AS DELATORAS MEMÓRIAS DE FHC

29 out

A edição 109 da Revista Piauí, referente ao mês de outubro corrente, trouxe uma seleção de trechos dos Diários da Presidência, material produzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na vigência de seu mandato (entre 1995 e 2002), e que será lançado em vários volumes pela Companhia das Letras entre 2015 e 2017.

São quase dez páginas, naquele formato clássico da revista, que atormenta os leitores preguiçosos e leva mais de um despeitado a classificá-la como “esnobe”, assim como a seus leitores. Eu gosto da Piauí, onde mais você encontra hoje na imprensa nacional artigos bem elaborados, sem a pressão imediatista da audiência pela audiência? Nem sempre concordo com os articulistas, mas aprecio o espaço de diálogo oferecido.

Li atentamente as “memórias” daquele que, em meus tempos de pós-graduanda chamávamos de “o déspota esclarecido” e confirmaram bastante a imagem que tenho feito dele durante estes anos todos. Há uma profusão no texto de episódios em que o personagem é ovacionado, aplaudido de pé, dá lições de História, enfim aquele ego que todos nós conhecemos.

Entretanto, o que mais salta à vista nos trechos selecionados para divulgação é uma sucessão de barganhas, negociatas e chantagens promovidas pelas figuras de sempre do PMDB, PFL (hoje DEM) e PPB (hoje PP). Apenas no episódio referente à chacina de Eldorado dos Carajás e nas negociações com a CUT, Fernando Henrique reclama da ação do PT. Em todos os outros episódios narrados, o ex-presidente perde o sono às voltas com Sarney, ACM, Marco Maciel, Maluf, Jáder Barbalho e outros tantos que todos nós conhecemos de sobra.

Para salvaguardar o Real e manter a política neoliberal, FHC não hesitou em negociar e sacrificar seus quadros mais valiosos (o episódio da ex-ministra Dorotéa Werneck fala por si), oferecendo aos congressistas e seus partidos toda sorte de cargos e ministérios. O fato de deixar claro que essa política de barganhas o enoja e classificar como “armadilha” a rotina de negociar com o Congresso, torna ainda mais incompreensível sua atitude atual.

É bastante característica a maneira oportunista como se aproveita, hoje, para explorar os factoides produzidos pela mídia e denunciar o PT como foco da corrupção, quando todos os ingredientes desses escândalos já estavam presentes em sua gestão. Sendo que, não tendo a capacidade e a vontade política para combatê-los, preferiu usar o “engavetador” Geraldo Brindeiro para desaparecer com os processos e a barganha para sabotar as CPI’s.

Estou esperando o lançamento do livro completo para verificar se estes trechos publicados pela Piauí são apenas um chamariz ou se lá se encontram mais evidências da hipocrisia do discurso atual do ex-presidente. Só espero que não seja obrigada a ler uma gigantesca egotripp em lugar da análise política que é de se esperar.

Detalhe, lá pelas tantas encontro duas frases que me levam às gargalhadas:

Mais tarde tive uma longa conversa com Serra. Aí sim, fomos mais a fundo a respeito da nossa relação. (…)” (p.25);

ao que se segue a narrativa de um ajuste medíocre de contas entre os dois sobre a postura de Serra em relação ao Real e às reformas. Imagino os humoristas e chargistas políticos delirando com imagens do acontecido.

Sempre soube que Fernando Henrique escrevia mal, aquele seu malfadado livrinho Capitalismo e escravidão no Brasil meridional (1962) despertava a cruel ironia de muitos dos meus professores no IFCH da UNICAMP, pelo simplismo e a ignorância crassa sobre a escravidão. Entretanto, não esperava um trecho como este, de ambiguidade homoerótica, que parece ter passado despercebido tanto ao autor quanto à equipe de edição.

Enfim, aguardemos as “memórias”…

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