Arquivo | maio, 2014

AS INÚMERAS MORTES DE ABIGAIL HOBBS COMO METÁFORA DA CONDIÇÃO FEMININA

26 maio

Se você é fã da série Hannibal, de Bryan Fuller, e ainda não assistiu ao final da segunda temporada, talvez seja melhor parar a leitura por aqui. Do mesmo modo, se você acredita que tratar da condição feminina é uma bobagem ou atrasa a Revolução, digo o mesmo. Mas se você se incomoda com o tratamento dado às personagens femininas na cultura pop, veio ao lugar certo.

 

A série Hannibal é um achado diante da mesmice dos temas adultos, de teor investigativo, desenvolvidos para fins de entretenimento pela indústria cultural estadunidense. Dos cenários irretocáveis à fotografia de alto nível artístico, passando pelos sofisticados pratos desenhados pelo excelente chef espanhol José Andrés, tudo nessa série é um convite para apreciar a sofisticação do macabro. E não é uma estética para qualquer estômago…

 

Na primeira temporada, a série surpreendeu pela presença de personagens femininas complexas e seu protagonismo numa narrativa que opões três personagens masculinas fortes e dominantes. E, no entanto, existe Abigail Hobbs. E é ai que as boas tentativas dos roteiristas naufragam.

 

Porque Abigail é a virgem do sacrifício. Ela é a única filha de um serial killer que mata meninas com seu mesmo tipo físico, usando-a como isca para atrair as vítimas, e, posteriormente, obrigando-a a ajuda-lo a carnear e comer as jovens, que não passam de um simulacro de si mesma. Gareth Jacob Hobbs mata simbolicamente Abigail em cada uma de suas vítimas.

 

Quando acuado pelos federais, Hobbs corta a garganta de Abigail antes de ser morto por Will Graham. Mas, apesar da gravidade dos ferimentos, Abigail sobrevive, apenas para se tornar um peão no violento jogo psicológico idealizado pelo Dr. Hannibal Lecter e envolvendo o jovem Will. Levada a matar e atormentada por seus próprios fantasmas, Abigail é morta por Hannibal no final da primeira temporada.

 

Só que não… Imagine a nossa surpresa, após uma dúzia de episódios vendo Will sofrer como um rato em um labirinto, quando descobrimos que o Dr. Lecter forjou a morte da jovem apenas para melhor poder manipular a culpa de Will, em seu sórdido joguinho homoerótico. E ela retorna nos momentos finais do último episódio da segunda temporada, apenas para ser morta por Hannibal, nas mesmas circunstâncias já vividas junto a seu pai. E apenas para ver Will sofrer.

 

Pobre Abigail, assassinada, esquartejada e engolida simbolicamente por seu próprio pai durante anos, mutilada por esse mesmo pai e presa nas garras de um psicopata ao procurar novas figuras paternas nos homens que a vida lhe apresenta. A virgem sacrificada no altar dos jogos de poder masculinos, em um mundo em que sua visibilidade é negativa, passiva, inexistente, a não ser sob a forma de estereótipo.

 

Como não pensar em milhões de meninas e mulheres mundo afora, esmagadas e deglutidas por pais que lhes negam afeto, visibilidade e autoestima? E que, devido a isso, passam ao longo da vida submetendo-se ao arbítrio de homens que reproduzem a mesma dinâmica de dominação, esmagamento e se tornam invisíveis até para si mesmas, em sociedades patriarcais que lhes negam a identidade fora do pai ou do marido? Como não lamentar a Abigail Hobbs em todas nós?

 

Abigail Hobbs morreu inúmeras mortes nas mãos dos roteiristas de Hannibal. Estavam denunciando sua condição ou reafirmando-a? Esta última morte foi particularmente cruel, porque não diz nada de si, Abigail morreu porque o Dr. Lecter quis punir Will por não corresponder ao seu “amor”, fazendo-o sofrer.

 

A identidade lhe foi novamente negada na derradeira morte.

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