A 32 ª BIENAL DE ARTE DE SÃO PAULO EM 2016

15 nov

Já aviso, de início, que este não é um texto de crítica especializada e sim um testemunho. Não tenho a formação adequada para fazer crítica de Arte, sequer sei se tenho formação para entender o que se convencionou chamar de arte com maiúsculas garrafais. Na época em que lecionava, sempre deixei bem claro aos alunos que minhas aulas eram de História Social dos Movimentos Artísticos, afinal, não tendo formação específica para entender os conceitos ligados à produção artística, eu somente me sentia confortável para abordar o contexto histórico e social do surgimento desses movimentos.

 

Frequento as Bienais de São Paulo há quase uma década, sempre que a situação econômica me permite o deslocamento. Tenho visto altos e baixos na curadoria e na produção artística também. Polêmica e controvérsia são as duas palavras que acompanham as exposições desde que me lembro. Houve ocasiões em que saí de lá pensando se o que tinha visto sequer permaneceria relevante na década seguinte.

 

Este ano consegui passar uma manhã inteira percorrendo a exposição e adoraria ter disponibilidade de tempo e orçamento para voltar a São Paulo e me aprofundar na observação de alguns artistas. Lamentavelmente, um conjunto de circunstâncias pessoais e monetárias impede meu retorno e terei que me contentar com o que vi. E não foi pouco.

 

Como as pessoas que começam a ler revistas ou jornais da última página para a primeira, nós (porque este foi um passeio em família) começamos a percorrer a mostra a partir do último andar e fomos descendo. Observando a disposição espacial da mostra, realizamos um périplo em espiral, visitando cada nicho e parando um pouco nos que nos pareceram mais atrativos. E é aí que cada um dos três teve sua experiência de interação e eu só posso opinar sobre minha própria percepção.

 

Em anos anteriores era mais difícil realizar esse tipo de percurso porque havia instalações espalhadas de maneira mais irregular (desculpem, eu tenho um pouco de T.O.C.) e o percurso era mais truncado do que fluído. Posteriormente, ao ler o catálogo, percebi que a disposição mais orgânica da atual exposição é proposital e fiquei muito feliz. Considero importante que se pense de uma maneira mais simples na circulação do público.

 

Para uma mostra cujo tema central foi Incerteza Viva, confesso que nunca visitei uma Bienal tão concreta quanto esta. E explico, ao ver o tema já fui preparada para encontrar uma porção de instalações sofríveis a respeito de nada, alguns trabalhos realmente bons e um ou outro excelente. E isso porque eu não me afino com o pós-modernismo e com uma boa parte da Arte Contemporânea. Por essas e outras é que eu nem me atrevo a criticar, porque esse tipo de expressão artística não me diz muito.

 

Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com um conjunto de obras com destaque para artistas do Terceiro Mundo, organizadas de maneira impactante e solidamente constituídas de materiais que eu considero concretos porque provenientes da Terra e não da industrialização. Desenhos, bordados, tecelagens, cerâmicas, instrumentos de trabalho e uma politização saudável porque não óbvia nem superficial, e muito menos panfletária. Nada havia de incerto, ao contrário, e eu me senti muito mais amparada do que desafiada nessa mostra.

 

Os desenhos e gravuras de Gilvan Samico, com suas cosmogonias que misturam as mitologias latino-americanas (ligando as matrizes de origem africana, indígena e europeia), e um traço que lembra as ilustrações da arte nordestina, mas que também me remeteu a um mundo em que as pessoas chantageiam santos católicos para obter suas graças e acreditam em intervenções sobrenaturais de todos os tipos para poder enfrentar a vida.

 

Öyvind Fahlström, que me lembrou do traço anárquico do quadrinista espanhol Nazário (passei uma parte da década de 90 lendo El Víbora) e me emocionou com seus dominós e sua leitura sobre os últimos momentos do governo Allende.

 

Ebony G. Patterson com suas tapeçarias que misturam outras formas e técnicas, criando composições cheias de vida e de força, opondo a alegria e a tristeza que compõem o cotidiano da juventude negra na Jamaica.

 

Um painel profundamente impactante de Mmakgabo Helen Sebidi que mistura referências ao Holocausto, ao retratar a escravidão africana, me deixou intrigada ao apresentar em um plano quase central um ovo quebrado com o conteúdo vazando. Seria “o ovo da serpente” ou uma metáfora da esterilização, da interrupção do fluxo ordinário da vida?

 

Os enormes painéis de pedra esculpida de Erika Verzutti, chapados nas paredes como se fossem Portinari ou Rivera ou mesmo Velásquez, que dialogam com a profusão de instalações que remetem à terra, ao barro, aos instrumentos de trabalho, às chuvas ou sua ausência, à vida em si.

 

Os alguidares de Dalton Paula, que nos “oferecem” a narrativa dolorosa do colonialismo, com todas as suas consequências para as realidades desiguais que nossas sociedades latino-caribenhas vivem hoje.

 

Todos esses artistas, com suas leituras visceralmente concretas (e não uso esse termo para me referir ao movimento artístico e sim ao caráter palpável das obras) e ao mesmo tempo metafóricas da realidade, me deixaram pasma. E não é disso mesmo que a Arte trata?

 

Mas foi no nicho dedicado a Wilma Martins que eu realmente me emocionei (e teria chorado horrores, mas por medo de ser jogada na rede por algum adolescente munido de celular poderoso e nenhuma decência, me contive a duras penas). Todos aqueles desenhos e pinturas da série Cotidiano, retratando o mundo da domesticidade e a natureza selvagem, que eu li como uma metáfora do poder feminino “domesticado” são de tirar a respiração. Eu me vi ali e por um momento tive a impressão de que o meu “eu” estava desnudo naqueles desenhos.

 

Também a Oficina de Imaginação Política, de vários autores, simulando uma ocupa em um taller me deixou agradavelmente surpresa. Ali estava o papelão com os dizeres “HOUVE COPA – HOUVE GOLPE – HOUVERAM OLIMPÍADAS – HÁ CENSURA”, que até mesmo no grotesco erro de regência parece real e concreto ao retratar a realidade dos últimos três anos.

 

Há nesta 32ª Bienal de São Paulo muito mais esperança que incerteza. Porque a “sacada” genial da organização foi oferecer a simplicidade da nossa ligação com o que a vida mais tem de mais primitivo como contraponto à esmagadora realidade tecnológica, que nos sufoca e prepara nossa extinção.

 

Eu amei e recomendo a todos que tiverem a oportunidade de passar por São Paulo, que aproveitem. Nos tempos de evangelismo neoliberal que se avizinham, sabe lá quando teremos novamente uma exposição de tamanha qualidade e com entrada gratuita. Aos meus amigos da capital, por favor, não percam essa chance!

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