AMIZADES

7 maio

Esta semana foi o aniversário de uma pessoa que foi minha amiga durante muitos anos e que a vida e as circunstâncias levaram do meu convívio de modo insuperável.

Foi minha primeira amiga ao chegar ao Brasil, nos idos de 1974. Conhecemo-nos na escola e convivemos por quase três anos, quando minha família se transferiu de São Paulo para Jundiaí continuamos nossa correspondência durante anos e guardo todas as suas cartas e cartões até hoje. Foi uma das poucas pessoas presentes na minha formatura de graduação. E mesmo assim, hoje não temos contato algum.

Devo confessar que à luz dos anos percebi que não devo ter sido uma amiga como ela esperava. Eu vinha de um país culturalmente muito diferente do Brasil, sem a facilidade para a gentileza ou a expansividade que aqui parece ser pré-requisito para o convívio social. Levei muitos anos para encontrar dentro de mim a suavidade necessária para a adaptação à vida aqui.

Passei o período dos 10 aos 25 anos com muita raiva e inadequação porque minha família foi obrigada a emigrar por razões econômicas e políticas, não por espírito saltitante de ganhar o mundo, e isso teve efeitos desastrosos na vida dos meus pais e colocou nos meus ombros uma carga da qual eu me ressentia e muito.

Então, certamente, eu não teria sido uma boa amiga para ninguém.

No nosso caso em particular, a partir do momento em que a amizade se tornou epistolar, uma limitação surgiu: seus pais liam as nossas cartas. Nesse sentido, optamos por restringir o diálogo a um inventário de livros, músicas e filmes de nossa preferência e nenhuma informação pessoal. Isso cobrou um preço muito caro, amadurecemos distantes uma da outra e sem saber em que tipo de pessoas estávamos nos transformando.

Na casa dos trinta tentei retomar o contato, mas eu passava por dificuldades econômicas medonhas e não dispunha de mobilidade para estar perto dela quando precisou de mim. E era uma época em que não existia celular nem internet. No fim da casa dos quarenta a encontrei no Facebook, mas não retornou nenhuma das minhas mensagens.

Hoje, quando ambas adentramos a casa dos cinquenta, resolvi finalmente deixá-la ir das minhas lembranças. Torcendo para que sua vida tenha sido pródiga em experiências como a minha e que seja muito feliz. Neste momento, sinto que o melhor jeito de ser amiga é aceitar que as amizades tem data de validade.

Leio muita demagogia nas redes sociais sobre “amigos de infância” e “amigos para toda a vida”, mas o que aprendi a duras penas adaptando-me à sociedade brasileira é que amizades têm mesmo data de validade e muitas vezes são mantidas pela nostalgia do que fomos, muito mais do que pela estima que as pessoas nos têm.

À medida que meus cabelos embranquecem e as pessoas que me seguraram no colo vão morrendo, fica a certeza de que desperdiçamos tempo demais jurando amizade e investimos muito pouco tempo sendo realmente amigos.

Um feliz aniversário à minha antiga amiga, muita saúde, paz e felicidades, e desculpe por qualquer coisa…

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5 Respostas to “AMIZADES”

  1. Fernando Gouvea maio 8, 2015 às 3:06 pm #

    Me emocionei. É a pura verdade. As amizades tem data de validade. Neste caso, infelizmente, a validade da dela terminou antes da sua mas, como vc mesma disse, ela teve suas razões. De qualquer maneira ter uma sentimento assim por uma amiga já é um bálsamo.
    Abraço

  2. Jefferson maio 16, 2015 às 7:27 pm #

    “[…] Pois na amizade, todos os pensamentos, todos os desejos, todas as esperanças
    nascem e são partilhadas sem palavras, com alegria. Quando vos separais de um amigo não fiqueis em dor, pois aquilo que mais amais nele tornar-se-à mais claro com a sua ausência, tal como a montanha, para quem a escala, é mais nítida vista da planície.
    E não deixeis que haja outro propósito na amizade que não o aprofundamento
    do espírito. ” Sobre a amizade – Livro o Profeta de Gibran Khalil Gibran

  3. Rodolfo França maio 22, 2015 às 1:31 am #

    Nossa! Fiquei tocado com seu texto!
    Sempre em minha vida emigrei entre estados e cidades, por conta do trabalho do meu pai.
    Embora que ainda novo, completando meus simplórios 18 anos, posso dizer que ‘sem bem como é isso’, pois devo beirar minha 15ª ou 16ª mudança. Nunca tendo passado mais de quatro anos em algum lugar. E isto me fez realizar que as amizades tem sim, data de validade, como você mesmo ressaltou no texto.
    As pessoas evoluem, uma evolução não é negativa ou positiva, só possibilita a adaptação ao meio. Aprendi a me adaptar. Hoje, posso dizer que realmente não sinto mais a necessidade de um lugar fixo, dispensando a famigerada ideia de “lar”. Lar é onde nós vivemos, em minha concepção.

    Belo texto, obrigado por escreve-lo.

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