LUIZA ERUNDINA E DILMA ROUSSEF: O FARDO DO FEMININO NA PÓLIS PATRIARCAL

10 maio

No ano de 1986 eu trabalhava na extinta Aerovento Equipamentos Industriais, em Várzea Paulista, como arquivista e operadora de telex. Naquele então a única colega de trabalho com quem tinha afinidades, estava firmemente empenhada em me filiar ao PCdoB. Em sua disposição para conquistar minha adesão ao partido, essa jovem me arrumou convite para um evento na Câmara de Vereadores de Jundiaí, que receberia Luiza Erundina, que já não me lembro se estava em campanha ou se já era deputada constituinte.

 

Quando chegamos, o local estava abarrotado e muita gente acompanhava do lado de fora. Nunca vou esquecer a pequenina Luiza Erundina com um conjunto de calça e blusa de tergal de um tom esmaecido e óculos tão grande e tão fora de moda na época. Simpatizei imediatamente, não apenas porque era uma mulher de esquerda, dizendo as coisas que eu gostaria de dizer, mas porque seu despojamento físico era de uma honestidade como nunca vi igual na vida pública.

 

Para os mais jovens deve parecer risível falar de uma época em que não existiam celulares, internet, bancos de dados virtuais e nem mesmo computadores pessoais. Naquela época, se queríamos saber alguma coisa sobre uma pessoa pública deveríamos recorrer aos arquivos físicos dos jornais locais, pesquisando manualmente cada exemplar ou procurar pessoas bem informadas e perguntar. E foi assim que eu me informei sobre Luiza Erundina, perguntando e visitando as bibliotecas para ler os jornais.

 

Minha família era de operários, então não possuíamos casa própria, carro ou telefone. Se eu quisesse ligar para alguém deveria ter sempre fichas telefônicas na bolsa e torcer para que os “orelhões” mais próximos não estivessem depredados. Para me deslocar andava muito a pé e usava o ônibus e o metrô quando ia à Capital. Talvez por isso à época sua figura de mulher vinda de um meio similar ao meu tenha exercido tamanho impacto.

 

Em 1987 minha família conseguiu finalmente a cidadania brasileira e tirei meu título de eleitor. Lamentei profundamente não poder votar em Erundina para prefeita de São Paulo e chorei no meio da calçada ao ver sua foto na capa de uma revista na banca, depois de eleita, no alto do Terraço Itália, ladeada por duas enormes bandeiras vermelhas tremulando ao vento e com a vista panorâmica de São Paulo ao fundo. É uma foto que jamais esquecerei, tão cheia de promessas e tão simbólica, ao mesmo tempo.

 

Quando ela foi eleita, eu já havia deixado para trás o “destino” natural classista e estava cursando História na UNICAMP. Acompanhei sua gestão com admiração e respeito, mas sempre com receio de uma sociedade que não a aceitava. De uma sociedade, cujas instâncias públicas julgavam e condenavam sua condição de mulher solteira, sua idade, suas ideias, sua aparência e suas capacidades.

 

Em 1988 o PT ganhou duas prefeituras imensas (São Paulo e Campinas) e, por ser um partido relativamente modesto, não possuía quadros capacitados para preencher toda a estrutura do executivo. Nós, que acompanhávamos com atenção as conquistas do partido, vimos com crescente alarme como essas vitórias eleitorais atraíram todo tipo de gente ordinária e interesseira para engrossar as administrações petistas. A tendência então conhecida como Articulação ditou a política interna das gestões e empurrou goela abaixo de Luiza Erundina e Jacó Bittar (prefeito de Campinas) alianças inaceitáveis em nome do pragmatismo na hora de governar.

 

Quando vejo alguns situando o momento de capitulação do PT na Carta aos Brasileiros, lembro-me perfeitamente que o pragmatismo passou a imperar quando da necessidade de administrar as duas imensas prefeituras paulistas. Luiza Erundina viu-se obrigada a confiar em gente do calibre de Luiz Eduardo Greenhalgh, que baseava sua biografia em ter sido advogado de presos políticos, mas que acabou por transformar-se em estafeta do banqueiro orelhudo Daniel Dantas. Por aceitar a disciplina do partido, Erundina viu sua honestidade questionada e maculada quando, posteriormente, essas figuras se envolveram em escândalos de corrupção.

 

Nesse trajeto houve 1989, quando Lula perdeu a eleição devido às manobras da mídia e ao preconceito dos setores mais conservadores da população. As vitórias nas prefeituras e uma campanha impecável haviam criado a ilusão de que a vitória estava ao alcance, mas não foi o que aconteceu. E essa derrota criou um constrangimento imenso porque projetou o nome de Luiza Erundina como presidenciável, devido a sua experiência positiva como administradora e à solidez de sua formação política. Para muitos de nós, ela era uma candidata muito mais viável que o Lula para as eleições seguintes.

 

Mas a Articulação de José Dirceu (que jamais apoiou Erundina e queria Plínio de Arruda Sampaio para prefeito de São Paulo) sempre quis o Lula, por isso deu-lhe um “banho de loja” e passou uma década “polindo” sua imagem até levá-lo à presidência e isso significou sacrificar Luiza Erundina da maneira mais covarde. Foi nessa época que eu abandonei a militância mais ativa, tenho votado no PT como aquela escolha do “menos pior”, mas há mais de vinte anos que não cultivo ilusões. Apoio as medidas corretas, as vitórias contra o obscurantismo e os programas sociais, mas não estou cega aos defeitos inerentes à estrutura machista e pragmática do partido.

 

Desde então, sempre que Luiza Erundina se candidata ao Legislativo, voto nela com convicção e nunca tive qualquer motivo para me arrepender. Em todas as pautas em que votou no Congresso, me representou de maneira exemplar e sua figura corajosa em meio a essa fauna de sujeitinhos patéticos me enche de orgulho. Sua dignidade, mesmo quando empurrada para partidos que estão longe de ser minimamente aceitáveis é algo que me enche de tristeza.

 

Para entender o que está acontecendo com Dilma Roussef é necessário conhecer a trajetória de Luiza Erundina. É necessário saber que, dentro do PT convivem oportunistas que trouxeram alianças para garantir a governabilidade e um grupo que considera o Lula com uma adoração fanática como o quadro mor do partido. E esses grupos não apoiam mulheres que se destacam.

 

Dilma Roussef foi indicada porque obedeceria à disciplina partidária como apenas uma antiga guerrilheira idealista e raivosamente honesta poderia obedecer. Sua função era manter a casa funcionando para a volta do Lula e suportar em suas costas fortes, de mulher determinada, todos os escândalos e descalabros promovidos pela mídia e pelos aliados de ocasião. E ela o fez.

 

A ausência de carisma e a dificuldade de negociar que tanto lhe criticam estavam nos cálculos daqueles que não suportam que qualquer mulher do partido ofusque a figura onipresente de Lula. E é por isso que hoje boa parte do partido não questiona a decisão de sacrificá-la se isso puder beneficiar uma eventual eleição do Lula. E é o que farão.

 

Ontem, 09 de Maio de 2016, o Congresso brasileiro protagonizou mais uma etapa lamentável da grande mixórdia em que se transformou a guerra interna entre os poderes. Não vou entrar em detalhes sobre esse enredo rocambolesco que nos envergonha internacionalmente dia após dia. Mas quando hoje se fala em pedir a cassação de Waldir Maranhão, me apavora pensar que Luiza Erundina é uma das suplentes da mesa diretora da presidência da Câmara dos Deputados.

 

Não quero acordar um dia para ver Luiza Erundina presenciar impotente á imolação pública de Dilma Roussef, realizada por um Senado repleto de figuras asquerosas, plasticadas, tingidas e cheias de botox e colágeno, chafurdando na lama das negociatas e com síndrome de macho alfa que se recusa a envelhecer. Mesmo com todas as diferenças políticas entre as duas, não creio que passe despercebido a Luiza Erundina que o destino de Dilma Roussef é uma repetição de sua própria trajetória, apenas amplificada pela dimensão do que se encontra envolvido.

 

E enquanto isso o partido articula a futura candidatura do Lula. Como João Romão sendo homenageado enquanto Bertoleza era arrastada de volta à escravidão…

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5 Respostas to “LUIZA ERUNDINA E DILMA ROUSSEF: O FARDO DO FEMININO NA PÓLIS PATRIARCAL”

  1. Roseli maio 10, 2016 às 2:44 pm #

    É lamentável… Vi meus pais se decepsionarem muito…não consigo mais entender ou ver uma solução…

    • Paulo Pinheiro Machado maio 14, 2016 às 7:26 pm #

      Vivi situação semelhante, no final dos anos 1980, quando a CUT foi sendo domesticada pela Articulação (com Delúbio e companhia) e que estava claro um limite a este projeto do PT. Naquela conjuntura o Brizola defendia posições melhores. Mas a política brasileira piorou tanto que mesmo este grupo de tímidos reformistas da articulação conseguiram provocar toda esta ira da direita. Há mesmo muito a ser avaliado.

      • annagicelle maio 15, 2016 às 1:08 pm #

        Concordo inteiramente. 🙂

  2. Vinicius maio 14, 2016 às 10:43 pm #

    Muito bom o texto.
    Discordo das decisões tomadas pela Presidenta Dilma em seu segundo mandato. Mas começo a admirá-la cada vez mais como pessoa.
    Depois de ter sofrido um verdadeiro linchamento midiático nos últimos meses, sofrendo ataques não só pelo seu governo mas também pelo fato de ser mulher (a matéria da Istoé, por exemplo), eu acreditava, de uma forma machista, de que ela estava psicologicamente enfraquecida e que iria se resignar.
    Estava redondamente enganado. Ela deu um discurso no último dia doze, quando se confirmou seu afastamento, reafirmando em rede nacional que vai lutar pelo seu mandato e não se renderá ao golpismo.
    Uma mulher com quase setenta anos, que foi torturada durante a ditadura e que teve que lutar contra um câncer, está comprometida na luta pela legitimidade de seu governo. Não vai se render.
    Ela poderia muito bem se retirar para o Rio Grande do Sul ou para Minas Gerais e passar o resto da vida cuidando de seus netos, cumprindo o script esperado por uma sociedade estruturalmente machista.
    Mas a vida dela não vai acabar assim. Ela lutou contra um golpe de estado e agora lutará contra outro. Mesmo estando no fim de sua vida.
    Quanta força.

    • annagicelle maio 15, 2016 às 1:11 pm #

      De certa forma eu considero um privilégio ter vivido para ver a primeira mulher presidenta do Brasil (coisa que na minha infância era motivo de risos e piadas) e que tenha sido Dilma Roussef, uma mulher que nos honra e dá forças para ir além. 🙂

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