O ATO DE PENSAR NÃO PODE SER UMA ACEITAÇÃO MECÂNICA

7 mar

Devanarse los sesos” é uma expressão que era usada na minha infância em Montevideo e que significava algo como pensar furiosamente, colocar os miolos para funcionar. “Sesos” são exatamente os miolos, o cérebro em si, o verbo “devanar” já é outra história.

Provavelmente vocês que nasceram na era da tecnologia jamais viram uma “devanadora”, que era um aparelho comum em qualquer indústria têxtil da América Latina até os anos 70, depois já não sei. Era composto por uma estrutura circular, muitas vezes de madeira e podia ser acionado a pedal ou ser automatizado. A tecelã pegava a “madeja”, um tipo de novelo grande e bruto e encaixava na estrutura e acionava o pedal ou o motor e passava a lã ou a linha para os cones, que seriam depois utilizados nas máquinas de tricô (no âmbito doméstico) ou nas máquinas têxteis na fábrica.

Era um trabalho mecânico e monótono como soem ser todos aqueles ligados a esse tipo de indústria. No início dos anos 80, já no Brasil, quando trabalhei na extinta Indústria de Meias Aço S.A., havia máquinas grandes e totalmente automatizadas, que passavam o fio para os cones em uma velocidade industrial e podiam ser controladas por um único operário sem grande envolvimento físico. Mas a minha lembrança pessoal dos “devanadoras” vem de ver minha mãe trabalhando em casa, em um quartinho perto da escada (entre a cozinha e a sala), onde ficavam a máquina de tricô e a máquina de cerzir meias, outra máquina que já nem existe mais nas fábricas.

Devanarse los sesos”, então, é uma expressão que vai muito além de pensar  furiosamente e cada vez mais rápido (de acordo com a habilidade da tecelã), implica também em seguir o fio de uma meada até o seu fim, pegar uma massa bruta de informações e transformar em uma série de “cones” trabalháveis. Significa, ao menos para mim, que consigo decifrar a analogia implícita em tal expressão idiomática, pensar tão exaustivamente como se fosse um trabalho braçal até conseguir destrinchar as meadas da realidade aparente e daquelas que estão escondidas.

Esse preâmbulo quase poético é para dizer que passamos o final de semana pensando e analisando furiosamente os acontecimentos da quinta de da sexta-feira passadas (04 e 05/03/2016). Procurando sentidos múltiplos em cada notícia veiculada e buscando devassar os interesses de cada interlocutor, de cada personagem, de cada instituição e tentando definir seus papéis na esparrela criada pela dita Operação Lava Jato.

Não vou ditar aqui uma análise ou definir responsabilidades, meio mundo na imprensa hegemônica e na imprensa independente já está fazendo isso. Não me cabe dizer quem é inocente, quem é culpado, quem escarrou na Constituição, quem foi arrogante e desnecessariamente autoritário, ou quais os custos que toda essa barbaridade vai ocasionar em nossa frágil e incipiente estrutura democrática.

Meu papel, enquanto professora, é fazer um chamado ao pensamento. Há muita opinião circulando, algumas são extremamente analíticas e pertinentes e outras não passam de um amontoado de preconceitos travestidos de fatos. É importante que você que me lê se dê ao trabalho de realizar esse processo básico de desconstrução das notícias. E para isso proponho algumas perguntas que você deve fazer sempre que se deparar com qualquer notícia que circule em qualquer mídia:

– Quem está divulgando a notícia é um jornalista autônomo e sério ou é alguém que depende do patrão para sobreviver? Isso faz uma diferença medonha no modo como a notícia pode ser veiculada e tratada.

– O veículo (emissora, canal, jornal ou revista) possui credibilidade dentro de qual setor demográfico ou político de nossa sociedade? Pensar quem fala e para qual público esse veículo é dirigido é igualmente importante.

– Os fatos divulgados na notícia são verificáveis ou apenas boatos?

– As pessoas acusadas ou defendidas na matéria são retratadas de modo acurado ou apenas tem sua realidade manipulada para corresponder a estereótipos de fácil assimilação por quem tem preguiça de pensar? Oposições primárias como “mocinhoXbandido”, “bemXmal”, “corruptoXhonesto” são estúpidas e mascaram muito mais que a realidade aparente, mascaram essencialmente a condição humana cheia de contradições e nuances.

– O cenário retratado pela imprensa condiz com a realidade da sua vida? Ou você está comprando brigas e crises que poderiam ser dimensionadas de maneira totalmente diferente, caso você não passasse o tempo aceitando bovinamente as análises e opiniões de determinados “jornalistas”?

E essas perguntas são apenas para começar, uma vez que você se acostumar a questionar a realidade outras vão surgir. Vão ser perguntas suas, questionamentos pessoais que sua mente vai desenvolver ao relacionar-se com a realidade aparente e aquelas outras realidades que se escondem em cada aspecto das nossas vidas.

Em um momento em que a sociedade brasileira está em um ponto de tensão inaceitável, tudo o que peço é que você pense. Somente o pensamento crítico e o diálogo vão nos afastar deste abismo. Soluções econômicas milagrosas não vão acontecer se estivermos entregues ao ódio e á hostilidade social. Pense, ouça, dialogue.  Vamos “devanar nuestros sesos” até que toda essa meada esteja devidamente fiada e distribuída nos cones da racionalidade e da crítica. A civilização agradece e eu também.

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9 Respostas to “O ATO DE PENSAR NÃO PODE SER UMA ACEITAÇÃO MECÂNICA”

  1. Fernando março 8, 2016 às 6:47 pm #

    Professora, boa tarde! Quero sair do armário, mas está difícil pois não sabemos mais em quem acreditar. Todos tem as suas tendências ideológicas. Se um jornalista é comunista, ele vai escrever pelo foco comunista; se é um jornalista religioso pelo foco religioso; se a professora de história é marxista ela fala da Guerra Civil Espanhola e diz que os franquistas cometeram atrocidades durante a guerra; neste mesmo tema um professor tradicionalista católico vai mostrar o contrário: os corpos das freiras mortas pelos replublicanos, com todos os detalhes macabros contra os católicos – neste caso me parece que os dois (marxista e católico) contam fatos reais, mas nenhum dos dois consegue ser imparcial quando ensinam. O que fazer? Confiar em quem? Obrigado. Fernando

    • annagicelle março 9, 2016 às 12:22 am #

      Boa noite Fernando 🙂 Entendo sua preocupação, não sei qual é a sua faixa etária, por isso não quero entrar em conceitos como “representações” ou “experiência”. O que posso dizer é que a base teórica de cada professor e os pontos de vista pessoais são parte da experiência de vida que ele transmite em sala de aula junto com a matéria. Neutralidade ou imparcialidade não existem e eu tenho mais medo de quem se diz imparcial do que daqueles que explicitam qual é a sua filiação teórica. Se você quer ter uma visão mais geral, deve comparar os diferentes pontos de vista e chegar a uma conclusão que seja sua. Nenhum professor deve se considerar dono das cabeças de seus alunos. E nenhum aluno deve olhar para o professor como um “guia” a quem seguir. O professor mostra seu ponto de vista, de acordo com suas concepções teóricas, o aluno deve aprender a ser crítico. Ser crítico não significa ser do contra e nem ficar espezinhando e contrariando o professor de maneira sistemática. Ser crítico significa ser aberto a apreciar todos os tipos de narrativas e discursos, conseguindo situar historicamente o lugar de cada fala. Confiar cegamente em ninguém, respeitar a todos. 🙂

      • annagicelle março 10, 2016 às 11:33 am #

        Olá Fernando, perdi seu comentário na hora de abrir para tentar responder, será que você poderia reenviar? Não sou muito boa com tecnologia 🙂

      • Fernando março 10, 2016 às 12:51 pm #

        Professora, bom dia.
        Muito obrigado pelos seus comentários. Sim, entendo que o professor pessoalmente pode ter os seus pontos de vistas e opções ideológicas; no entanto quando ele dá uma aula sobre a Guerra Civil Espanhola e somente cita os terrores do lado dos franquistas e não diz uma palavra sequer sobre as atrocidades republicanas, o professor não está sendo desleal com os seus alunos e na verdade mostrando a história apenas de forma parcial e tendenciosa, assim direcionando os alunos para uma única forma de pensar?

        Ensinar o aluno a ser crítico não pelo dever do professor de mostrar os dois lados de uma guerra, por exemplo?

        Se o professor age mais de forma ideológica (ou religiosa), ele cumpre a função de ensinar a história como de fato aconteceu? Agradeço a sua atenção e tempo em esclarecer estes pontos. Fernando

      • annagicelle março 11, 2016 às 12:59 am #

        Boa noite 🙂 Vou ser absolutamente sincera com você: não existe História “como de fato aconteceu”. Nenhum historiador moderno ou professor formado nos últimos trinta anos tem a pretensão de ter a última palavra sobre qualquer evento ou processo social. O consenso acadêmico gira em torno de confrontar visões e pontos de vista dos diferentes protagonistas ou setores sociais envolvidos. Analisar essas versões e representações e apresentar uma seleção de fatos coerente. O professor que entra em sala de aula com a pretensão de dizer verdades absolutas só está sendo leal ao próprio ego. Dito isso, me parece complicada a escolha da Guerra Civil Espanhola como exemplo. Se você me dissesse que viu um professor comunista elogiando Pol Pot em sala de aula, eu concordaria com você que é um absurdo. Entretanto, pessoalmente, considero a expressão “atrocidades republicanas” um tanto quanto descabida. O governo republicano foi um governo legalista, que foi invadido e varrido do mapa e ao qual se seguiu uma ditadura sanguinária que durou mais de 30 anos e que perseguiu, torturou e assassinou impunemente e cujos integrantes jamais foram punidos. No auge da guerra alguns padres e freiras foram fuzilados, mas ninguém foi ao claustro e arrastou inocentes para a praça pública. O clero espanhol tinha uma história centenária de abusos e opressão contra as populações mais pobres e esses padres e freiras pegaram em armas contra os republicanos e participaram da guerra sabendo o que estavam fazendo. Me preocupa o tipo de formulação que você fez porque ela esconde (bem lá no fundo) a ideia de que existe uma versão única e verdadeira da História e que nós comunistas não somos confiáveis poque não seguimos essa uniformização do discurso. O ensino por parte dos religiosos já é outro departamento, o Brasil segue a linha dos países que se dizem laicos, mas que permite aos religiosos todo tipo de assédio a seus alunos, sem fazer valer a Constituição. Existem pontos de vista irreconciliáveis entre os diversos setores do pensamento e cabe ao professor preparar o aluno para ser crítico com todos eles. O que me preocupa nessas baboseiras de “escola sem partido” é que sempre que esse tipo de ideia foi implantada, seguiu-se a pior doutrinação conservadora possível e a perseguição injusta e descabida a quem pensasse diferente. Eu diria para você tomar cuidado com esse tipo de ideia. 🙂

  2. Roselene David Duarte Honorato março 9, 2016 às 2:19 am #

    Professora, boa noite! Acompanho sempre seus vídeos pelo Youtube, são ótimos! Parabéns pela sua dedicação, gostaria que me ajudasse em entender o debate historiográfico que a autora Maria Helena Rolim Capelato faz no Livro Historiografia Brasileira em Perspectiva sobre Estado Novo: Novas Histórias. Obrigada e fico no aguardo ok, No momento estou fora do face, estou comprometida com os estudos e achei melhor sair de todas as redes sociais ok. Um forte abraço e obrigada!

    • annagicelle março 10, 2016 às 10:51 am #

      Bom dia 🙂 recebi sua questão. Estou com muita dificuldade para gravar vídeos, mas se você me passar suas dúvidas sobre esse texto, posso tentar ajudar respondendo por aqui mesmo 🙂

      • Roselene março 11, 2016 às 2:34 am #

        Boa noite, e obrigada por responder professora. Minhas dúvidas sobre o texto são sobre as análises de conceitos sobre populismo, autoritarismo, não esclarecem o período do Estado Novo como sendo de forma genérica, ou seja, quando a nova historiografia faz o debate foca somente no período de 1937-1945. Quando a autora diz que o segundo Governo Vargas ficou relegado a um plano secundário, os estudos sobre o populismo brasileiros elaborados até a década de 70, indicam que a Revolução de 1930 foi o marco para o segundo período Vargas. Como o objetivo do texto é a reflexão sobre as razões que levaram os historiadores a pesquisar a partir de 1980, O Estado Novo foi uma ditadura, era autoritário mas não fascista?

      • annagicelle março 16, 2016 às 12:42 am #

        Boa noite 🙂 O segundo governo Vargas é o período que vai de 1951 a 1954 e, por tratar-se de um período considerado democrático tem mesmo que ser tratado separadamente do período ditatorial (1930-1945) que compreende a dita revolução de 30 e o Estado Novo. O texto é uma análise bibliográfica, a professora Maria Helena está refletindo sobre a periodização e a conceituação dos outros autores. Essa análise da historiografia brasileira mostra as tendências seguidas pelos autores, mas não tem a pretensão de dar a última palavra. O diálogo é estabelecido exatamente seguindo a evolução das tendências historiográficas e inventariando-as. Eu creio que você deve ler o texto com toda a atenção e separar o que é a fala da autora e o que ela seleciona a partir das leituras dos autores estudados. Este texto não vai responder a questões sobre “o que foi” ou “como foi” a era Vargas e sim como as diferentes tendências historiográficas a analisam. 🙂

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