“NÃO POSSUI O SENHOR, PORVENTURA, O MÍNIMO SENTIMENTO DE DECÊNCIA?”

22 set

Inicialmente, é meu dever avisar o leitor de que sou bastante ortodoxa em minha concepção de História. Não tenho a menor simpatia por domínios como “A História do Tempo Presente” ou “História Comparada (também chamada de Comparativa)”.  Fujo do pós-modernismo e tenho um sincero pavor dos anacronismos tão comuns entre os divulgadores, jornalistas e escritores da moda.

 

Sou marxista e ainda assim tenho uma postura bastante crítica em relação à perspectiva limitadora que alguns historiadores impõem ao marxismo. Cresci muito como estudante e como ser humano ao tomar contato com os marxistas ingleses: E. P. Thompson, Christopher Hill, Raymond Williams e Eric J. Hobsbawm. Além do próprio Karl Marx, são estes os autores que fundamentaram, em um primeiro momento, a minha matriz teórica.

 

Estamos em um momento político, aqui no Brasil, em que a mera constatação de pertencer a uma tradição historiográfica perfeitamente legítima e reconhecida em universidades do mundo inteiro pode ser transformada em crime, pelas mãos de um grupo de congressistas que tentam, a qualquer custo, aprovar projetos de censura na educação. Não é apenas o conjunto famigerado do “Escola sem Partido”, promovido por pastores, defensores da tortura e do arbítrio, além dos ultracatólicos, mas também existe um projeto que visa transformar o Comunismo em crime. Não se trata apenas de censura, mas de perseguição generalizada.

 

O grupo que se formou em torno da defesa desses projetos nada sabe e nem entende sobre os temas que pretende censurar. Não há um único desses congressistas e dos grupos organizados que os apoiam, que saiba sequer remotamente argumentar, com bases teóricas sólidas, o motivo de seu pavor em relação às matrizes teóricas que orientam o Marxismo, seja na Economia, na História ou na Filosofia. Tudo o que se vê é uma emaranhado desarrazoado de preconceitos, ignorância e má-fé generalizada.

 

A impossibilidade de manter um diálogo entre as partes dessa contenda é absolutamente estarrecedora. Não se trata apenas de que os congressistas e seus apoiadores já formaram uma convicção e se recusam a dialogar conosco. Trata-se principalmente de que nossos contendores (que detém o poder político nesta disputa) não tem a capacidade intelectual e nem o conhecimento pedagógico e acadêmico para entender o que estão perseguindo, o que impossibilita qualquer de nossos argumentos de defesa.

 

É como tentar argumentar com paredes que se fecham à nossa volta.

 

Através da internet pululam textos fazendo analogias entre este nosso aziago momento histórico e o Macarthismo. E devo dizer que, mesmo eu que detesto comparações anacrônicas, hoje (ao ver Guido Mantega ser arrancado do hospital onde sua esposa se submeteria a uma cirurgia para combater o câncer) amanheci com um mundo de referências paralelas sobre o tema. Não há como não ligar a ação dos novos “paladinos” contra a corrupção, seus congêneres que lutam contra a “doutrinação” e o fenômeno da “caça às bruxas” promovida pelo senador Joseph McCarthy no Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso dos Estados Unidos, no período de 1950 a 1957.

 

Logo cedo, corri à minha estante e folheei o segundo volume do excelente conjunto de ensaios organizado pelo Professor William E. Leuchtenburg, O Século Inacabado – A América desde 1900, lembrando-me das aulas de História dos Estados Unidos que tive com o sensacional Professor Michael Hall. E foi nessas páginas, no ensaio do próprio Leuchtenburg, intitulado Cultura de Consumo e Guerra Fria – A sociedade americana, 1945-1960, que encontrei a fala de Joseph Wells, advogado do exército, que enfrentou o senador quando este acusava ignobilmente um veterano condecorado da Segunda Guerra:

“Até este momento, Senador, penso que nunca tinha realmente avaliado até onde chega a sua crueldade ou o seu arrojo… Se estivesse em meu poder perdoá-lo por sua crueldade gratuita, eu o faria. Considero-me um homem generoso e moderado, mas o seu perdão terá que vir de alguém acima de mim. Não possui o senhor, porventura, o mínimo sentimento de decência?” (p.736).

 

Procurava essa fala porque é assim que me sinto hoje.

 

A “tropa de choque” do senador McCarthy era formada por Richard Nixon e Roy Marcus Cohn, entre outros. E, durante quase uma década, perseguiu e atormentou escritores, roteiristas, diretores, atores, técnicos de cinema, funcionários públicos, cientistas e, finalmente, quando se voltou contra o exército, acabou sendo dissolvida. Vidas e reputações foram arruinadas e há uma vasta produção cinematográfica, teatral e literária retratando esse período.

 

Dalton Trumbo (escritor e roteirista de cinema), Dashiel Hammett (escritor), Arthur Miller (dramaturgo), Arthur J. Oppenheimer (cientista) são alguns dos mais proeminentes que, em maior ou menor medida, tiveram suas vidas marcadas pelas perseguições macarthistas.  Prisão, exílio, ostracismo e hostilidade social correram paralelamente com a elaboração de “listas negras” de supostos comunistas, a quem o emprego, a moradia e a civilidade eram sistematicamente negados. Não tenho ideia se existe algum levantamento completo da extensão das injustiças e do impacto social que o uso continuado da mídia para demonizar os comunistas alcançou na sociedade estadunidense.

 

Entretanto, foi da própria mídia que partiu o combate às barbaridades perpetradas por McCarthy e a Comissão de Atividades Antiamericanas. O jornalista Edward Murrow enfrentou a covardia dos executivos de televisão e confrontou a sociedade com o delírio alucinatório implícito no anticomunismo praticado pelo senador e seus asseclas. E assim, junto àquele velho advogado tão digno, ajudou a enterrar um espantalho surgido na esteira da Guerra Fria e consumido por um público despolitizado e refém do pavor.

 

As analogias são tantas, que chega a ser assustador exatamente pelo anacronismo da nossa situação tupiniquim. O senso comum está juntando como causa e efeito a distorção absurdamente aristotélica de que todo petista é ladrão e que todo petista é comunista, logo todo comunista é ladrão. Ladrão e doutrinador de criancinhas.

 

A ação midiática da Operação Lava Jato e do tribunal de exceção que se estabeleceu em Curitiba, associada aos arautos do Escola sem Partido, promovem o anticlímax de uma “caça às bruxas” local. Diante de um público que vai da apatia ao ódio, sem meios termos, e que junta à despolitização um ódio visceral de classe, o circo está montado. E com a cumplicidade de uma série lastimável de “jornalistas” francamente indecentes.

 

Quem vai olhar nos olhos dessas bestas-feras e confrontá-las?

Se este delírio persecutório triunfar, quem nos redimirá?

Se nós professores não pudermos mais refletir criticamente sobre as Ciências em geral, como as gerações do futuro saberão o que nos aconteceu?

 

O ataque que sofremos é múltiplo: não é apenas a Democracia que foi pisoteada, a liberdade, a racionalidade e o futuro da Pedagogia no país estão em jogo. E estamos perdendo.

 

Pense nisso tudo da próxima vez que vibrar vendo alguém ser preso ou condenado sem provas. Lembre-se!!!

 

E se você não me acredita, segue aqui uma lista de livros e filmes que são imprescindíveis para a compreensão do Macarthismo. Se você assistir e não sentir o mínimo desconforto pensando em nossa sociedade atual, então já foi abduzido e eu só posso lamentar…

 

SUGESTÕES

Comecemos com o básico: você sabe por que a expressão “caça às bruxas” é associada ao Macarthimo?

Em 1953, em plena vigência das perseguições, o conhecido e aclamado dramaturgo Arthur Miller (A morte de um caixeiro viajante) escreveu uma peça chamada The crucible, que no Brasil recebeu a tradução de As bruxas de Salém, por recontar esse episódio bem conhecido da época colonial nos Estados Unidos. A peça de Miller, entretanto, era uma denúncia dos processos quase inquisitoriais e discricionários usados pelos congressistas, que se valia de um fato histórico muito anterior para traçar analogias e denunciar um fenômeno presente. Esse é um recurso narrativo ficcional relativamente comum e que acaba por sobrepor as duas narrativas aos olhos do leigo, lançando um olhar contemporâneo para a velha Salém e suas bruxas e situando o Macarthismo em uma perspectiva histórica de perseguição a quem pensa ou se comporta de maneira diferente do senso comum.

 

Mesmo só vindo a ser encenada em 1963, após o fim das listas negras, a peça era conhecida nos meios artísticos e foi aí que acabou sendo cunhado o termo “caça às bruxas” como sinônimo da paranoia anticomunista do Macarthismo. Além das várias montagens, a peça recebeu mais de uma adaptação para o cinema e, em 1996, o próprio Miller foi responsável pelo roteiro que deu origem ao conhecido filme dirigido por Nicholas Hytner, com Daniel Day-Lewis no papel principal.

 

Um dos efeitos das listas negras foi a recusa de trabalho aos escritores e roteiristas rotulados como comunistas, o que obrigou muitos deles a escrever sob os mais variados pseudônimos. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Dalton Trumbo, escritor e roteirista várias vezes indicado e ganhador do Oscar de melhor roteiro (tanto original quanto adaptado). Trumbo cumpriu pena por se recusar a delatar outros profissionais considerados comunistas e depois foi morar no México.

 

Se você se der ao trabalho de pesquisar seu nome, vai entender o impacto desse escritor para a História do Cinema ocidental. Existe um filme bem recente contando sua trajetória (Trumbo: Lista Negra, lançado em janeiro deste ano, dirigido por Jay Roach e estrelado por Bryan Cranston), bem como vários documentários, dos quais quero destacar o excelente e emocionante Trumbo, de 2007, dirigido por Peter Askin.

 

Outro roteirista e escritor perseguido e obrigado a se esconder sob pseudônimos para publicar foi Howard Fast, autor do livro Spartacus, que gerou o filme roteirizado por Trumbo.  No livro O compromisso (São Paulo, Editora Best Seller, 1988) Fast conta de maneira ficcional as desventuras de um escritor comunista naquela época. Vale a pena ler e também dar uma espiada no livro Spartacus e no filme de 1960, estrelado por Kirk Douglas, que foi um dos autores que mais se bateu pela reabilitação dos trabalhos tanto de Trumbo, quanto de Fast.

 

A defesa das liberdades estava presente sempre na obra desses autores.

 

Também recomendo o imperdível Boa Noite e Boa Sorte, de 2005, com direção de George Clooney, que narra o enfrentamento entre o jornalista Edward Murrow e o senador Joseph McCarthy e traz uma análise impecável sobre o papel da omissão da mídia ou seu franco apoio aos fenômenos de perseguição política.

 

Da mesma forma, existem dois trabalhos muito significativos sobre Roy Cohn:

– Cidadão Cohn, filme de 1992, dirigido por Frank Pierson e estrelado por James Woods;

– Angels in America, minissérie de 2003, dirigida por Mike Nichols e estrelada por Al Pacino.

 

Há muito mais para quem se interessa, mas isso basta para começar. E eu recomendo o livro do Professor Leuchtenburg, que já nomeei durante o texto. Quem sabe assim, conseguimos qualificar melhor o debate político e sair um pouco do terreno do ódio gratuito?

 

Afinal, se o comunismo vier a ser considerado crime, como as bancadas fundamentalistas tanto sonham, pessoas como eu serão apenas uma vaga lembrança em um mundinho limitado e odiento.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: