SOBRE MARGARETH TATCHER

11 abr

Não questiono a importância histórica dessa senhora, uma vez que as consequências de seus atos ainda estão presentes no domínio da nossa realidade. Questiono veementemente aqueles que defendem suas atitudes, alegando que devemos separar a política da militância feminista e reconhecer a grande mulher que ela foi… Posso entender que certos setores da direita neoliberal entoem odes à musa da privatização, mas não que ela se torne uma referência de gênero para qualquer feminista, quer de direita ou esquerda.

 

Eu estava para completar dezessete anos em 1981 quando Bobby Sands realizou sua greve de fome e acompanhei dia a dia (na medida em que a censura do período militar permitiu) sua agonia, enquanto a dita “dama de ferro” sorria e se recusava a comentar. O sorriso desse rapaz na única foto veiculada na nossa mídia se gravou de tal maneira em minha mente que, meses atrás, vendo Anthony Bourdain visitar um muro na Irlanda, que reproduzia esse rosto, meus olhos ainda se encheram de lágrimas. Eu não esqueço…

 

E não esqueço dos mineiros e dos outros grevistas que essa senhora derrotou com requintes de perversidade, das famílias que despejou e do caos econômico que suas ideias megalômanas criaram… Ao longo da década de oitenta foi essa senhora que me afastou definitivamente de certo feminismo que via como vitória a ocupação do poder, mesmo quando exercido da maneira mais calhorda possível. Que vitória foi essa afinal?

 

Sempre considerei e considero que minha lealdade maior e principal é com o gênero humano e não com a identidade de gênero feminino, socialmente construída, que hoje compartilhamos. Nesse sentido, repito incansavelmente o que disse a uma feminista uspiana há uns quinze anos atrás: NÃO SE COMBATE OPRESSÃO DE GÊNERO PRATICANDO OPRESSÃO DE CLASSE. Para mim, Margareth Tatcher merece ser execrada, junto a Ronald Reagan, João Paulo II e tantos outros que tornaram a vida dos trabalhadores ainda mais miserável, em defesa dos privilégios de setores minoritários do poder econômico.

 

Dito isto, devo afirmar que não desmereço as lutas feministas, ao contrário!!!! Considero-me pós-feminista porque não acredito que para conquistar igualdade e respeito devamos transformar os homens em inimigos e usar as mesmas ferramentas que nos oprimiram durante milênios. Dou muito valor ao meu papel social de mãe e companheira e sempre briguei pelo direito de lutar lado a lado com meu marido pela construção de um mundo melhor. PARA TODOS!!!!

 

É claro que a misoginia me ofende e que as injustiças me revoltam. Mas não é defendendo mulheres lastimáveis como Margareth Tatcher que vamos conseguir superar a opressão política e religiosa que nos persegue. Especialmente porque essa senhora foi um dos principais defensores dessa opressão em seu país e no Terceiro Mundo em particular.

 

Sou solidária com toda a força do meu caráter aos sobreviventes da década de oitenta que saíram às ruas para comemorar a morte da “dama de ferro”, por mais grotesco que isso pareça. Afinal, a morte de sua principal algoz foi a única reparação que essas pessoas receberam até hoje, após terem sido sacrificadas no altar erguido pelo neoliberalismo ao deus-mercado… E se alguém ainda não percebeu que a crise que assola a Europa hoje somente foi possível graças à ideologia defendida por Margareth Tatcher, então é melhor ir correndo estudar História…

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