MEU PRIMO ADOLFO WASEM

9 nov

cholo

 

 

Tenho poucas, mas fortes lembranças do meu primo Adolfo Wasem. Para nós era conhecido como Cholo, para seus companheiros na guerrilha era Nepo. Para a ditadura uruguaia (1973-1985) foi um dos nove reféns. Para a mídia era um tupamaro. Para os órgãos de defesa dos Direitos Humanos, mais um nome em uma longa lista de baixas. Para as próximas gerações talvez uma nota de rodapé na vasta trama da História.

Para mim é a lembrança de um sorriso luminoso, que ficou impresso na foto do casamento dos meus pais. Um vislumbre de suas costas cheias de cicatrizes de queimaduras, durante um churrasco. Uma lembrança fugaz de seu casamento. E a última vez que o vi em uma feira de livros, acariciando feliz a barriga de sua companheira grávida.

O resto das minhas lembranças são sombras difusas porque eu era uma criança bem pequena quando todos esses fatos se deram. Lembro-me de visitar a casa da tia Nina, mas quem marcou essa lembrança foi seu irmão Raul, um tufo de cachos castanhos, sardas e grandes olhos, que eu nunca mais vi. Há também a visita que o Cholo nos fez, junto a um amigo, após voltar de sua viagem de “estudos”, que depois viríamos a descobrir que havia sido um treinamento de guerrilha fora do país. Dessa visita também só me lembro de sombras e o eco das risadas.

Em algum momento entre o fim dos anos 60 e o início dos 70 houve um churrasco de família, em Piedras Blancas na casa da tia Carmem, e é daí que vem a lembrança das horrendas cicatrizes de queimaduras que se estendiam por todas as suas costas e que eu fiquei olhando de longe, enquanto ele conversava com outras pessoas.

Todos sabiam que o tio Adolfo, seu pai, era um sujeito brutal e a história das queimaduras acontecera quando Cholo era uma criança de cinco ou seis anos (ao menos assim me contaram) e o pai o mandou pegar uma chaleira de água fervendo em cima do fogão. Sentado comodamente tomando seu mate, o velho Adolfo viu seu filho pequeno entornar sobre si a chaleira cheia, que era grande e desajeitada demais para uma criança carregar.

Nenhum de nós gostava do tio Adolfo. Era uma pessoa agressiva, ignorante e sem o mínimo de empatia com crianças. Era de uma geração que encarava a educação dos filhos como uma sucessão de castigos e maus tratos destinados a transformar meninos em homens. Não havia o menor resquício de gentileza ou carinho nele.

E, no entanto, aos meus olhos de criança, Cholo parecia gostar visivelmente do seu pai. Talvez visse nele algo que nós não conseguíamos ver. Quem vai saber?

A outra lembrança que me vem à mente é de um casamento no Registro Civil com um bando de moças vestidas em conjuntos de um cor-de-rosa puxado mais para o pink. Dos rapazes mal me lembro, mas Cholo e sua companheira Sonia eram tudo sorrisos. Do mesmo modo, quando me lembro da feira do livro (e não consigo precisar se era no hall da intendência ou da universidade) em que os encontramos cuidando de um stand, é dos seus sorrisos confiantes e da barriga de Sonia de que mais me lembro.

As lembranças seguintes são uma sucessão de borrões com notícias de jornal, desespero familiar e eu e minha irmã fazendo desenhos para mandar a ele na prisão. Depois a situação política foi ficando cada vez pior, à medida que a ditadura se instalava, comunicados na televisão e nas rádios todas as noites com listas e mais listas de prisões e nós sempre pensando quem seria o próximo conhecido a ser pego. Meu pai perdeu o emprego em 1973 e a economia estava em uma recessão medonha, o que nos trouxe ao Brasil no ano seguinte, na esteira do milagre econômico.

Nos primeiros dez anos após nossa chegada, as notícias eram escassas e todas ruins. A correspondência não era confiável e precisávamos esperar cartas trazidas por portadores, quando algum parente ou amigo vinha de visita anualmente. As notícias na mídia da época eram visivelmente censuradas. Aos poucos ficamos sabendo dos desaparecidos dos dois lados do Rio da Prata, das crianças sequestradas na Argentina, dos “suicidados” e “abatidos ao fugir” nas prisões brasileiras.

Um cortejo de horrores que assombrou meus pesadelos por anos e anos, enquanto eu crescia. E a cada distensão política, novos horrores eram revelados: torturas, execuções, a famigerada Operação Condor… A sensação de pertencer a um gueto clandestino, em um mundo em que as ideias políticas da minha família eram consideradas perigosas e deveriam ser eliminadas.

Em 1984, ficamos sabendo que Cholo lutava contra um câncer letal e que o tratamento na prisão era propositadamente precário. Ciente de sua condição, ele iniciou uma greve de fome reivindicando a liberação de todos os presos políticos da ditadura uruguaia. Aos meus olhos jovens de então, essa foi uma maneira heroica de dar sentido a uma morte tão tristemente anunciada.

E ele se foi.

E eu venho esquadrinhando o passado até hoje, para dimensionar a ferida aberta que sua morte deixou em nossa família. Trinta anos estudando História, dentro e fora da academia, pesquisando o século XIX para manter uma distância saudável dos traumas do século XX. E mesmo assim, acumulando informações sobre as ditaduras do cone sul nos anos 60-70-80, lendo relatórios, examinando documentos, acompanhando a historiografia brasileira e toda a asquerosa desinformação que vem sendo divulgada pela mídia nestes últimos anos, dando voz aos algozes e criminalizando as vítimas.

Diante da situação política atual e vendo a meninada ocupando escolas e apanhando da polícia, vendo a Ana Júlia peitar os deputados estaduais no Paraná, vendo a quantidade inaceitável de pobres de direita que nos rodeia, não consigo parar de pensar nos dois Adolfos. O Cholo, que morreu aos trinta e seis anos lutando pelo que acreditava, e seu pai brutalmente pragmático, que um dia lhe disse:

– Quando a situação apertar, quem vai entregar vocês são exatamente esses miseráveis que vocês tanto defendem e por quem estão lutando.

Ao lembrar o sorriso tão confiante e cheio de esperança do meu primo Cholo, tendo a pensar que ele sabia exatamente no que estava entrando, mas que não se importava de empenhar a própria vida diante da possibilidade de um futuro melhor.

Minha geração cresceu à sombra do desprendimento da sua, mas a maior parte dos meus colegas e amigos, no Brasil, foi alheada da realidade dessas lutas e cresceu no mundo paralelo construído pela televisão cúmplice dos ditadores. Em meu país de adoção, conheci e convivi com vários tipos de pessoas nestes tantos anos: pobres, remediados, classe média e alguns marginalizados de meios diversos. O denominador comum dominante até pouco tempo atrás era um pragmatismo absolutamente indiferente aos destinos da sociedade, desde que os destinos individuais se realizassem. Não eram de direita e nem de esquerda, eram por si apenas, como o tio Adolfo.

O que me traz à lembrança um catador de papel que certa vez vi ao sair da escola, que estampava em sua carroça a bandeira do Uruguai e a propaganda política de Jorge Pacheco Areco, o famigerado presidente colorado. Lá pelos idos de 1971, a população do meu país de origem vivia uma polarização política radical e era comum ver tomadas de partido como essa. Nunca entendi como alguém mergulhado na miséria poderia apoiar o governo que tudo lhe tirava, é uma imagem que me impressiona até hoje.

Alguns intelectuais consideram as polarizações burras. Eu não, eu as considero perigosas. Escolher um lado implica em negar a humanidade do outro. Para a esquerda significa querer “catequizar” os pobres de direita e promover sua “desalienação”. Para a direita significa eliminar fisicamente a esquerda de uma vez por todas.  A volta desses fantasmas nada de bom pressagia.

Cheguei a uma idade em que sou mais velha do que meu primo Cholo era ao partir. Uma vida é apenas isso, uma vida, nem mais nem menos. É o que fazemos dela que agiganta ou apequena nossos dias. Ao morrer tão jovem e ainda lutando, seu sorriso e sua esperança ficaram congelados no tempo. E eu ainda me sinto uma criança diante da sua memória.

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