Arquivo | janeiro, 2015

Atentados, fundamentalismo, liberdade de expressão e o maniqueísmo das opiniões formadas.

14 jan

Em 14 de dezembro de 2012 ocorreu um tiroteio na escola de Sandy Hook em Connecticut que vitimou vinte e oito pessoas, vinte e duas delas eram crianças pequenas. À época levei um choque ao postar no meu perfil no Facebook a minha indignação com tal covardia e receber o seguinte comentário: “morrem montes de crianças todos os dias no Iraque, no Paquistão e no Afeganistão”. Vários desses comentários, provenientes da esquerda que se considera iconoclasta, sucederam-se durante dias sem que as pessoas sequer percebessem a monstruosidade que estavam expressando.

A hostilidade e o ódio por trás dessa fala significavam que essas crianças mereciam morrer por serem brancas e terem nascido em um país agressivamente imperialista. Estabelecia uma hierarquia que transformava as crianças das zonas de guerra em vítimas “legítimas” e as crianças vitimadas por mais um demente cristão em “futuros opressores que não merecem pena”. Eu recuso veementemente hierarquizar as vítimas, crianças são crianças não importa a cor ou a localização geográfica, não importam os crimes de seus pais ou conterrâneos, nenhuma criança merece ser assassinada em hipótese alguma.

E não deveria ser necessário ter que expressar isso em palavras.

Não me levem a mal, este é mais um daqueles artigos de opinião. Se vocês não pediram minha opinião, não precisam ler. Se vocês me conhecem e sabem como eu sou, então sabem exatamente o que irão encontrar aqui.

Lembrei-me de Sandy Hook a partir do clima de déja vu que se instalou em função dos atentados na Charlie Hebdo. É tanta gente na esquerda brasileira justificando “historicamente” o ódio muçulmano, que os cartunistas assassinados foram transformados em “provocadores irresponsáveis” e “burgueses xenófobos” oriundos de um país “hipócrita e criminoso”. A palavra “islamofobia” está sendo usada como se de fato correspondesse a um comportamento geral da sociedade, quando na verdade é apenas mais uma manifestação lastimável do etnocentrismo que caracteriza alguns setores bem específicos da população europeia.

Da mesma maneira, já vi várias pessoas que pensam ser mais legítimo sentir pena das vítimas do Boko Haram na Nigéria, do que das vítimas dos fundamentalistas muçulmanos na Europa. Ignorando deliberadamente que esse tipo de argumentação fomenta o ódio tanto quanto o próprio texto virulento das escrituras sagradas cristãs, muçulmanas e hebraicas. É novamente esse discurso implícito de que alguns merecem morrer mais que outros.

Se vocês acreditam e afirmam que os cartunistas da Charlie e as crianças de Sandy Hook mereciam morrer apenas por ser quem eram, então vocês estão cometendo um crime de ódio tão asqueroso quanto aqueles que condenam nos estados imperialistas.

E esse tipo de distorção provém exatamente da tentativa ideológica de historicizar uma discussão sobre religião, deixando a religião de fora. Precisamente por não querer ter as próprias crenças questionadas, relativiza-se o papel fundamentalismo religioso no terrorismo atual, jogando o foco do debate apenas na geopolítica e amputando o aspecto mais crucial do tema. E defendem-se essas posturas alegando que se trata de “respeito pela cultura do outro”.

Porque, essencialmente, refletir sobre o caráter intolerante, violento e irracional do Islã significaria ser obrigado a reconhecer as mesmas características que estão presentes no cristianismo e no judaísmo ainda nos dias atuais, e não apenas em períodos históricos longínquos como as cruzadas medievais. Questionar os regimes ditatoriais da Arábia Saudita e do Qatar é hipocrisia quando não se aponta ao mesmo tempo para Israel e para o Vaticano, igualmente estados teocráticos, que adorariam ter poder suficiente para impor suas ideologias religiosas e políticas ao conjunto da sociedade.

E como poucos intelectuais ou ativistas de esquerda têm coragem para enfrentar essa discussão, então é fácil tomar como parâmetro que a religião dos outros deve ser respeitada e não se deve ter atitudes ofensivas.

E isso não passa de uma falácia. Ser ou não ser ofensivo é uma questão de ponto de vista puramente pessoal. Não importa quanto se suavize a fala, sempre haverá quem se ofenda.

A discussão, que começou como “você tem o direito de se ofender, mas não tem qualquer direito de matar quem o ofendeu”, transformou-se em “se a história e a cultura do seu povo estão sendo ofendidas em um país que você já odeia por si só, isso dá o direito de recorrer à violência e ao assassinato?” Para alguns setores da esquerda brasileira, tudo leva a crer que dá… Existe um subtexto extremamente perigoso nessas falas aparentemente intelectualizadas.

Por conta desse maniqueísmo aristotélico-tomista que anda grassando nas redes sociais, tornou-se impossível ser solidário com todas as vítimas, nossos amigos da esquerda iconoclasta escolheram e determinaram quais são as vítimas legítimas e todos os que não concordamos, passamos a ser tratados como irresponsáveis, reaças (essa é de doer mesmo para uma comunista com cinquenta anos nas costas como eu) e manipulados pela mídia.

Um dos exemplos mais gritantes desse tipo de lógica canhestra foi um indivíduo que perguntou: “se o Bolsonaro sofresse um crime hediondo, vocês sairiam dizendo ‘eu sou Jair’?”

Além de equiparar os cartunistas ao nosso tristemente folclórico paladino da direita nacional, o camarada parece acreditar firmemente que alguns merecem mesmo morrer mais do que outros.

Então, resumindo, em resposta a esse mar de ódio disfarçado de defesa dos oprimidos, vou repetir o que já disse no Facebook:

Je ne suis pás personne que moi même, mas je suis humaine et ces meurtres me insultent.

Eu não sou ninguém a não ser eu mesma, mas sou humana e esses assassinatos me ultrajam.