Arquivo | dezembro, 2016

AS BESTAS-FERAS DA OPINIÃO

30 dez

Esta é a semana das retrospectivas e das análises sobre o ano e vários sites estão repostando matérias que tiveram relevância ao longo de 2016. É o caso da Carta Capital, que hospeda o blog do Negro Belchior e ontem repostou um artigo seu, veiculado em 26 de novembro, abordando a questão do racismo em Cuba. Um artigo muito ponderado e bem escrito, que você pode conferir no link que segue abaixo.

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/fidel-fez-muito-pela-luta-antirracista-e-anticolonialista-em-todo-o-mundo/

Relendo o artigo me ocorreu que cabia um comentário que deixasse claro que a complexidade do caso cubano escapa aos brasileiros porque uma boa parte de nós não consegue sequer dimensionar a questão do racismo nem quando se encontra bem na nossa cara, na lide diária, por isso postei o seguinte:

 

“Falta informação e embasamento para a maioria das críticas ao Fidel, não apenas devido ao preconceito reiterado em relação a Cuba, mas também devido à incapacidade de muitas pessoas aqui no Brasil de entender os outros países da América Latina. Às vezes por ignorância mesmo, porque o material didático e a imprensa endeusam a Europa e os EUA e ignoram solenemente o nosso entorno continental; e às vezes porque muitas dessas pessoas não sabem sequer se colocar no lugar do outro aqui em nossa sociedade que institucionalizou o racismo e a exploração, quanto mais falar de um país que desconhecem e de uma História que não lhes importa.”

 

E foi o que bastou para receber uma enxurrada de respostas grosseiras, sarcásticas e agressivas. Eu sabia que haveria críticas, mas jamais imaginei que em uma quinta-feira depois das dez da noite, antevéspera de final de ano, houvesse tanta gente desocupada na internet pronta para descarregar sua agressividade em desconhecidos. E o que me chamou a atenção foi que estivessem monitorando a página de uma revista de que não gostam e com que nem concordam.

 

Escrevo esta avaliação da situação porque das cinquenta e três respostas que o meu comentário gerou, até agora, vinte e oito eram de um mesmo indivíduo. Um jovem que passou a repostar matérias de jornais diários e revistas semanais já nossos conhecidos por sua notória má vontade com tudo o que se refira ao espectro político e intelectual das esquerdas, bem como sites declaradamente proto-fascistas. Em uma demonstração pouco educada e até emocionalmente desequilibrada de mansplaining, o rapaz contestou minha formação e tentou me ensinar a pensar.

 

E quando reclamei do machismo implícito nessa atitude foi uma mulher, para o cúmulo da vergonha alheia, que me chamou de “vitimista”. Fora um ou outro gaiato sem noção que alegou que eu havia estudado por correspondência, apenas esse rapaz me acusou de desonestidade por inferir que meu ponto de vista era diferente do seu. O que não deixa de ser interessante porque em meu comentário eu nem sequer endossei Cuba, apenas constatei que o tema é complexo e que se presta à desinformação e ao preconceito.

 

E aí eu senti o fastio e o cansaço que sempre me provocam essas situações em que o diálogo verdadeiro é escamoteado e a discussão escala para uma conversa de loucos e os deixei falando sozinhos. Não sem antes conceder a ultima palavra ao jovem cujo ego era tão frágil que precisava bater boca na internet com uma desconhecida em uma noite de verão que pedia cerveja. Sempre faço isso quando o machismo se apresenta nesse nível de vulnerabilidade porque hoje me sinto segura a ponto de não precisar ter razão e nem impor meu pensamento a ninguém.

 

Mais tarde, noite adentro, assistindo uma reprise de The Following junto a meu marido, me ocorreu como a situação pareceria se fosse inversa. Imagine que eu fosse homem (só imagine porque eu não quero trocar de lugar com ninguém) e fizesse um comentário ponderado e quase insosso no post da revista que hospeda um blogueiro que respeito, e uma mulher comentasse vinte e oito vezes em meu comentário, com sinais visíveis de desequilíbrio emocional.  Como será que essa mulher seria vista?

 

Eu acredito que “histérica” ou “xiliquenta” seriam os adjetivos menos pesados usados pelos outros internautas para defini-la. Sabe-se lá se ela teria chegado a postar tanta bobagem antes de ser repelida virulentamente por um meio social que acredita que a mulher tem um “lugar” no mundo e deve ficar nele. Quando alguém despreza as denúncias sobre o machismo, eu sempre peço para inverter a situação e imaginar como seria essa mesma situação com os papéis de gênero trocados, para entender até que ponto essa mentalidade tosca está entranhada em nossas práticas sociais.

 

Sobre a própria discussão, dizer o quê? Que as pessoas não sabem criticar fontes, nem distinguir opinião de fato? Que a maior parte da sociedade não tem sequer a mínima noção da parte técnica e teóricas dos estudos de um historiador? Que as pessoas que mais criticam o Marxismo nem sequer sabem do que se trata?

 

Isso todos nós, que mantemos espaços pedagógicos e de debate historiográfico na rede, estamos cansados de saber. A minha constatação nem sequer é original, professores com inserção na mídia grande e pensadores dos mais variados espectros já discutiram esse aspecto antropofágico da internet. Essa sede metafórica de sangue que parece apossar-se das pessoas quando defendem opiniões, tomando a própria ideologia pessoal por fatos ou acreditando portar uma “verdade” absoluta e definitiva.

 

O que me cabe constatar, para grande tristeza do meu lado “professoral”, é que a formação intelectual vem sendo solapada pela cultura do “achismo”, em que opiniões contam mais que argumentos. Essa concentração egocêntrica no ponto de vista pessoal, associada a um fraco domínio dos recursos estilísticos e sintáticos de uma língua tão rica como o português, propicia momentos ridículos em que percebemos a fragilidade da compreensão textual de quem se arvora em dono de verdades. Aonde foi parar a interpretação de texto?

 

Certamente deve ter sido tragada pelo mesmo alçapão, escondido em algum lugar da psique, onde jazem as boas maneiras, a civilidade, o respeito, a tolerância e a consideração com o outro.

 

O que eu penso ou deixo de pensar sobre Fidel e Cuba e a questão do racismo e da descolonização da África nunca esteve em questão. As pessoas comentando, e esse rapaz em particular, me atribuíram um estereótipo que lhes pareceu confortável e nem sequer se deram ao trabalho de “googlar” meu nome e ver quem eu era. E hoje, ao sentar para escrever esta reflexão e analisar a sequência de comentários, encontrei apenas quatros pessoas que entenderam exatamente o que escrevi.

 

Não me queixo dos tempos porque a vida é assim mesmo, repleta de avanços e retrocessos, mas constato que está cada vez mais difícil transitar entre as gentes que cultivam a besta-fera da opinião pessoal tomada por verdade absoluta e definitiva. E inseguro…

PERDAS, LUTOS E UM “PARCHE” BEM COSTURADO

20 dez

Não fui uma criança fofa, estava mais para magricela, enganava bem por causa das grandes bochechas alanizes, mas minhas pernas eram uns gambitos. Como adolescente, fui reiteradamente zoada por “não ter bunda”. E, quando jovem, dificilmente alguém pensaria em mim duas vezes a partir do meu corpo.

 

E então, em algum momento da passagem para a casa dos trinta anos, comecei a engordar e não parei mais. Foi um processo lento, mas apesar dos meus esforços para manter uma alimentação relativamente saudável, jamais consegui perder peso. Em vinte anos engordei trinta quilos e não conseguia identificar o porquê.

 

Há pouquíssimas coisas a meu respeito de que realmente sinto orgulho, na maior parte do tempo cultivo uma autocrítica tão atroz que beira a compulsão. Mas, não sei se me expresso bem, tenho orgulho da minha tenacidade no aprendizado, seja em minha trajetória acadêmica, seja no cotidiano das miríades de coisinhas que fazem uma vida. De tudo o que me propus a aprender, até hoje, só fui derrotada pela burocracia dos exames de direção e o caráter mercenário das autoescolas, não tenho carta de motorista.

 

No mais, se quero bordar ou tecer uma peça específica, construo mentalmente uma estratégia com os poucos pontos que sei e vou intuindo até conseguir o resultado desejado. Se quero cozinhar um prato qualquer, baixo a receita e vou ajeitando até ficar do agrado de quem vai comer. Se quero escrever um texto ou entender um determinado autor, leio compulsivamente e rumino minhas ideias dia e noite até conseguir sentar e verter todo o raciocínio para o papel.

 

E me realizo nesse processo de construir lentamente esses pedaços concretos de aprendizado e ofertá-los a quem corresponda. Nesse sentido, gosto de partir dos rudimentos que vou recolhendo na convivência com os outros e transformar esses conhecimentos e processos de “fazer” em celebrações de vida. Sou daquelas pessoas que tecem mantinhas delicadas sempre que um bebê está para chegar à família, que gostam de receber os seres queridos com pão caseiro, bolo ou pasta.

 

A cozinha em nossa casa é tão importante quanto a biblioteca, o que já diz muito. Mas não engordei por isso. Seria fácil se assim fosse.

 

Venho ruminando nestas últimas semanas o inventário das perdas, que começa com meu pai, há exatos quinze anos, passa por vários de meus parentes queridos a mais de três mil quilômetros e uma vida de distância, meus antigos orientadores (o professor Amaral Lapa e a professora Eni Samara), minha amiga Luciana Jukemura (tão jovem e tão injustamente partida), minha perspectiva profissional, minha última chance de passar em um concurso para docente em minha área, duas dezenas de autores e artistas que foram referências importantes por toda a minha vida, um projeto de país com que me identificava e a democracia que sempre defendi, mesmo sendo comunista. E especialmente neste ano em que tudo parece um nunca acabar de notícias ruins, perdemos o Biscoito, nosso amigo e companheiro canino por dezesseis anos de muito amor, muita camaradagem e muito perrengue também.

 

E percebi o que deveria estar óbvio, bem à frente do meu nariz. Quando a dor da perda toma conta dos meus dias, me ponho a cozinhar. Não o trivial de todos os dias, não o especial dos fins de semana, mas sim pratos complexos, desafiadores, que me exigem esforço, dedicação, pesquisa e aprendizado.

 

Não se aplaca o vazio da morte de um ser querido com uma salada de alface. O caráter compensatório das chamadas “comfort foods” não é suficiente para perdas maiores, o desafio consiste em ir além. E nesse além que mantém minha mente e minhas mãos ocupadas, a gordura se acumula.

 

Hoje, nesta segunda-feira tempestuosa, após semanas de tensão política inenarrável, correrias familiares, perante um noticiário que mais parece a concretização do Armagedon, de repente me vi sovando pão de banha. Aproveitei a gordura gerada por alguns pedaços de barriga de porco que assei e grelhei dias atrás (extravagância cometida após anos comendo apenas carne magra) e que guardei cuidadosamente já imaginando o momento em que um pão como esse se tornaria necessário. Sovei como qualquer das minhas avós teria feito, e como minha Mãe me ensinou, até que os ingredientes se transformassem em uma massa macia e elástica, até que estralasse ao toque, e usei todos os truques que conheço para criar casquinha mesmo em um forno a gás.

 

E, ao finalmente retirar a assadeira do forno e ver a expectativa satisfeita de quem comeu, percebi que a minha compulsão passa não tanto por comer, mas muito mais por proporcionar momentos de prazer gastronômico quando vejo quem amo ser afligido pela vida. E nesse processo, minha gordura física também torna meu abraço confortável a quem precisa, mas não me conforta. Minhas mãos ocupadas e meu cérebro obcecado me distraem, mas as dores íntimas se acumulam no corpo que envelhece.

 

Berthe Bernage, escritora de novelas francesas para mocinhas que li na adolescência, ao retratar a maturidade de sua personagem Brigitte, sugeria que quando a idade e as perdas se acumulam devemos “remendar” a alma. “Un parche bien cosido” é a expressão usada na tradução espanhola que ainda guardo na estante, um remendo bem costurado. Mas como é que se costura um bom remendo na alma?

FECHEI PARA BALANÇO

13 dez

Hoje eu desativei a opção de postagem de comentários em meus vídeos do YouTube. Não sei se de modo definitivo, porque a vida é muito incerta para afirmações taxativas e categóricas. Mas, ao menos temporariamente, estou fora.

 

Em 09 de fevereiro de 2013, portanto há quase quatro anos postei o primeiro vídeo do Cantinho da História. Naquele dia completava 39 anos da minha chegada ao Brasil e senti que poderia devolver à sociedade um pouco da vivência que a Universidade me ofereceu. Um pouco do amor desmedido pelos livros e pela circulação do conhecimento.

 

Comecei despretensiosamente, respondendo questões de colegiais e, inadvertidamente, abordando alguns temas que se tornaram polêmicos ao sabor da onda conservadora que varre o planeta. Com alguns meses, o canal passou a abordar questões acadêmicas e passei os meses seguintes produzindo conteúdo de maneira insana, em detrimento da minha saúde e da minha paz. Se, por um lado, os espectadores nunca ficavam satisfeitos e me bombardeavam com solicitações de resenhas como se eu fosse o sucedâneo das modernas enciclopédias, por outro lado, os malucos começaram a aparecer.

 

No início eu considerava como um ponto de honra ter uma resposta educada e satisfatória para cada questão e cada comentário que surgia. Isso se tornou inviável quando as pessoas começaram a invadir as minhas redes sociais, à procura de validação e também quando os comentários agressivos surgiram. Vídeos com questões religiosas, feministas e políticas começaram a atrair comentários odientos dos mais diversos matizes.

 

Não me levem a mal, conheci pessoas maravilhosas através da internet e reencontrei pessoas do meu passado, que há muito julgava perdidas para sempre. Mas também atraí para as minhas páginas uma série de depressivos, bipolares, limítrofes, homofóbicos, misóginos e ignorantes, que me tomaram tempo e o desperdício de minhas melhores energias e não me deixaram sequer a sensação de dever cumprido, em troca. Pessoas sem noções de civilidade, de espaço pessoal ou sequer de tolerância mínima à divergência ideológica.

 

Hoje, ao deparar-me com um estudante de teologia que pretende fazer pós-graduação para provar a verdade definitiva sobre as questões ligadas às cosmogonias e escrituras tidas como sagradas e que me ameaçou da maneira mais despropositada porque não concorda com a minha abordagem sobre esses temas, resolvi que o meu tempo já deu.

 

Não consigo sequer imaginar um ambiente de discussão em que qualquer pirralho quer ter a palavra definitiva e final sobre as questões que atormentam a intelectualidade há séculos e se recusa a respeitar quem pensa ou aborda esses temas de modo diferente do seu. A pós-modernidade matou a capacidade das pessoas de entender que experiência é cumulativa e de que vamos morrer sem ter todas as respostas e que isso não tem importância alguma. Que é a trajetória que conta.

 

Nestes quase quatro anos não se passou um único dia em que eu não tenha disponibilizado meu tempo e minha capacidade de pesquisa para responder as perguntas que chegam pelo Facebook e por este blog. Recomendei leituras para pessoas que ficaram felizes com as sugestões, mas também houve um número muito maior de pessoas que queriam que eu resenhasse os textos para que não precisassem lê-los. Estudantes relapsos que pensam que enganam tanto a mim quanto a seus professores, procurando meios de obter notas sem estudar, pensando que poderiam usar meus espaços para isso.

 

Pessoas que me tomaram satisfações sobre os meus pressupostos teóricos ou sobre as ideologias que analiso e defendo, da maneira mais descortês e grosseira possível. Indivíduos que personalizaram debates que deveriam ser sobre ideias, e ao fazer isso, não pouparam ofensas à minha pessoa, ao meu caráter, à minha aparência e até ao que pensavam saber sobre minha sexualidade a partir apenas do meu tipo físico. E é por isso que eu desativei os comentários nos vídeos, porque tenho vergonha de compartilhar o planeta e a existência com essas pessoas toscas, que expõem sua ignorância e suas agressões com orgulho.

 

Nem vou entrar no mérito aqui do desânimo que se apossou de mim nos últimos dois anos, em parte devido ao sacrifício de nosso país e de nossos projetos de vida no altar da masculinidade frágil e tosca da oposição golpista. Essa avalanche constante de perda de direitos e desmonte da sociedade brasileira é frustrante e enche meus dias de amargura. Mas também, uma parte significativa da minha frustração é decorrente de ver meus vídeos feitos com tanto carinho e dedicação sendo desqualificados por pessoas que nem sequer os assistem inteiros ou estão dispostas a entendê-los.

 

Então é isso. Fechei. Preciso respirar.

 

2017 será meu sabático. O canal do YouTube continuará disponibilizando os 158 vídeos e áudios que já foram postados, mas eu não estarei mais presente nas redes sociais com a mesma disponibilidade. Não farei mais vídeos e nem programas na rádio, não responderei mais perguntas com a mesma celeridade e nem tolerarei qualquer intromissão agressiva de estranhos em minhas páginas pessoais.

 

2017 será meu ano. Vou cuidar de mim e deixar que o mundo se vire sozinho. Vou manter minhas atividades no blog e pensar com carinho em um podcast para 2018.

 

Até lá, cuidem-se bem e desejem-me sorte.

NUNCA MAIS CONSEGUIREI GOSTAR DE NERUDA

1 dez

Há algum tempo que o volume de memórias Confieso que he vivido do poeta chileno Pablo Neruda se encontra em nossas estantes. Não o havia lido até agora por uma série de motivos de pequena monta. Há ao menos duas dúzias de livros empilhados que pretendo ler em breve e a cada semana, algum volume sai ou entra nessas pilhas. Nunca me preocupei com as memórias de Neruda porque me parecia que sabia o suficiente dele para justificar minha admiração, agora não mais.

 

Em meio a uma polêmica pesada em torno das circunstâncias do abuso da jovem Maria Schneider durante as filmagens de O último tango em Paris planejado pelo diretor Bernardo Bertolucci e o ator Marlon Brando, alguém mencionou Neruda. Bastaram algumas buscas no Google e o acesso a um par de sites para encontrar as informações que me levaram direto ao volume na estante. Com as pistas mencionadas cheguei a este trecho:

 

“Entró por el fondo de la casa, como una estatua oscura que caminara, la mujer más bella que había visto hasta entonces en Ceilán, de la raza tamil, de la casta de los parias. Iba vestida con un sari rojo y dorado, de la tela más burda. En los pies descalzos llevaba pesadas ajorcas. A cada lado de la nariz le brillaban dos puntitos rojos. Serían vidrios ordinarios, pero en ella parecían rubíes.

Se dirigió con paso solemne hacia el retrete, sin mirarme siquiera, sin darse por aludida de mi existencia, y desapareció con el sórdido receptáculo sobre la cabeza, alejándose con su paso de diosa. 

Era tan bella que a pesar de su humilde oficio me dejó preocupado. Como si se tratara de un animal huraño, llegado de la jungla, pertenecía a otra existencia, a un mundo separado. La llamé sin resultado. Después alguna vez le dejé en su camino algún regalo, seda o fruta. Ella pasaba sin oír ni mirar. Aquel trayecto miserable había sido convertido por su oscura belleza en la obligatoria ceremonia de una reina indiferente.

Una mañana, decidido a todo, la tomé fuertemente de la muñeca y la miré cara a cara. No había idioma alguno en que pudiera hablarle. Se dejó conducir por mí sin una sonrisa y pronto estuvo desnuda sobre mi cama. Su delgadísima cintura, sus plenas caderas, las desbordantes copas de sus senos, la hacían igual a las milenarias esculturas del sur de la India. El encuentro fue el de un hombre con una estatua. Permaneció todo el tiempo con sus ojos abiertos, impasible. Hacía bien en despreciarme. No se repitió la experiencia”. (pp.122-123 na edição da Seix Barral)

 

Quatro parágrafos de escapismo lírico narrando um estupro atroz, chocante em todos os sentidos porque dentro de um crime já em si hediondo, ainda vemos uma narrativa repleta de agravantes. Não me levem a mal, a idade me levou a conseguir ver atenuantes até em homicídios, mas jamais me peçam para fazê-lo em um estupro, não há absolutamente nada que possa justificar tal crime. E neste caso, a náusea é proporcional a três décadas de estima que eu tivera pelo poeta.

 

Qualquer ato de estupro já seria inaceitável, que dizer de humilhar dessa maneira uma pobre coitada da casta mais inferior e intocável do Ceilão (atual Sri Lanka), que tinha como função recolher os dejetos do banheiro e que, por sua situação social, não teria como reagir ou se defender. Sujeitar à força alguém que não tinha sequer autorização social para olhá-lo nos olhos e prosseguir no ato mesmo quando a pessoa permanece petrificada de medo ou de resignação. E depois racionalizar essa monstruosidade com uma narrativa que relativiza a violência e desumaniza a vítima, negando-lhe um nome e uma identidade, reduzindo-a à imagem de uma estátua como se um crime se revestisse de conteúdo simbólico a partir de sua poetização.

 

Ao que posso deduzir das informações editoriais no volume, a publicação dessas memórias foi póstuma. As circunstâncias do golpe de estado no Chile, o assassinato de Allende, a brutal ditadura de Pinochet e a vida pregressa de Neruda no Partido Comunista parecem ter impedido que este trecho de sua vida fosse devidamente dissecado. Por outro lado, conheço várias pessoas que leram este livro e ignoraram essa confissão hedionda, talvez porque não estivesse o crime descrito com todas as letras na crueza do racismo e do machismo inerentes.

 

A memória de Neruda me parece ter sido poupada talvez por dois motivos, ou os fãs não querem ter que arcar com as consequências de admitir que o poeta mais laureado do Chile fosse um cínico ao estampar cada verso de amor e se dizer comunista, ou, por tratar-se de uma mulher nativa, insignificante socialmente, de um lugar do outro lado do mundo e de um fato de “antes da guerra”, os fãs relativizaram o acontecido, como o próprio poeta em sua narrativa. Quase posso ouvir os pensamentos que respeitáveis esquerdistas não são capazes de admitir nem para si mesmos: ela nem era gente.

 

Mas ela era gente sim, era uma mulher da etnia tâmil, que limpava banheiros. Poderia ser muito jovem, ele não nos diz, talvez fosse analfabeta dada a sua condição, ele nunca se deu ao trabalho de saber. Ela certamente tinha um nome e pessoas a quem prestar contas de sua virtude e pode ter sido punida pelo ato dele e ele nunca se preocupou. Sabe-se lá quantas humilhações essa mulher não sofreu ao longo da vida e, ao invés da solidariedade humana, o comunista lhe ofereceu a violência suprema do estupro: um ato de poder patriarcal em um mundo em que homens brancos tudo podem.

 

Aquele “Hacía bien em despreciarme.” não conta como arrependimento. É triste ter que constatar que se pode ser um poeta sensacional e um ser humano lamentável, mas isso não é novo, existem incoerências e aspectos deploráveis em muitos artistas famosos e em muitos de nós reles humanos. O que permanece inaceitável, para mim, é o silêncio dos outros.

 

A cumplicidade após tantas décadas do crime, que blinda a aura humanista do poeta, por absolvê-lo como homem, me envergonha. Nunca mais poderei gostar de Neruda. Nunca mais poderei aceitá-lo como camarada, era mais um homem seduzido pelo discurso, mas incapaz de ser comunista de verdade.

 

E ainda existem muito por aí…