AS MÁRCIAS

6 out

Conheci Márcia no período de 1977-78 quando frequentávamos o ginasial no GEVA (E.E.P.G. Prof. José Romeiro Pereira) na Vila Arens, em Jundiaí. Até hoje não sei se ela tinha a mesma idade que a maioria de nós ou se era mais velha, o certo é que me parecia muito madura em alguns aspectos. Com treze anos, embora eu tivesse uma mente bem desenvolvida para analisar Literatura, História, Geografia e Política, era totalmente ignorante em termos de educação sexual e, embora menstruasse desde os onze, meu corpo não havia acordado para os hormônios e minha mente nem entendia sequer as mecânicas essenciais da vida.

 

Mas Márcia não era assim, era uma menina muito branca e loura com enormes olhos azuis, uma ossatura facial e um colorido geral que lembravam muito Marisa Berenson, uma modelo e atriz dos anos 70, há muito esquecida. Márcia bordava seu enxoval com o monograma com suas iniciais, desenvolvido por ela mesma, que hoje eu posso entender como um primor de estilização, mas que na época me parecia bobo. Ela não tinha namorado, mas tinha a certeza inabalável de que casaria com um homem  rico ou “bem de vida” e teria uma casa com piscina.

 

Pertencíamos a realidades absurdamente diferentes. Ela era a única menina temporã de um casal idoso, que vivia em uma casa própria e não parecia enfrentar problemas econômicos, seus irmãos mais velhos já eram casados e aquele conforto permitia que seus pais perpetuassem nela valores de uma educação de outros tempos. Eu vinha de um lar operário e era a mais velha de duas meninas em uma família assalariada que vivia com alguns sacrifícios; o casamento não era uma solução ou uma expectativa para mim, desde cedo já sabia que teria que trabalhar e “me virar” como meus pais.

 

Eu nunca entendi Márcia, mas gostava dela. Era uma menina tremendamente engraçada e tinha o maior repertório de piadas sujas que já vi, algumas que, inclusive, só fui entender depois dos trinta anos. Era corrosiva na análise dos adultos e muito prática na hora de lidar com dificuldades domésticas. Em resumo, madura demais para o ginasial e para nós.

 

A maior parte dos meus sonhos dizia respeito a “ser”, eu queria crescer para ter um trabalho interessante e bem remunerado, que me permitisse conhecer o mundo (a Escócia em particular, que era minha paixão), comprar todos os livros e discos que eu bem entendesse e poder comer chocolate e cerejas todos os dias da minha vida. Eu queria ser oceanógrafa  ou bióloga marinha ou pesquisadora de comportamento animal, o casamento jamais esteve sequer entre as minhas expectativas. Eu era “nerd” quando isso se chamava “cdf”.

 

Márcia acreditava que se ela tivesse conforto material e uma boa vida sexual (isso eu entendo hoje), o amor nem seria necessário ou viria naturalmente. Ela fora educada para pensar no lar como a maior realização de uma mulher e, mesmo não tendo qualquer afinidade com crianças, acreditava que, quando tivesse as suas, isso mudaria. Do mesmo modo, jamais passou pela sua cabeça questionar o modelo de “homem provedor – mulher dependente” do casamento tradicional.

 

O que para mim significaria sujeição e dependência, para ela era um sonho de liberdade e autonomia em relação ao seu lar de origem, tão claustrofóbico. A minha rebeldia era contra o mundo, a rebeldia de Márcia era contra o modelo de família com o qual sonhava, e ela nem percebia. Cada piada suja, cada comentário cruel em relação aos adultos mostrava que ela tinha uma “fome” por mais vida, mas que sonhava com a gaiola dourada mesmo assim.

 

Perdi Márcia de vista assim que terminamos o ginasial e nunca mais ouvi falar dela, não éramos propriamente amigas, mas colegas de contingência. Torço muito para que tenha realizado seus sonhos e tenha sido feliz, aliás, sempre torço pela maioria das pessoas que cruzam meus caminhos. Eu desisti da área de biologia assim que vi a primeira cobaia, durante o colegial; enveredei pelas Humanas como a maioria dos meus professores pensava que aconteceria e (pasmem) me casei por amor e atrelei meu destino a uma vidinha relativamente convencional, muito embora totalmente diferente do modelo tradicional.

 

Ao longo da vida encontrei muitas “márcias”, algumas foram minhas alunas, outras colegas da minha filha, outras ainda pululam os meios sociais que observo daqui de fora. Todas tão parecidas, semelhantes e deprimentemente previsíveis na aparência, mas intimamente, quem vai saber? São o resultado de um modelo de educação e mentalidade que se perpetua entre os setores médios e altos de nossa sociedade patriarcal.

 

Estão em uma armadilha dourada e nem sabem…

 

A “márcia” da vez se chama Marcela e foi alçada a uma posição de destaque como extensão da pessoa do marido. Quando fala em público, apenas reproduz a visão de classe e de gênero que se espera de alguém com seu histórico e seu passado. E, embora pareça um patético clichê sociológico, quem sabe o que se esconde por trás de sua aparência de submissão tão cuidadosamente construída?

 

As reações que Marcela suscita na sociedade, entretanto, mostram que o ranço machista e patriarcal não perdoa as mais variadas ideologias. Pessoas que se ofendiam com o tratamento misógino sofrido por nossa Presidenta Legitimamente Eleita e Constitucionalmente Empossada, hoje protagonizam um triste assédio igualmente grosseiro e machista contra a estereotipada primeira-dama.

 

Não aprendemos nada?

 

Existem, no atual governo, vários sujeitos dignos do mais profundo desprezo e, mesmo assim, até mesmo uma parte considerável de mulheres do espectro das esquerdas escolheu a “márcia” da vez para bode expiatório. Só falta a confecção de Judas ou bonequinhas de Vodu. Parece que escolheram o animal mais fraco da manada para encurralar e estraçalhar.

 

Sério que é assim que vamos combater os golpistas? Na ordem das coisas do governo golpista, Marcela não passa de um penduricalho decorativo, um símbolo do “lugar” da mulher na visão distorcida dessa alcateia de homens brancos, velhos e ricos, que tomou o país. Enquanto meus amigos malham essa “márcia”, o desmonte de nosso país corre célere no Congresso e nas negociatas escancaradas.

 

Não contem comigo. Meu inimigo não é essa prisioneira dourada da ideologia patriarcal. Meus inimigos são os que fizeram e fazem dela um instrumento de dominação.

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