A ÁGUA EM MARTE E AS MENTES RASAS NA TERRA

8 out

Na última semana percebi em minha linha do tempo no Facebook, que vários dos meus amigos, alguns que muito estimo e parentes queridos, estavam divulgando um post com uma criança visivelmente africana bebendo em um charco de lama e criticando o dinheiro investido na pesquisa espacial. Lamento tanto que a internet mantenha qualquer debate ideológico importante em um nível tão raso, apelativo e vulgar, que desestimula as pessoas a pensar onde estão verdadeiramente os termos de cada equação do pensamento.

Em 1975, contando com 11 anos de idade, cursava eu a quinta série do ginasial na Escola Estadual de Primeiro Grau Prof. José Escobar, ainda hoje (se o governador deixar) localizada à rua Greenfeld, no Ipiranga. Minha excelente professora de português, D. Takiko Doyama, pediu uma redação de tema livre e eu, como boa comunista, resolvi falar sobre a injustiça e a desigualdade, dedicando vários parágrafos às pedras da Lua que me pareciam um absurdo diante da fome no mundo. Essas redações eram anônimas, o que parecia ser para preservar os tímidos, mas também poderia ser para nos proteger dos ouvidos ditatoriais onipresentes.

Entregávamos anonimamente e D. Takiko lia publicamente aquelas que considerava como sendo as melhores, sem o compromisso de que nos identificássemos, era um exercícios de redação para que aprendêssemos a nos expressar sem valer nota. D. Takiko leu minha redação e disse que era muito boa, mas que nós éramos jovens demais para avaliar o tamanho dos benefícios para a humanidade advindos de qualquer pesquisa científica.

Hoje sei exatamente o que D. Takiko queria dizer e gostaria que soubesse (quarenta anos depois) que jamais esqueço o quanto aprendi com ela.

Vejam vocês que o ponto nevrálgico dessa discussão é que o investimento mundial em pesquisa científica (de qualquer ordem) é ínfimo quando comparado ao orçamento destinado aos gastos militares ou ao capital volátil do mercado financeiro. A culpa de que aquela criança esteja bebendo lama não é do cientista que está buscando soluções para doenças e problemas técnicos. A culpa é do sistema econômico capitalista que separa a humanidade em quem deve e quem não deve ter acesso às condições minimamente dignas de existência, em um nível planetário.

Sem o investimento em pesquisa espacial, não teríamos a tecnologia dos ultrassons e outras frequências de ondas, que permitem a existência tanto dos mamógrafos que previnem o câncer, quanto dos micro-ondas, que auxiliam quem não tem tempo para cozinhar. Diariamente nos beneficiamos de remédios, alimentos e utensílios que são derivados das descobertas decorrentes da pesquisa espacial.

Se fôssemos pensar dessa maneira rasa e demagógica promovida pela mídia convencional, não teríamos sequer a internet para divulgar nossas ideias.

É muito importante que se pense que as soluções encontradas pelos cientistas para viabilizar a viagem e a pesquisa em Marte, cedo ou tarde nos beneficiarão de maneiras que nem podemos imaginar.

Se as crianças africanas continuam morrendo de sede e fome, a culpa está longe de ser do dinheiro investido em pesquisa espacial, que tal pensar melhor sobre o lucro bancário, sobre o imperialismo que extrai matérias primas dos países pobres e sustenta regimes políticos de apartheid social e racial, a fim de manter os privilégios de uma minoria bem específica.

Estamos caminhando a passos largos para que o 1% mais rico dos habitantes do planeta supere a renda dos 99% restantes. E você acredita que acabar com o programa espacial vai fazer alguma diferença????

Por favor: mais informação, mais pensamento crítico e menos mentalidade de rebanho!!!!!

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