Arquivo | maio, 2015

AMIZADES

7 maio

Esta semana foi o aniversário de uma pessoa que foi minha amiga durante muitos anos e que a vida e as circunstâncias levaram do meu convívio de modo insuperável.

Foi minha primeira amiga ao chegar ao Brasil, nos idos de 1974. Conhecemo-nos na escola e convivemos por quase três anos, quando minha família se transferiu de São Paulo para Jundiaí continuamos nossa correspondência durante anos e guardo todas as suas cartas e cartões até hoje. Foi uma das poucas pessoas presentes na minha formatura de graduação. E mesmo assim, hoje não temos contato algum.

Devo confessar que à luz dos anos percebi que não devo ter sido uma amiga como ela esperava. Eu vinha de um país culturalmente muito diferente do Brasil, sem a facilidade para a gentileza ou a expansividade que aqui parece ser pré-requisito para o convívio social. Levei muitos anos para encontrar dentro de mim a suavidade necessária para a adaptação à vida aqui.

Passei o período dos 10 aos 25 anos com muita raiva e inadequação porque minha família foi obrigada a emigrar por razões econômicas e políticas, não por espírito saltitante de ganhar o mundo, e isso teve efeitos desastrosos na vida dos meus pais e colocou nos meus ombros uma carga da qual eu me ressentia e muito.

Então, certamente, eu não teria sido uma boa amiga para ninguém.

No nosso caso em particular, a partir do momento em que a amizade se tornou epistolar, uma limitação surgiu: seus pais liam as nossas cartas. Nesse sentido, optamos por restringir o diálogo a um inventário de livros, músicas e filmes de nossa preferência e nenhuma informação pessoal. Isso cobrou um preço muito caro, amadurecemos distantes uma da outra e sem saber em que tipo de pessoas estávamos nos transformando.

Na casa dos trinta tentei retomar o contato, mas eu passava por dificuldades econômicas medonhas e não dispunha de mobilidade para estar perto dela quando precisou de mim. E era uma época em que não existia celular nem internet. No fim da casa dos quarenta a encontrei no Facebook, mas não retornou nenhuma das minhas mensagens.

Hoje, quando ambas adentramos a casa dos cinquenta, resolvi finalmente deixá-la ir das minhas lembranças. Torcendo para que sua vida tenha sido pródiga em experiências como a minha e que seja muito feliz. Neste momento, sinto que o melhor jeito de ser amiga é aceitar que as amizades tem data de validade.

Leio muita demagogia nas redes sociais sobre “amigos de infância” e “amigos para toda a vida”, mas o que aprendi a duras penas adaptando-me à sociedade brasileira é que amizades têm mesmo data de validade e muitas vezes são mantidas pela nostalgia do que fomos, muito mais do que pela estima que as pessoas nos têm.

À medida que meus cabelos embranquecem e as pessoas que me seguraram no colo vão morrendo, fica a certeza de que desperdiçamos tempo demais jurando amizade e investimos muito pouco tempo sendo realmente amigos.

Um feliz aniversário à minha antiga amiga, muita saúde, paz e felicidades, e desculpe por qualquer coisa…