Arquivo | setembro, 2015

COTIDIANO

26 set

Abro com cuidado minha janela em meio ao piado sem fim dos passarinhos, pego a cumbuca com a comida para o Biscoito e saio pela lavanderia, descendo cuidadosamente as escadas que levam ao quintal. Já nos primeiros degraus vejo dois beija-flores voejando em torno do jasmim de flor estrelada e da dama da noite, uma revoada de pardais barulhentos, que sai dos arbustos e se abate sobre o mato no terreno do vizinho e um sentimento de calmo deslumbramento me invade, mais uma vez.

Chamo o Biscoito para comer seu ranguinho de arroz integral, cenoura e carne e fico por perto. Sei que ele vai demorar a comer e preciso me certificar que o comprimido de Ômega 3, escondido no meio do arroz, vai ter o destino pretendido. Enquanto ele come, minha mente viaja e se perde.

A garoa fina e o céu nublado, um alívio após  uma semana de sol escaldante e quase nenhuma umidade no ar, me revigoram tanto quanto revigoram meus canteiros. As rosas revivem, o jasmim do cabo está cheio de botões, o alecrim reina soberano e faço um rápido cálculo mental de quantos pernis, lombos e costelinhas teria que assar para conseguir usá-lo todo. Desisto, convencida de que o infarto viria muito antes de que o arbusto minguasse, se nós ingeríssemos toda essa carne de porco. À sombra do alecrim, o manjericão revive após semanas de agonia e isso (mais as nozes no pote em cima do microondas) me dizem que amanhã teremos pesto para o macarrão caseiro.

Respiro com todas as forças que tenho, encho meus pulmões com esse ar úmido e fresco e meu olhar é atraído pelo canto junto ao muro em que a guiné viceja maravilhosa, mas a espada de São Jorge se mostra amarelecida e mústia. Procuro em vão, vasculhando a minha mente a palavra em português para traduzir “mústia” e não consigo encontrar. Penso em perguntar à minha mãe, quando ela me ligar hoje à tarde, mas sei que ela me dará três ou mais palavras sem que nenhuma seja tão expressiva quanto o termo em espanhol.

Sinto os pingos da garoa em minha pele e procuro não pensar em como está demorando o resultado da biópsia da pinta em meu ombro, nem no meu achaque circulatório da última segunda-feira, que me deixou um gosto acre de pânico na garganta. Também não quero pensar no Cunha, no Renan ou no Temer. Muito menos na corja de abutres tucanos que nos reduziu a esta espera cotidiana pela chuva, à contabilidade de cada litro consumido, à comemoração pagã a cada vez que os céus vertem suas águas sobre nosso sofrido pedaço de chão. Mas mesmo assim penso.

Minha atenção é atraída por um tijereta (penso que em português seria tesourinha, mas não posso evitar a lembrança do insetinho que vem na verdura) que voa do terreno baldio vizinho e pousa majestosamente no muro, ajeitando sua cauda bipartida com elegância e observando o entorno antes de levantar voo em direção ao arvoredo da praça duas ruas abaixo.

E nesse momento vejo que o Biscoito comeu toda a comida e o comprimido está intacto no chão perto da cumbuca. Me agacho e o ofereço repetidamente, até que ele consiga um ângulo para mastigá-lo com seus dentinhos gastos e envelhecidos. Numa sincronia quase mágica, quando ele termina e eu recolho a cumbuca para subir, o Duda assoma no alto da escada para buscar as ferramentas de jardinagem e retirar o matinho do canteiro do jasmim que plantamos na rua. Plantamos esse jasmim para impedir que o vizinho e seus amigos estacionassem seus carros em cima da nossa calçada. Sempre penso que gente espaçosa se combate com gestos e não com brigas.

Deixo Biscoito saltitando feliz em volta do Duda e subo lentamente as escadas para aproveitar os pingos da chuva que vai engrossando. A casa refrescou bastante durante a noite e o bafo quente, quando entro, é sensivelmente menor que nos dias anteriores.

Queria ter podido fotografar os pássaros todos e registrar o momento de revivescência do canteiro, mas eu não tenho esse tipo de talento. E nem ando com o celular a tiracolo, muito menos em um sábado pela manhã. Então, após acordar minha filha com uma caneca de leite achocolatado, beijo, abraço e o boletim do tempo, ligo o computador e começo a escrever…