HISTORICIDADE

15 mar

Em algum momento lá pelo fim dos anos 80, cursava uma disciplina tópica oferecida pelo professor Paulo Miceli no IFCH da UNICAMP. Tratava de métodos e fontes para a História Oral e uma das abordagens era sobre o uso de documentários. Miceli exibiu para nós o documentário Chapeleiros (1983) de Adrian Cooper e começamos uma roda de discussão sobre o trabalho na fábrica e o modo como os testemunhos podiam ser trabalhados.

 

Lá pelas tantas comecei a dar um exemplo de testemunho de segunda mão, relatando as experiências do meu pai como operário têxtil, sua jornada de trabalho, a escamoteação do pagamento de horas extras durante a ditadura e a disposição espacial do homem em relação à máquina. Era uma discussão sobre o modo como os operários se viam e se havia um consenso entre eles sobre a exploração de seu trabalho. Miceli nos conduzia para a conclusão óbvia de que a maior parte dos operários não percebia o sistema de exploração do mesmo modo que nós ou que o meu pai, que havia sido um militante comunista.

 

Relembro esse episódio por vários motivos. Um deles é a intervenção de uma colega, herdeira de um empresário, que me perguntou, sem qualquer pudor, “se a fábrica era tão ruim por que seu pai não foi embora e procurou coisa melhor?”. Hoje eu teria pelo menos uma dúzia de respostas bem estruturadas e inclusive irônicas. Naquele momento limitei-me a olhar para o Miceli pedindo ajuda porque não tinha como explicar a quem sempre viveu no privilégio, que os pobres não têm muita escolha na hora de adentrar ao mercado de trabalho e menos ainda a opção de sair.

 

Uma das discussões, naquela mesma disciplina, era exatamente a questão da historicidade e da autoconsciência por parte das fontes, quando tomamos um depoimento oral. Questão espinhosa. Inclusive porque muitos dos presentes sequer compreendiam a própria historicidade, que dizer da fonte.

 

Imagino que nas faculdades particulares que oferecem licenciaturas em História, esse tipo de discussão provavelmente é preterida, em favor de conteúdos factuais. Eu não tive grandes conteúdos factuais na UNICAMP, nossos professores defendiam que os fatos estavam nas enciclopédias e que nossa função era pensar. Até hoje sempre que preparo uma aula recorro aos repertórios e obras de referência para reunir efemérides e informações factuais, porque os autores que defendo estavam mais preocupados com analisar e desmontar os fenômenos históricos e sociais, do que se ater a datas.

 

Tenho verdadeiro horror aos professores que submetem crianças e adolescentes a uma decoreba insana e não lhes ensinam a identificar a própria historicidade. Somos quem somos porque não estamos em animação suspensa, fora da História. Nossas origens, as trajetórias de nossas famílias e o modo como e com quem fomos socializados são elementos para entender como nos comportamos, como pensamos, como reagimos à representação do real que nos foi apresentada.

 

E isso é historicidade.

 

Com essa consciência podemos entender o ponto de vista dos outros, podemos dialogar e estabelecer uma relação de alteridade. Principalmente, porque é a noção da nossa historicidade que nós dá a capacidade de perceber que existem outras maneiras de ver o mundo e perceber a realidade. É a esse tipo de aprendizado que nos referimos quando dizemos que muitos manifestantes deveriam estudar História.

 

Pessoas brancas que pertencem a classes abastadas e que acreditam que o mundo lhes deve privilégios não tem a mínima capacidade para entender os discursos oriundos de outros meios sociais, em parte porque mesmo em seus colégios caros, os professores estão mais interessados em preparar para o vestibular do que em fazer pensar. Estabelecem seu discurso e sua narrativa de mundo classista como o único legítimo e jogam todo seu prestígio e dinheiro nos meios de comunicação para legitimar esse discurso. Inclusive abusando do poder econômico nas relações de trabalho para estabelecer seu repertório de falsas equivalências.

 

Não é de estranhar, nesse sentido, que a babá exposta reiteradamente em icônica fotografia desde o último domingo (13/03) tenha saído a público reproduzindo o discurso de seus patrões e desautorizando as críticas que estes receberam por ser quem são. Que escolha ela tem se quiser conservar seu emprego? Mais assustador é ver quem não tem a capacidade de identificar a Síndrome de Estocolmo em sua fala e a está usando para desautorizar as críticas que foram feitas a seus patrões.

 

É a mesma questão da minha antiga colega de faculdade só que com o sinal trocado. Afinal, se a babá defende o patrão, quem somos nós para falar por ela? Deveríamos ficar quietos e parar de doutrinação esquerdista nas escolas para que o Brasil voltasse a ser o paraíso, não é mesmo?

 

Quem somos nós, historiadores, filósofos e cientistas sociais em geral?

 

Somos quem recebeu o treino discursivo para desconstruir as realidades construídas e impostas socialmente pelos poderes sociais e econômicos.

Somos quem olhou para a fotografia e reconheceu os traços nítidos de mais de três séculos de escravidão e mais de um século de relações de trabalho assimétricas.

 

Somos quem olhou para os cartazes da manifestação defendendo valores que remetem ao ideário fascista e percebeu o perigo implícito para a ordem social.

 

Somos quem percebeu que as pessoas que marcharam lado a lado com os fascistas defensores da tortura acabaram por legitimar seus discursos de ódio, mesmo que não os endossassem.

 

Somos quem deveria tomar muito cuidado ao ressaltar o caráter variado dos manifestantes como se isso lhes conferisse um passe livre para escarrar nas instituições democráticas e pregar a extinção de quem não pensa como eles.

 

Mas, principalmente, somos quem deveria estar na linha de frente ajudando nossos concidadãos, que não tiveram a oportunidade de estudar em boas universidades, a compreender que História é muito mais que fatos e datas. Que a nossa identidade humana e social está intimamente ligada à nossa historicidade. E que sem esse conhecimento não saberemos sequer quem somos.

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4 Respostas to “HISTORICIDADE”

  1. Evelyne março 17, 2016 às 10:19 pm #

    Anna, um texto incrível, como sempre. Mas fiquei curiosa com o porquê de você ter dito logo no começo do texto que se tratava de uma disciplina utópica.

    • annagicelle março 18, 2016 às 12:42 am #

      Boa noite 🙂 eu disse disciplina tópica e não utópica. 🙂 No curriculum do curso de História da UNICAMP no fim dos anos 80, as disciplinas eletivas vinham em forma de tópicos temáticos. 🙂 A cada semestre recebíamos a lista das obrigatórias e um conjunto de tópicos temáticos para escolher os que virariam disciplinas. 🙂

      • Evelyne março 18, 2016 às 5:12 pm #

        Desculpe Anna, a “ligeireza” como se diz aqui no Nordeste, atrapalhou a leitura. 😉
        Aproveitando, sempre vejo nos seus vídeos que você tem um pós-doc em filosofia da educação, queria pedir um vídeo ou um post sobre ele, se possível, pois faço licenciatura, e me interesso muito sobre a prática pedagógica (e sua dimensão filosófica, consequentemente).

      • annagicelle março 22, 2016 às 2:01 pm #

        🙂 vou ver o que consigo fazer 🙂

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