ESTAMOS MAIS INFANTIS NA PERCEPÇÃO DA POLÍTICA?

8 set

 

Um dos aspectos mais tristes de ser pautado pelo bombardeio de informações, promovido pela variedade de mídias que nos cercam, é que perdemos a viabilidade de avaliar as notícias uma a uma pelo que valem ou por quem representam. Não existe tempo hábil, nem mesmo para os analistas profissionais, para enfrentar o volume de fatos, factoides e notícias divulgado diariamente. Para ter uma vaga noção da realidade que nos cerca precisamos de tempo e dedicação, dois luxos que quem trabalha para sobreviver desconhece.

 

Por isso consumimos opiniões e não notícias. Elegemos a revista ou a emissora que “nos representa”, o blogueiro ou jornalista que tem um perfil sociopolítico semelhante ao nosso, e terceirizamos o ofício de pensar. Afinal, somos pessoas comuns e pensar dá um trabalho danado e temos muito mais o que fazer, não é mesmo?

 

Pois é…

 

Pensar requer o hábito, a constância e a capacidade de analisar palavras e números em uma sentença ou em um discurso e perceber se eles correspondem a uma realidade possível ou a uma construção discursiva. Pensar requer conhecimento de figuras de linguagem para poder reconhecer uma metáfora, uma hipérbole ou uma ironia. E, não menos importante, pensar requer a humildade de saber que podemos estar errados e precisamos nos analisar, ao mesmo tempo em que analisamos as informações que nos chegam.

 

E é humanamente impossível fazer isso vinte e quatro horas por dia, todos os dias. Em algum momento “baixamos a guarda” e consumimos uma opinião como se fosse uma informação. Isso não seria tão ruim se, junto com a ideia de que opinião é informação, não viesse implícita a noção infantil de que estamos perante a “verdade dos fatos”.

 

Em algum momento um jornalista qualquer chamou de Fla-Flu a disputa política entre os projetos do PSDB e do PT, em uma alusão simplista ao derby do futebol carioca, e logo uma boa parte dos comentaristas passou a fazer analogias entre política e futebol. Daí passamos a uma situação em que os “donos” do discurso das identidades sociais encontraram mais um meio de classificar a sociedade civil como burra e manipulável. Do momento em que se criou essa percepção de que o brasileiro “torce” na política como torceria no futebol, choveram metáforas (sim, eu também uso e abuso das figuras de linguagem) associando esses dois âmbitos da convivência social.

 

De 2013 até o este momento, houve uma alteração significativa na percepção popular sobre a política e os políticos, promovida por esse fenômeno do consumo de opiniões. Jornalistas ficaram mais ousados e sensacionalistas na ânsia de pautar o pensamento popular e produzir resultados significativos para as aspirações sociopolíticas de seus patrões. Defensores e portadores de ideários sociais divergentes passaram a agir como cruzados em prol de verdades dúbias e duvidosas.

 

E nós consumimos todo esse festival de opiniões como se fossem fatos. É claro que cada um de nós consome as informações geradas nas mídias disponíveis, de acordo com nossa própria vivência e experiência. Nesse sentido, podemos ser bem sucedidos e evitar nove entre dez armadilhas midiáticas e cair na décima como “patinhos”.

 

Ou podemos escolher um determinado discurso, tendo plena consciência de que se trata de um discurso social e historicamente construído, que atende a nossas expectativas de atuação política, mas que não se trata de “A” verdade, e sim de mais “UMA” verdade possível. Ou podemos fingir que estamos acima dos discursos e que sabemos mais do que todo mundo como a sociedade funciona e passar a pregar a negação ou a omissão, perante o processo político, em nome de uma “pureza” intelectual totalmente utópica. Ou podemos…

 

E aí é que está, podemos ter múltiplas opções de ação, embora o discurso da mídia e das redes sociais nos leve a crer que só existem dois lados. Essa visão maniqueísta de “bem contra o mal”, tão difundida ultimamente, é que tem levado muitas pessoas a perceber a realidade nacional como a antessala do apocalipse. O mundo não acaba porque nossos adversários políticos consigam uma vitória, nem o mundo planetário e nem o nosso mundo pessoal e metafórico.

 

Mas nos pegamos agindo como adolescentes dramáticos, na medida em que pensamos que um retrocesso lamentável e atroz pode significar o fim do mundo, quando na verdade se trata de mais um percalço e a abertura de uma nova frente de luta.

 

Será que os jornalistas opinativos tem a dimensão que como é patético dizer que o Brasil se encontra mergulhado na pior crise de sua História? Afinal, será que revoluções do período regencial, a Guerra do Paraguai, as perseguições políticas medonhas da Era Vargas, a ditadura civil-militar mais recente e os planos econômicos dos períodos Sarney, Collor e FHC não foram crises? Será que a corrupção, onipresente em nossa sociedade desde a chegada da administração colonial portuguesa, somente agora atingiu níveis estratosféricos?

 

Essa abordagem dramática e sensacionalista da vida, tão ao gosto dos programas de entrevistas de auditório, que surgiram nos anos 80 e nos acompanham desde então explorando a miséria humana, chegou aos noticiários. E os noticiários passaram a “pingar sangue” como aquele antigo jornal Notícias Populares, que alguns devem lembrar. E os jornalistas se tornaram dramáticos, excessivos e hiperbólicos, manipulando as emoções da plateia com recursos histriônicos de complexidade shakespeariana.

 

É nesse caldo de cultura tão tóxico e egocêntrico que devemos pensar ao tentar analisar (mais uma vez) o fenômeno dos adolescentes mascarados. E eu não os chamo de Blackblocs porque, em sua absoluta maioria, esses meninos não sabem que a tática de defesa de manifestações foi criada para ser uma prática individual e não uma formação de grupinhos de camaradagem. Por não ter o mais mínimo conhecimento histórico e social, esses ativistas confundem Anarquismo com voluntarismo e promoção do caos.

 

Nos dias 1º e 6 de setembro passados, tivemos atos em defesa da democracia e dos direitos civis aqui em Campinas, desses atos que se convencionou chamar  #FORATEMER por conta da inequívoca ilegalidade do governo atual. No ato do dia 1º havia em torno de quatro mil pessoas, uma grande presença de famílias, militantes históricos da esquerda local, estudantes da UNICAMP e grupos feministas e LGBT’s. Foi um ato convocado no “susto” pelas redes sociais, e muito diferente dos atos anti-impeachment dos meses anteriores, que reuniram apenas militantes mais velhos e sindicalistas.

 

A presença policial foi bem pouca, talvez inclusive porque os atos anteriores beiravam apenas de trezentas a quinhentas pessoas. Não houve qualquer tipo de problema e os militantes mais velhos cuidávamos o tempo todo de manter a segurança necessária para evitar confrontos. A presença alegre dos universitários com seus tambores e cabelos coloridos deu um ritmo diferente à marcha pelas ruas centrais da cidade.

 

Já no dia 6, a composição do ato foi bem diferente. Primeiro porque não foi espontâneo, foi agendado assim que o outro se encerrou e houve chamadas constantes. O tempo não ajudou, na madrugada do dia 6 uma tempestade se abateu sobre a cidade e o dia permaneceu nublado e frio, impedindo as famílias com crianças pequenas de comparecer na mesma medida que no ato anterior. Mas mesmo assim ficamos em torno das quatro mil pessoas novamente.

 

Outra diferença foi a presença dos partidinhos trotskistas (mais uma vez) tentando apropriar-se da narrativa do protesto para reverter em votos para suas legendas nanicas. Onde estavam esses partidos quando denunciávamos o golpe? A maior parte fazendo o serviço sujo da direita, ao debilitar um governo legitimamente eleito, e surfando no antipetismo para fins eleitoreiros.

 

E, lá pela metade da marcha surgiram cinco adolescentes vestidos de preto, carregando mochilas gigantescas e com camisetas na cabeça servindo de máscaras. Cinco moleques patéticos, que não deviam ter mais do que treze anos, que se recusaram a retirar as “máscaras” quando pedimos e que (se tivéssemos deixado) certamente teriam arrumado um jeito de causar confusão. Acreditando tolamente que seu protagonismo na “luta” passa por promover o confronto para “expor” a truculência da polícia e assim poder “proteger” os outros manifestantes, no que parece uma distorção delirante da Síndrome de Munchhausen by Proxy.

 

E eu estou há dois dias matutando se a infantilidade desses meninos se deve apenas à sua pouca idade e ausência de conhecimento e experiência de vida, ou se o clima social de antessala do apocalipse promovido pela imprensa e por determinadas militâncias oportunistas não terá jogado um papel importante nessa percepção adolescente de que o mundo está acabando e precisamos “fazer coisas” para impedir…

 

Precisamos denunciar o golpe parlamentar, precisamos defender a democracia, precisamos lutar por nossos direitos, mas também precisamos parar de ser dramáticos. Uma derrota política não pressupõe o triunfo do mal, em letras maiúsculas e caracteres góticos. Uma derrota pressupõe reorganização, serenidade, estratégia e a continuidade da luta em termos civilizados.

 

Quando se trabalha com uma visão binária de “agora ou nunca”, “ou vai ou racha” ou “se você não está comigo, está contra mim”, corre-se o sério risco de passar a viver de chavões, clichês e palavras de ordem e, aí sim, perder totalmente o pé das realidades imediatas.

 

Não podemos permitir que essa infantilização do debate, que essa mentalidade adolescente voluntarista tome conta dos discursos e das instâncias de análise crítica da sociedade, afinal somos nós os adultos.

 

Lembrem-se: somos nós os adultos…

 

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