SAUDADE E AÑORANZA: SOBRE TRADUÇÃO, SENSO COMUM E POLÍTICA

15 set

Quem já não ouviu o célebre tango Cuesta abajo, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera? O tema foi escrito em 1934 e os versos finais do estribilho são: “Sueño com el pasado que añoro, el tiempo viejo que lloro y que nunca volverá”.

 

O verbo añorar (em um busca rápida nos dicionários do Google) é traduzido como “sentir saudade” e sua forma substantivada añoranza é traduzida como “saudade, nostalgia”. São palavras que existem no léxico da região em torno do Rio da Prata há mais de cem anos. Como eu não sou linguista, apenas curiosa, não posso asseverar se são formas derivadas de algum dialeto italiano ou apenas evoluções locais da língua espanhola.

 

Mas certamente, você já deve ter ouvido ou lido na mídia, que o português é a única língua do mundo que tem uma palavra específica para designar o sentimento de saudade, não é mesmo?

 

Eu, que vivo no Brasil há quarenta e dois anos, cansei de ver matérias totalmente superficiais e irrelevantes sobre isso em telejornais, programas de variedades e programas de auditório. “Saudade, a palavra que não tem tradução” é uma frase repetida até a náusea, virou até verbete da Wikipédia! E jamais vi algum jornalista mais inteligente sequer fazendo um esforço para encontrar sinônimos em outras línguas.

 

Se pensarmos que traduzir implica em conhecer a cultura em que a palavra foi gerada e encontrar um sinônimo adequado que aproxime seu significado do entendimento do leitor, não existiriam palavras “intraduzíveis”. Mesmo quando o tradutor não encontrasse um sinônimo específico, haveria ao menos uma formação conceitual similar. Afinal, uma das funções da linguagem é expressar o ser humano e seu entorno, e sentir saudades não é patrimônio exclusivo dos lusófonos.

 

A nostalgia e todos os sentimentos correlatos dela advindos existem para todos os seres humanos e deve existir neste mundo ao menos uma meia dúzia de palavras que expressem um significado similar ao termo saudade.

 

Então, por que a mídia insiste nessa bobagem?

 

A construção de um senso comum sobre o que é ser brasileiro nos meios midiáticos merece um estudo crítico. Engolimos cotidianamente uma série de chavões que nos rotulam e categorizam, sem qualquer senso crítico. Para além do jornalismo fácil, uma identidade brasileira vem sendo construída e não é um reflexo do real:

 

– a beleza da mulher brasileira, que é quase uma cafetinagem de nossos corpos e existências;

– o jeitinho brasileiro, que quando convém vira empreendedorismo e quando não sem-vergonhice;

– a excelência no futebol, que permite o endeusamento de qualquer moleque que chuta uma bola e sua crucificação, quando o time encontra um adversário à altura, ou melhor;

– a exuberância da nossa natureza, do nosso carnaval; das culinárias regionais;

– a palavra saudade, que não tem tradução.

 

Todo um conjunto de diferenciais exóticos que nos tornam “únicos”, mas, ao mesmo tempo, folclóricos e periféricos na ordem de importância mundial. É quase uma justificativa para compensar nossa suposta insignificância na ordem das coisas e mostrar um suposto valor, uma identidade que valide nossa existência.

 

A construção desse senso comum em volta de uma série de “nadas” é um primor de manipulação. Afinal, quais mulheres brasileiras são as consideradas belas? O jeitinho significa que o resto do planeta não tem jogo de cintura e nem “se vira”? Todo brasileiro é obrigado a gostar de carnaval e futebol? A construção de uma identidade em torno dessas bobagens está muito aquém dos projetos históricos de Nação formulados no século XX.

 

Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Celso Furtado. Duas gerações de pensadores brasileiros que propuseram modelos de leitura e análise da realidade brasileira, baseados na História e na Economia, à procura de uma identidade e de um projeto de Nação. Pensadores que ficariam estarrecidos com a banalização dessa identidade feita pela mídia.

 

E é neste ponto que eu chamo a atenção para a facilidade com que se pode criar um senso comum sobre qualquer coisa a partir de nada, basta a repetição reiterada e constante dos mesmos argumentos, mesmo que sem qualquer evidência que os corrobore. O poder midiático reside nisso e não é pouca coisa. Não é um poder a ser subestimado.

 

Estamos tendo a evidência concreta disso na última década, com a atuação da mídia como um poder paralelo e que subjuga a narrativa dos poderes políticos constitucionais. Não é à toa que Lula, após ganhar sua primeira eleição, correu para ser legitimado na maior rede televisiva do país, nem é pouco sintomático que políticos dos Legislativos e dos Executivos federais, estaduais e municipais, percam um tempo precioso promovendo suas imagens no meio midiático.

 

Por isso, não é de estranhar que o Judiciário tenha aderido a essas práticas. Para ter sua existência validada e seu trabalho reconhecido, é necessário aparecer na mídia. O como aparecer é que se tornou uma questão decisiva.

 

O desempenho histriônico dos ministros do Supremo na TV Justiça seria risível se estes não fossem os derradeiros guardiões do Direito Constitucional. As coletivas de imprensa ridículas do Ministério Público seriam motivo para anulação de processos, se elas não estivessem intrinsecamente ligadas a uma construção narrativa que visa interferir diretamente nos destinos políticos do país. A mídia encontrou em muitos quadros do Judiciário uma cumplicidade tácita, baseada no ego e na vaidade desses Juízes e Promotores que se consideram salvadores do Brasil.

 

Essa ligação profana, que se intensifica sempre que estamos às vésperas de períodos eleitorais, está produzindo réus sem evidência concreta de crime (apenas convicções), presunção de inocência apenas para os amigos, mesmo quando as provas contra estes se acumulam, e uma visão maniqueísta, primária e tosca do conceito de Justiça.

 

E está virando senso comum. Mesmo quando uma boa parte das pessoas não tenha a capacidade para perceber que isso está longe de ser bom senso ou mesmo senso crítico.

 

A depender da mídia brasileira, teremos em breve um clima de filme do Velho Oeste, com bandidos estereotipados e juízes enforcadores.  Quem duvida, tente convencer qualquer pessoa na rua de que saudade tem tradução em outras línguas sim, e veja o tamanho do estrago já causado.

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