UTOPIAS, DISTOPIAS, LIBERDADES E HISTORICIDADE

1 nov

Quando Thomas More publicou sua Utopia, na segunda década do século XVI, era costume que os pensadores latinizassem seus nomes, vem daí que alguns o conheçam como Thomas Morus. Este pensador rigoroso é o representante britânico mais conhecido do Humanismo Renascentista. Sua obra mantém um diálogo interessante com o interlocutor, mesmo quando sua temporalidade e historicidade são indiscutíveis.

Thomas More passou à História por ter sido um dos mentores intelectuais de Henrique VIII, o rei Tudor fundador do absolutismo na Inglaterra. Em seu reinado, a ordem social foi alterada de diversas maneiras. A relação fundiária, a religião, o poder real e a restrição aos nobres mais poderosos são os mais conhecidos.

Coincidentemente, More foi executado por decapitação ao recusar-se a assinar o Ato de Supremacia, que transformava o rei em líder máximo da igreja anglicana nascente. Sua teimosia em permanecer católico, muito embora acreditasse na necessidade de reformas dentro da igreja romana, foi encarada por Henrique como um ato de desafio, e o afeto que lhe dedicava transformou-se em ódio, selando o destino do pensador. More ficou conhecido como o homem que não vendeu sua alma, sendo assim retratado em peças de teatro e filmes até hoje.

Sua Utopia é um dos textos mais fascinantes desse período, em nada perdendo para Erasmo e Maquiavel. E, como qualquer texto de exercício de imaginação que cria sociedades alternativas e ideais, diz muito mais do autor e de sua época, do que de qualquer futuro ou terra distante. É um alerta muito bem calculado contra o capitalismo em seu nascedouro.

Logo no primeiro capítulo, antes da descrição da sociedade idealizada existente nas terras de Utopia, Rafael Hitlodeu conta a More os termos de um diálogo que travou em terras inglesas e se posiciona contrário à pena de morte para vagabundos e mendigos. Em uma longa argumentação sobre a inutilidade das leis de repressão à vadiagem, que eram um dos “melhoramentos” de Henrique, o palestrante alega que não se pode tomar os meios de subsistência de um homem e depois castigá-lo por não trabalhar. Critica as mudanças fundiárias que expulsaram os camponeses da terra e restringiram cada vez mais as terras comunais.

Efetivamente, em todos os pontos do reino onde se obtém a mais fina lã, portanto a mais preciosa, os senhores, os nobres e até santos abades, não se contentam com os rendimentos dos produtos que seus antepassados costumavam retirar de seus domínios. Não lhes é suficiente viver na preguiça e nos prazeres, esses homens que nunca foram úteis à Sociedade, querem-lhe ainda ser nocivos. Não deixam nenhuma parcela de terra para ser lavrada; toda ela transformou-s em pastagens. Derrubam casas, destroem aldeias, e, se poupam as igrejas é, provavelmente, porque servem de estábulo a seus carneiros. Essas excelentes pessoas transformam em deserto as habitações, e tudo que era cultivado; como se as florestas e as terras reservadas à caça já não prejudicassem bastante a agricultura.” (p.16)

Impossível não lembrar d’ A assim chamada acumulação primitiva, capítulo XXIV do tomo 2 do livro primeiro d’ O Capital de Karl Marx. Marx descreve minuciosamente as alterações na estrutura fundiária sob os vários monarcas Tudor, que permitiram a concentração de capital nas poucas mãos de uma classe bem específica e a expulsão dos camponeses dos modos tradicionais de exploração da terra, que inundaram as periferias urbanas de mão de obra miserável para a indústria nascente.

Mas a fala de Hitlodeu continua:

Assim, para que um insaciável devorador, peste e praga de seu próprio país, possa abarcar em um único campo milhares de braças, uma quantidade de pequenos agricultores se veem escorraçados de seus bens. Uns saem enganados, outros são expulsos à força; alguns, enfim, cansados de tantos vexames se veem forçados a vender o que possuem. Enfim, esses infelizes partem, homens e mulheres, casais, órfãos, viúvos, pais com os filhos nos braços. Essas famílias são mais numerosas que ricas, pois a terra reclama o trabalho de muitos braços. Todos emigram, largam seus lugares, os lugares onde viveram, e não sabem onde se refugiar. Toda sua bagagem, que pouco valeria se tivessem a possibilidade de esperar um comprador, é cedida a preço vil, dada a necessidade de dela se desfazerem. Logo os veremos errantes, privados de qualquer recurso. Só lhes resta roubar e serem enforcados, segundo as regras.

Se andam sem rumo, mendigando, metem-nos na prisão. Não são eles vagabundos, arrastando-se pelas estradas? Realmente, ninguém quer aceitar seus serviços, embora os ofereçam, pressurosamente. Como o único ganha-pão que conhecem é o amanho da terra, não há trabalho para eles, em campos que não foram semeados. Pois um só pastor é suficiente para cuidar dos rebanhos, numa terra que exigia muitos braços, no tempo em que era semeada e cultivada.” (p.16)

Hitlodeu (e More parece falar através dele) critica extensamente a nova relação do homem com a terra, na forma de latifúndio, e a ociosidade e o luxo consumista que essa nova estrutura social cria para benefício de poucos. Para mostrar que se pode viver de modo diferente, passa a narrar sua viagem pelas terras de Utopia, que considera como o modelo de uma sociedade ideal. Uma sociedade de homens “úteis” e ocupados, que não oferece espaço para a vagabundagem.

E nessa sociedade não existe luxo, propriedade privada e nem família. Tudo é coletivizado, inclusive a criação e educação das crianças. As “famílias” são agrupadas não pelo sangue, mas por uma divisão “racional” do trabalho. E ocupam suas casas por um período de tempo que não excede uma década, quando se mudam para casas ou vilarejos exatamente iguais, para que não criem amor, raízes e nem posses em relação às habitações.

Anciãos e administradores supervisionam o constante rodízio entre a vida camponesa e as funções intelectuais, a fim de não criar castas de pensadores ou burocratas. Não existe ócio nessa sociedade, embora as horas de trabalho sejam razoáveis, o lazer é o estudo e sempre é necessário manter-se ocupado sendo útil ao coletivo. Não há liberdade para ser diferente e muito menos para viver fora das normas, quem não se adapta é banido ou morto, conforme o grau de sua rebelião.

Soa familiar, não é?

Há ecos da Utopia de More em uma boa parte dos projetos de sociedades coletivistas (religiosas ou não) que se lhe seguiram, de Rousseau a Pol Pot, passando pelos socialistas utópicos do início do século XIX e o próprio Tolstoi. O igualitarismo que mata a liberdade, o utilitarismo que coíbe a diferença, o abandono da identidade para o bem-estar da coletividade. Nesse sentido, todas as utopias que conhecemos são herdeiras dessa primeira.

E é por isso que, quando colocadas em prática, se transformam em distopias.

Porque o que permitiu a nossa evolução enquanto espécie, tanto do ponto de vista material, quanto do ponto de vista intelectual, foi a liberdade para sermos diferentes uns dos outros. O que não deve ser confundido, de modo algum, com a defesa de quaisquer privilégios sociais de casta, de uns em detrimento dos outros.  Quando digo que temos direito a ser diferentes me refiro à nossa diversidade e não à nossa estrutura social excludente.

Qualquer sociedade que uniformize seus habitantes, através do trabalho, da religião ou do consumo, é uma sociedade morta. Uniformização não é igualdade. E igualdade sem liberdade é a prisão da mediocridade.

Nesse sentido, existem quatro romances célebres do século XX, que retratam perfeitamente as armadilhas da utopia e a facilidade que nós seres humanos temos para transformar qualquer sociedade em um uma distopia. Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, 1984 (1949) de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953) de Ray Bradbury e Laranja Mecânica (1962) de Anthony Burgess, são obras que transcendem a ficção e dialogam com a sociedade de seu tempo, com o futuro e com a própria condição humana.

Admirável mundo novo se passa em um futuro distante, sua cronologia e linguagem remetem o tempo todo à Segunda Revolução Industrial, promovida pela automação da linha de montagem de Henry Ford, na passagem do século XIX para o XX. Por ter sido escrito no período entre guerras, é uma crítica amarga à ascensão da sociedade de consumo e à padronização do trabalho. Essa sociedade futurista vive para produzir e consumir, o pensamento e as artes não são incentivados e os esportes só são permitidos se induzirem o cidadão a consumir equipamentos.

Mas isso não é tudo, a estratificação social nesse mundo distópico se dá por interferência biológica. Sexo e reprodução foram totalmente dissociados: o sexo passou a ser recreativo e a reprodução se dá em laboratório, através de técnicas sofisticadas de clonagem. A ideia de família é considerada uma obscenidade e o mantra repetido ad nauseam é “cada um pertence a todos”, promovendo um tipo de sexo livre de consequências (mas nem tanto, como a aparição do Selvagem irá provar) e a ideia implícita de que se pode consumir sexo como se consome qualquer outro produto, sendo que este é grátis.

É claro que esse é o mundo dos alfas, aqueles que estão no topo da hierarquia social. As outras castas foram manipuladas em laboratório para que seus corpos se desenvolvam de acordo com o tipo de trabalho que irão desempenhar nessa sociedade. Betas, gamas e outras tantas variedades tiveram seus embriões manipulados para ser mais baixos que os alfas, em variações que vão dos assim chamados “aleijões” aos medianos conformistas.

Apenas os alfas são indivíduos, as outras castas são o resultado da clonagem levada às últimas consequências e os administradores se gabam de alcançar até noventa indivíduos por óvulo fecundado na clonagem das castas inferiores. O que todos têm em comum, inclusive os alfas, além da fecundação in vitro e da manipulação genética, é o processo de programação social realizado nos berçários. Através de uma técnica de hipnose durante o sono, que utiliza gravações com aquilo que a sociedade espera de cada casta, os pensamentos e axiomas da dominação são incutidos a cada criança gerada e programada artificialmente.

E isto não é um spoiler, uma vez que o grosso da trama é um exercício narrativo acompanhando o que acontece quando uns poucos indivíduos nessa sociedade começam a pensar, questionar e deparar-se com fontes culturais e religiosas do passado. Admirável mundo novo é um grito em favor da liberdade e da individualidade, em uma Europa que anda a passos largos em direção ao autoritarismo e que se deixou consumir pelas noções do liberalismo econômico até o naufrágio das economias em 1929. É uma reivindicação de espaço para a poesia, para a arte, para a fraternidade, em um mundo em que Freud e Nietzsche mataram a maioria das ilusões.

1984 é uma crônica grotesca sobre o stalinismo. Inclusive, há uns quinze anos, o crítico Léo Gilson Ribeiro afirmava que Orwell não era seu verdadeiro autor e sim um obscuro escritor soviético. Jamais encontrei a confirmação dessa afirmação, quem sabe o que essa história guarda…

A vida de Winston (sua personagem principal) é suja, medíocre e monótona. A sociedade massificada em que vive é como uma gigantesca fábrica sempre engajada no esforço de uma guerra que não tem fim e que nem sequer se sabe se está ocorrendo mesmo. Seu trabalho é na divisão de informações e consiste em reescrever diariamente as fontes históricas, de acordo com os interesses de quem governa. Pessoas são apagadas de fotos, livros são reescritos ou eliminados, já nem se sabe mais o que a História significa.

Mas isso não é tudo, o sistema de vigilância onipresente nessa sociedade é chamado de Grande Irmão, ou Big Brother no original, e consiste em câmeras, escutas e um sistema integrado de interferência na vida dos cidadãos, onde quer que se encontrem. E basta balbuciar qualquer inconformismo durante o sono para que as forças da repressão política mandem o indivíduo para uma “reeducação”. Não há intimidade que resista à presença do Grande Irmão porque as pessoas jamais tem coragem de dizer o que pensam, ou vão perdendo a coragem de pensar.

Duas palavras criadas por Orwell (e os conceitos que as definem) chamam a atenção. Novilíngua que é a involução da linguagem nessa sociedade, com palavras suprimidas, outras com seu sentido alterado e uma constante simplificação da fala, através da condensação de conceitos, promovendo uma pobreza geral de pensamento. E duplipensar que significa aceitar duas crenças absolutamente contraditórias como se ambas pudessem ser aplicadas ao mesmo tempo. O duplipensar vai além da neutralidade ou da isenção (tão na moda hoje em dia), misturando hipocrisia e covardia.

Orwell assimila à sua visão do stalinismo aspectos que também estiveram presentes nos regimes nazifascistas europeus. A criação e manipulação de “tropas” infantis, usadas para espionar suas próprias famílias muito além da aparelhagem. A construção de uma identidade nacional a partir do ódio aos estrangeiros e o clima de constante sobressalto provocado pela guerra, como instrumento de controle social.

1984 mostra o indivíduo sendo esmagado pelo totalitarismo e a presença de uma centelha de revolta até mesmo no mais medíocre deles.

Farenheit 451 imagina uma sociedade em que a televisão é interativa e os livros estão proibidos. Os bombeiros queimam livros. A sociedade consome e trabalha e vive sem a possibilidade de arte, literatura ou poesia.

Montag, um bombeiro cuja carreira está em ascensão, resolve ler um dos livros que deveria queimar. E isso desencadeia todo um processo de autoconhecimento, contestação e mudança na percepção do mundo. Mas a vigilância nessa sociedade em que a leitura é proibida, logo identifica Montag como um problema e tenta sua eliminação.

Brilhantemente adaptado para o cinema, em 1966, por François Truffaut, filme e livro oferecem na fuga a única esperança. Defendem que uma sociedade não pode sobreviver criminalizando o conhecimento. E que o ser humano sempre preservará aquilo que dá sentido à sua vida, não importa o quanto de sacrifício pessoal isso lhe custe.

Lembro-me perfeitamente de ter assistido ao filme por volta dos meus quatorze anos e que não descansei até conseguir acesso ao livro. A cena final em que os homens-livros perambulam pelos bosques ainda me leva às lágrimas, tal o poder da mensagem implícita para nós que gostamos de livros.

Estas três obras dialogam com a percepção de que não importa o quão esmagador seja um sistema social, sempre vai haver um ser humano que se rebelará e ao fazê-lo encontrará outros que se lhe juntarão. E o problema dos regimes totalitários, autoritários, ou simplesmente de pensamento único, é que basta uma única voz discordante para colocar em xeque seus princípios e sua existência. Por isso é que a liberdade e a diversidade não podem ser toleradas.

Um caso de narrativa bem diferente é o de Laranja Mecânica. Anthony Burgess dialoga com a eterna questão da delinquência juvenil e os projetos mirabolantes que as instâncias do poder sempre criam como “soluções definitivas”. Discutindo se as táticas de “reprogramação social” com base em tortura e produtos químicos são moralmente aceitáveis para tratar criminosos que ainda nem chegaram à idade adulta e cuja personalidade ainda não está definitivamente formada, Burgess retrata a violência urbana das gangues e o abismo de gerações em uma Londres que nem parece tão no futuro.

Alex, o monstruoso protagonista de Laranja Mecânica tem apenas quinze anos e já cometeu alguns dos crimes mais hediondos do repertório humano. E, nesse sentido, não me canso de frisar que o livro é extremamente superior ao filme dirigido por Stanley Kubrick. Além das várias alterações na narrativa, que retiram o sentido do livro, o diretor ainda usou atores adultos e com isso abortou a principal discussão promovida por Burgess.

As questões que saltam do livro e se propõem a nós brasileiros, depois de todo o debate sobre a maioridade penal, são: até que ponto um adolescente infrator ou decididamente criminoso é uma prévia do adulto que se tornará? A ação das gangues e uma porcentagem de adolescentes que são absorvidos pela vida criminosa justificam a penalização de todos os outros? As técnicas de tortura e castração química se justificam moralmente? Afinal, como fica o livre arbítrio se um produto químico é que vai impedir o jovem de apresentar um comportamento violento?

Temos aqui explicitado novamente o problema da liberdade, da individualidade e da diversidade, perante uma sociedade que vê na uniformização, a segurança da mediocridade obediente.

Os romances distópicos dizem muito de quem somos, de quem podemos nos tornar em determinadas circunstâncias e de nossas relações com os poderes dominantes. Mas também dizem muito sobre a nossa capacidade para criar utopias que podem se transformar no inferno para os outros. Essa ideia, que nos é tão cara, de que temos a solução definitiva para os problemas da Humanidade.

Nesse sentido, eu defendo que as utopias devem ser um caminho de humanização e não um fim, em si mesmas.  O seu Paraíso pode se transformar facilmente em meu Inferno, e vice-versa, por isso devemos sempre ter em mente a alteridade, a diversidade e as liberdades individuais. Não podemos ceder à sedução do pensamento autoritário e nem considerar que nossa utopia deve ser imposta porque não temos paciência de viver construindo em longo prazo.

Acima de tudo, precisamos lutar com todas as nossas armas intelectuais para preservar os espaços da Arte, da Cultura, do Conhecimento e do Pensamento Livre. No dia em que estes sucumbirem, a nossa identidade humana será arrastada junto. O triunfo da mediocridade autoritária será a sentença de morte da nossa espécie.

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2 Respostas to “UTOPIAS, DISTOPIAS, LIBERDADES E HISTORICIDADE”

  1. Luiz Miguel dezembro 7, 2016 às 7:21 pm #

    ÓTIMO TEXTO PROFESSORA!

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