O BRASIL E O MUNDO MEDIEVAL

13 out

Frequentemente recebo questões no Cantinho da História que me deixam pensando durante dias. Seja porque quem pergunta não soube formular e isso dificulta minha resposta, seja porque são questões que nem cabem de tão ingênuas (bastaria à pessoa pensar um pouco para encontrar as respostas).  Entretanto, como é o caso aqui, pode acontecer da pergunta revelar as deficiências do ensino básico na área de História.

Muitas das perguntas que recebo de estudantes em início de graduação referem-se ao interesse de cursar uma pós e ao dilema de selecionar um tema. E são muitos que se interessam pela disciplina de medieval e mandam toda sorte de interrogações sobre a possibilidade de acesso a documentos medievais aqui no Brasil, na eventualidade da elaboração de um projeto de pesquisa. Fora os que não sabem distinguir entre Historiografia do período medieval e Historiografia Medieval (anacronismo medonho que confere aos cronistas medievais a condição de participar de um debate historiográfico que nem existia à época de seus trabalhos, assim o camarada faz um trabalho querendo que um autor do século XII dialogue com um do século XX, como se isso fosse possível).

Nesse sentido, percebo que alguns professores do ensino básico fracassam na hora de fazer com que seus alunos compreendam as cronologias, periodizações, épocas e a passagem do tempo histórico. Nosso material didático mantém o viés eurocêntrico já tão criticado por duas gerações de historiadores, mas nunca corrigido por quem mantém as ementas das disciplinas e a redação dos livros e apostilas. Assim, as periodizações que nossos alunos aprendem partem da Europa e dialogam com a Europa, tornando o resto do planeta mero coadjuvante e nem sempre sujeito de sua própria História.

No que se refere ao período medieval, esse tipo de deficiência salta à vista. O que se estuda sobre esse período, no ensino básico, restringe-se à Europa Ocidental (França, Ilhas Britânicas, Península Ibérica e aquele conjunto de condados, principados e pequenos reinos que, no século XIX, viriam a ser unificados formando a Itália e a Alemanha), alguma coisa do Leste Europeu e do Oriente Próximo, bem como do norte da África, sempre e quando estejam relacionados aos acontecimentos europeus. Nada sobre o Oriente ou as civilizações da América Latina, que são estudadas separadamente como se não pertencessem ao mesmo registro cronológico.

Em parte, isso se dá porque ao definir os parâmetros do “viver” medieval, os textos disponíveis centram-se na questão fundiária, na sociedade surgida a partir das relações dos homens com a terra. Assim temos a sociedade das três ordens: os que oram, os que batalham e os que trabalham e temos um intrincado xadrez social em que a posse da terra nem sempre implica em propriedade e a residência muitas vezes implica em uma quase escravidão. Esse tipo de organização social e política voltada para os diferentes modos de posse, exploração e propriedade da terra é conhecido como Feudalismo.

Como o Feudalismo é um fenômeno geograficamente localizado na Europa Ocidental, os textos didáticos dão a impressão de que o resto do planeta nem existe. Ou que não se encontra no período medieval quando é estudado em separado. No caso do Brasil, a resposta padrão de muitos professores é que a chegada dos portugueses em 1500, sendo posterior ao período medieval, exclui o país de qualquer estudo sobre o tema.

Cronologicamente o período medieval restringe-se aos mil anos que vão do esfacelamento do Império Romano do Ocidente, em 476 (século V) à tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 (século XV) que marca o fim do Império Romano do Oriente e redefine as fronteiras da cristandade.

Esse é um período longo e complexo, que vê o surgimento e a expansão do Islã, os contatos dos comerciantes venezianos e árabes com os reinos da China e da Índia, bem como com os grandes reinos africanos existentes antes da invasão europeia e o estabelecimento de rotas de comércio prósperas e complexas. Existem diversos temas a se estudar sobre o período, que vão muito além da fantástica historiografia francesa sobre a Europa e o Feudalismo, que tanto influencia nosso material didático.

Mas é claro que se um jovem aluno me pergunta sobre a possibilidade de fazer uma pós-graduação no Brasil sobre esses temas é preciso que eu pense a resposta de um modo pragmático e realista. As fontes primárias para o estudo do Islã, das rotas de comércio, das viagens à China e à Índia, dos cavaleiros das cruzadas, do cotidiano das aldeias na Europa, não se encontram no Brasil e, certamente, não em português. Podem existir repertórios de documentos medievais transcritos e publicados em francês, inglês ou italiano, mas os originais estarão latim eclesiástico, grego, árabe ou, no caso dos países que vão desenvolvendo a grafia de seu próprio vernáculo, em formas linguísticas arcaicas, que precisam ser arduamente aprendidas. Quem já viu qualquer documento em português medieval sabe exatamente ao que me refiro, é praticamente uma língua estranha às formas contemporâneas.

Uma pós-graduação sólida em História Medieval implica na aquisição de um vasto corpo de erudição documental em línguas mortas, no domínio da bibliografia estrangeira e em um intercâmbio para estudos nas universidades da Europa com programas de pesquisa sobre o período.

Nesse sentido, existem variantes interessantes para quem pensa a partir do Novo Mundo. Afinal, os primeiros viajantes que chegaram à América ainda pensavam o mundo e os outros a partir de uma mentalidade essencialmente medieval. O racionalismo que gostamos de associar ao período conhecido como “Moderno” não surge milagrosamente na passagem do século XV para o XVI, é um percurso árduo, intermitente e restrito apenas às “cabeças pensantes”.

Assim, relatos de viajantes e autoridades portuguesas do século XV constituem fontes interessantíssimas para analisar o modo como esses homens perceberam nosso continente e nossos antepassados a partir das mitologias medievais, tanto cristãs quanto pagãs. Muitos desses relatos já se encontram transcritos e publicados, constando nas bibliotecas de nossas grandes universidades. E existe muita documentação em Portugal que pode ajudar quem escolhe esse tipo de tema.

Outrossim, fico assustada com a simplificação brutal dos critérios de avaliação de TCC’s, dissertações e teses, que vem ocorrendo na última década. Estudantes que se formam conhecendo apenas capítulos de livros e sem conseguir sequer ter uma ideia coerente sobre a historiografia e seus trajetos fundamentais dentro dos mais diversos temas e períodos. Jovens que pensam que dá para apresentar como dissertação de mestrado, algo que mal passa de uma monografia e sem fontes documentais relevantes.

O produtivismo, que assola nosso meio acadêmico está criando uma geração de “estudiosos” que não sabem estudar. Que perguntam o óbvio e querem sempre indicações de leitura porque não sabem consultar bibliotecas ou avaliar o valor de um texto e de um autor através de suas referências. Pessoas que desperdiçam a oportunidade de diálogo oferecida por meu canal e por este blog ao confundir-me com uma mera extensão do Google.

Precisamos conversar urgentemente sobre o elefante na sala de visitas, sobre o sucateamento da qualidade de nossos cursos superiores a partir das reformas tayloristas do MEC , mas estamos ocupados demais com as questões comezinhas das políticas departamentais cotidianas. Bem, no meu caso nem isso, porque a academia me nega a interlocução por estar desempregada e não ter o prestígio de um departamento que legitime minhas falas. Assim, vou continuar a responder perguntas sem nexo e a indicar fontes e bibliografia que o aluno poderia descobrir sozinho se fosse ensinado e incentivado devidamente.

Que São Lênin e sua legião de anjinhos bolcheviques me deem paciência…

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3 Respostas to “O BRASIL E O MUNDO MEDIEVAL”

  1. abax outubro 17, 2015 às 4:56 pm #

    Olá Anna! Muito interessante seu texto e as reflexões que aponta. Entrei hoje pela primeira vez em seu blog e já vou indicá-lo para duas alunas de Iniciação Científica em História para trocas e discussões com você. Eu cheguei aqui através de uma conversa sobre Jacques Le Goff e a origem das discussões sobre o termo “especialista”. O rapaz com quem conversei, Filósofo como eu, fez algumas considerações sobre o assunto em um evento que aconteceu nessa semana, na UFRJ (Fundão), onde os temas de debates se articularam através de aglomerados de assuntos e temas em comum. Você e suas questões teriam sido muito bem vindas. Aconselho a ficar de olho nos próximos: ESOCITE – ver aglomerados: http://www.rio2015.esocite.org/.

    Um abraço e parabéns pelo blog!
    Alessandra

  2. Pedro Soares abril 5, 2016 às 6:26 pm #

    Olá Anna, sou aluno do 3° período do curso de licenciatura em História, bolsista de Iniciação cientifica e monitor da disciplina história da educação nos cursos de letras inglês-português, história e pedagogia. Assisti muitos de seus vídeos-aulas e realmente ainda tenho essa dificuldade herdada do ensino básico, ocasionando no que você citou, pedir orientação de leituras, muitas vezes procrastinar, mas como você pode ver estou correndo atras do “tempo perdido”, construindo meu currículo para as minhas pós-graduações stricto sensu na área de história. Conto com a sua ajuda para futuras discussões e quem sabe até uma participação na minha banca. Podendo, entra em contato pessoal no meu e-mail para podermos conversarmos mais.

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