PERDAS, LUTOS E UM “PARCHE” BEM COSTURADO

20 dez

Não fui uma criança fofa, estava mais para magricela, enganava bem por causa das grandes bochechas alanizes, mas minhas pernas eram uns gambitos. Como adolescente, fui reiteradamente zoada por “não ter bunda”. E, quando jovem, dificilmente alguém pensaria em mim duas vezes a partir do meu corpo.

 

E então, em algum momento da passagem para a casa dos trinta anos, comecei a engordar e não parei mais. Foi um processo lento, mas apesar dos meus esforços para manter uma alimentação relativamente saudável, jamais consegui perder peso. Em vinte anos engordei trinta quilos e não conseguia identificar o porquê.

 

Há pouquíssimas coisas a meu respeito de que realmente sinto orgulho, na maior parte do tempo cultivo uma autocrítica tão atroz que beira a compulsão. Mas, não sei se me expresso bem, tenho orgulho da minha tenacidade no aprendizado, seja em minha trajetória acadêmica, seja no cotidiano das miríades de coisinhas que fazem uma vida. De tudo o que me propus a aprender, até hoje, só fui derrotada pela burocracia dos exames de direção e o caráter mercenário das autoescolas, não tenho carta de motorista.

 

No mais, se quero bordar ou tecer uma peça específica, construo mentalmente uma estratégia com os poucos pontos que sei e vou intuindo até conseguir o resultado desejado. Se quero cozinhar um prato qualquer, baixo a receita e vou ajeitando até ficar do agrado de quem vai comer. Se quero escrever um texto ou entender um determinado autor, leio compulsivamente e rumino minhas ideias dia e noite até conseguir sentar e verter todo o raciocínio para o papel.

 

E me realizo nesse processo de construir lentamente esses pedaços concretos de aprendizado e ofertá-los a quem corresponda. Nesse sentido, gosto de partir dos rudimentos que vou recolhendo na convivência com os outros e transformar esses conhecimentos e processos de “fazer” em celebrações de vida. Sou daquelas pessoas que tecem mantinhas delicadas sempre que um bebê está para chegar à família, que gostam de receber os seres queridos com pão caseiro, bolo ou pasta.

 

A cozinha em nossa casa é tão importante quanto a biblioteca, o que já diz muito. Mas não engordei por isso. Seria fácil se assim fosse.

 

Venho ruminando nestas últimas semanas o inventário das perdas, que começa com meu pai, há exatos quinze anos, passa por vários de meus parentes queridos a mais de três mil quilômetros e uma vida de distância, meus antigos orientadores (o professor Amaral Lapa e a professora Eni Samara), minha amiga Luciana Jukemura (tão jovem e tão injustamente partida), minha perspectiva profissional, minha última chance de passar em um concurso para docente em minha área, duas dezenas de autores e artistas que foram referências importantes por toda a minha vida, um projeto de país com que me identificava e a democracia que sempre defendi, mesmo sendo comunista. E especialmente neste ano em que tudo parece um nunca acabar de notícias ruins, perdemos o Biscoito, nosso amigo e companheiro canino por dezesseis anos de muito amor, muita camaradagem e muito perrengue também.

 

E percebi o que deveria estar óbvio, bem à frente do meu nariz. Quando a dor da perda toma conta dos meus dias, me ponho a cozinhar. Não o trivial de todos os dias, não o especial dos fins de semana, mas sim pratos complexos, desafiadores, que me exigem esforço, dedicação, pesquisa e aprendizado.

 

Não se aplaca o vazio da morte de um ser querido com uma salada de alface. O caráter compensatório das chamadas “comfort foods” não é suficiente para perdas maiores, o desafio consiste em ir além. E nesse além que mantém minha mente e minhas mãos ocupadas, a gordura se acumula.

 

Hoje, nesta segunda-feira tempestuosa, após semanas de tensão política inenarrável, correrias familiares, perante um noticiário que mais parece a concretização do Armagedon, de repente me vi sovando pão de banha. Aproveitei a gordura gerada por alguns pedaços de barriga de porco que assei e grelhei dias atrás (extravagância cometida após anos comendo apenas carne magra) e que guardei cuidadosamente já imaginando o momento em que um pão como esse se tornaria necessário. Sovei como qualquer das minhas avós teria feito, e como minha Mãe me ensinou, até que os ingredientes se transformassem em uma massa macia e elástica, até que estralasse ao toque, e usei todos os truques que conheço para criar casquinha mesmo em um forno a gás.

 

E, ao finalmente retirar a assadeira do forno e ver a expectativa satisfeita de quem comeu, percebi que a minha compulsão passa não tanto por comer, mas muito mais por proporcionar momentos de prazer gastronômico quando vejo quem amo ser afligido pela vida. E nesse processo, minha gordura física também torna meu abraço confortável a quem precisa, mas não me conforta. Minhas mãos ocupadas e meu cérebro obcecado me distraem, mas as dores íntimas se acumulam no corpo que envelhece.

 

Berthe Bernage, escritora de novelas francesas para mocinhas que li na adolescência, ao retratar a maturidade de sua personagem Brigitte, sugeria que quando a idade e as perdas se acumulam devemos “remendar” a alma. “Un parche bien cosido” é a expressão usada na tradução espanhola que ainda guardo na estante, um remendo bem costurado. Mas como é que se costura um bom remendo na alma?

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