Arquivo | dezembro, 2015

CARTA ABERTA A QUEM POSSA INTERESSAR E QUEM SABE ASSIM AJUDO ALGUM REAÇA A SAIR DO ARMÁRIO

13 dez

Prezado internauta,

Já que as cartas voltaram à ordem do dia, venho da maneira mais clichê, mediante estas mal traçadas linhas, me dirigir a você de um modo bem genérico. Não importa se você é um visitante do meu blog ou do meu canal no YouTube, o importante é que precisamos conversar sobre o nosso elefante na sala.

Eu, que sou uma mulher já entrada em anos e com cabelos brancos na testa, não pretendo duvidar da capacidade de sua mãe para educar você. Antes quero crer que foi este mundo sedutor da impunidade anônima da internet e talvez um vício seu em ler jornalismo ruim ou assistir demais televisões mal intencionadas, que o jogou nessa espiral de grosseria e ignorância.

Em que universo você aprendeu a ser misoginamente condescendente, sarcasticamente debochado, ou mesmo por um momento pensou que poderia me chamar de “vagabunda” e “comuna” e que isso condiz com o comportamento de alguém que está defendendo civilizadamente suas ideias?

Ando ponderando não responder mais a você (em todas as faces e encarnações que vem apresentando nos últimos tempos) e até já parei de aceitar solicitações de amizade de estranhos no Facebook para evitar conviver com seus maus modos e sua insistência em considerar jornalismo ruim como verdade absoluta.

Correndo o risco de parecer arrogante (pode me levar a mal se quiser), eu não passei os últimos vinte e nove anos da minha vida estudando teoria e historiografia para ser rudemente interpelada por qualquer fulano (quer seja pirralho ou velhaco) que aprendeu o que sabe de História lendo Best-sellers de jornalistas de terceira categoria ou de pseudo-historiadores que sacrificam a credibilidade acadêmica para tornar-se fenômenos de mídia.

E digo isso porque estou cansada de ter que ler que Stálin matou cinquenta milhões de pessoas (a cada ano o número aumenta mais) ou que Mao matou mais sessenta milhões. Custa-me crer que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso ou matemática básica não perceba a falácia desses números.

Você não é o primeiro e provavelmente nem será o último que me joga na cara esses números tirados do traseiro de algum defensor do status quo. Números que englobam pessoas que morreram na guerra, que morreram de fome em circunstâncias das mais diversas ou até mesmo de doenças causadas pela miséria. Como se cada um dos governantes do chamado “socialismo real” tivesse planejado e executado o genocídio valendo-se do acaso do devir histórico.

Será que você não cora de vergonha ao endossar tamanha desonestidade factual?

Pelo visto não, uma vez que sendo leigo, você provavelmente nem sabe que existe uma disciplina entre os historiadores chamada HISTORIOGRAFIA que trata especificamente do modo como o discurso histórico é formulado e estabelecido conforme a filiação teórica de cada autor. Essa disciplina estabelece e permite o diálogo entre autores e vai estabelecendo as linhagens do pensamento. E digo linhagens mesmo, no sentido genealógico, porque nos historiadores nos agrupamos em linhas teóricas que são como grandes famílias dialogando geração após geração.

Então, quando você me sugere que leia um autor que desdenha esse diálogo e nem sequer se responsabiliza pelas afirmações que produz mediante apresentação de evidências documentais precisas, ou mesmo uma linha de raciocínio lógico, eu tenho todo o direito de não entrar nessa polêmica estéril e vazia. Principalmente porque você estará aproveitando dos meus títulos para legitimar suas opiniões rasas e seus autores medíocres.

Já fui extremamente tolerante nos meus primórdios aqui no meio virtual. Passava meus dias respondendo e encaminhando questões que mais pareciam um deboche do que uma curiosidade. Ajudei pessoas de todos os tipos, mesmo quando percebia que desprezavam as minhas convicções e, talvez até, quem vai saber, a minha própria pessoa.

Agora estou cansada, cansada de gente que quer visibilidade e legitimação e para isso se torna invasiva e não respeita sequer os limites da mais mínima privacidade. Cansada de lidar com borderlines, depressivos e maníacos de vários tipos que usam o computador como trincheira e a internet como vitrine, varrendo qualquer bom senso e racionalidade à força de lugares comuns e generalizações baratas.

Cansada de quem me cobra “imparcialidade” sem me oferecer sequer uma interlocução educada. Afinal, como já comentei recentemente no Facebook: a “imparcialidade” é o álibi dos hipócritas, dos cínicos e dos covardes, que malham e criticam apenas um dos lados sem ter a coragem de se comprometer publicamente com o outro. E é um discurso que seduz quem se considera acima do bem e do mal…

Eu tenho um lado, que é fruto da minha experiência de vida. Isso não empobrece a minha análise enquanto historiadora, ao contrário, ter um lado me coloca na linhagem de historiadores à qual escolhi pertencer. E isso me honra muito porque os intelectuais que mais admiro e que foram meus modelos de toda uma vida também tem lado, não se acovardam nem se escondem por trás de um discurso hipocritamente neutro, que mascara a mais vil manipulação.

A vida acadêmica não é nenhum paraíso (e já se vai uma década e meia desde que eu me desliguei desse meio), mas, ao menos, não compactua com essa farsa criada pela mídia do “contraditório”. No meio acadêmico, para contradizer o que quer que seja não basta ter “opiniões” ou ser “o menino inteligente da família”, é necessário ter uma bagagem teórica sólida e evidências documentais indiscutíveis.

E eu ainda estou tentando descobrir de onde você tirou a ideia de que somos todos marxistas nesse meio. Durante os treze anos em que frequentei a UNICAMP e posteriormente a USP, a presença marxista era de pouco mais de 30% entre docentes e discentes. Existem outras linhas historiográficas que também se interessam por um olhar crítico ao capitalismo, aliás, entre as pessoas com um mínimo de conhecimento histórico são bem poucos os que o defendem, mesmo quando não são marxistas.

Eu, entretanto, sou marxista na vida profissional e comunista na vida civil. E também sou filha, esposa e mãe. Lavo e passo as roupas, cozinho e cuido dos meus em casa porque não acredito em combater opressão de gênero praticando opressão de classe, ou seja, não tenho e nem quero ter qualquer empregado doméstico. Sou uma pessoa de carne e osso e não apenas uma imagem no vídeo ou um perfil em blog e rede social.

E este ano foi meu Rubicão, estou colocando um basta ao abuso e ao assédio. Vou voltar a gravar em 2016, mas será nos meus termos. Vou continuar ajudando quem me procura, desde que minha saúde permita e desde que a pessoa apresente um mínimo de polidez e educação. Se você usar qualquer insulto sexista ou misógino será processado. Se você comentar usando linguagem agressiva, vou postar este texto para sua edificação intelectual. E se você optar pelo assédio, não vou me esconder, mas também me reservo o direito de deletar e bloquear o deboche, o sarcasmo, a impolidez e outras manifestações igualmente ordinárias.

No mais, desejo que você seja feliz no mundinho que escolheu viver e que siga seu caminho sem prejudicar demais àqueles que, como eu, trilham sonhos e aspirações diferentes. O mundo tem espaço para nós dois, mesmo que você não queira.

Um abraço!!

Anúncios