Arquivo | outubro, 2014

Nova música do MaicknucleaR!!!!

23 out

 Existe vida inteligente em Sampa, apesar do esforço massificante da indústria cultural. Entre os artistas performáticos furiosamente independentes está o MaicknucleaR. Produtor, músico, ator, roteirista e diretor que esbanja criatividade e apresenta uma produção nem sempre facilmente assimilável para quem está acostumado com a mesmice pasteurizada oferecida pelo consenso artístico e cultural. Para quem gosta de música urbana, aqui está seu novo trabalho, a ser lançado na próxima sexta-feira. Olha quem diria, eu dando um “furo”…

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Por que eu sou comunista?

4 out

Não esperem encontrar aqui uma longa dissertação teórica, recheada de citações de autores com nomes russos ou alemães, muito menos britânicos. Minha experiência é da prática e não da teoria, eu não cheguei ao comunismo em alguma experiência de “iluminação” proporcionada por professores universitários ou livros.

Meu pai era comunista, no sentido que o termo adquiriu nos anos ’30 e ’40, era um stalinista que defendia paredões. Não tinha qualquer ilusão sobre os seres humanos, então pensava que uma sociedade melhor só seria conseguida mediante a imposição e a coerção. Tivemos inúmeras discussões à mesa, à medida que eu amadurecia minhas próprias convicções. Na casa dos meus pais (sempre alugada e por isso passando a ser lembrança periodicamente: “lembra quando a gente morava na Emile Pilon? lembra da Rua da Várzea?”) a política era uma constante nas conversas. Passei a infância acreditando que a Revolução era inevitável, o destino da humanidade.

Minha mãe ainda é o que eu denominei “mariagarbonezista”. E eu explico, minha avó Maria Garbonez era uma mulher forte e decidida, que jamais vi sorrindo (porque não dava muita confiança às crianças) mas que possuía convicções muito fortes, após uma vida de sacrifícios criando doze filhos e tendo migrado de um vilarejo de fronteira para a capital do país, apenas com a coragem a a ajuda de alguns parentes. Minha avó criou seus filhos sem grandes devoções religiosas, mas com uma ética severíssima. Não tolerava desonestidade, fofoca ou injustiça. Não era nenhuma matrona, era um toquinho de gente que mal alcançava um metro e meio, mas que olhava qualquer um nos olhos e não baixava o olhar. Isso deu à minha mãe uma visão de mundo peculiar em que o individual e o coletivo só tem sentido quando todos colaboram, mas que não tolera acomodações injustas.

Meus pais se conheceram trabalhando em uma fábrica, e mesmo longe de constituir um casal perfeito, aprendi muito com eles sobre como o mundo do trabalho funcionava. Minha mãe nunca soube que a exploração que sofria trabalhando por produção se chamava mais-valia, mas poderia explicar para você com grande sofisticação matemática, com quantas dúzias das meias que cerzia o patrão pagava seu salário e a partir de quando na semana, seu trabalho se transformava no lucro do outro (e isso tendo frequentado apenas três anos de escola rural). Aprendi com meus pais tudo o que precisava sobre o que o homem é capaz de impingir ao semelhante para obter lucro.

Nesse sentido, eu sou comunista como muitas pessoas são budistas. Porque é muito mais do que uma ideia política, é uma visão de mundo, é uma identidade.

É então que surge a pergunta de sempre: e Mao, Pol Pot, Stálin, Fidel e o Che?

Uma coisa que a vida me ensinou é que o mundo é complexo demais para pensar que temos a solução da História e que basta uma ideia ou um regime para trazer um milagre milenarista que resolva todos os problemas da humanidade. Considero quem acredita nisso extremamente imaturo, como também considero igualmente imaturo quem acredita que a humanidade pode viver se quaisquer meios regulatórios e usando sua liberdade indiscriminadamente. Tanto a ditadura extrema quanto a liberdade extrema são ambas negadoras da civilização. Uma porque elimina o indivíduo em prol da sociedade e a outra porque implode a sociedade para beneficiar o ego e as paixões do indivíduo.

Já vi muitas críticas às experiências auto-denominadas comunistas. Desde as dos esquerdistas de que não passaram de “capitalismo de Estado” (o que concordo em parte) até as daqueles que abominam o comunismo porque querem conservar suas hierarquias e privilégios e então demonizam esses regimes. Cada um desses regimes deve ser entendido em seu momento histórico e em seu país de origem. Dizer que foram erros ou fracassos não basta, é necessário pensar porque aconteceram e o que se aprendeu com elas. São parte de nossa trajetória como seres humanos e não podem ser relegadas nem por quem defende a ideia e nem devem ser levianamente rotuladas por quem a combate.

O que aprendemos com elas é que não se pode obrigar os seres humanos a ser “iguais”, do mesmo modo que a imposição religiosa não conseguiu jamais transformar alguém em “bom”. Da mesma forma, se o planeta segue um sistema econômico, um único país não tem força e nem capacidade para se subtrair a ele sem gerar consequências. Vai daí que a maior parte dos direitos de auto-determinação dos povos sucumbem perante o poder econômico e os direitos individuais são atropelados perante o poder político. Do meu ponto de vista a implantação de um regime de viés comunista radical é uma impossibilidade histórica.

É nesse sentido que eu me denomino uma comunista sem partido, porque não acredito na disciplina partidária em que o indivíduo é tragado em prol da sociedade. Acredito que nós comunistas temos muito a contribuir no aprimoramento das instituições democráticas, se desistirmos do milenarismo e aprendermos a viver nossas ideias de modo prático. É o que eu tento fazer. Se alguém bate a minha porta pedindo um litro de leite e eu posso dar, eu dou. Disponibilizo de graça na internet o resultado de trinta anos de estudos, porque é tudo o que posso oferecer (vivo de modo frugal porque escolhi dividir minha vida com alguém tão idealista quanto eu). Fora isso, sou “marmitão”, “ombro amigo” e me disponho a ser solidária com quem precisa.

E faço isso não esperando recompensa ou reconhecimento (não acredito em deuses de qualquer tipo, paraísos ou infernos), apenas porque é isso que eu acredito que seja ser comunista. Também não considero que todos devam me tomar como referência, um mundo cheio de gente como eu seria um tédio. Aprendi a apreciar a diversidade e a aceitar os diferentes, mesmo quando a diferença se torna uma ameaça à minha existência. E isso porque eu tenho “desconfiômetro” e senso de ridículo e me sinto extremamente confortável em minha insignificância.

Eu sou comunista porque diante do que sei e do que sou, não poderia ser diferente.