A ESQUERDA NÃO PODE VIVER APENAS DE VITÓRIAS MORAIS

31 ago

Eu votei em Dilma Rousseff e jamais me arrependi. Defendi seu mandato aqui no blog, e pela a internet afora, até onde os meus parcos conhecimentos tecnológicos de cinquentona me permitiram. Saí para a rua nas mirradas passeatas e nos atos cansados que tivemos aqui em Campinas. Gravei vídeos, participei até de um livro.

 

E mesmo assim estamos chegando ao ato final desta farsa dantesca e asquerosa e a minha impotência cresce a cada dia.

 

É claro que eu admiro a presença de espírito e a coragem de sua defesa no Senado. É claro que eu sei que o mundo inteiro está vendo e percebendo que é um golpe. É claro que estar “do lado certo da História” é importante para mim. É claro que é uma honra estar lado a lado com pessoas que respeito e admiro. Mas, como diria minha Mãe: eu não estou fazendo nada mais do que minha obrigação.

 

Afinal, eu sou comunista e não faço parte da “esquerda arrependida” e nem dos que agora estão (mesmo em sua defesa) atribuindo à Dilma uma parte significativa da responsabilidade pela própria queda. Tenho vergonha dessa esquerda que saiu à rua cobrando pautas genéricas ou impossíveis para explorar a insatisfação dos adolescentes para fins eleitoreiros. Tenho vergonha dessa esquerda que se considera acima do bem e do mal e que não cessa de malhar quem está no poder, mesmo sem apresentar alternativas nem soluções.

 

De todos os programas sociais promovidos por Dilma e Lula, o único em que eu me insiro é a Farmácia Popular e todo mês controlo minha pressão arterial com os remédios fornecidos por esse programa. Entretanto, foi a estabilidade econômica promovida pelo governo Lula que me permitiu, em esforço marital conjunto, quitar nossa casa própria, manter nossa filha em um colégio razoavelmente bom e dar-lhe as condições de disputar um vestibular em pé de igualdade com os filhos da classe média tradicional.

 

Por isso não desdenho e nem faço críticas confortáveis para sossegar egos feridos. Sempre tive uma visão pragmática do exercício do poder. E não esperava que a via eleitoral e o sistema político, do jeito que é formulado, nos permitisse fazer a Revolução. Qualquer pessoa sensata sabe que, nas atuais condições, até um tímido reformismo pode assanhar a vingança implacável dos setores dominantes de nossa sociedade.

 

Não sou dos que esperavam que o Partido dos Trabalhadores realizasse milagres. Tampouco sou dos que acreditam que a corrupção é um destino inescapável. Entretanto, aprendi o suficiente ao longo de tantos anos de estudo para saber que, em qualquer sociedade humana dos últimos cinco mil anos, sempre houve um grau ou outro de negociatas, desvios, propinas e/ou contratos superfaturados.

 

Acredito, por ter visto documentos e estudado o sistema político imperial, que isso acontece no Brasil desde tempos portugueses. Imagino, dentro do que tenho acesso em termos de informação atual, que Lula tenha deliberadamente permitido que a política brasileira funcionasse como sempre funcionou, em troca do espaço para promover suas reformas. Não me parece, entretanto, que ele seja um chefe de quadrilha enriquecendo loucamente como muitos dos hipócritas que ora ocupam o Congresso.

 

Da mesma forma, não creio que tenha sido a intransigência quixotesca de Dilma contra a corrupção, ou sua suposta incompetência para lidar com a crise econômica internacional, que a colocaram hoje na posição de ter que se defender perante a pior escória política de que se tem notícia em décadas e um Judiciário que cresce na esteira da decadência política.

 

Acredito firmemente que existe um conjunto de circunstâncias extremamente complexo, que vão desde a guerra cambial entre os EUA e a China, passando pela derrubada deliberada do preço do petróleo para prejudicar o Irã e os Bric’s, bem como a implacável campanha de desestabilização política promovida pela mídia gorda, que martelou o discurso da crise, da incompetência e da corrupção até um nível hipnótico na mente dos que tem preguiça de pensar ou nem sabem ler números nem analisar frações mais complexas. E isso tudo associado ao inconformismo dos partidos tradicionais, inflou figuras lastimáveis do baixo clero e das bancadas mais retrógradas do Congresso, entravando uma gestão governamental que não faria feio, mesmo que não tivesse oportunidade de fazer bonito.

 

Numa crise de tal magnitude, eu esperava que as esquerdas estivessem à altura de defender, não apenas a Democracia que está em jogo de uma maneira inacreditável em um país civilizado entrando no século XXI, mas que tivessem a capacidade de transcender o imediatismo das eleições executivas e pensar a cojuntura e o contexto em que estamos mergulhados.

 

Parece que eu esperava demais…

 

Neste momento em que escrevo, a queda de Dilma parece iminente e eu nem me sinto autorizada a abrigar esperanças, sendo quem sou e estando onde estou. Mas, acima de tudo, não quero e nem posso abraçar o discurso misógino de alguns de meus amigos e amigas dos mais variados matizes da esquerda, que esperam que a Dilma faça uma autocrítica humilhante e se imole em praça pública, em nome de qualquer suposta vitória moral.

 

Considero uma vergonha esses discursos que lhe atribuem “arrogância”, “teimosia” e “incompetência”, e mais ainda quando eles partem de dentro de seu próprio partido, do seio das outras esquerdas, e são proferidos por mulheres que nem percebem que alimentam a misoginia que as julgará pela mesma medida que hoje usam para se promover às custas do sacrifício de Dilma.

 

Nunca esperei nada além de hipocrisia do Congresso que está aí, e me surpreendi ao ver que existem ainda vários congressistas com brio e coragem para defender as nossas combalidas instituições democráticas. Mas lidar com a indiferença da sociedade quanto aos nossos destinos, a estultice da nova direita (que de nova não tem nada) e a cegueira ideológica da esquerda que não consegue transcender o próprio discurso, está ficando acima das minhas forças.

 

E esse discurso hipócrita de que a Dilma “cresceu na adversidade, mas seu governo foi péssimo” me parece o preparo para mais uma daquelas balelas de “vitória moral” que são tão comuns no futebol brasileiro. Uma vitória moral não passa de uma derrota glorificada. E eu estou cansada de colecionar derrotas.

 

Eu quero que Dilma erga sua cabeça tão alto quanto a Lei da Gravidade e a anatomia humana permitirem, que defenda seu governo que foi suficientemente decente para tornar-se uma ameaça aos adversários. Que pise encima dessa tendência judaico-cristã de certas esquerdas para o calvário e a autoflagelação e que sambe na cara das suas adversárias mesquinhas e invejosas e que saia pela porta da frente do palácio, ovacionada por aqueles que a apoiamos. Porque esta não é uma vitória moral, mas também não é sua derrota.

 

A derrota neste momento é da nossa sociedade que não soube estar à altura do momento histórico e das esquerdas que preferiram sacrificá-la no altar de seus interesses eleitoreiros. E quem vai pagar o preço somos todos nós.

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2 Respostas to “A ESQUERDA NÃO PODE VIVER APENAS DE VITÓRIAS MORAIS”

  1. Pedro Henrique de Oliveira outubro 21, 2016 às 3:19 am #

    Fico aqui pensando como uma pessoa que tem um vasto conhecimento sobre a História se intitula comunista? É claro você tem todo o direito e liberdade de ser o que quiser, porém tenho percebido de uns tempos pra cá o levantamento da bandeira comunista entre a maioria dos professores de ensino Superior, a que se deve esse fato? Todos sabemos que Comunismo é uma Utopia, todos aqueles que vieram com a conversa fiada de que seus antecessores perverteram o Comunismo foram todos Ditadores, Lenin, Mao, Stalin, Che Guevara, Fidel Castro entre outros, esta História de esquerda, Direita sempre me soou demasiadamente Politicamente Correta, e sou a favor do Politicamente Incorreto, Comunismo deveria ser uma ideia superada, ai você me pergunta e você ? Eu acredito em uma Democracia verdadeira, não uma Democracia ilusória como a que vivemos, por fim, o Filósofo Luiz Felipe Pondé fala que as Universidades estão repletas de professores de esquerda, a ponto de sufocar quem não o é, a escola sem partido surge para acabar com essa doutrinação esquerdista que impede que o aluno conheça todos os lados e tenha o pensamento crítico adequado para escolher qual sistema realmente é o menos pior.Sou estudante de História e fico feliz em conversar abertamente com você Professora.Parabéns pelo Blog e por seu trabalho nas mídias sociais.

    • annagicelle outubro 21, 2016 às 11:08 am #

      Bom dia 🙂 Como você mesmo disse, eu tenho o direito e a liberdade de ser o que quiser. 🙂 Não me leve a mal, mas me parece que a sua geração é muito cheia de certezas sobre o que mal conhece. “Todos sabemos” me parece hiperbólico demais, mas se você acredita que tem todas as respostas para a vida, paciência. Para que exista um diálogo é necessário respeito e a capacidade de empatia imprescindível em qualquer relação de alteridade. Acima de tudo, antes de afirmar é preciso ter de fato o tão propalado pensamento crítico e um conhecimento que não venha de terceira mão. Minhas ideias estão aí fartamente explicadas neste blog e nos vários vídeos que já fiz, e não creio que seja tão difícil entender porque alguns de nós somos comunistas. Bastaria não ser tão crédulo quando os argumentos vem da direita e tão pronto a criticar quando vem da esquerda. Mas creio que isso seja uma característica da juventude e por isso prefiro relevar. Você deu sua opinião e ela vai ficar registrada. Apenas me pergunto: desde quando menos de vinte por cento virou essa tão propalada maioria esmagadora de comunistas no ensino superior? E como esperam que impedir toda discussão inteligente nas escolas gere algum senso crítico? Se você conseguir me responder essas duas perguntas sem citar qualquer apaniguado da mídia e com argumentos seus, que sejam coerentes, aí podemos começar um diálogo, senão o seu comentário não passa de mansplaining, e eu lamento muito. 😦

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