Arquivo | abril, 2016

Cantinho da História Especial: Escola sem partido

28 abr

Episódio extemporâneo do projeto educativo Cantinho da História, a pedido de vários colegas professores. Peço mil desculpas que ficou enorme e ainda assim nem deu para aprofundar no tema. Não houve tempo de explicar que o “escola sem partido” visa a excluir apenas a voz dos partidos considerados de esquerda e reforçar todo tipo de discurso conservador, fazendo-os passar às crianças e adolescentes como se fossem parte de uma “normalidade” social e histórica que não existe. Que isso inclui criminalizar o que os fundamentalistas chamam de “ideologia de gênero” e que não passa de uma invenção estúpida para perseguir a liberdade de informação, o respeito e a tolerância em relação à população LGBT. Nem mesmo consegui abordar o papel ridículo desempenhado por vereadores e deputados que morrem de medo e ódio de Simone de Beauvoir, mesmo depois de morta. Mas espero que este humilde esforço de informação ajude a combater as trevas que nos envolvem e a exorcizar o machismo covarde e a masculinidade vacilante e patética dos fundamentalistas.

COMO EU EXPLICO ESSE CIRCO DE HORRORES AO MEU FILHO DE NOVE ANOS?

18 abr

Hoje acordamos com mais uma derrota de uma longa lista sofrida ao longo de uma vida vivida à esquerda. Abro o Facebook e encontro esta pergunta no status de vários amigos jovens, a idade das crianças varia, mas a perplexidade dos pais é uma constante. Sento-me então ao teclado e espero contribuir minimamente para desanuviar o ambiente.

 

Meus jovens amigos, deixem-me dizer-lhes primeiro que não importa se nossos filhos ou filhas tem seis, nove, quinze ou vinte anos. A responsabilidade de apresentá-los ao mundo de maneira honesta e digna é sempre nossa. Nós, pais e mães, temos a obrigação de dar sentido à loucura cotidiana e torná-la inteligível aos olhos de nossos filhos.

 

Não mintam em hipótese alguma, as crianças percebem e nunca mais vão confiar em vocês. Há uma condescendência e uma superioridade besta que a maior parte dos adultos tem ao pensar que as crianças são novas demais para entender os fatos da vida. Acredite, não são. Se a criança tem a capacidade de formular a pergunta é porque está pronta para a resposta.

 

Nove anos não é pouca coisa, especialmente se você sempre conversou honestamente com seu filho sobre o mundo. Eu tinha oito anos quando soube que meu primo estava sendo torturado pelos militares uruguaios e quando o marido da minha vizinha foi preso e logo depois um dos meus melhores amigos da escola teve que fugir com a família para a Austrália. Nunca mais vi qualquer um deles. E eu entendi perfeitamente.

 

Meus pais nunca me iludiram com fantasias meritocráticas, eu sempre soube que o mundo estava cheio de oportunidades para os ricos e aos pobres só restava o trabalho. E quando os pobres se juntavam para lutar era a morte ou a tortura que os estavam esperando no fim da linha. Não éramos de esquerda na esperança de chegar ao poder e sim porque era o certo.

 

Eleições ganhas não transformam as relações humanas e isso ficou claro nestes últimos anos. Podemos lutar por reformas, podemos apoiar a democracia e comemorar pequenas vitórias, mas o mundo continua o mesmo.

 

E é importante que as crianças saibam que o Céu e o Inferno são mitos e que os mocinhos quase nunca vencem. Que precisamos continuar lutando porque somos de uma linhagem de livre pensadores que não podem ser aprisionados em partidos, escolas, prisões ou hospícios. Porque as nossas mentes são livres.

 

Não somos como somos pela glória, por recompensas materiais ou esperando que o mundo se curve à nossa vontade. Somos como somos porque não temos a alternativa do cinismo, da hipocrisia religiosa ou do falso moralismo.

 

Crianças entendem e muito melhor que uma boa parte dos adultos.

A FÚRIA SANTIFICADA

5 abr

Um dos aspectos mais assustadores da Europa Cristã Medieval era a crença de que a fúria poderia ter caráter santo ou divino.  A ideia de que a loucura furiosa de Orlando, bem como a violência assassina dos cruzados na Terra Santa, era algo justificável se acompanhada da justa indignação em nome do deus cristão. Diversos santos canonizados naqueles tempos eram pessoas furiosas, irascíveis e intolerantes.

 

Mesmo que a ira tenha sido definida como um pecado já no século IV da era corrente, somente lá pelo século XV passou-se a questionar os efeitos pouco cristãos da loucura furiosa e da ira propriamente dita. Santos assassinos como Cirilo, Luís IX e tantos outros que tiveram um passado militar antes de ser “iluminados” e mantiveram ao longo da vida costumes violentos, agora voltados para a defesa da fé, continuam sendo cultuados até hoje. Como se um verniz de fé ou os abismos do fanatismo fossem capazes de justificar o ódio e a violência.

 

Temos visto nos últimos dois anos uma escalada assustadora de ódio por parte dos setores mais conservadores de nossa sociedade. Verdade seja dita de que isso não ocorre apenas em solo brasileiro, eleitores de Donald Trump nos Estados Unidos e dos partidos neonazistas por toda a Europa protagonizam episódios de violência e ódio quase que diariamente. Alguns responsabilizam a despolitização do debate, promovida pelas redes sociais, a mídia truculenta e partidarizada ou a ausência de vozes dissonantes.

 

Eu me atrevo a dizer que nada é tão simples quanto parece. Leituras simplistas ou simplificadas levam a argumentos rasos como os que presenciamos todos os dias na padaria, no banco, no shopping ou no noticiário escrito, radiodifundido e televisado. A quase ausência sintomática de debates qualificados está transformando argumentos em questões de fé e seduzindo os cidadãos para que abandonem toda racionalidade e se entreguem à fúria santificada.

 

E por que estou desenvolvendo essa leitura?

 

Porque apenas assim posso entender (sem demonizar) as imagens que hoje poluem de maneira persistente minha linha do tempo no Facebook. Refiro-me, evidentemente, à filmagem realizada na noite de ontem na Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, durante o ato em favor do impeachment da Presidenta legalmente eleita da República. Imagens mostrando a advogada signatária do pedido, que hoje tramita no Congresso, visivelmente tomada por um paroxismo de fúria religiosa direcionado à política.

 

Rodando no ar uma bandeira do Brasil e entregue a um delírio milenarista de salvação da pátria, com forte viés pentecostal, a advogada arrancou palmas e ovações a um público que, supostamente, deveria ter uma leitura mais técnica das questões legais. Assustadoramente, em um ambiente conhecido por sua sobriedade e entre um público declaradamente conservador, o clima era similar ao desses templos em que pastores berram ensurdecedoramente, enquanto fiéis rolam pelo chão entregues à histeria coletiva religiosa. E, ao que parece, no prédio da vetusta instituição, no dia seguinte, ninguém se envergonha do triste espetáculo silenciosamente presenciado pela arquitetura que já viu melhores dias.

 

Em uma semana que já começou com a discussão ferrenha em torno do processo político em curso, bem como com um episódio grotesco de mau jornalismo, em que uma matéria absolutamente mentirosa, machista e desqualificada foi capa “fotochopada” de um conhecido semanário paulista, as imagens da advogada adquirem um tom surreal.

 

Quando foi que a racionalidade abandonou o debate político?

Quando foi que a fúria santificada substituiu os argumentos jurídicos?

Quando foi que nossos concidadãos se tornaram fanáticos vociferantes?

Será que este é um momento histórico que será superado por quem gritar mais alto?

Será que devemos ser arrastados a esse lodaçal de meias-verdades, mentiras descaradas, surtos psicóticos e fúria religiosa a que nossos adversários se entregam?

 

Tenho visto alguns companheiros à esquerda abandonando a serenidade e transformando-se em replicantes de palavras de ordem padronizadas. Mais do que nunca neste momento precisamos ler com atenção os documentos produzidos durante o processo político e jurídico e manter a racionalidade dos argumentos, mesmo quando somos atacados das maneiras mais vis. Não podemos e não devemos (em hipótese alguma) ceder ao delírio messiânico de que estamos defendendo a única causa justa possível.

 

Estamos em meio a um jogo político complexo e devemos manter a serenidade, ter plena convicção baseada em uma leitura histórica do que defendemos, bem como não sucumbir a argumentos que se limitam a questões de fé cega e fanática.

 

Sobretudo, não devemos humilhar a fragilidade mental dos conservadores consumidos pela fúria santificada. Devemos manter a serenidade para que o debate político, jurídico e social não afunde definitivamente no lodaçal do lugar-comum simplista do artigo de fé. O que defendemos deve ser fruto de raciocínio e não de crença.