O NARCISISMO INVOLUNTÁRIO DO OLHAR

2 out

Vemos a realidade e a interpretamos de acordo com aquilo que somos. E esta não é uma afirmação relativista, até porque eu mesma considero o relativismo como um álibi para covardes. Esta é uma afirmação que deve ser entendida a partir do atavismo presente em todos nós seres humanos.

Se você se considera justo, equânime e imparcial em sua leitura do mundo, prepare-se para algumas surpresas. Você não é e nenhum de nós consegue ser. Está em nossa condição e evolução de raciocínio perceber o mundo a partir da própria experiência, o que torna todo e qualquer olhar parcial.

O que isso significa ou como se dá esse fenômeno?

Somos uma espécie pensante, mas o nosso pensamento tem parâmetros de referência desde o início do aprendizado. O primeiro parâmetro é o da experiência: bebês tocam, cheiram e lambem tudo que se aproxima de seu campo de visão e é assim que vão construindo suas primeiras percepções do mundo real.

O segundo parâmetro vem da audição e é o que transforma esse aprendizado tátil em experiência para toda a vida. Devemos conversar com os bebês sem essa idiotização da linguagem (que tantos adultos lamentavelmente usam) porque as crianças dependem da nossa fala para ir dando sentido aos objetos que tocam, às sensações que vivem e às necessidades que precisam verbalizar.

A aquisição da linguagem está associada a esses dois parâmetros da experiência e é o maior salto de desenvolvimento no cérebro do ser humano. Mas, a partir da linguagem, a experiência começa a ter sua individualização. Por mais que as escolas e os sistemas de educação queiram homogeneizar o aprendizado, as crianças não são todas iguais, não aprendem do mesmo modo e não trazem o mesmo tipo de “bagagem” de casa.

Se, desde cedo você educa seus filhos no pavor de castigos divinos e de um mundo paralelo, imaginário e mágico, você já criou neles uma dimensão de percepção do real que vai distorcer tudo o que eles tiverem que aprender no futuro. E é assim com tudo o que passamos para as novas gerações. Ao formar a personalidade, vamos formando os parâmetros de leitura da vida e da realidade, sem que isso signifique que nossa percepção seja a única possível ou a mais correta.

É por isso, de certa forma, que pessoas vão a Cuba e voltam com discursos de todos os tipos. Conheço pelo menos meia dúzia de pessoas que fizeram essa viagem e que serviu apenas para reafirmar suas próprias opiniões, tanto de direita quanto de esquerda, tanto de religiosos quanto de céticos. A realidade de Cuba, provavelmente está na intersecção desses discursos desde que sejam despidos das paixões egocêntricas que os conformam.

E assim para todo e qualquer evento, lugar ou pessoa que conhecemos e avaliamos a partir de nossas premissas pessoais do real.

Quando o raciocínio chega neste ponto, você tem duas opções: ou você cai na solução confortável e superficial do relativismo dizendo que o real não existe e que todas as opiniões tem o mesmo peso (e nesse sentido, acabando de vez com toda e qualquer utilidade e até mesmo historicidade da experiência humana); ou você começa a construir parâmetros de diálogo entre as diferentes percepções da realidade e meios de arbitragem para os conflitos surgidos na convivência entre opostos e opositores.

E essa é uma construção difícil, trabalhosa, que requer paciência, dedicação e senão carinho, pelo menos respeito por nossos semelhantes, mesmo que sejam tão diferentes de nós. Mesmo que nos desejem a morte, a doença e nos rebaixem com expressões de baixo calão. Mesmo que estejam colocando o futuro da espécie humana em risco com suas atitudes e ações.

O que torna tão difícil a construção de pontes entre as diferentes realidades, nos dias atuais, é exatamente esse voluntarismo individualista e “dono da verdade” que toma conta da maioria de nós. Poderia-se dizer que se trata do mal da modernidade ou da pós-modernidade, mas na verdade não passa do mais puro narcisismo, mesmo que ocasionalmente possa ser involuntário.

Pensar que a nossa percepção do real seja a única possível e sensata é um mecanismo de defesa contra a incerteza e a aleatoriedade da vida. É por isso que o ser humano inventou todos os deuses que já andaram e andam por aí. É por isso, também, que construímos heróis e lendas, mitos de origem e cultuamos tantas figuras improváveis, tanto imaginárias quanto da vida real.

A velocidade da vida contemporânea só aumentou a velocidade com que destruímos nossos heróis. Antes, podia levar algumas gerações para desmistificar um prócer ou uma figura lendária, hoje reputações surgem e são destruídas meteoricamente. E não temos parâmetros para lidar com essa velocidade.

Dentre todas as reações que o ser humano poderia ter perante essa precarização da percepção do cotidiano e das leituras do real, a grande maioria substituiu o medo pela raiva. Em muitos casos, essa raiva se transforma em ódio da maneira mais volátil.

Nesse sentido, estamos ameaçados como espécie de maneira indiscutível. Não chegamos a acordo sobre coisas essenciais para a sobrevivência de todos e muitos já estão advogando o genocídio dos que lhes são diferentes, em nome dessa mesma sobrevivência.

Sempre que reafirmamos que não existe possibilidade de diálogo com nossos opositores, estamos dando um passo em direção a uma solução violenta e reafirmando nosso fracasso como seres pensantes.

Alguém poderá argumentar: se você defende tanto o diálogo, por que deleta de seus contatos nas redes sociais os extremistas, os ignorantes e os ordinários? E esse é, novamente, o grande problema contemporâneo de considerar que atitudes individuais podem resolver nossos problemas como sociedade e como espécie. Não é conservando gente que faz minha pressão arterial disparar e que me ofende da maneira mais escrota que eu posso promover o diálogo.

Neste momento, voluntarismo e atitudes narcisistas somente criam mais pontos de atrito. Precisamos pressionar os meios de comunicação, os governos e os grupos formadores de opinião, mesmo que seja mediante boicote (e essas são atitudes que devem ser coletivas) a manter as portas e o pensamento abertos em relação ao “outro”, a priorizar o ser humano e sua integridade a despeito do dinheiro e do poder.

Devemos equilibrar, socializando ganhos e perdas, tudo aquilo que nos define e que, por isso mesmo, nos separa e nos contrapõe enquanto espécie. Todas as ideologias, quer sejam políticas ou religiosas, que nos isolam e nos levam ao ódio. Devemos encontrar um equilíbrio de convivência, mesmo que todos tenhamos que ceder, cedo ou tarde.

Ingênuo? Talvez. Mas qualquer solução que redunde em repressão, guerra ou morticínio será mais uma derrota que colecionaremos. Afinal, se você não sabia, a Primeira Guerra Mundial foi vendida aos europeus como “a guerra que acabaria com todas as guerras”…

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