A FÚRIA SANTIFICADA

5 abr

Um dos aspectos mais assustadores da Europa Cristã Medieval era a crença de que a fúria poderia ter caráter santo ou divino.  A ideia de que a loucura furiosa de Orlando, bem como a violência assassina dos cruzados na Terra Santa, era algo justificável se acompanhada da justa indignação em nome do deus cristão. Diversos santos canonizados naqueles tempos eram pessoas furiosas, irascíveis e intolerantes.

 

Mesmo que a ira tenha sido definida como um pecado já no século IV da era corrente, somente lá pelo século XV passou-se a questionar os efeitos pouco cristãos da loucura furiosa e da ira propriamente dita. Santos assassinos como Cirilo, Luís IX e tantos outros que tiveram um passado militar antes de ser “iluminados” e mantiveram ao longo da vida costumes violentos, agora voltados para a defesa da fé, continuam sendo cultuados até hoje. Como se um verniz de fé ou os abismos do fanatismo fossem capazes de justificar o ódio e a violência.

 

Temos visto nos últimos dois anos uma escalada assustadora de ódio por parte dos setores mais conservadores de nossa sociedade. Verdade seja dita de que isso não ocorre apenas em solo brasileiro, eleitores de Donald Trump nos Estados Unidos e dos partidos neonazistas por toda a Europa protagonizam episódios de violência e ódio quase que diariamente. Alguns responsabilizam a despolitização do debate, promovida pelas redes sociais, a mídia truculenta e partidarizada ou a ausência de vozes dissonantes.

 

Eu me atrevo a dizer que nada é tão simples quanto parece. Leituras simplistas ou simplificadas levam a argumentos rasos como os que presenciamos todos os dias na padaria, no banco, no shopping ou no noticiário escrito, radiodifundido e televisado. A quase ausência sintomática de debates qualificados está transformando argumentos em questões de fé e seduzindo os cidadãos para que abandonem toda racionalidade e se entreguem à fúria santificada.

 

E por que estou desenvolvendo essa leitura?

 

Porque apenas assim posso entender (sem demonizar) as imagens que hoje poluem de maneira persistente minha linha do tempo no Facebook. Refiro-me, evidentemente, à filmagem realizada na noite de ontem na Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, durante o ato em favor do impeachment da Presidenta legalmente eleita da República. Imagens mostrando a advogada signatária do pedido, que hoje tramita no Congresso, visivelmente tomada por um paroxismo de fúria religiosa direcionado à política.

 

Rodando no ar uma bandeira do Brasil e entregue a um delírio milenarista de salvação da pátria, com forte viés pentecostal, a advogada arrancou palmas e ovações a um público que, supostamente, deveria ter uma leitura mais técnica das questões legais. Assustadoramente, em um ambiente conhecido por sua sobriedade e entre um público declaradamente conservador, o clima era similar ao desses templos em que pastores berram ensurdecedoramente, enquanto fiéis rolam pelo chão entregues à histeria coletiva religiosa. E, ao que parece, no prédio da vetusta instituição, no dia seguinte, ninguém se envergonha do triste espetáculo silenciosamente presenciado pela arquitetura que já viu melhores dias.

 

Em uma semana que já começou com a discussão ferrenha em torno do processo político em curso, bem como com um episódio grotesco de mau jornalismo, em que uma matéria absolutamente mentirosa, machista e desqualificada foi capa “fotochopada” de um conhecido semanário paulista, as imagens da advogada adquirem um tom surreal.

 

Quando foi que a racionalidade abandonou o debate político?

Quando foi que a fúria santificada substituiu os argumentos jurídicos?

Quando foi que nossos concidadãos se tornaram fanáticos vociferantes?

Será que este é um momento histórico que será superado por quem gritar mais alto?

Será que devemos ser arrastados a esse lodaçal de meias-verdades, mentiras descaradas, surtos psicóticos e fúria religiosa a que nossos adversários se entregam?

 

Tenho visto alguns companheiros à esquerda abandonando a serenidade e transformando-se em replicantes de palavras de ordem padronizadas. Mais do que nunca neste momento precisamos ler com atenção os documentos produzidos durante o processo político e jurídico e manter a racionalidade dos argumentos, mesmo quando somos atacados das maneiras mais vis. Não podemos e não devemos (em hipótese alguma) ceder ao delírio messiânico de que estamos defendendo a única causa justa possível.

 

Estamos em meio a um jogo político complexo e devemos manter a serenidade, ter plena convicção baseada em uma leitura histórica do que defendemos, bem como não sucumbir a argumentos que se limitam a questões de fé cega e fanática.

 

Sobretudo, não devemos humilhar a fragilidade mental dos conservadores consumidos pela fúria santificada. Devemos manter a serenidade para que o debate político, jurídico e social não afunde definitivamente no lodaçal do lugar-comum simplista do artigo de fé. O que defendemos deve ser fruto de raciocínio e não de crença.

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Uma resposta to “A FÚRIA SANTIFICADA”

  1. Dennis Miranda abril 13, 2016 às 8:42 pm #

    Hahaha muito bom, adorei!
    Parabéns

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