MARX E FUKUYAMA: O QUE AINDA ESPERAR DA HISTÓRIA?

23 nov

Em 1989, quando eu cursava meu terceiro ano de graduação, o economista Francis Fukuyama publicou seu artigo bombástico sobre o Fim da História (talvez o único texto conhecido de uma carreira inteira voltada a ser um arauto insignificante do establishment) e provocou uma onda de desprezo e críticas entre os historiadores consagrados e entre nós, estudantes engajados nas “batalhas pela História”. Era um texto superficial, megalômano e ufanista, festejando o advento do neoliberalismo e a desestruturação do bloco autodenominado socialista, afirmando que uma era dourada estava surgindo e que a História, assim como concebida por Karl Marx, havia chegado ao fim.

 

Aparentemente, como se viu pelos textos publicados nos anos que se seguiram, em jornais e revistas estadunidenses, Fukuyama exultava intimamente com a vitória dos capitais especulativos em detrimento da maior parte da humanidade. Uma era de hegemonia econômica neoliberal regida pelo Consenso de Washington era o seu ideal hegeliano de equilíbrio.

 

Esse primeiro artigo provocou ironia e sarcasmo entre alguns marxistas, mas também bastante indiferença e hilaridade, afinal, o autor parecia não ter qualquer noção sobre as mais básicas teorias de História ou sobre os debates historiográficos do século XX. A própria noção de História de Fukuyama estava eivada daquela condescendência irritante tão comum entre economistas, que a tratam apenas como uma narrativa auxiliar que deve se curvar às estruturas econômicas. Era um artigo que, embora espetaculoso, tinha tudo para tornar-se apenas anedótico com o passar do tempo, e isso teria acontecido não fosse a defesa incondicional de seu autor, que passou as últimas três décadas reafirmando suas convicções e argumentos.

 

Até semana passada. A eleição do demagogo Donald Trump colocou Francis Fukuyama na constrangedora situação de ter que decretar o fim da era neoliberal e ressuscitar a História. Agora esse autor apregoa que estamos entrando em uma era de nacionalismos violentos dispostos a quebrar o “consenso” da Globalização.

 

Considerando o fato de que a História existe, enquanto forma por vezes até rudimentar (veja-se a grafia rupestre) de narrativa, desde a existência de consciência entre os seres humanos.  Como noção da temporalidade e da historicidade do homem desde o Eclesiastes bíblico e as narrativas de Heródoto e Tucídides. E como um corpo de conhecimento mais elaborado e  consolidado pela análise científica, há pelos menos cento e cinquenta anos. Não seria necessário afirmar que ela não precisa da validação de Francis Fukuyama para isso.

 

Mas vale a pena refletir sobre alguns pontos desta anedota bufa.

 

Karl Marx (o interlocutor ausente do artigo de Fukuyama) começou sua carreira universitária estudando Direito na Universidade de Bonn, mas transferiu-se para a Universidade de Berlim (fundada por Humboldt) onde passou a interessar-se por Filosofia, abandonando o curso original e abraçando a formação filosófica, chegando inclusive a defender uma tese de doutoramento nessa área. Foi com essa visão híbrida em Direito e Filosofia, que Marx passou a interrogar seu tempo e acabou enveredando pela Economia como princípio explicativo da trajetória humana. Atuando como jornalista político e com uma vasta erudição generalista, seu olhar parecia englobar cada aspecto da produção humana à procura de um sentido para a realidade.

 

Marx levou uma vida inteira de estudos para encontrar esse sentido. E sua teoria interpretativa da realidade tem impacto significativo no modo como vemos a História, a Economia, a Ciência Política e a Filosofia até hoje. Toda a produção intelectual do século XX dialoga com Marx ou acaba falando sozinha.

 

E o que é a teoria marxista?

 

Marx analisou a trajetória humana com um olhar multidisciplinar à procura de uma explicação que oferecesse sentido às diferentes etapas do processo histórico. Observou que sociedades que se organizavam politicamente de modo diverso, também apresentavam economias e sistemas de produção diferenciados. Passou a estudar esses sistemas, que chamou de modos de produção e percebeu que o que promovia a mudança de um modo para outro eram as revoluções tecnológicas. E que, uma vez estabelecido um novo modo produtivo, a estrutura política e a produção cultural também se alteravam, acompanhando o processo.

 

É um conceito elegante e sofisticado. E que ainda se sustenta. Se observarmos as mudanças promovidas pela tecnologia oriunda do Vale do Silício nas duas últimas décadas, e como essas novas tecnologias propiciaram a criação de novas sociabilidades, a alteração dos modelos produtivos e o impacto dessas mudanças na estrutura política e econômica, veremos que Marx permanece bastante atual.

 

A partir dessa percepção, O Capital, sua obra mais conhecida, procura analisar em profundidade a estrutura econômica organizada em torno da produção capitalista. Marx rastreou a acumulação de capitais que propiciou a Revolução Industrial até dois séculos antes, devassou a organização da produção fabril e do sistema econômico que produz o lucro a partir da exploração indiscriminada do trabalho. Demonstrou com cálculos matemáticos precisos até que ponto as disparidades entre salário, preço e lucro eram responsáveis pelas misérias cotidianas de seu tempo.

 

Marx era um homem de seu tempo e, tendo convivido com um sistema monárquico baseado em privilégios de castas, considerava a burguesia uma classe revolucionária. Acreditava que a superação do Feudalismo era um avanço imenso, mas que a burguesia, depois de mudar a face do mundo ocidental, de posse do poder econômico, estava produzindo novas formas de exploração e desigualdade tão nefandas quanto aquelas que precisou superar. E passou a identificar na classe trabalhadora os protagonistas da próxima revolução.

 

Há uma tendência no senso comum a não conhecer ou entender Marx, a não saber diferenciar suas obras naquilo que tem de econômico, político, filosófico e histórico. Um entendimento raso baseado em estereótipos ofensivos vem sendo promovido por mais de um século, impedindo que as pessoas leiam e entendam Marx nos aspectos mais básicos de sua obra. E isso acontece até mesmo nas universidades.

 

Principalmente em função da atuação política de Marx, que ao escrever junto a F. Engels o Manifesto Comunista, deu um passo além da carreira intelectual para tomar parte na História. Acreditando que a classe trabalhadora superaria a burguesia, assim como a burguesia superou a aristocracia, Marx cunhou o conceito de luta de classes. Isso implicava que, mesmo as sociedades estruturando-se em torno de modelos produtivos, a ação humana se desencadeava na disputa classista pela posse dos meios de produção.

 

Para Marx e Engels, e para várias gerações de marxistas que se lhes seguiram, as esperanças de um salto no modelo produtivo residiam na capacidade dos trabalhadores para tomar os meios de produção, quebrar o ciclo da exploração e transformar o modelo produtivo em uma forma mais justa. Chegando assim ao socialismo, a próxima etapa poderia ser o comunismo, em que o Estado não seria mais necessário.

 

Nada disso era considerado por Marx como um destino inexorável. Embora seus panfletos políticos fossem revestidos de uma linguagem bastante agressiva, seus textos teóricos eram bastante comedidos, cheios de relativizações e com uma consciência precisa dos limites da ação humana. Inclusive, em sua correspondência pessoal, ele externou várias vezes a crença de que os países maduros para uma revolução seriam Inglaterra e Alemanha, onde os trabalhadores desenvolviam culturas próprias e formas de consciência que ele considerava mais evoluídas que as de outras regiões do planeta.

 

Perguntado sobre a Rússia (e lembrem-se que Marx faleceu em 1883), que permanecia autocrática e praticamente feudal, ele expressou seu ceticismo sobre a capacidade da sociedade russa para chegar a estruturar um proletariado consciente, sendo uma sociedade essencialmente camponesa. Sobre uma eventual revolução nem se fale, uma vez que uma classe burguesa organizada em termos modernos era inexistente nesse país, como esperar o estabelecimento de bases para o surgimento de um proletariado atuante?

 

Entretanto, alguns ainda insistem em associar diretamente Marx à extinta União Soviética, como se esta fosse uma invenção sua e não uma decorrência da leitura própria de Lenin e Stalin sobre os textos marxistas. E nessa esteira de demonização da figura de Karl Marx, a mídia serve-se longamente de autores “capachildos” como Francis Fukuyama, capazes de festejar qualquer infâmia, contanto que o marxismo seja derrotado. A discussão teórica abalizada passa longe desses clichês elaborados para a fácil assimilação do público fora do meio acadêmico.

 

Mas por que a História não acaba?

 

Hegel (1770-1831) considerava que a História, enquanto processo promotor de mudanças, poderia terminar quando o ser humano encontrasse o equilíbrio definitivo. O que é uma proposição bastante relativa porque o “equilíbrio” seria determinado por quem? Pelos setores sociais dominantes ou pela totalidade dos seres humanos?

 

Se a noção de equilíbrio dependesse apenas dos detentores dos poderes historicamente estruturados, a mudança jamais seria possível, uma vez que a desigualdade que os mantém no poder está longe de ser “equilíbrio” fora de seus próprios pontos de vista. Se, por outro lado, a noção de que se chegou a uma sociedade equilibrada depender da percepção de todo e qualquer ser humano vivo, então certamente jamais se chegará a esse ponto.

 

Porque a mudança é inerente à incapacidade de alguns de nós para conformar-se com o destino e aceitar o discurso conservador, que tenta justificar os abismos sociais da desigualdade e da injustiça, a partir de pacotes ideológicos prontos e fechados.

 

A mudança pode estar em aspectos frugais como a invenção da panela de pressão para quem não tem tempo de passar seis horas cozinhando uma carne ou um ensopado. Pode estar também em ideias revolucionárias que geram tecnologias capazes de lançar o ser humano ao espaço ou de realizar cirurgias extremamente precisas em partes do corpo delicadas como o cérebro. E certamente está no universo ilimitado da imaginação, que alimenta as formas mais sublimes da Arte e as técnicas necessárias para concretizá-las.

 

A única maneira de deter a mudança não é alcançar o equilíbrio, é limitar as liberdades humanas de criação e pensamento. E mesmo assim, até com a aplicação e uso de poderosas drogas estupefacientes, ainda não há garantias de aprisionar os pensamentos de todos os seres humanos, talvez de uma maioria, mas nunca em sua totalidade. E enquanto houver pensamento, Arte e mudança, haverá necessidade de registro e haverá necessidade de reflexão sobre esse registro.

 

E essas são as três dimensões da História: o fato, seu registro e a análise desse registro que produz a narrativa historiográfica. Estamos muito longe de alcançar uma sociedade sequer minimamente equilibrada, e mesmo que a isso cheguemos, a mudança ainda persistirá. E a mudança não é sempre evolutiva em um sentido de melhoramento, devemos ter em mente a perspectiva de que retrocessos também podem ser considerados mudanças.

 

Passamos as últimas três décadas lutando em todas as frentes possíveis contra a onda neoliberal, que se abateu sobre o planeta e fabricou guerras e crises, que hoje nos presenteiam com o ressurgimento de ideologias supremacistas, ultranacionalistas e fundamentalistas. O que Fukuyama chama hoje de rompimento da ordem neoliberal, com a ascensão de demagogos como Trump e seus seguidores, configura um retrocesso como outros tantos que a humanidade já enfrentou. E historiadores não somos oráculos e não deveríamos fazer previsões futuristas.

 

A tímida e constrangida ressurreição da História por parte de Francis Fukuyama certamente será vista, pelos estudiosos de amanhã, como a admissão patética dos limites da capacidade humana para decretar o fim do imponderável. Porque o Fim da História pressupõe o fim da humanidade com consciência de sua temporalidade e de sua historicidade, e isso está longe de acontecer. Senão, observem as Linhas do Tempo do Facebook funcionando como registro autoconstruído de seus usuários.

 

Podem mudar as fontes, nosso entendimento sobre elas, os paradigmas teóricos e nossa compreensão filosófica, mas a História continua até o último ser humano colocar um ponto final em seu diário.

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