NUNCA MAIS CONSEGUIREI GOSTAR DE NERUDA

1 dez

Há algum tempo que o volume de memórias Confieso que he vivido do poeta chileno Pablo Neruda se encontra em nossas estantes. Não o havia lido até agora por uma série de motivos de pequena monta. Há ao menos duas dúzias de livros empilhados que pretendo ler em breve e a cada semana, algum volume sai ou entra nessas pilhas. Nunca me preocupei com as memórias de Neruda porque me parecia que sabia o suficiente dele para justificar minha admiração, agora não mais.

 

Em meio a uma polêmica pesada em torno das circunstâncias do abuso da jovem Maria Schneider durante as filmagens de O último tango em Paris planejado pelo diretor Bernardo Bertolucci e o ator Marlon Brando, alguém mencionou Neruda. Bastaram algumas buscas no Google e o acesso a um par de sites para encontrar as informações que me levaram direto ao volume na estante. Com as pistas mencionadas cheguei a este trecho:

 

“Entró por el fondo de la casa, como una estatua oscura que caminara, la mujer más bella que había visto hasta entonces en Ceilán, de la raza tamil, de la casta de los parias. Iba vestida con un sari rojo y dorado, de la tela más burda. En los pies descalzos llevaba pesadas ajorcas. A cada lado de la nariz le brillaban dos puntitos rojos. Serían vidrios ordinarios, pero en ella parecían rubíes.

Se dirigió con paso solemne hacia el retrete, sin mirarme siquiera, sin darse por aludida de mi existencia, y desapareció con el sórdido receptáculo sobre la cabeza, alejándose con su paso de diosa. 

Era tan bella que a pesar de su humilde oficio me dejó preocupado. Como si se tratara de un animal huraño, llegado de la jungla, pertenecía a otra existencia, a un mundo separado. La llamé sin resultado. Después alguna vez le dejé en su camino algún regalo, seda o fruta. Ella pasaba sin oír ni mirar. Aquel trayecto miserable había sido convertido por su oscura belleza en la obligatoria ceremonia de una reina indiferente.

Una mañana, decidido a todo, la tomé fuertemente de la muñeca y la miré cara a cara. No había idioma alguno en que pudiera hablarle. Se dejó conducir por mí sin una sonrisa y pronto estuvo desnuda sobre mi cama. Su delgadísima cintura, sus plenas caderas, las desbordantes copas de sus senos, la hacían igual a las milenarias esculturas del sur de la India. El encuentro fue el de un hombre con una estatua. Permaneció todo el tiempo con sus ojos abiertos, impasible. Hacía bien en despreciarme. No se repitió la experiencia”. (pp.122-123 na edição da Seix Barral)

 

Quatro parágrafos de escapismo lírico narrando um estupro atroz, chocante em todos os sentidos porque dentro de um crime já em si hediondo, ainda vemos uma narrativa repleta de agravantes. Não me levem a mal, a idade me levou a conseguir ver atenuantes até em homicídios, mas jamais me peçam para fazê-lo em um estupro, não há absolutamente nada que possa justificar tal crime. E neste caso, a náusea é proporcional a três décadas de estima que eu tivera pelo poeta.

 

Qualquer ato de estupro já seria inaceitável, que dizer de humilhar dessa maneira uma pobre coitada da casta mais inferior e intocável do Ceilão (atual Sri Lanka), que tinha como função recolher os dejetos do banheiro e que, por sua situação social, não teria como reagir ou se defender. Sujeitar à força alguém que não tinha sequer autorização social para olhá-lo nos olhos e prosseguir no ato mesmo quando a pessoa permanece petrificada de medo ou de resignação. E depois racionalizar essa monstruosidade com uma narrativa que relativiza a violência e desumaniza a vítima, negando-lhe um nome e uma identidade, reduzindo-a à imagem de uma estátua como se um crime se revestisse de conteúdo simbólico a partir de sua poetização.

 

Ao que posso deduzir das informações editoriais no volume, a publicação dessas memórias foi póstuma. As circunstâncias do golpe de estado no Chile, o assassinato de Allende, a brutal ditadura de Pinochet e a vida pregressa de Neruda no Partido Comunista parecem ter impedido que este trecho de sua vida fosse devidamente dissecado. Por outro lado, conheço várias pessoas que leram este livro e ignoraram essa confissão hedionda, talvez porque não estivesse o crime descrito com todas as letras na crueza do racismo e do machismo inerentes.

 

A memória de Neruda me parece ter sido poupada talvez por dois motivos, ou os fãs não querem ter que arcar com as consequências de admitir que o poeta mais laureado do Chile fosse um cínico ao estampar cada verso de amor e se dizer comunista, ou, por tratar-se de uma mulher nativa, insignificante socialmente, de um lugar do outro lado do mundo e de um fato de “antes da guerra”, os fãs relativizaram o acontecido, como o próprio poeta em sua narrativa. Quase posso ouvir os pensamentos que respeitáveis esquerdistas não são capazes de admitir nem para si mesmos: ela nem era gente.

 

Mas ela era gente sim, era uma mulher da etnia tâmil, que limpava banheiros. Poderia ser muito jovem, ele não nos diz, talvez fosse analfabeta dada a sua condição, ele nunca se deu ao trabalho de saber. Ela certamente tinha um nome e pessoas a quem prestar contas de sua virtude e pode ter sido punida pelo ato dele e ele nunca se preocupou. Sabe-se lá quantas humilhações essa mulher não sofreu ao longo da vida e, ao invés da solidariedade humana, o comunista lhe ofereceu a violência suprema do estupro: um ato de poder patriarcal em um mundo em que homens brancos tudo podem.

 

Aquele “Hacía bien em despreciarme.” não conta como arrependimento. É triste ter que constatar que se pode ser um poeta sensacional e um ser humano lamentável, mas isso não é novo, existem incoerências e aspectos deploráveis em muitos artistas famosos e em muitos de nós reles humanos. O que permanece inaceitável, para mim, é o silêncio dos outros.

 

A cumplicidade após tantas décadas do crime, que blinda a aura humanista do poeta, por absolvê-lo como homem, me envergonha. Nunca mais poderei gostar de Neruda. Nunca mais poderei aceitá-lo como camarada, era mais um homem seduzido pelo discurso, mas incapaz de ser comunista de verdade.

 

E ainda existem muito por aí…

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