Arquivo | setembro, 2016

Programa Noroeste em ação (03/09/2016): Érico Veríssimo

25 set

 

Noroeste FM 105,9 é uma rádio comunitária localizada no bairro da Vila Boa Vista em Campinas. Todo primeiro sábado do mês. o programa Noroeste em Ação trata de literatura. Apresentado por Jerry de Oliveira e com produção de Christiane Costa, o programa recebe Anna Gicelle García Alaniz para discutir diversos temas e livros, promovendo a difusão cultural e educativa, função primordial das rádios comunitárias.

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“NÃO POSSUI O SENHOR, PORVENTURA, O MÍNIMO SENTIMENTO DE DECÊNCIA?”

22 set

Inicialmente, é meu dever avisar o leitor de que sou bastante ortodoxa em minha concepção de História. Não tenho a menor simpatia por domínios como “A História do Tempo Presente” ou “História Comparada (também chamada de Comparativa)”.  Fujo do pós-modernismo e tenho um sincero pavor dos anacronismos tão comuns entre os divulgadores, jornalistas e escritores da moda.

 

Sou marxista e ainda assim tenho uma postura bastante crítica em relação à perspectiva limitadora que alguns historiadores impõem ao marxismo. Cresci muito como estudante e como ser humano ao tomar contato com os marxistas ingleses: E. P. Thompson, Christopher Hill, Raymond Williams e Eric J. Hobsbawm. Além do próprio Karl Marx, são estes os autores que fundamentaram, em um primeiro momento, a minha matriz teórica.

 

Estamos em um momento político, aqui no Brasil, em que a mera constatação de pertencer a uma tradição historiográfica perfeitamente legítima e reconhecida em universidades do mundo inteiro pode ser transformada em crime, pelas mãos de um grupo de congressistas que tentam, a qualquer custo, aprovar projetos de censura na educação. Não é apenas o conjunto famigerado do “Escola sem Partido”, promovido por pastores, defensores da tortura e do arbítrio, além dos ultracatólicos, mas também existe um projeto que visa transformar o Comunismo em crime. Não se trata apenas de censura, mas de perseguição generalizada.

 

O grupo que se formou em torno da defesa desses projetos nada sabe e nem entende sobre os temas que pretende censurar. Não há um único desses congressistas e dos grupos organizados que os apoiam, que saiba sequer remotamente argumentar, com bases teóricas sólidas, o motivo de seu pavor em relação às matrizes teóricas que orientam o Marxismo, seja na Economia, na História ou na Filosofia. Tudo o que se vê é uma emaranhado desarrazoado de preconceitos, ignorância e má-fé generalizada.

 

A impossibilidade de manter um diálogo entre as partes dessa contenda é absolutamente estarrecedora. Não se trata apenas de que os congressistas e seus apoiadores já formaram uma convicção e se recusam a dialogar conosco. Trata-se principalmente de que nossos contendores (que detém o poder político nesta disputa) não tem a capacidade intelectual e nem o conhecimento pedagógico e acadêmico para entender o que estão perseguindo, o que impossibilita qualquer de nossos argumentos de defesa.

 

É como tentar argumentar com paredes que se fecham à nossa volta.

 

Através da internet pululam textos fazendo analogias entre este nosso aziago momento histórico e o Macarthismo. E devo dizer que, mesmo eu que detesto comparações anacrônicas, hoje (ao ver Guido Mantega ser arrancado do hospital onde sua esposa se submeteria a uma cirurgia para combater o câncer) amanheci com um mundo de referências paralelas sobre o tema. Não há como não ligar a ação dos novos “paladinos” contra a corrupção, seus congêneres que lutam contra a “doutrinação” e o fenômeno da “caça às bruxas” promovida pelo senador Joseph McCarthy no Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso dos Estados Unidos, no período de 1950 a 1957.

 

Logo cedo, corri à minha estante e folheei o segundo volume do excelente conjunto de ensaios organizado pelo Professor William E. Leuchtenburg, O Século Inacabado – A América desde 1900, lembrando-me das aulas de História dos Estados Unidos que tive com o sensacional Professor Michael Hall. E foi nessas páginas, no ensaio do próprio Leuchtenburg, intitulado Cultura de Consumo e Guerra Fria – A sociedade americana, 1945-1960, que encontrei a fala de Joseph Wells, advogado do exército, que enfrentou o senador quando este acusava ignobilmente um veterano condecorado da Segunda Guerra:

“Até este momento, Senador, penso que nunca tinha realmente avaliado até onde chega a sua crueldade ou o seu arrojo… Se estivesse em meu poder perdoá-lo por sua crueldade gratuita, eu o faria. Considero-me um homem generoso e moderado, mas o seu perdão terá que vir de alguém acima de mim. Não possui o senhor, porventura, o mínimo sentimento de decência?” (p.736).

 

Procurava essa fala porque é assim que me sinto hoje.

 

A “tropa de choque” do senador McCarthy era formada por Richard Nixon e Roy Marcus Cohn, entre outros. E, durante quase uma década, perseguiu e atormentou escritores, roteiristas, diretores, atores, técnicos de cinema, funcionários públicos, cientistas e, finalmente, quando se voltou contra o exército, acabou sendo dissolvida. Vidas e reputações foram arruinadas e há uma vasta produção cinematográfica, teatral e literária retratando esse período.

 

Dalton Trumbo (escritor e roteirista de cinema), Dashiel Hammett (escritor), Arthur Miller (dramaturgo), Arthur J. Oppenheimer (cientista) são alguns dos mais proeminentes que, em maior ou menor medida, tiveram suas vidas marcadas pelas perseguições macarthistas.  Prisão, exílio, ostracismo e hostilidade social correram paralelamente com a elaboração de “listas negras” de supostos comunistas, a quem o emprego, a moradia e a civilidade eram sistematicamente negados. Não tenho ideia se existe algum levantamento completo da extensão das injustiças e do impacto social que o uso continuado da mídia para demonizar os comunistas alcançou na sociedade estadunidense.

 

Entretanto, foi da própria mídia que partiu o combate às barbaridades perpetradas por McCarthy e a Comissão de Atividades Antiamericanas. O jornalista Edward Murrow enfrentou a covardia dos executivos de televisão e confrontou a sociedade com o delírio alucinatório implícito no anticomunismo praticado pelo senador e seus asseclas. E assim, junto àquele velho advogado tão digno, ajudou a enterrar um espantalho surgido na esteira da Guerra Fria e consumido por um público despolitizado e refém do pavor.

 

As analogias são tantas, que chega a ser assustador exatamente pelo anacronismo da nossa situação tupiniquim. O senso comum está juntando como causa e efeito a distorção absurdamente aristotélica de que todo petista é ladrão e que todo petista é comunista, logo todo comunista é ladrão. Ladrão e doutrinador de criancinhas.

 

A ação midiática da Operação Lava Jato e do tribunal de exceção que se estabeleceu em Curitiba, associada aos arautos do Escola sem Partido, promovem o anticlímax de uma “caça às bruxas” local. Diante de um público que vai da apatia ao ódio, sem meios termos, e que junta à despolitização um ódio visceral de classe, o circo está montado. E com a cumplicidade de uma série lastimável de “jornalistas” francamente indecentes.

 

Quem vai olhar nos olhos dessas bestas-feras e confrontá-las?

Se este delírio persecutório triunfar, quem nos redimirá?

Se nós professores não pudermos mais refletir criticamente sobre as Ciências em geral, como as gerações do futuro saberão o que nos aconteceu?

 

O ataque que sofremos é múltiplo: não é apenas a Democracia que foi pisoteada, a liberdade, a racionalidade e o futuro da Pedagogia no país estão em jogo. E estamos perdendo.

 

Pense nisso tudo da próxima vez que vibrar vendo alguém ser preso ou condenado sem provas. Lembre-se!!!

 

E se você não me acredita, segue aqui uma lista de livros e filmes que são imprescindíveis para a compreensão do Macarthismo. Se você assistir e não sentir o mínimo desconforto pensando em nossa sociedade atual, então já foi abduzido e eu só posso lamentar…

 

SUGESTÕES

Comecemos com o básico: você sabe por que a expressão “caça às bruxas” é associada ao Macarthimo?

Em 1953, em plena vigência das perseguições, o conhecido e aclamado dramaturgo Arthur Miller (A morte de um caixeiro viajante) escreveu uma peça chamada The crucible, que no Brasil recebeu a tradução de As bruxas de Salém, por recontar esse episódio bem conhecido da época colonial nos Estados Unidos. A peça de Miller, entretanto, era uma denúncia dos processos quase inquisitoriais e discricionários usados pelos congressistas, que se valia de um fato histórico muito anterior para traçar analogias e denunciar um fenômeno presente. Esse é um recurso narrativo ficcional relativamente comum e que acaba por sobrepor as duas narrativas aos olhos do leigo, lançando um olhar contemporâneo para a velha Salém e suas bruxas e situando o Macarthismo em uma perspectiva histórica de perseguição a quem pensa ou se comporta de maneira diferente do senso comum.

 

Mesmo só vindo a ser encenada em 1963, após o fim das listas negras, a peça era conhecida nos meios artísticos e foi aí que acabou sendo cunhado o termo “caça às bruxas” como sinônimo da paranoia anticomunista do Macarthismo. Além das várias montagens, a peça recebeu mais de uma adaptação para o cinema e, em 1996, o próprio Miller foi responsável pelo roteiro que deu origem ao conhecido filme dirigido por Nicholas Hytner, com Daniel Day-Lewis no papel principal.

 

Um dos efeitos das listas negras foi a recusa de trabalho aos escritores e roteiristas rotulados como comunistas, o que obrigou muitos deles a escrever sob os mais variados pseudônimos. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Dalton Trumbo, escritor e roteirista várias vezes indicado e ganhador do Oscar de melhor roteiro (tanto original quanto adaptado). Trumbo cumpriu pena por se recusar a delatar outros profissionais considerados comunistas e depois foi morar no México.

 

Se você se der ao trabalho de pesquisar seu nome, vai entender o impacto desse escritor para a História do Cinema ocidental. Existe um filme bem recente contando sua trajetória (Trumbo: Lista Negra, lançado em janeiro deste ano, dirigido por Jay Roach e estrelado por Bryan Cranston), bem como vários documentários, dos quais quero destacar o excelente e emocionante Trumbo, de 2007, dirigido por Peter Askin.

 

Outro roteirista e escritor perseguido e obrigado a se esconder sob pseudônimos para publicar foi Howard Fast, autor do livro Spartacus, que gerou o filme roteirizado por Trumbo.  No livro O compromisso (São Paulo, Editora Best Seller, 1988) Fast conta de maneira ficcional as desventuras de um escritor comunista naquela época. Vale a pena ler e também dar uma espiada no livro Spartacus e no filme de 1960, estrelado por Kirk Douglas, que foi um dos autores que mais se bateu pela reabilitação dos trabalhos tanto de Trumbo, quanto de Fast.

 

A defesa das liberdades estava presente sempre na obra desses autores.

 

Também recomendo o imperdível Boa Noite e Boa Sorte, de 2005, com direção de George Clooney, que narra o enfrentamento entre o jornalista Edward Murrow e o senador Joseph McCarthy e traz uma análise impecável sobre o papel da omissão da mídia ou seu franco apoio aos fenômenos de perseguição política.

 

Da mesma forma, existem dois trabalhos muito significativos sobre Roy Cohn:

– Cidadão Cohn, filme de 1992, dirigido por Frank Pierson e estrelado por James Woods;

– Angels in America, minissérie de 2003, dirigida por Mike Nichols e estrelada por Al Pacino.

 

Há muito mais para quem se interessa, mas isso basta para começar. E eu recomendo o livro do Professor Leuchtenburg, que já nomeei durante o texto. Quem sabe assim, conseguimos qualificar melhor o debate político e sair um pouco do terreno do ódio gratuito?

 

Afinal, se o comunismo vier a ser considerado crime, como as bancadas fundamentalistas tanto sonham, pessoas como eu serão apenas uma vaga lembrança em um mundinho limitado e odiento.

SAUDADE E AÑORANZA: SOBRE TRADUÇÃO, SENSO COMUM E POLÍTICA

15 set

Quem já não ouviu o célebre tango Cuesta abajo, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera? O tema foi escrito em 1934 e os versos finais do estribilho são: “Sueño com el pasado que añoro, el tiempo viejo que lloro y que nunca volverá”.

 

O verbo añorar (em um busca rápida nos dicionários do Google) é traduzido como “sentir saudade” e sua forma substantivada añoranza é traduzida como “saudade, nostalgia”. São palavras que existem no léxico da região em torno do Rio da Prata há mais de cem anos. Como eu não sou linguista, apenas curiosa, não posso asseverar se são formas derivadas de algum dialeto italiano ou apenas evoluções locais da língua espanhola.

 

Mas certamente, você já deve ter ouvido ou lido na mídia, que o português é a única língua do mundo que tem uma palavra específica para designar o sentimento de saudade, não é mesmo?

 

Eu, que vivo no Brasil há quarenta e dois anos, cansei de ver matérias totalmente superficiais e irrelevantes sobre isso em telejornais, programas de variedades e programas de auditório. “Saudade, a palavra que não tem tradução” é uma frase repetida até a náusea, virou até verbete da Wikipédia! E jamais vi algum jornalista mais inteligente sequer fazendo um esforço para encontrar sinônimos em outras línguas.

 

Se pensarmos que traduzir implica em conhecer a cultura em que a palavra foi gerada e encontrar um sinônimo adequado que aproxime seu significado do entendimento do leitor, não existiriam palavras “intraduzíveis”. Mesmo quando o tradutor não encontrasse um sinônimo específico, haveria ao menos uma formação conceitual similar. Afinal, uma das funções da linguagem é expressar o ser humano e seu entorno, e sentir saudades não é patrimônio exclusivo dos lusófonos.

 

A nostalgia e todos os sentimentos correlatos dela advindos existem para todos os seres humanos e deve existir neste mundo ao menos uma meia dúzia de palavras que expressem um significado similar ao termo saudade.

 

Então, por que a mídia insiste nessa bobagem?

 

A construção de um senso comum sobre o que é ser brasileiro nos meios midiáticos merece um estudo crítico. Engolimos cotidianamente uma série de chavões que nos rotulam e categorizam, sem qualquer senso crítico. Para além do jornalismo fácil, uma identidade brasileira vem sendo construída e não é um reflexo do real:

 

– a beleza da mulher brasileira, que é quase uma cafetinagem de nossos corpos e existências;

– o jeitinho brasileiro, que quando convém vira empreendedorismo e quando não sem-vergonhice;

– a excelência no futebol, que permite o endeusamento de qualquer moleque que chuta uma bola e sua crucificação, quando o time encontra um adversário à altura, ou melhor;

– a exuberância da nossa natureza, do nosso carnaval; das culinárias regionais;

– a palavra saudade, que não tem tradução.

 

Todo um conjunto de diferenciais exóticos que nos tornam “únicos”, mas, ao mesmo tempo, folclóricos e periféricos na ordem de importância mundial. É quase uma justificativa para compensar nossa suposta insignificância na ordem das coisas e mostrar um suposto valor, uma identidade que valide nossa existência.

 

A construção desse senso comum em volta de uma série de “nadas” é um primor de manipulação. Afinal, quais mulheres brasileiras são as consideradas belas? O jeitinho significa que o resto do planeta não tem jogo de cintura e nem “se vira”? Todo brasileiro é obrigado a gostar de carnaval e futebol? A construção de uma identidade em torno dessas bobagens está muito aquém dos projetos históricos de Nação formulados no século XX.

 

Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Celso Furtado. Duas gerações de pensadores brasileiros que propuseram modelos de leitura e análise da realidade brasileira, baseados na História e na Economia, à procura de uma identidade e de um projeto de Nação. Pensadores que ficariam estarrecidos com a banalização dessa identidade feita pela mídia.

 

E é neste ponto que eu chamo a atenção para a facilidade com que se pode criar um senso comum sobre qualquer coisa a partir de nada, basta a repetição reiterada e constante dos mesmos argumentos, mesmo que sem qualquer evidência que os corrobore. O poder midiático reside nisso e não é pouca coisa. Não é um poder a ser subestimado.

 

Estamos tendo a evidência concreta disso na última década, com a atuação da mídia como um poder paralelo e que subjuga a narrativa dos poderes políticos constitucionais. Não é à toa que Lula, após ganhar sua primeira eleição, correu para ser legitimado na maior rede televisiva do país, nem é pouco sintomático que políticos dos Legislativos e dos Executivos federais, estaduais e municipais, percam um tempo precioso promovendo suas imagens no meio midiático.

 

Por isso, não é de estranhar que o Judiciário tenha aderido a essas práticas. Para ter sua existência validada e seu trabalho reconhecido, é necessário aparecer na mídia. O como aparecer é que se tornou uma questão decisiva.

 

O desempenho histriônico dos ministros do Supremo na TV Justiça seria risível se estes não fossem os derradeiros guardiões do Direito Constitucional. As coletivas de imprensa ridículas do Ministério Público seriam motivo para anulação de processos, se elas não estivessem intrinsecamente ligadas a uma construção narrativa que visa interferir diretamente nos destinos políticos do país. A mídia encontrou em muitos quadros do Judiciário uma cumplicidade tácita, baseada no ego e na vaidade desses Juízes e Promotores que se consideram salvadores do Brasil.

 

Essa ligação profana, que se intensifica sempre que estamos às vésperas de períodos eleitorais, está produzindo réus sem evidência concreta de crime (apenas convicções), presunção de inocência apenas para os amigos, mesmo quando as provas contra estes se acumulam, e uma visão maniqueísta, primária e tosca do conceito de Justiça.

 

E está virando senso comum. Mesmo quando uma boa parte das pessoas não tenha a capacidade para perceber que isso está longe de ser bom senso ou mesmo senso crítico.

 

A depender da mídia brasileira, teremos em breve um clima de filme do Velho Oeste, com bandidos estereotipados e juízes enforcadores.  Quem duvida, tente convencer qualquer pessoa na rua de que saudade tem tradução em outras línguas sim, e veja o tamanho do estrago já causado.

ESTAMOS MAIS INFANTIS NA PERCEPÇÃO DA POLÍTICA?

8 set

 

Um dos aspectos mais tristes de ser pautado pelo bombardeio de informações, promovido pela variedade de mídias que nos cercam, é que perdemos a viabilidade de avaliar as notícias uma a uma pelo que valem ou por quem representam. Não existe tempo hábil, nem mesmo para os analistas profissionais, para enfrentar o volume de fatos, factoides e notícias divulgado diariamente. Para ter uma vaga noção da realidade que nos cerca precisamos de tempo e dedicação, dois luxos que quem trabalha para sobreviver desconhece.

 

Por isso consumimos opiniões e não notícias. Elegemos a revista ou a emissora que “nos representa”, o blogueiro ou jornalista que tem um perfil sociopolítico semelhante ao nosso, e terceirizamos o ofício de pensar. Afinal, somos pessoas comuns e pensar dá um trabalho danado e temos muito mais o que fazer, não é mesmo?

 

Pois é…

 

Pensar requer o hábito, a constância e a capacidade de analisar palavras e números em uma sentença ou em um discurso e perceber se eles correspondem a uma realidade possível ou a uma construção discursiva. Pensar requer conhecimento de figuras de linguagem para poder reconhecer uma metáfora, uma hipérbole ou uma ironia. E, não menos importante, pensar requer a humildade de saber que podemos estar errados e precisamos nos analisar, ao mesmo tempo em que analisamos as informações que nos chegam.

 

E é humanamente impossível fazer isso vinte e quatro horas por dia, todos os dias. Em algum momento “baixamos a guarda” e consumimos uma opinião como se fosse uma informação. Isso não seria tão ruim se, junto com a ideia de que opinião é informação, não viesse implícita a noção infantil de que estamos perante a “verdade dos fatos”.

 

Em algum momento um jornalista qualquer chamou de Fla-Flu a disputa política entre os projetos do PSDB e do PT, em uma alusão simplista ao derby do futebol carioca, e logo uma boa parte dos comentaristas passou a fazer analogias entre política e futebol. Daí passamos a uma situação em que os “donos” do discurso das identidades sociais encontraram mais um meio de classificar a sociedade civil como burra e manipulável. Do momento em que se criou essa percepção de que o brasileiro “torce” na política como torceria no futebol, choveram metáforas (sim, eu também uso e abuso das figuras de linguagem) associando esses dois âmbitos da convivência social.

 

De 2013 até o este momento, houve uma alteração significativa na percepção popular sobre a política e os políticos, promovida por esse fenômeno do consumo de opiniões. Jornalistas ficaram mais ousados e sensacionalistas na ânsia de pautar o pensamento popular e produzir resultados significativos para as aspirações sociopolíticas de seus patrões. Defensores e portadores de ideários sociais divergentes passaram a agir como cruzados em prol de verdades dúbias e duvidosas.

 

E nós consumimos todo esse festival de opiniões como se fossem fatos. É claro que cada um de nós consome as informações geradas nas mídias disponíveis, de acordo com nossa própria vivência e experiência. Nesse sentido, podemos ser bem sucedidos e evitar nove entre dez armadilhas midiáticas e cair na décima como “patinhos”.

 

Ou podemos escolher um determinado discurso, tendo plena consciência de que se trata de um discurso social e historicamente construído, que atende a nossas expectativas de atuação política, mas que não se trata de “A” verdade, e sim de mais “UMA” verdade possível. Ou podemos fingir que estamos acima dos discursos e que sabemos mais do que todo mundo como a sociedade funciona e passar a pregar a negação ou a omissão, perante o processo político, em nome de uma “pureza” intelectual totalmente utópica. Ou podemos…

 

E aí é que está, podemos ter múltiplas opções de ação, embora o discurso da mídia e das redes sociais nos leve a crer que só existem dois lados. Essa visão maniqueísta de “bem contra o mal”, tão difundida ultimamente, é que tem levado muitas pessoas a perceber a realidade nacional como a antessala do apocalipse. O mundo não acaba porque nossos adversários políticos consigam uma vitória, nem o mundo planetário e nem o nosso mundo pessoal e metafórico.

 

Mas nos pegamos agindo como adolescentes dramáticos, na medida em que pensamos que um retrocesso lamentável e atroz pode significar o fim do mundo, quando na verdade se trata de mais um percalço e a abertura de uma nova frente de luta.

 

Será que os jornalistas opinativos tem a dimensão que como é patético dizer que o Brasil se encontra mergulhado na pior crise de sua História? Afinal, será que revoluções do período regencial, a Guerra do Paraguai, as perseguições políticas medonhas da Era Vargas, a ditadura civil-militar mais recente e os planos econômicos dos períodos Sarney, Collor e FHC não foram crises? Será que a corrupção, onipresente em nossa sociedade desde a chegada da administração colonial portuguesa, somente agora atingiu níveis estratosféricos?

 

Essa abordagem dramática e sensacionalista da vida, tão ao gosto dos programas de entrevistas de auditório, que surgiram nos anos 80 e nos acompanham desde então explorando a miséria humana, chegou aos noticiários. E os noticiários passaram a “pingar sangue” como aquele antigo jornal Notícias Populares, que alguns devem lembrar. E os jornalistas se tornaram dramáticos, excessivos e hiperbólicos, manipulando as emoções da plateia com recursos histriônicos de complexidade shakespeariana.

 

É nesse caldo de cultura tão tóxico e egocêntrico que devemos pensar ao tentar analisar (mais uma vez) o fenômeno dos adolescentes mascarados. E eu não os chamo de Blackblocs porque, em sua absoluta maioria, esses meninos não sabem que a tática de defesa de manifestações foi criada para ser uma prática individual e não uma formação de grupinhos de camaradagem. Por não ter o mais mínimo conhecimento histórico e social, esses ativistas confundem Anarquismo com voluntarismo e promoção do caos.

 

Nos dias 1º e 6 de setembro passados, tivemos atos em defesa da democracia e dos direitos civis aqui em Campinas, desses atos que se convencionou chamar  #FORATEMER por conta da inequívoca ilegalidade do governo atual. No ato do dia 1º havia em torno de quatro mil pessoas, uma grande presença de famílias, militantes históricos da esquerda local, estudantes da UNICAMP e grupos feministas e LGBT’s. Foi um ato convocado no “susto” pelas redes sociais, e muito diferente dos atos anti-impeachment dos meses anteriores, que reuniram apenas militantes mais velhos e sindicalistas.

 

A presença policial foi bem pouca, talvez inclusive porque os atos anteriores beiravam apenas de trezentas a quinhentas pessoas. Não houve qualquer tipo de problema e os militantes mais velhos cuidávamos o tempo todo de manter a segurança necessária para evitar confrontos. A presença alegre dos universitários com seus tambores e cabelos coloridos deu um ritmo diferente à marcha pelas ruas centrais da cidade.

 

Já no dia 6, a composição do ato foi bem diferente. Primeiro porque não foi espontâneo, foi agendado assim que o outro se encerrou e houve chamadas constantes. O tempo não ajudou, na madrugada do dia 6 uma tempestade se abateu sobre a cidade e o dia permaneceu nublado e frio, impedindo as famílias com crianças pequenas de comparecer na mesma medida que no ato anterior. Mas mesmo assim ficamos em torno das quatro mil pessoas novamente.

 

Outra diferença foi a presença dos partidinhos trotskistas (mais uma vez) tentando apropriar-se da narrativa do protesto para reverter em votos para suas legendas nanicas. Onde estavam esses partidos quando denunciávamos o golpe? A maior parte fazendo o serviço sujo da direita, ao debilitar um governo legitimamente eleito, e surfando no antipetismo para fins eleitoreiros.

 

E, lá pela metade da marcha surgiram cinco adolescentes vestidos de preto, carregando mochilas gigantescas e com camisetas na cabeça servindo de máscaras. Cinco moleques patéticos, que não deviam ter mais do que treze anos, que se recusaram a retirar as “máscaras” quando pedimos e que (se tivéssemos deixado) certamente teriam arrumado um jeito de causar confusão. Acreditando tolamente que seu protagonismo na “luta” passa por promover o confronto para “expor” a truculência da polícia e assim poder “proteger” os outros manifestantes, no que parece uma distorção delirante da Síndrome de Munchhausen by Proxy.

 

E eu estou há dois dias matutando se a infantilidade desses meninos se deve apenas à sua pouca idade e ausência de conhecimento e experiência de vida, ou se o clima social de antessala do apocalipse promovido pela imprensa e por determinadas militâncias oportunistas não terá jogado um papel importante nessa percepção adolescente de que o mundo está acabando e precisamos “fazer coisas” para impedir…

 

Precisamos denunciar o golpe parlamentar, precisamos defender a democracia, precisamos lutar por nossos direitos, mas também precisamos parar de ser dramáticos. Uma derrota política não pressupõe o triunfo do mal, em letras maiúsculas e caracteres góticos. Uma derrota pressupõe reorganização, serenidade, estratégia e a continuidade da luta em termos civilizados.

 

Quando se trabalha com uma visão binária de “agora ou nunca”, “ou vai ou racha” ou “se você não está comigo, está contra mim”, corre-se o sério risco de passar a viver de chavões, clichês e palavras de ordem e, aí sim, perder totalmente o pé das realidades imediatas.

 

Não podemos permitir que essa infantilização do debate, que essa mentalidade adolescente voluntarista tome conta dos discursos e das instâncias de análise crítica da sociedade, afinal somos nós os adultos.

 

Lembrem-se: somos nós os adultos…