Arquivo | março, 2015

… e ainda sobre o aborto e outros direitos humanos

2 mar

É uma sensação desgastante frequentar as redes sociais ultimamente, como se não bastasse o modo invasivo e ordinário com que as pessoas expressam suas convicções políticas e pessoais, parece que foi aberta a temporada de caça a qualquer expressão de racionalidade ou sanidade. Imagine abrir sua timeline do Facebook em um domingo depois do almoço e encontrar o status de um pirralho qualquer defendendo o “direito à vida do feto” mesmo em detrimento do direito à vida da mãe. Insanidade? Ignorância?

Cada vez mais se erguem vozes ilegítimas a impor seus discursos ideológicos, da maneira mais grosseira e sem qualquer noção histórica e filosófica dos direitos que estão em jogo quando apoiam esses discursos religiosos vazios. Sentindo-se legitimados por uma bancada de congressistas evangélicos (e muitos católicos que na hora da votação também enxovalham os direitos humanos e os princípios republicanos para preservar o cânone comportamental religioso) que se recusa a aceitar a conquista de direitos por parte das mulheres e das minorias, esses ativistas pró-vida não vacilam em condenar crianças pobres à miséria, mulheres sem recursos à morte e mulheres vítimas de violência sexual ao inferno social de ter a ação dos estupradores legitimada por uma sociedade que as obrigue a ter os filhos fruto da violência.

Digo “vozes ilegítimas” porque jovens brancos (ou não), cristãos (ou não), heterossexuais (ou não), de classe média (ou de qualquer outra) jamais engravidam e não tem experiência de vida ou maturidade para julgar e emitir opiniões taxativas, ignorando deliberadamente os números da mortalidade feminina decorrente da criminalização do aborto. É uma arrogância sem tamanho emitir julgamentos sobre assuntos que não dominam e sobre direitos que não lhes dizem respeito.

É assustador o nível de conservadorismo e intransigência de muitos destes jovens na casa dos vinte anos. Inacreditável se considerarmos que a maioria tem acesso irrestrito à informação e desfruta de liberdades, direitos e perspectivas que a minha geração jamais conheceu.

O direito ao aborto seguro, em quaisquer circunstâncias, não apenas as previstas em lei atualmente, é uma bandeira legítima e tem sido praticamente a única pela qual marchei nos últimos anos. Não porque eu precise dele para mim, já que passei da idade da fertilidade, mas porque eu preciso ter a certeza de que vou deixar o mundo mais seguro para minha filha e para todas as minhas congêneres.

Eu preciso desesperadamente deixar para trás essa sensação que me persegue, desde que me aprofundei nos estudos históricos, de que meu corpo físico não me pertence e que foi loteado por políticos inescrupulosos, homens covardes e inseguros e deuses masculinos inventados (e seus defensores e asseclas).

Desde o momento em que as sociedades passaram a organizar-se para defender a propriedade privada e a sucessão testamentária por vias masculinas, as religiões de matriz monoteísta passaram a denegar a nós mulheres qualquer espaço social ou humano. Subjugadas por ordenamentos que exigiam a obediência e submissão a pais e maridos, condenadas à maternidade como única expressão de existência e sem poder escolher nosso destino, atravessamos séculos e séculos de crueldade mental e cerceamento existencial.

Os papéis sociais definidos a partir dessa barbárie estão sendo questionados desde o fim do século XVIII, quando Mary Wollestonecraft publicou sua reivindicação pelos direitos da mulher, em resposta à primeira declaração dos direitos do homem e do cidadão republicano. Mas de duzentos anos de lutas, em que podemos apresentar algumas vitórias parcas, parecem não significar nada para os defensores de embriões e fetos.

Sim, eu estou furiosa e indignada. Furiosa por ver pessoas que estão nas universidades, em cursos de ciências humanas, e não sabem diferenciar entre o ato do aborto em si, e a necessidade de acesso ao direito inalienável de autonomia do próprio corpo. Pessoas que defendem a “vida” mesmo que essa vida constitua a ruína do corpo que a gerou.

Em que universo meia dúzia de células pode ter mais direitos civis que uma mulher adulta em pleno exercício de sua cidadania, ou que uma adolescente que precisa ter sua saúde ou sua sanidade preservadas após sofrer um ato de violência?

A defesa dos direitos humanos passa por considerar homens e mulheres, brancos e negros, pobres e ricos, indivíduos de todos os gêneros possíveis e imagináveis como portadores dos mesmos direitos perante a lei e a sociedade. Uma sociedade laica, que não permita superstições e preconceitos religiosos pré-modernos pautarem o exercício da cidadania.

A descriminalização do aborto não vai torná-lo obrigatório, como parece insinuar o discurso inescrupuloso dos pastores; nem vai transformá-lo em método anticoncepcional como bradam os ignorantes; nem mesmo vai “destruir a família brasileira” como acreditam os homens e mulheres covardes que barganham nossas liberdades para manter-se na zona de conforto de suas crenças religiosas.

A descriminalização do aborto vai permitir que nossos corpos nos pertençam, que tenhamos acesso a melhores condições de saúde e que possamos optar e escolher nosso destino para muito além da vocação de vacas reprodutoras que as religiões do livro nos impuseram.

Enquanto a mídia manipula a sociedade para bradar como energúmenos contra a corrupção, essa mesma sociedade votou para o Congresso em corruptos notórios com agendas moralistas hipócritas que estão afrontando abertamente nossos direitos mais elementares, sob os aplausos dos ignorantes.

“O tempora o mores”

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