Arquivo | novembro, 2016

MARX E FUKUYAMA: O QUE AINDA ESPERAR DA HISTÓRIA?

23 nov

Em 1989, quando eu cursava meu terceiro ano de graduação, o economista Francis Fukuyama publicou seu artigo bombástico sobre o Fim da História (talvez o único texto conhecido de uma carreira inteira voltada a ser um arauto insignificante do establishment) e provocou uma onda de desprezo e críticas entre os historiadores consagrados e entre nós, estudantes engajados nas “batalhas pela História”. Era um texto superficial, megalômano e ufanista, festejando o advento do neoliberalismo e a desestruturação do bloco autodenominado socialista, afirmando que uma era dourada estava surgindo e que a História, assim como concebida por Karl Marx, havia chegado ao fim.

 

Aparentemente, como se viu pelos textos publicados nos anos que se seguiram, em jornais e revistas estadunidenses, Fukuyama exultava intimamente com a vitória dos capitais especulativos em detrimento da maior parte da humanidade. Uma era de hegemonia econômica neoliberal regida pelo Consenso de Washington era o seu ideal hegeliano de equilíbrio.

 

Esse primeiro artigo provocou ironia e sarcasmo entre alguns marxistas, mas também bastante indiferença e hilaridade, afinal, o autor parecia não ter qualquer noção sobre as mais básicas teorias de História ou sobre os debates historiográficos do século XX. A própria noção de História de Fukuyama estava eivada daquela condescendência irritante tão comum entre economistas, que a tratam apenas como uma narrativa auxiliar que deve se curvar às estruturas econômicas. Era um artigo que, embora espetaculoso, tinha tudo para tornar-se apenas anedótico com o passar do tempo, e isso teria acontecido não fosse a defesa incondicional de seu autor, que passou as últimas três décadas reafirmando suas convicções e argumentos.

 

Até semana passada. A eleição do demagogo Donald Trump colocou Francis Fukuyama na constrangedora situação de ter que decretar o fim da era neoliberal e ressuscitar a História. Agora esse autor apregoa que estamos entrando em uma era de nacionalismos violentos dispostos a quebrar o “consenso” da Globalização.

 

Considerando o fato de que a História existe, enquanto forma por vezes até rudimentar (veja-se a grafia rupestre) de narrativa, desde a existência de consciência entre os seres humanos.  Como noção da temporalidade e da historicidade do homem desde o Eclesiastes bíblico e as narrativas de Heródoto e Tucídides. E como um corpo de conhecimento mais elaborado e  consolidado pela análise científica, há pelos menos cento e cinquenta anos. Não seria necessário afirmar que ela não precisa da validação de Francis Fukuyama para isso.

 

Mas vale a pena refletir sobre alguns pontos desta anedota bufa.

 

Karl Marx (o interlocutor ausente do artigo de Fukuyama) começou sua carreira universitária estudando Direito na Universidade de Bonn, mas transferiu-se para a Universidade de Berlim (fundada por Humboldt) onde passou a interessar-se por Filosofia, abandonando o curso original e abraçando a formação filosófica, chegando inclusive a defender uma tese de doutoramento nessa área. Foi com essa visão híbrida em Direito e Filosofia, que Marx passou a interrogar seu tempo e acabou enveredando pela Economia como princípio explicativo da trajetória humana. Atuando como jornalista político e com uma vasta erudição generalista, seu olhar parecia englobar cada aspecto da produção humana à procura de um sentido para a realidade.

 

Marx levou uma vida inteira de estudos para encontrar esse sentido. E sua teoria interpretativa da realidade tem impacto significativo no modo como vemos a História, a Economia, a Ciência Política e a Filosofia até hoje. Toda a produção intelectual do século XX dialoga com Marx ou acaba falando sozinha.

 

E o que é a teoria marxista?

 

Marx analisou a trajetória humana com um olhar multidisciplinar à procura de uma explicação que oferecesse sentido às diferentes etapas do processo histórico. Observou que sociedades que se organizavam politicamente de modo diverso, também apresentavam economias e sistemas de produção diferenciados. Passou a estudar esses sistemas, que chamou de modos de produção e percebeu que o que promovia a mudança de um modo para outro eram as revoluções tecnológicas. E que, uma vez estabelecido um novo modo produtivo, a estrutura política e a produção cultural também se alteravam, acompanhando o processo.

 

É um conceito elegante e sofisticado. E que ainda se sustenta. Se observarmos as mudanças promovidas pela tecnologia oriunda do Vale do Silício nas duas últimas décadas, e como essas novas tecnologias propiciaram a criação de novas sociabilidades, a alteração dos modelos produtivos e o impacto dessas mudanças na estrutura política e econômica, veremos que Marx permanece bastante atual.

 

A partir dessa percepção, O Capital, sua obra mais conhecida, procura analisar em profundidade a estrutura econômica organizada em torno da produção capitalista. Marx rastreou a acumulação de capitais que propiciou a Revolução Industrial até dois séculos antes, devassou a organização da produção fabril e do sistema econômico que produz o lucro a partir da exploração indiscriminada do trabalho. Demonstrou com cálculos matemáticos precisos até que ponto as disparidades entre salário, preço e lucro eram responsáveis pelas misérias cotidianas de seu tempo.

 

Marx era um homem de seu tempo e, tendo convivido com um sistema monárquico baseado em privilégios de castas, considerava a burguesia uma classe revolucionária. Acreditava que a superação do Feudalismo era um avanço imenso, mas que a burguesia, depois de mudar a face do mundo ocidental, de posse do poder econômico, estava produzindo novas formas de exploração e desigualdade tão nefandas quanto aquelas que precisou superar. E passou a identificar na classe trabalhadora os protagonistas da próxima revolução.

 

Há uma tendência no senso comum a não conhecer ou entender Marx, a não saber diferenciar suas obras naquilo que tem de econômico, político, filosófico e histórico. Um entendimento raso baseado em estereótipos ofensivos vem sendo promovido por mais de um século, impedindo que as pessoas leiam e entendam Marx nos aspectos mais básicos de sua obra. E isso acontece até mesmo nas universidades.

 

Principalmente em função da atuação política de Marx, que ao escrever junto a F. Engels o Manifesto Comunista, deu um passo além da carreira intelectual para tomar parte na História. Acreditando que a classe trabalhadora superaria a burguesia, assim como a burguesia superou a aristocracia, Marx cunhou o conceito de luta de classes. Isso implicava que, mesmo as sociedades estruturando-se em torno de modelos produtivos, a ação humana se desencadeava na disputa classista pela posse dos meios de produção.

 

Para Marx e Engels, e para várias gerações de marxistas que se lhes seguiram, as esperanças de um salto no modelo produtivo residiam na capacidade dos trabalhadores para tomar os meios de produção, quebrar o ciclo da exploração e transformar o modelo produtivo em uma forma mais justa. Chegando assim ao socialismo, a próxima etapa poderia ser o comunismo, em que o Estado não seria mais necessário.

 

Nada disso era considerado por Marx como um destino inexorável. Embora seus panfletos políticos fossem revestidos de uma linguagem bastante agressiva, seus textos teóricos eram bastante comedidos, cheios de relativizações e com uma consciência precisa dos limites da ação humana. Inclusive, em sua correspondência pessoal, ele externou várias vezes a crença de que os países maduros para uma revolução seriam Inglaterra e Alemanha, onde os trabalhadores desenvolviam culturas próprias e formas de consciência que ele considerava mais evoluídas que as de outras regiões do planeta.

 

Perguntado sobre a Rússia (e lembrem-se que Marx faleceu em 1883), que permanecia autocrática e praticamente feudal, ele expressou seu ceticismo sobre a capacidade da sociedade russa para chegar a estruturar um proletariado consciente, sendo uma sociedade essencialmente camponesa. Sobre uma eventual revolução nem se fale, uma vez que uma classe burguesa organizada em termos modernos era inexistente nesse país, como esperar o estabelecimento de bases para o surgimento de um proletariado atuante?

 

Entretanto, alguns ainda insistem em associar diretamente Marx à extinta União Soviética, como se esta fosse uma invenção sua e não uma decorrência da leitura própria de Lenin e Stalin sobre os textos marxistas. E nessa esteira de demonização da figura de Karl Marx, a mídia serve-se longamente de autores “capachildos” como Francis Fukuyama, capazes de festejar qualquer infâmia, contanto que o marxismo seja derrotado. A discussão teórica abalizada passa longe desses clichês elaborados para a fácil assimilação do público fora do meio acadêmico.

 

Mas por que a História não acaba?

 

Hegel (1770-1831) considerava que a História, enquanto processo promotor de mudanças, poderia terminar quando o ser humano encontrasse o equilíbrio definitivo. O que é uma proposição bastante relativa porque o “equilíbrio” seria determinado por quem? Pelos setores sociais dominantes ou pela totalidade dos seres humanos?

 

Se a noção de equilíbrio dependesse apenas dos detentores dos poderes historicamente estruturados, a mudança jamais seria possível, uma vez que a desigualdade que os mantém no poder está longe de ser “equilíbrio” fora de seus próprios pontos de vista. Se, por outro lado, a noção de que se chegou a uma sociedade equilibrada depender da percepção de todo e qualquer ser humano vivo, então certamente jamais se chegará a esse ponto.

 

Porque a mudança é inerente à incapacidade de alguns de nós para conformar-se com o destino e aceitar o discurso conservador, que tenta justificar os abismos sociais da desigualdade e da injustiça, a partir de pacotes ideológicos prontos e fechados.

 

A mudança pode estar em aspectos frugais como a invenção da panela de pressão para quem não tem tempo de passar seis horas cozinhando uma carne ou um ensopado. Pode estar também em ideias revolucionárias que geram tecnologias capazes de lançar o ser humano ao espaço ou de realizar cirurgias extremamente precisas em partes do corpo delicadas como o cérebro. E certamente está no universo ilimitado da imaginação, que alimenta as formas mais sublimes da Arte e as técnicas necessárias para concretizá-las.

 

A única maneira de deter a mudança não é alcançar o equilíbrio, é limitar as liberdades humanas de criação e pensamento. E mesmo assim, até com a aplicação e uso de poderosas drogas estupefacientes, ainda não há garantias de aprisionar os pensamentos de todos os seres humanos, talvez de uma maioria, mas nunca em sua totalidade. E enquanto houver pensamento, Arte e mudança, haverá necessidade de registro e haverá necessidade de reflexão sobre esse registro.

 

E essas são as três dimensões da História: o fato, seu registro e a análise desse registro que produz a narrativa historiográfica. Estamos muito longe de alcançar uma sociedade sequer minimamente equilibrada, e mesmo que a isso cheguemos, a mudança ainda persistirá. E a mudança não é sempre evolutiva em um sentido de melhoramento, devemos ter em mente a perspectiva de que retrocessos também podem ser considerados mudanças.

 

Passamos as últimas três décadas lutando em todas as frentes possíveis contra a onda neoliberal, que se abateu sobre o planeta e fabricou guerras e crises, que hoje nos presenteiam com o ressurgimento de ideologias supremacistas, ultranacionalistas e fundamentalistas. O que Fukuyama chama hoje de rompimento da ordem neoliberal, com a ascensão de demagogos como Trump e seus seguidores, configura um retrocesso como outros tantos que a humanidade já enfrentou. E historiadores não somos oráculos e não deveríamos fazer previsões futuristas.

 

A tímida e constrangida ressurreição da História por parte de Francis Fukuyama certamente será vista, pelos estudiosos de amanhã, como a admissão patética dos limites da capacidade humana para decretar o fim do imponderável. Porque o Fim da História pressupõe o fim da humanidade com consciência de sua temporalidade e de sua historicidade, e isso está longe de acontecer. Senão, observem as Linhas do Tempo do Facebook funcionando como registro autoconstruído de seus usuários.

 

Podem mudar as fontes, nosso entendimento sobre elas, os paradigmas teóricos e nossa compreensão filosófica, mas a História continua até o último ser humano colocar um ponto final em seu diário.

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A 32 ª BIENAL DE ARTE DE SÃO PAULO EM 2016

15 nov

Já aviso, de início, que este não é um texto de crítica especializada e sim um testemunho. Não tenho a formação adequada para fazer crítica de Arte, sequer sei se tenho formação para entender o que se convencionou chamar de arte com maiúsculas garrafais. Na época em que lecionava, sempre deixei bem claro aos alunos que minhas aulas eram de História Social dos Movimentos Artísticos, afinal, não tendo formação específica para entender os conceitos ligados à produção artística, eu somente me sentia confortável para abordar o contexto histórico e social do surgimento desses movimentos.

 

Frequento as Bienais de São Paulo há quase uma década, sempre que a situação econômica me permite o deslocamento. Tenho visto altos e baixos na curadoria e na produção artística também. Polêmica e controvérsia são as duas palavras que acompanham as exposições desde que me lembro. Houve ocasiões em que saí de lá pensando se o que tinha visto sequer permaneceria relevante na década seguinte.

 

Este ano consegui passar uma manhã inteira percorrendo a exposição e adoraria ter disponibilidade de tempo e orçamento para voltar a São Paulo e me aprofundar na observação de alguns artistas. Lamentavelmente, um conjunto de circunstâncias pessoais e monetárias impede meu retorno e terei que me contentar com o que vi. E não foi pouco.

 

Como as pessoas que começam a ler revistas ou jornais da última página para a primeira, nós (porque este foi um passeio em família) começamos a percorrer a mostra a partir do último andar e fomos descendo. Observando a disposição espacial da mostra, realizamos um périplo em espiral, visitando cada nicho e parando um pouco nos que nos pareceram mais atrativos. E é aí que cada um dos três teve sua experiência de interação e eu só posso opinar sobre minha própria percepção.

 

Em anos anteriores era mais difícil realizar esse tipo de percurso porque havia instalações espalhadas de maneira mais irregular (desculpem, eu tenho um pouco de T.O.C.) e o percurso era mais truncado do que fluído. Posteriormente, ao ler o catálogo, percebi que a disposição mais orgânica da atual exposição é proposital e fiquei muito feliz. Considero importante que se pense de uma maneira mais simples na circulação do público.

 

Para uma mostra cujo tema central foi Incerteza Viva, confesso que nunca visitei uma Bienal tão concreta quanto esta. E explico, ao ver o tema já fui preparada para encontrar uma porção de instalações sofríveis a respeito de nada, alguns trabalhos realmente bons e um ou outro excelente. E isso porque eu não me afino com o pós-modernismo e com uma boa parte da Arte Contemporânea. Por essas e outras é que eu nem me atrevo a criticar, porque esse tipo de expressão artística não me diz muito.

 

Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um conjunto de obras com destaque para artistas do Terceiro Mundo, organizadas de maneira impactante e solidamente constituídas de materiais que eu considero concretos porque provenientes da Terra e não da industrialização. Desenhos, bordados, tecelagens, cerâmicas, instrumentos de trabalho e uma politização saudável porque não óbvia nem superficial, e muito menos panfletária. Nada havia de incerto, ao contrário, e eu me senti muito mais amparada do que desafiada nessa mostra.

 

Os desenhos e gravuras de Gilvan Samico, com suas cosmogonias que misturam as mitologias latino-americanas (ligando as matrizes de origem africana, indígena e europeia), e um traço que lembra as ilustrações da arte nordestina, mas que também me remeteu a um mundo em que as pessoas chantageiam santos católicos para obter suas graças e acreditam em intervenções sobrenaturais de todos os tipos para poder enfrentar a vida.

 

Öyvind Fahlström, que me lembrou do traço anárquico do quadrinista espanhol Nazário (passei uma parte da década de 90 lendo El Víbora) e me emocionou com seus dominós e sua leitura sobre os últimos momentos do governo Allende.

 

Ebony G. Patterson com suas tapeçarias que misturam outras formas e técnicas, criando composições cheias de vida e de força, opondo a alegria e a tristeza que compõem o cotidiano da juventude negra na Jamaica.

 

Um painel profundamente impactante de Mmakgabo Helen Sebidi que mistura referências ao Holocausto, ao retratar a escravidão africana, me deixou intrigada ao apresentar em um plano quase central um ovo quebrado com o conteúdo vazando. Seria “o ovo da serpente” ou uma metáfora da esterilização, da interrupção do fluxo ordinário da vida?

 

Os enormes painéis de pedra esculpida de Erika Verzutti, chapados nas paredes como se fossem Portinari ou Rivera ou mesmo Velásquez, que dialogam com a profusão de instalações que remetem à terra, ao barro, aos instrumentos de trabalho, às chuvas ou sua ausência, à vida em si.

 

Os alguidares de Dalton Paula, que nos “oferecem” a narrativa dolorosa do colonialismo, com todas as suas consequências para as realidades desiguais que nossas sociedades latino-caribenhas vivem hoje.

 

Todos esses artistas, com suas leituras visceralmente concretas (e não uso esse termo para me referir ao movimento artístico e sim ao caráter palpável das obras) e ao mesmo tempo metafóricas da realidade, me deixaram pasma. E não é disso mesmo que a Arte trata?

 

Mas foi no nicho dedicado a Wilma Martins que eu realmente me emocionei (e teria chorado horrores, mas por medo de ser jogada na rede por algum adolescente munido de celular poderoso e nenhuma decência, me contive a duras penas). Todos aqueles desenhos e pinturas da série Cotidiano, retratando o mundo da domesticidade e a natureza selvagem, que eu li como uma metáfora do poder feminino “domesticado” são de tirar a respiração. Eu me vi ali e por um momento tive a impressão de que o meu “eu” estava desnudo naqueles desenhos.

 

Também a Oficina de Imaginação Política, de vários autores, simulando uma ocupa em um taller me deixou agradavelmente surpresa. Ali estava o papelão com os dizeres “HOUVE COPA – HOUVE GOLPE – HOUVERAM OLIMPÍADAS – HÁ CENSURA”, que até mesmo no grotesco erro de regência parece real e concreto ao retratar a realidade dos últimos três anos.

 

Há nesta 32ª Bienal de São Paulo muito mais esperança que incerteza. Porque a “sacada” genial da organização foi oferecer a simplicidade da nossa ligação com o que a vida mais tem de mais primitivo como contraponto à esmagadora realidade tecnológica, que nos sufoca e prepara nossa extinção.

 

Eu amei e recomendo a todos que tiverem a oportunidade de passar por São Paulo, que aproveitem. Nos tempos de evangelismo neoliberal que se avizinham, sabe lá quando teremos novamente uma exposição de tamanha qualidade e com entrada gratuita. Aos meus amigos da capital, por favor, não percam essa chance!

MEU PRIMO ADOLFO WASEM

9 nov

cholo

 

 

Tenho poucas, mas fortes lembranças do meu primo Adolfo Wasem. Para nós era conhecido como Cholo, para seus companheiros na guerrilha era Nepo. Para a ditadura uruguaia (1973-1985) foi um dos nove reféns. Para a mídia era um tupamaro. Para os órgãos de defesa dos Direitos Humanos, mais um nome em uma longa lista de baixas. Para as próximas gerações talvez uma nota de rodapé na vasta trama da História.

Para mim é a lembrança de um sorriso luminoso, que ficou impresso na foto do casamento dos meus pais. Um vislumbre de suas costas cheias de cicatrizes de queimaduras, durante um churrasco. Uma lembrança fugaz de seu casamento. E a última vez que o vi em uma feira de livros, acariciando feliz a barriga de sua companheira grávida.

O resto das minhas lembranças são sombras difusas porque eu era uma criança bem pequena quando todos esses fatos se deram. Lembro-me de visitar a casa da tia Nina, mas quem marcou essa lembrança foi seu irmão Raul, um tufo de cachos castanhos, sardas e grandes olhos, que eu nunca mais vi. Há também a visita que o Cholo nos fez, junto a um amigo, após voltar de sua viagem de “estudos”, que depois viríamos a descobrir que havia sido um treinamento de guerrilha fora do país. Dessa visita também só me lembro de sombras e o eco das risadas.

Em algum momento entre o fim dos anos 60 e o início dos 70 houve um churrasco de família, em Piedras Blancas na casa da tia Carmem, e é daí que vem a lembrança das horrendas cicatrizes de queimaduras que se estendiam por todas as suas costas e que eu fiquei olhando de longe, enquanto ele conversava com outras pessoas.

Todos sabiam que o tio Adolfo, seu pai, era um sujeito brutal e a história das queimaduras acontecera quando Cholo era uma criança de cinco ou seis anos (ao menos assim me contaram) e o pai o mandou pegar uma chaleira de água fervendo em cima do fogão. Sentado comodamente tomando seu mate, o velho Adolfo viu seu filho pequeno entornar sobre si a chaleira cheia, que era grande e desajeitada demais para uma criança carregar.

Nenhum de nós gostava do tio Adolfo. Era uma pessoa agressiva, ignorante e sem o mínimo de empatia com crianças. Era de uma geração que encarava a educação dos filhos como uma sucessão de castigos e maus tratos destinados a transformar meninos em homens. Não havia o menor resquício de gentileza ou carinho nele.

E, no entanto, aos meus olhos de criança, Cholo parecia gostar visivelmente do seu pai. Talvez visse nele algo que nós não conseguíamos ver. Quem vai saber?

A outra lembrança que me vem à mente é de um casamento no Registro Civil com um bando de moças vestidas em conjuntos de um cor-de-rosa puxado mais para o pink. Dos rapazes mal me lembro, mas Cholo e sua companheira Sonia eram tudo sorrisos. Do mesmo modo, quando me lembro da feira do livro (e não consigo precisar se era no hall da intendência ou da universidade) em que os encontramos cuidando de um stand, é dos seus sorrisos confiantes e da barriga de Sonia de que mais me lembro.

As lembranças seguintes são uma sucessão de borrões com notícias de jornal, desespero familiar e eu e minha irmã fazendo desenhos para mandar a ele na prisão. Depois a situação política foi ficando cada vez pior, à medida que a ditadura se instalava, comunicados na televisão e nas rádios todas as noites com listas e mais listas de prisões e nós sempre pensando quem seria o próximo conhecido a ser pego. Meu pai perdeu o emprego em 1973 e a economia estava em uma recessão medonha, o que nos trouxe ao Brasil no ano seguinte, na esteira do milagre econômico.

Nos primeiros dez anos após nossa chegada, as notícias eram escassas e todas ruins. A correspondência não era confiável e precisávamos esperar cartas trazidas por portadores, quando algum parente ou amigo vinha de visita anualmente. As notícias na mídia da época eram visivelmente censuradas. Aos poucos ficamos sabendo dos desaparecidos dos dois lados do Rio da Prata, das crianças sequestradas na Argentina, dos “suicidados” e “abatidos ao fugir” nas prisões brasileiras.

Um cortejo de horrores que assombrou meus pesadelos por anos e anos, enquanto eu crescia. E a cada distensão política, novos horrores eram revelados: torturas, execuções, a famigerada Operação Condor… A sensação de pertencer a um gueto clandestino, em um mundo em que as ideias políticas da minha família eram consideradas perigosas e deveriam ser eliminadas.

Em 1984, ficamos sabendo que Cholo lutava contra um câncer letal e que o tratamento na prisão era propositadamente precário. Ciente de sua condição, ele iniciou uma greve de fome reivindicando a liberação de todos os presos políticos da ditadura uruguaia. Aos meus olhos jovens de então, essa foi uma maneira heroica de dar sentido a uma morte tão tristemente anunciada.

E ele se foi.

E eu venho esquadrinhando o passado até hoje, para dimensionar a ferida aberta que sua morte deixou em nossa família. Trinta anos estudando História, dentro e fora da academia, pesquisando o século XIX para manter uma distância saudável dos traumas do século XX. E mesmo assim, acumulando informações sobre as ditaduras do cone sul nos anos 60-70-80, lendo relatórios, examinando documentos, acompanhando a historiografia brasileira e toda a asquerosa desinformação que vem sendo divulgada pela mídia nestes últimos anos, dando voz aos algozes e criminalizando as vítimas.

Diante da situação política atual e vendo a meninada ocupando escolas e apanhando da polícia, vendo a Ana Júlia peitar os deputados estaduais no Paraná, vendo a quantidade inaceitável de pobres de direita que nos rodeia, não consigo parar de pensar nos dois Adolfos. O Cholo, que morreu aos trinta e seis anos lutando pelo que acreditava, e seu pai brutalmente pragmático, que um dia lhe disse:

– Quando a situação apertar, quem vai entregar vocês são exatamente esses miseráveis que vocês tanto defendem e por quem estão lutando.

Ao lembrar o sorriso tão confiante e cheio de esperança do meu primo Cholo, tendo a pensar que ele sabia exatamente no que estava entrando, mas que não se importava de empenhar a própria vida diante da possibilidade de um futuro melhor.

Minha geração cresceu à sombra do desprendimento da sua, mas a maior parte dos meus colegas e amigos, no Brasil, foi alheada da realidade dessas lutas e cresceu no mundo paralelo construído pela televisão cúmplice dos ditadores. Em meu país de adoção, conheci e convivi com vários tipos de pessoas nestes tantos anos: pobres, remediados, classe média e alguns marginalizados de meios diversos. O denominador comum dominante até pouco tempo atrás era um pragmatismo absolutamente indiferente aos destinos da sociedade, desde que os destinos individuais se realizassem. Não eram de direita e nem de esquerda, eram por si apenas, como o tio Adolfo.

O que me traz à lembrança um catador de papel que certa vez vi ao sair da escola, que estampava em sua carroça a bandeira do Uruguai e a propaganda política de Jorge Pacheco Areco, o famigerado presidente colorado. Lá pelos idos de 1971, a população do meu país de origem vivia uma polarização política radical e era comum ver tomadas de partido como essa. Nunca entendi como alguém mergulhado na miséria poderia apoiar o governo que tudo lhe tirava, é uma imagem que me impressiona até hoje.

Alguns intelectuais consideram as polarizações burras. Eu não, eu as considero perigosas. Escolher um lado implica em negar a humanidade do outro. Para a esquerda significa querer “catequizar” os pobres de direita e promover sua “desalienação”. Para a direita significa eliminar fisicamente a esquerda de uma vez por todas.  A volta desses fantasmas nada de bom pressagia.

Cheguei a uma idade em que sou mais velha do que meu primo Cholo era ao partir. Uma vida é apenas isso, uma vida, nem mais nem menos. É o que fazemos dela que agiganta ou apequena nossos dias. Ao morrer tão jovem e ainda lutando, seu sorriso e sua esperança ficaram congelados no tempo. E eu ainda me sinto uma criança diante da sua memória.

UTOPIAS, DISTOPIAS, LIBERDADES E HISTORICIDADE

1 nov

Quando Thomas More publicou sua Utopia, na segunda década do século XVI, era costume que os pensadores latinizassem seus nomes, vem daí que alguns o conheçam como Thomas Morus. Este pensador rigoroso é o representante britânico mais conhecido do Humanismo Renascentista. Sua obra mantém um diálogo interessante com o interlocutor, mesmo quando sua temporalidade e historicidade são indiscutíveis.

Thomas More passou à História por ter sido um dos mentores intelectuais de Henrique VIII, o rei Tudor fundador do absolutismo na Inglaterra. Em seu reinado, a ordem social foi alterada de diversas maneiras. A relação fundiária, a religião, o poder real e a restrição aos nobres mais poderosos são os mais conhecidos.

Coincidentemente, More foi executado por decapitação ao recusar-se a assinar o Ato de Supremacia, que transformava o rei em líder máximo da igreja anglicana nascente. Sua teimosia em permanecer católico, muito embora acreditasse na necessidade de reformas dentro da igreja romana, foi encarada por Henrique como um ato de desafio, e o afeto que lhe dedicava transformou-se em ódio, selando o destino do pensador. More ficou conhecido como o homem que não vendeu sua alma, sendo assim retratado em peças de teatro e filmes até hoje.

Sua Utopia é um dos textos mais fascinantes desse período, em nada perdendo para Erasmo e Maquiavel. E, como qualquer texto de exercício de imaginação que cria sociedades alternativas e ideais, diz muito mais do autor e de sua época, do que de qualquer futuro ou terra distante. É um alerta muito bem calculado contra o capitalismo em seu nascedouro.

Logo no primeiro capítulo, antes da descrição da sociedade idealizada existente nas terras de Utopia, Rafael Hitlodeu conta a More os termos de um diálogo que travou em terras inglesas e se posiciona contrário à pena de morte para vagabundos e mendigos. Em uma longa argumentação sobre a inutilidade das leis de repressão à vadiagem, que eram um dos “melhoramentos” de Henrique, o palestrante alega que não se pode tomar os meios de subsistência de um homem e depois castigá-lo por não trabalhar. Critica as mudanças fundiárias que expulsaram os camponeses da terra e restringiram cada vez mais as terras comunais.

Efetivamente, em todos os pontos do reino onde se obtém a mais fina lã, portanto a mais preciosa, os senhores, os nobres e até santos abades, não se contentam com os rendimentos dos produtos que seus antepassados costumavam retirar de seus domínios. Não lhes é suficiente viver na preguiça e nos prazeres, esses homens que nunca foram úteis à Sociedade, querem-lhe ainda ser nocivos. Não deixam nenhuma parcela de terra para ser lavrada; toda ela transformou-s em pastagens. Derrubam casas, destroem aldeias, e, se poupam as igrejas é, provavelmente, porque servem de estábulo a seus carneiros. Essas excelentes pessoas transformam em deserto as habitações, e tudo que era cultivado; como se as florestas e as terras reservadas à caça já não prejudicassem bastante a agricultura.” (p.16)

Impossível não lembrar d’ A assim chamada acumulação primitiva, capítulo XXIV do tomo 2 do livro primeiro d’ O Capital de Karl Marx. Marx descreve minuciosamente as alterações na estrutura fundiária sob os vários monarcas Tudor, que permitiram a concentração de capital nas poucas mãos de uma classe bem específica e a expulsão dos camponeses dos modos tradicionais de exploração da terra, que inundaram as periferias urbanas de mão de obra miserável para a indústria nascente.

Mas a fala de Hitlodeu continua:

Assim, para que um insaciável devorador, peste e praga de seu próprio país, possa abarcar em um único campo milhares de braças, uma quantidade de pequenos agricultores se veem escorraçados de seus bens. Uns saem enganados, outros são expulsos à força; alguns, enfim, cansados de tantos vexames se veem forçados a vender o que possuem. Enfim, esses infelizes partem, homens e mulheres, casais, órfãos, viúvos, pais com os filhos nos braços. Essas famílias são mais numerosas que ricas, pois a terra reclama o trabalho de muitos braços. Todos emigram, largam seus lugares, os lugares onde viveram, e não sabem onde se refugiar. Toda sua bagagem, que pouco valeria se tivessem a possibilidade de esperar um comprador, é cedida a preço vil, dada a necessidade de dela se desfazerem. Logo os veremos errantes, privados de qualquer recurso. Só lhes resta roubar e serem enforcados, segundo as regras.

Se andam sem rumo, mendigando, metem-nos na prisão. Não são eles vagabundos, arrastando-se pelas estradas? Realmente, ninguém quer aceitar seus serviços, embora os ofereçam, pressurosamente. Como o único ganha-pão que conhecem é o amanho da terra, não há trabalho para eles, em campos que não foram semeados. Pois um só pastor é suficiente para cuidar dos rebanhos, numa terra que exigia muitos braços, no tempo em que era semeada e cultivada.” (p.16)

Hitlodeu (e More parece falar através dele) critica extensamente a nova relação do homem com a terra, na forma de latifúndio, e a ociosidade e o luxo consumista que essa nova estrutura social cria para benefício de poucos. Para mostrar que se pode viver de modo diferente, passa a narrar sua viagem pelas terras de Utopia, que considera como o modelo de uma sociedade ideal. Uma sociedade de homens “úteis” e ocupados, que não oferece espaço para a vagabundagem.

E nessa sociedade não existe luxo, propriedade privada e nem família. Tudo é coletivizado, inclusive a criação e educação das crianças. As “famílias” são agrupadas não pelo sangue, mas por uma divisão “racional” do trabalho. E ocupam suas casas por um período de tempo que não excede uma década, quando se mudam para casas ou vilarejos exatamente iguais, para que não criem amor, raízes e nem posses em relação às habitações.

Anciãos e administradores supervisionam o constante rodízio entre a vida camponesa e as funções intelectuais, a fim de não criar castas de pensadores ou burocratas. Não existe ócio nessa sociedade, embora as horas de trabalho sejam razoáveis, o lazer é o estudo e sempre é necessário manter-se ocupado sendo útil ao coletivo. Não há liberdade para ser diferente e muito menos para viver fora das normas, quem não se adapta é banido ou morto, conforme o grau de sua rebelião.

Soa familiar, não é?

Há ecos da Utopia de More em uma boa parte dos projetos de sociedades coletivistas (religiosas ou não) que se lhe seguiram, de Rousseau a Pol Pot, passando pelos socialistas utópicos do início do século XIX e o próprio Tolstoi. O igualitarismo que mata a liberdade, o utilitarismo que coíbe a diferença, o abandono da identidade para o bem-estar da coletividade. Nesse sentido, todas as utopias que conhecemos são herdeiras dessa primeira.

E é por isso que, quando colocadas em prática, se transformam em distopias.

Porque o que permitiu a nossa evolução enquanto espécie, tanto do ponto de vista material, quanto do ponto de vista intelectual, foi a liberdade para sermos diferentes uns dos outros. O que não deve ser confundido, de modo algum, com a defesa de quaisquer privilégios sociais de casta, de uns em detrimento dos outros.  Quando digo que temos direito a ser diferentes me refiro à nossa diversidade e não à nossa estrutura social excludente.

Qualquer sociedade que uniformize seus habitantes, através do trabalho, da religião ou do consumo, é uma sociedade morta. Uniformização não é igualdade. E igualdade sem liberdade é a prisão da mediocridade.

Nesse sentido, existem quatro romances célebres do século XX, que retratam perfeitamente as armadilhas da utopia e a facilidade que nós seres humanos temos para transformar qualquer sociedade em um uma distopia. Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, 1984 (1949) de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury e Laranja Mecânica (1962) de Anthony Burgess, são obras que transcendem a ficção e dialogam com a sociedade de seu tempo, com o futuro e com a própria condição humana.

Admirável mundo novo se passa em um futuro distante, sua cronologia e linguagem remetem o tempo todo à Segunda Revolução Industrial, promovida pela automação da linha de montagem de Henry Ford, na passagem do século XIX para o XX. Por ter sido escrito no período entre guerras, é uma crítica amarga à ascensão da sociedade de consumo e à padronização do trabalho. Essa sociedade futurista vive para produzir e consumir, o pensamento e as artes não são incentivados e os esportes só são permitidos se induzirem o cidadão a consumir equipamentos.

Mas isso não é tudo, a estratificação social nesse mundo distópico se dá por interferência biológica. Sexo e reprodução foram totalmente dissociados: o sexo passou a ser recreativo e a reprodução se dá em laboratório, através de técnicas sofisticadas de clonagem. A ideia de família é considerada uma obscenidade e o mantra repetido ad nauseam é “cada um pertence a todos”, promovendo um tipo de sexo livre de consequências (mas nem tanto, como a aparição do Selvagem irá provar) e a ideia implícita de que se pode consumir sexo como se consome qualquer outro produto, sendo que este é grátis.

É claro que esse é o mundo dos alfas, aqueles que estão no topo da hierarquia social. As outras castas foram manipuladas em laboratório para que seus corpos se desenvolvam de acordo com o tipo de trabalho que irão desempenhar nessa sociedade. Betas, gamas e outras tantas variedades tiveram seus embriões manipulados para ser mais baixos que os alfas, em variações que vão dos assim chamados “aleijões” aos medianos conformistas.

Apenas os alfas são indivíduos, as outras castas são o resultado da clonagem levada às últimas consequências e os administradores se gabam de alcançar até noventa indivíduos por óvulo fecundado na clonagem das castas inferiores. O que todos têm em comum, inclusive os alfas, além da fecundação in vitro e da manipulação genética, é o processo de programação social realizado nos berçários. Através de uma técnica de hipnose durante o sono, que utiliza gravações com aquilo que a sociedade espera de cada casta, os pensamentos e axiomas da dominação são incutidos a cada criança gerada e programada artificialmente.

E isto não é um spoiler, uma vez que o grosso da trama é um exercício narrativo acompanhando o que acontece quando uns poucos indivíduos nessa sociedade começam a pensar, questionar e deparar-se com fontes culturais e religiosas do passado. Admirável mundo novo é um grito em favor da liberdade e da individualidade, em uma Europa que anda a passos largos em direção ao autoritarismo e que se deixou consumir pelas noções do liberalismo econômico até o naufrágio das economias em 1929. É uma reivindicação de espaço para a poesia, para a arte, para a fraternidade, em um mundo em que Freud e Nietzsche mataram a maioria das ilusões.

1984 é uma crônica grotesca sobre o stalinismo. Inclusive, há uns quinze anos, o crítico Léo Gilson Ribeiro afirmava que Orwell não era seu verdadeiro autor e sim um obscuro escritor soviético. Jamais encontrei a confirmação dessa afirmação, quem sabe o que essa história guarda…

A vida de Winston (sua personagem principal) é suja, medíocre e monótona. A sociedade massificada em que vive é como uma gigantesca fábrica sempre engajada no esforço de uma guerra que não tem fim e que nem sequer se sabe se está ocorrendo mesmo. Seu trabalho é na divisão de informações e consiste em reescrever diariamente as fontes históricas, de acordo com os interesses de quem governa. Pessoas são apagadas de fotos, livros são reescritos ou eliminados, já nem se sabe mais o que a História significa.

Mas isso não é tudo, o sistema de vigilância onipresente nessa sociedade é chamado de Grande Irmão, ou Big Brother no original, e consiste em câmeras, escutas e um sistema integrado de interferência na vida dos cidadãos, onde quer que se encontrem. E basta balbuciar qualquer inconformismo durante o sono para que as forças da repressão política mandem o indivíduo para uma “reeducação”. Não há intimidade que resista à presença do Grande Irmão porque as pessoas jamais tem coragem de dizer o que pensam, ou vão perdendo a coragem de pensar.

Duas palavras criadas por Orwell (e os conceitos que as definem) chamam a atenção. Novilíngua que é a involução da linguagem nessa sociedade, com palavras suprimidas, outras com seu sentido alterado e uma constante simplificação da fala, através da condensação de conceitos, promovendo uma pobreza geral de pensamento. E duplipensar que significa aceitar duas crenças absolutamente contraditórias como se ambas pudessem ser aplicadas ao mesmo tempo. O duplipensar vai além da neutralidade ou da isenção (tão na moda hoje em dia), misturando hipocrisia e covardia.

Orwell assimila à sua visão do stalinismo aspectos que também estiveram presentes nos regimes nazifascistas europeus. A criação e manipulação de “tropas” infantis, usadas para espionar suas próprias famílias muito além da aparelhagem. A construção de uma identidade nacional a partir do ódio aos estrangeiros e o clima de constante sobressalto provocado pela guerra, como instrumento de controle social.

1984 mostra o indivíduo sendo esmagado pelo totalitarismo e a presença de uma centelha de revolta até mesmo no mais medíocre deles.

Farenheit 451 imagina uma sociedade em que a televisão é interativa e os livros estão proibidos. Os bombeiros queimam livros. A sociedade consome e trabalha e vive sem a possibilidade de arte, literatura ou poesia.

Montag, um bombeiro cuja carreira está em ascensão, resolve ler um dos livros que deveria queimar. E isso desencadeia todo um processo de autoconhecimento, contestação e mudança na percepção do mundo. Mas a vigilância nessa sociedade em que a leitura é proibida, logo identifica Montag como um problema e tenta sua eliminação.

Brilhantemente adaptado para o cinema, em 1966, por François Truffaut, filme e livro oferecem na fuga a única esperança. Defendem que uma sociedade não pode sobreviver criminalizando o conhecimento. E que o ser humano sempre preservará aquilo que dá sentido à sua vida, não importa o quanto de sacrifício pessoal isso lhe custe.

Lembro-me perfeitamente de ter assistido ao filme por volta dos meus quatorze anos e que não descansei até conseguir acesso ao livro. A cena final em que os homens-livros perambulam pelos bosques ainda me leva às lágrimas, tal o poder da mensagem implícita para nós que gostamos de livros.

Estas três obras dialogam com a percepção de que não importa o quão esmagador seja um sistema social, sempre vai haver um ser humano que se rebelará e ao fazê-lo encontrará outros que se lhe juntarão. E o problema dos regimes totalitários, autoritários, ou simplesmente de pensamento único, é que basta uma única voz discordante para colocar em xeque seus princípios e sua existência. Por isso é que a liberdade e a diversidade não podem ser toleradas.

Um caso de narrativa bem diferente é o de Laranja Mecânica. Anthony Burgess dialoga com a eterna questão da delinquência juvenil e os projetos mirabolantes que as instâncias do poder sempre criam como “soluções definitivas”. Discutindo se as táticas de “reprogramação social” com base em tortura e produtos químicos são moralmente aceitáveis para tratar criminosos que ainda nem chegaram à idade adulta e cuja personalidade ainda não está definitivamente formada, Burgess retrata a violência urbana das gangues e o abismo de gerações em uma Londres que nem parece tão no futuro.

Alex, o monstruoso protagonista de Laranja Mecânica tem apenas quinze anos e já cometeu alguns dos crimes mais hediondos do repertório humano. E, nesse sentido, não me canso de frisar que o livro é extremamente superior ao filme dirigido por Stanley Kubrick. Além das várias alterações na narrativa, que retiram o sentido do livro, o diretor ainda usou atores adultos e com isso abortou a principal discussão promovida por Burgess.

As questões que saltam do livro e se propõem a nós brasileiros, depois de todo o debate sobre a maioridade penal, são: até que ponto um adolescente infrator ou decididamente criminoso é uma prévia do adulto que se tornará? A ação das gangues e uma porcentagem de adolescentes que são absorvidos pela vida criminosa justificam a penalização de todos os outros? As técnicas de tortura e castração química se justificam moralmente? Afinal, como fica o livre arbítrio se um produto químico é que vai impedir o jovem de apresentar um comportamento violento?

Temos aqui explicitado novamente o problema da liberdade, da individualidade e da diversidade, perante uma sociedade que vê na uniformização, a segurança da mediocridade obediente.

Os romances distópicos dizem muito de quem somos, de quem podemos nos tornar em determinadas circunstâncias e de nossas relações com os poderes dominantes. Mas também dizem muito sobre a nossa capacidade para criar utopias que podem se transformar no inferno para os outros. Essa ideia, que nos é tão cara, de que temos a solução definitiva para os problemas da Humanidade.

Nesse sentido, eu defendo que as utopias devem ser um caminho de humanização e não um fim, em si mesmas.  O seu Paraíso pode se transformar facilmente em meu Inferno, e vice-versa, por isso devemos sempre ter em mente a alteridade, a diversidade e as liberdades individuais. Não podemos ceder à sedução do pensamento autoritário e nem considerar que nossa utopia deve ser imposta porque não temos paciência de viver construindo em longo prazo.

Acima de tudo, precisamos lutar com todas as nossas armas intelectuais para preservar os espaços da Arte, da Cultura, do Conhecimento e do Pensamento Livre. No dia em que estes sucumbirem, a nossa identidade humana será arrastada junto. O triunfo da mediocridade autoritária será a sentença de morte da nossa espécie.