A CIVILIDADE ESTÁ MORTA E A INTERNET SERÁ SUA COVEIRA

30 abr

Estamos sendo condicionados por todos os meios de comunicação a acreditar que o mundo mudou, ficou mais célere, mais imediatista, e que as relações humanas passaram a ser mediadas por essa velocidade. Que a sociabilidade abandonou o espaço físico real e se concentra agora no mundo virtual, amparada pelos modelos criados nas chamadas “redes sociais”. Que a educação pessoal, a gentileza e a civilidade não tem espaço nesta pós-modernidade.

Afinal, as pessoas teclam suas mensagens com um número mínimo de caracteres, que são digitados a partir de celulares e outros “phones”, extremamente “chiques”, mas totalmente inadequados do ponto de vista anatômico para o desenvolvimento de um diálogo de verdade. E, amparados na desculpa dessa limitação tecnológica (ou eufóricos por poder esconder-se atrás desse tipo de desculpa reles), os jovens e muitos adultos esquecem deliberadamente de usar expressões corriqueiras de polidez e civilidade como: “bom dia”, “você teria um tempo para conversarmos?”, “posso te incomodar um pouco?”, você tem tempo para responder uma pergunta?”; além dos óbvios “obrigado” e “desculpe pela insistência”.

Mas não para por aí. Ao passar a fala coloquial para uma expressão escrita, uma boa parte das pessoas parece ignorar como essa fala direta soa agressiva. E é fácil constatar que isso acontece porque, longe do olho-no-olho, do sorriso cúmplice e da expressão corporal, até uma brincadeira simples pode soar como uma grosseria sem tamanho.

Outro dos problemas das redes sociais é a ilusão de intimidade que criam entre pessoas que jamais se encontraram frente a frente. Essa falsa intimidade acaba por criar situações profundamente constrangedoras, Pessoas que entram em seu in-box para conversar totalmente bêbadas tarde da noite, ou que escrevem trabalhos acadêmicos sob o efeito do álcool e não conseguem perceber a grosseria implícita nesse comportamento em relação ao professor.

Sim, porque eu sou professora e é disso que se trata. Estou desempregada desde 2007 e, mesmo assim, mantenho o blog, um canal no YouTube e respondo perguntas e recomendo bibliografia na página do Cantinho da História no Facebook.

Em um primeiro momento, aceitava qualquer solicitação ou sugestão de amizade porque considero esse tipo de orientação de estudos como um serviço de utilidade pública. O aumento da grosseria foi me obrigando a deletar centenas de contatos e a evitar a qualquer custo aceitar solicitações de amizade de estranhos. Considero isso lamentável, mas é o custo necessário para a preservação da sanidade.

Nós professores enfrentamos hoje um profundo descaso com nosso trabalho e com as nossas pessoas humanas e físicas. Uma parte disso é parte mesmo do mal-estar da pós-modernidade, que descarta o ser humano e media as relações a partir de premissas e paradigmas individualistas e excludentes. Outra parte encontra eco na eliminação grotesca dos padrões civilizatórios a que assistimos todos os dias nos meios de comunicação e na internet: a despolitização da sociedade, a demonização da política, a glorificação da competitividade agressiva, a uniformização da sociedade através do empobrecimento do diálogo.

Estamos apanhando da polícia, dos alunos, dos pais e dos meios de comunicação porque ainda nos expressamos e nos regemos por valores e ideias que esta sociedade descartou. Como reagir ao cinismo e à hipocrisia reinantes, quando se trata de nossa sobrevivência como categoria profissional e como identidade de classe? Eu não sei…

Estamos tentando dialogar com governos estaduais que se fecharam ao diálogo, com pais que querem que eduquemos seus filhos para esta modernidade atroz (mas que não nos respeitam como pessoas), com forças repressivas uniformizadas que não conseguem discernir da moralidade de “obedecer ordens” para o crime de agressão propriamente dito. E estamos perdendo porque não somos aparelhados para lidar com a irracionalidade dos outros sujeitos sociais.

Como aceitar, que até mesmo quem diz gostar de nosso trabalho, ainda assim nos desrespeita e nos agride?

E retomo, neste ponto, a questão da moça bêbada no in-box às onze da noite ou do camarada que me pediu para revisar um texto sofrível e depois me disse que estava bêbado quando escreveu. Será que esses dois batem à porta das pessoas nesses horários tardios, sob a influência da bebida? Se não o fazem na vida real, porque o fariam no mundo virtual, com pessoas de quem dizem gostar? Será que aquela pessoa que manda uma mensagem inteiramente escrita em maiúsculas, sai por aí berrando no ouvido dos outros, como o uso das letras garrafais parece sugerir?

Vou mais longe, em que universo foi educado um jovem que se dirige a uma mulher da minha idade, inteiramente estranha e usa diminutivos jocosos e expressões de intimidade que me infantilizam e menosprezam? Afinal, eu tenho cinquenta anos bem vividos e uma “porrada” de diplomas na gaveta e só me chamam de “anninha” aqueles que me viram crescer ou que me conhecem há décadas para justificar essa intimidade. Não certamente um estudante com idade para ser meu filho.

Nós, professores, enfrentamos esse tipo de falta de respeito e consideração diariamente, mas para as mulheres a situação é ainda mais difícil porque o machismo e o patriarcalismo da nossa sociedade permite que qualquer pirralho nos humilhe e se sinta reforçado em sua masculinidade por isso. Nesse sentido, as balas de borracha, sprays de pimenta e gás lacrimogêneo são uma consequência direta do menosprezo que sofremos todos os dias porta adentro das escolas e no universo virtual. Governadores e policiais agem desse modo porque sabem que ninguém vai nos defender.

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4 Respostas to “A CIVILIDADE ESTÁ MORTA E A INTERNET SERÁ SUA COVEIRA”

  1. Paulo Pinheiro Machado abril 30, 2015 às 9:01 pm #

    Prezada Anna Gicelle. Parabéns pela avaliação equilibrada e perspicaz do momento que estamos vivendo e da falta de respeito e civilidade nas relações pessoais. O clima reinante só favorece aqueles que não valorizam o trabalho, o esforço e a dedicação. Está em alta a truculência, a acusação irresponsável e o oportunismo. Só uma coisa me deixou feliz ontem: fiquei sabendo que 17 policiais ficaram presos nos quartéis porque se recusaram a atacar os professores em Curitiba. Tiveram a dignidade de descumprir uma ordem absurda. Há um fio de esperança nisto. Abraço!

    • annagicelle maio 1, 2015 às 11:19 am #

      Concordo com você. Esses 17 foram uma surpresa inesperada, quem sabe aparecem mais. Abraço!! 🙂

  2. Ccc maio 2, 2015 às 11:46 pm #

    Sobre a questão da intimidade, vejo muitas pessoas agirem e falarem com outras pessoas, ou comigo mesmo, de uma maneira intima, sem que me conheça. Sou jovem, tenho 15 anos, e exclui o perfil do facebook por um tempo e percebi que cada pessoa que eu conhecia procurava meu perfil, pois na próxima vez que eu encontrava vinham me dizer que não tinham me encontrado lá, serve de uma maneira até de espionagem, com se ali fossem descobrir algo sobre mim. E pior, muito desses diálogos foram acompanhados de: “nossa, tu não tem vida social?”…
    Acredito que essa intimidade que a senhora citou esteja substituindo uma outra mais madura, que tenha sido construida atraves do convívio. É preocupante.
    Outro dia na sala de aula, no fim do período a professora disse: “A aula rendeu bem hoje, vou dar esses 10 minutos pra vocês conversarem”, pelo menos metade da turma pegou o celular na mão, pra conversar.

    • annagicelle maio 3, 2015 às 1:34 pm #

      É bom saber que existem jovens com senso crítico, percebendo a gravidade na mudança das relações sociais. Um grande abraço!! 🙂

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