar e apenas entre nós.

Nos idos de 1981 tive aulas com a D. Alair, que costumava dizer que uma pessoa bem educada conversa com igual desenvoltura com o caseiro do sítio tanto quanto com o executivo de uma multinacional, adaptando sua fala à do interlocutor e não deixando transparecer esnobismo de qualquer espécie. E é desse tipo de delicadeza e educação que venho sentindo falta ao acompanhar as discussões sobre preconceito linguístico, que já duram mais de década e meia. A obsessão dos “classemédiasofre” em impor a dita norma culta e segregar quem não a emprega é de uma incivilidade atroz.

Não entro nem no mérito dos jornalistas que mal sabem escrever e mesmo assim querem corrigir a deus e o mundo, refiro-me aos posts que infestam as redes sociais criticando o uso de palavras erradas e conclamando ao uso correto da língua. Ora, no meu entender, as redes sociais são locais em que reproduzimos a intimidade da linguagem de gueto que usamos em família, então por que a obsessão com a norma culta? Talvez porque a nossa classe média prescinde da educação mínima necessária, sendo agressivamente esnobe com quem considera inferior e subservientemente servil com a elite que mal lhe responde.

Como historiadora, não preciso que me expliquem o que é preconceito linguístico, uma vez que é um comportamento que se insere nas dinâmicas de dominação que caracterizam nossas sociedades capitalistas. É parte das políticas de segregação, colonização e opressão dos grandes contingentes da humanidade que não tem voz nem voto nos destinos do mundo. É apenas mais um fator de opressão entre tantos outros.

A linguagem é uma das trincheiras da cultura, da identidade individual e grupal. Reprimir e normatizar seu uso é parte da estratégia de dominação empregada pelas elites e não é uma estratégia nova, remete ao Império Romano e à imposição do latim como língua de trabalho, posteriormente, na Europa medieval. Do mesmo modo que hoje se dissemina a ficção de que o inglês é imprescindível no mundo moderno, usa-se a norma culta para criar a sensação de que existe um padrão normal e correto e o resto de nós (a grande maioria) somos apenas comportamentos desviantes.

Ora, a família e o gueto são os locais da nossa identidade e a linguagem é mais um laço na cumplicidade que nos associa. Sem esse fator em comum, seríamos apenas um “bando de gente” sem obrigações, sem remorsos, sem ligações. A linguagem cifrada ajuda a reforçar os laços de solidariedade que construímos e desenvolvemos ao longo da vida.

Sei que esta é uma discussão que está longe de acabar, mas lembre-se antes de reblogar um post pernóstico sobre correção ortográfica ou gramática (eu já parei), que a mensagem deveria ser mais importante que as próprias palavras que a expressam. Se eu entendi e você também, para que complicar?

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2 Respostas to “SOBRE O PRECONCEITO LINGUÍSTICO.”

  1. lenrasoon janeiro 10, 2013 às 1:03 am #

    ótimo texto.

  2. annagicelle janeiro 10, 2013 às 12:15 pm #

    obrigada, fico feliz!

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