Arquivo | janeiro, 2017

O ROMANCE POLICIAL INDICIÁRIO DE CONAN DOYLE E AGATHA CHRISTIE

29 jan

Este texto é o roteiro daquele que será meu último programa na Rádio Noroeste FM e que irá ao ar ao vivo no primeiro sábado de fevereiro. Durante um ano, participei do programa Noroeste em Ação, ao lado de Jerry de Oliveira, falando sobre Literatura e História. Este programa encerra um ciclo importante em minha vida.

 

Talvez por isso tenha reservado um tema que se constitui em uma das grandes paixões literárias de toda a minha vida. Li meu primeiro livro da Agatha Christie com onze anos, chamava-se Convite para um homicídio, e era um dos casos de Miss Marple, desde então tenho lido e relido para mais de quarenta títulos dessa autora e nunca me canso de seu estilo enganosamente simples. Sobre Conan Doyle posso dizer que li suas obras completas na Biblioteca Circulante do SESI durante a minha adolescência (assim como vários títulos de Júlio Verne e Alexandre Dumas).

 

Nos últimos quarenta anos, tenho lido todo tipo de romances policiais (é o que uso quando quero espairecer a mente) desde os da coleção amarela até um ou outro de Dickson Carr e Georges Simenon. Mas jamais encontrei estilos tão impecáveis, embora essencialmente diferentes entre si, que os Doyle e Christie. São meus dois autores favoritos no gênero e, reafirmando o clichê lastimável, aqueles que eu levaria para uma ilha deserta.

 

E passei a admirá-los muito mais ao conhecer a “costura” desse tipo de romance, o modo como sua lógica interna é construída. Isso se deu lá pelos anos 90, quando li o ensaio de Carlo Ginzburg intitulado Sinais: raízes de um paradigma indiciário, constante do livro Mitos, Emblemas, Sinais: Morfologia e História, lançado aqui no Brasil em 1989. Ginzburg já era um velho conhecido desde os tempos da graduação, devido a Os andarilhos do bem e O queijo e os vermes, que mudaram minha visão sobre a análise documental.

 

Nesse ensaio, ele descreve o que desde então passou a ser denominado “o paradigma indiciário”, um modelo de análise da evidência que se baseia em observar e reunir os indícios mais insignificantes para montar a partir deles uma explicação ou argumentação sobre os mais diversos assuntos. Ginzburg parte de três fenômenos intelectuais do século XIX para definir esse paradigma: Morelli (que criou um método para identificar obras de arte falsificadas, observando os detalhes mais insignificantes), Conan Doyle (que desenvolveu a personagem do detetive Sherlock Holmes, cujos feitos na arte da dedução a partir de pequenos nadas tornou-se um modelo para o gênero da ficção) e Freud (que investigava os processos mentais mais íntimos a partir de indícios na fala de seus pacientes). Ginzburg argumenta que esse modelo de análise a partir de indícios influenciou a cultura ocidental e o desenvolvimento de metodologias tão diversas quanto a psicanálise e a antropologia.

 

A ideia de que somos capazes de observar o ambiente e as pessoas e deduzir necessidades e comportamentos a partir de detalhes ínfimos liga-se ao nosso passado pré-histórico de caçadores e coletores. Define várias metodologias científicas, além das descritas pelo autor, como a clínica de diagnóstico e taxonomia. E pode ser encontrada na literatura nos romances policiais.

 

Os detetives que vemos na literatura, no cinema, teatro e televisão seguem esse modelo de perseguir “pistas” e montar com elas a solução de assassinatos e outros crimes. É o mote de toda essa enxurrada de séries de perícia e antropologia forense que surgiram na última década. Mas para várias gerações de leitores, o arquétipo do detetive tem nome e se chama Sherlock Holmes.

 

Devo dizer que sempre me ressenti do modo como Sherlock Holmes ofuscou o impecável C. Auguste Dupin, detetive protagonista de três contos célebres de Edgar Allan Poe (Os crimes da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada, todos do início da década de 1840). Onde Dupin era discrição e simplicidade, Holmes era histrionismo e afetação, por isso eu adorava a voz narrativa do Dr. Watson, que o criticava com ironia sutil. Os contos de Poe e de Conan Doyle fizeram as delícias da minha adolescência.

 

Na narrativa embasbacada do Dr. Watson, Holmes era capaz de deduzir origem, profissão, estado civil e bagagem emocional de qualquer pessoa apenas apegando-se à análise detalhes absolutamente insignificantes na roupa, na postura e na fala do interlocutor. Detalhes esses que permaneciam invisíveis ao resto dos mortais, inclusive nós leitores, mas que ajudavam a resolver os casos mais excêntricos e emocionantes. E, para os fãs de cinema, posso afirmar que jamais adaptação alguma fez jus à narrativa despretensiosa e levemente bronca, mas carregada de afeto fraternal do Dr. Watson sobre seu excêntrico colega de domicílio.

 

No entanto, Conan Doyle “trapaceia” o leitor por sua parcimônia na hora de compartilhar os indícios que o detetive vai encontrando e pelas reviravoltas dramáticas que os casos vão sofrendo. Por mais que eu lesse, sempre me sentia um cérebro muito aquém do grande detetive, jamais consegui resolver um único caso durante a leitura. O que ainda me fascina nesse autor é o sabor vitoriano de sua narrativa e a possibilidade de identificar-me com o Dr. Watson e ser “enrolada” por Holmes tanto quanto ele.

 

Watson humaniza Holmes, que de outro modo seria apenas um daqueles “gênios” absurdamente pedantes e sem qualquer consideração ou afeto por qualquer de seus semelhantes. Watson (e não Holmes) é o centro de estabilidade e o ponto de identidade com o leitor que sobressai da narrativa. Nesse sentido, a solidez e a consistência de Watson provavelmente provenham de ser o alter ego de Conan Doyle, oftalmologista de formação.

 

O que já não é o caso da diversidade literária produzida por Agatha Christie, cujos romances variam de personagens e de vozes narrativas com bastante frequência. Hercule Poirot, Miss Marple, o casal Beresford, o Sr. Satterwhite (um dos meus favoritos), o Superintendente Battle, o Coronel Race e a romancista Ariadne Oliver, seus principais protagonistas, dividem a cena com inspetores e personagens da gentry britânica, que vai sendo atropelada pelo século XX. Cada romance é um universo em separado e a autora passava um cortado tentando não se repetir durante décadas de produção literária.

 

O que chega a ser surpreendente, uma vez que se trata de uma autora autodidata, que mesmo tendo nascido em uma família cultivada não recebeu uma educação convencional, devido a uma mãe excêntrica que seguia ao sabor das novas teorias, uma orientação diferente para cada filho. Na voz de Prudence “Tuppence” Beresford podemos ver um pouco do aprendizado da própria autora:

 

– Tuppence, você já lia aos oito anos?

            – Já, aprendi com cinco. Quando eu era pequena, as crianças dessa idade já liam. Acho que nem era preciso aprender. Alguém lia as histórias alto e se você gostava podia pegar mais tarde na estante e olhá-las sozinho, até que um dia descobria que sabia lê-las, sem nunca ter aprendido a soletrar, ou coisa semelhante. Depois as coisas se complicaram, nunca aprendi ortografia corretamente, mas se tivessem me ensinado aos quatro anos, teria aprendido com perfeição. Meu pai ensinou-me a somar, subtrair e multiplicar. Dizia que a tabuada de multiplicação era a coisa mais útil que se podia aprender na vida. Eu sabia fazer aquelas divisões enormes também.”

(Portal do destino. pp.12-13. 1973.)

 

Os livros de Agatha Christie são deliciosamente emocionantes porque a vida em todas as suas dimensões pulsa em suas páginas. De um modo simples e despretensioso, enquanto a autora narra as peripécias de seus detetives tanto amadores quanto profissionais. Suas personagens são tão comovedoramente humanas que muitas vezes nos acompanham para além daquele mundinho estremecido por um ou mais assassinatos.

 

Como esquecer de Lynn Marchmont que voltou da guerra e não conseguia se encontrar? De Henrietta Savernake esculpindo argila furiosamente para sublimar a dor da perda? De Miss Marple definindo a solidão de envelhecer como o momento em que todos os que se lembravam de você em criança já morreram? De Tuppence Beresford enfrentando os achaques do envelhecimento com ironia e bom humor? De Vitória Jones, Lucy Eylesbarrow e Bundle Brent? As melhores personagens femininas que eu já vi em uma literatura que por muitos é considerada apenas como coisa ligeira.

 

E há ainda o fato de que Agatha Christie era escrupulosamente honesta na hora de fornecer as pistas para desvendar os crimes. Mesmo quando cometeu a suprema temeridade de redigir um romance em que o narrador é o assassino, as pistas e indícios ainda estão lá, disponíveis ao leitor. Mesmo quando ambientou um romance no Egito Antigo.

 

Para quem está acostumado a microscópios eletrônicos, centrífugas de extrair DNA e toda a pirotecnia das séries modernas, talvez esses romances do século XIX e XX pareçam lentos e com o cheiro de antiquário, mas para mim ainda são a melhor companhia em momentos de stress e exaustão.

 

Espero sinceramente que minha participação no Noroeste em Ação especial de literatura tenha ajudado a contagiar um ou outro ouvinte com minha paixão por autores e livros que me formaram e me humanizaram ao longo da vida. Só tenho a agradecer ao Jerry de Oliveira por ter-me proporcionado a oportunidade de participar de uma rádio comunitária e ir “aonde o povo está”. E parto agora para outros desafios.

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SHELDON, BONES E HOUSE: O CIENTISTA ESTEREOTIPADO COMO ENTRETENIMENTO

16 jan

O Dr. Sheldon Cooper é um físico teórico na comédia estadunidense The Big Bang Theory. É uma personagem composta a partir de um conjunto de características que lembram vagamente os comportamentos do espectro autista, mas sem uma definição precisa que possa ser contrastada com a realidade. Sheldon é grosseiro e insensível, mas ele não faz por mal, apenas é assim.

 

Uma das gags recorrentes quando alguém questiona sua sanidade é “I´m not mad, my Mom got me tested” (se a memória não me trai), que poderia ser traduzido como “eu não sou louco, minha Mãe me levou para ser testado”. A sitcom já se encontra com dez temporadas e, embora Sheldon tenha superado alguns de seus comportamentos mais ultrajantes, ainda apresenta uma sinceridade e um pensamento linear impermeável às figuras de linguagem, que repete as mesmas situações constrangedoras a cada novo episódio. E ele é um gênio brilhante, um menino prodígio em meio a outros cientistas medianos mais humanizados.

 

A Dra. Temperance Brennan, vulgo Bones (apelido que dá nome à série policial estadunidense), é uma antropóloga forense e escritora, que auxilia o FBI a desvendar assassinatos. Sua grosseria e insensibilidade, assim como seu distanciamento emocional, são decorrentes do trauma de ter perdido os pais e ter sido abandonada pelo irmão no sistema de Foster Homes (lares adotivos). Contando com uma dúzia de temporadas, esta série também acompanha o processo de “humanização” de sua protagonista, ao conviver com amigos e amantes menos brilhantes do ponto de vista científico.

 

O Dr. Gregory House é um médico brilhante especializado em diagnóstico de ponta (o que quer que isso queira dizer). Grosseiro, insensível, desbocado, manipulador, a justificativa para seu comportamento ultrajante vem da incapacidade para superar family issues, um acidente que o deixou com dores crônicas e um divórcio mal resolvido. A série (igualmente estadunidense) durou oito temporadas povoadas de lances dramáticos envolvendo drogas, prisões, morte de seres queridos e mesmo assim pouco avançou na humanização da personagem título.

 

Dá para notar um padrão?

 

Roteiristas de séries dos Estados Unidos, quer sejam comédias ou dramas, parecem acreditar que uma inteligência acima dos padrões considerados como “normais” sempre vem acompanhada de uma incapacidade para conectar-se emocionalmente aos outros seres humanos. Daí decorrem os comportamentos grosseiros e insensíveis das personagens ficcionais que meio mundo adora. Será que o público gostaria tanto se deparasse com esse tipo de comportamento ultrajante no mundo real? Tenho minhas dúvidas.

 

O estereótipo do gênio de mente brilhante, mas emocionalmente imaturo e distante parece hoje bem consolidado na Cultura Pop graças a esse tipo de entretenimento, criando expectativas nem sempre plausíveis.

 

Jamais conheci uma pessoa realmente brilhante em toda a minha vida. Meus colegas na universidade, nos mais variados cursos, eram pessoas como eu mesma, que superavam as etapas de aquisição de saberes com muito custo e sacrifício. Os cientistas que conheci variavam entre pessoas absolutamente tímidas e gentis e alguns narcisistas bem exibicionistas. Mas nenhum deles era gratuitamente grosseiro, insensível ou impermeável aos recursos estilísticos da linguagem.

 

Conheci pessoas arrogantes e sádicas ocupando cargos de encarregados e gerentes nas fábricas que trabalhei, tanto quanto nas universidades que frequentei e nas faculdades em que lecionei. E nem mesmo a convivência com pessoas incríveis conseguia humanizar o trato desses “sociopatas” (aspas porque não sou a pessoa indicada para diagnosticar essas condições).

 

O anti-intelectualismo e o deboche do conhecimento que caracterizam o cidadão médio dos Estados Unidos são constantemente alimentados pelas personagens estereotipadas da indústria do entretenimento. Em uma sociedade em que a religião interfere no currículo científico das escolas e a maior parte da população não acredita nos principais paradigmas físico-biológicos de compreensão do mundo ao nosso redor, isso não é de estranhar. A indústria do entretenimento vive de reforçar os estereótipos que confortam seu público, é isso que garante sua rentabilidade.

 

Pena que exportem seu medíocre senso comum junto com suas séries para o resto de nós…

O PUNITIVISMO NOSSO DE CADA DIA

16 jan

Vivemos em um país violento. Para além da dimensão simbólica representada pela linguagem agressiva e excludente e pela repressão social de cunho religioso e estatal, a violência física nos rodeia cotidianamente. E elaboramos relativizações de todos os tipos para conseguir sobreviver em meio a esse ambiente malsão e insalubre (se me desculpam a redundância).

 

Os recentes massacres de prisioneiros, que envolveram vários presídios amazônicos, esbarraram na indiferença de uma boa parte da população, quando não no júbilo escancarado dos partidários do hamurábico slogan “bandido bom é bandido morto”. Lamentavelmente, o sensacionalismo das coberturas televisivas, que sacrificam a qualidade da análise em prol da procura desbragada por audiência, não ajudou em nada a melhorar o clima de ódio que nos rodeia. Até deputados (de sanidade duvidosa) comemoraram a morte de outros seres que não consideram humanos.

 

Andei “dando tratos à bola” pensando de onde vem tanta desumanização. Lá pelas tantas, lembrei-me do padre jesuíta Jorge Benci e seu Economia cristã dos senhores no governo de seus escravos e das discussões na disciplina de Brasil I com Silvia Hunold Lara, Brasil II com Sidney Chalhoub e História Econômica do Brasil com José Roberto do Amaral Lapa, no fim dos anos 80, quando eu cursava minha graduação na UNICAMP. E ainda estou tentando organizar as ideias que ora exponho a vocês.

 

A obra de Jorge Benci data da primeira década dos anos 1700 e define as obrigações dos proprietários cristãos de escravos naquele Brasil colonial. Assim como seu colega Ribeiro Rocha e a ortodoxia católica da época, o padre Benci defende que os africanos estão sendo escravizados para purgar seus pecados originais, seu paganismo e seu primitivismo e que é dever dos senhores convertê-los à fé católica para salvar suas almas. Nesse sentido, define um conjunto de deveres essenciais aos senhores cristãos de escravos.

 

No Discurso III, Benci disserta longamente sobre o papel e o caráter dos castigos no mundo cristão e na escravidão em particular. A ideia de que castigo deve ser justo e exemplar, que o escravo tem que saber exatamente porque está sendo punido, que é necessário às vezes perdoar faltas leves para mostrar-se magnanimamente misericordioso e, assim, pedagogicamente ensinar sobre o cristianismo, que a tortura e as sevícias não podem fazer parte do castigo, que jamais se deve castigar quando não tenha havido falta ou erro. Açoites e trabalhos devem ser considerados castigos “justos” (aspas minhas).

 

Essa mentalidade do “castigo justo” acompanhou nossa sociedade século XIX adentro até o Segundo Reinado, quando escravos que considerassem um castigo desmedido e injusto atacavam seus senhores e corriam a colocar-se sob a mercê do Imperador, porque acreditavam que as galés imperiais seriam menos horríveis que o arbítrio dos senhores locais. Isso em uma relação de poder já de por si calcada nas mais variadas formas de violência desde a captura, passando pelo tráfico, a venda e a posterior exploração de seres humanos, que não eram vistos como tais.

 

Mas não devemos esquecer que essa é uma sociedade violenta desde seu âmago. Esses “senhores” espancavam seus próprios filhos com palmatórias de madeira como forma corriqueira de punição e assassinavam esposas e filhas se considerassem que sua “honra” estava em jogo. E ao confessar-se nas capelas, eram perdoados pelos representantes e propagandistas de uma religião punitivista e vingativa.

 

O cristianismo herdou do Judaísmo, e das outras religiões desde Hamurábi, essas noções de pecado, punição e vingança. O deus do Antigo Testamento é um genocida convicto e a trajetória das ideias cristãs na Europa e no Oriente Médio estão repletas de fogueiras, torturas e chacinas. O suplício dos Távoras em Portugal, a noite de São Bartolomeu na França, as cruzadas contra os albigenses e os muçulmanos e a sanha da Santa Inquisição contra os cristãos novos são exemplos mais do que comprovados da ausência de misericórdia em uma religião que exalta alguém que a defendia.

 

Não é de estranhar que a dubiedade desse discurso que exalta um Jesus de amor, enquanto cultua a vingança e o castigo, gerasse sociedades esquizofrenicamente organizadas em que todo mundo se acredita bom porque é cristão, enquanto suplicia aqueles que não considera como seus iguais. A desumanização está implícita na ambiguidade das mentes cristãs. E é esse tipo de educação e de tradição religiosa que gera a dicotomia entre “cidadãos de bem” e “bandidos”.

 

Nesse sentido, a bandidagem tem cor e classe social, assim como os “do bem” compartilham identidades ideológicas bem definidas. Os deputados da bancada da bala não surgiram por geração espontânea e seu discurso encontra eco em largas camadas da população porque as raízes históricas da desumanização estão definitivamente imbricadas com as tradições religiosas que confortam e dão identidade a esses cidadãos.

 

Não é de estranhar que os próprios prisioneiros, ao serem confinados nas cadeias, tenham criado seus códigos de conduta e procedam da mesma maneira punitivista que as autoridades que os encarceraram. E tome bíblia para justificar tanta barbárie…

 

 

SERÁ LULA POPULISTA?

16 jan

Estamos vivendo em tempos “interessantes” (e espero que entendam que essas aspas estão totalmente carregadas de ironia) em que a mentira mais deslavada passou a ser chamada de pós-verdade e o público opta por acreditar no que lhe convém, independente da realidade. Não se trata apenas do relativismo pós-moderno, há também toda uma tendência a confundir opiniões com fatos e liberdade de expressão com salvo-conduto para o ódio. Nesse sentido, as palavras e conceitos perdem seus significados originais e passam a ser usados até como xingamento, sem que quem os usa sequer entenda o que significam.

 

O jornalismo de última categoria, que assola emissoras de televisão e semanários venenosos, vem chamando Luís Inácio da Silva, o ex-presidente Lula, de populista e para a turba ignara de aldeões com tochas isso passou a ser um xingamento e um defeito. Nem vou entrar no mérito da questão do anacronismo de pensar o populismo fora do contexto da primeira metade do século XX, seria pedir demais que os jornalistas e o público leigo tivessem a capacidade de entender a temporalidade dos conceitos. Estamos rodeados de adjetivações despropositadas, deslocadas no tempo e no espaço, popularizadas por indivíduos com agendas políticas que atropelam e ignoram as especificidades da História e das sociedades.

 

O que me proponho neste breve texto é perguntar: será que o Lula pode mesmo ser considerado populista? Abstraindo o anacronismo e o preconceito, as atitudes do ex-presidente podem ser consideradas demagogicamente manipuladoras? Quem define a fronteira entre o popular e o populista?

 

Já de início esclareço que a minha abordagem não pretende adivinhar as intenções do ex-presidente, não tenho o poder “oracular” de quem sai atribuindo aos outros os próprios defeitos. Não me cabe entrar no mérito das adivinhações jornalísticas sobre como Lula pensa ou sente. Meu objetivo é uma análise do lugar social onde as ações acontecem e do pertencimento classista.

 

Nesse sentido, eu não apenas considero impossível Lula ser populista, como ainda me pergunto se as pessoas que repetem ad nauseam esse tipo de afirmação, sequer sabem do que estão falando. O passado de Lula é público e notório e ele jamais negou suas origens, sua trajetória social e política melhorou seu padrão de vida, mas não parece ter mudado seus gostos simples. Basta ver que em várias décadas de vida pública, o ex-presidente ainda continua torcendo pelo mesmo time de futebol e apreciando os mesmos divertimentos que os esnobes denominariam como “de classe C”.

 

Lula parece muito mais à vontade quando em meio a pessoas simples, com origens similares à sua, embora não se “avexe” de frequentar os ambientes dos poderosos quando seu papel político assim requer. Seus modos simples e sua oratória despretensiosa não são poses, não foram cuidadosamente estudadas e construídas para parecer algo que ele não é. Lula é, de fato, um retirante que se tornou operário, entrou para o sindicato, e ajudou a fundar um partido pelo qual foi eleito deputado federal e presidente da República, em uma trajetória de quase quatro décadas de vida pública.

 

Dito assim parece simples, mas não é, em um país que cultiva a “cordialidade” desde que cada um “saiba seu lugar”, a trajetória de Lula é uma ofensa imperdoável ao status quo, bem como suas atitudes são incompreensíveis para quem nunca foi pobre. Daí que os meios privilegiados não consigam entender seu comportamento e seu projeto de país e o julguem a partir de sua própria centenária hipocrisia. Percebem em Lula o que chamam de populismo, corrupção e demagogia porque é só o que enxergam ao olhar-se ao espelho e não conseguem conceber que pessoas provenientes de outros meios sociais possam apresentar comportamentos genuínos de simplicidade, sem que isso seja afetação ou fingimento.

 

E aí cabe aquela máxima de que não vemos a realidade como é e sim como somos. Eu me reconheço em Lula porque cresci em um lar operário e posso entender sua fascinação por botecos, futebol, churrascos e divertimentos simples. Posso entender seu projeto de distribuição de renda porque cresci em um meio comunista, com ideias muito mais radicais que as dele.

 

É nesse sentido que o prefeito recentemente eleito de São Paulo, grotescamente fantasiado de gari, fingindo limpar ruas que já haviam sido limpas previamente, em uma demonstração do mais obsoleto marketing “a la Jânio” não desperta a indignação dos seus congêneres e o Lula, de bermuda e chinelo em um churrasco com amigos parece uma ofensa pessoal. Qual dos dois comportamentos poderia ser considerado hipócrita e demagógico? Na resposta a essa questão se acumulam séculos de preconceito social e visões de mundo opostas.

 

Outro argumento que salta da boca dos críticos é a afirmação de que as políticas de reparação social são populistas porque arrebanham votos. Confundem o projeto de redistribuição de renda e integração das populações periféricas (amplamente respeitado e premiado no resto do mundo) com o clientelismo praticado largamente por seus próprios caudilhos. Confundem respeito com cabresto e depois não sabem o porquê de os considerarmos tão ignaros.

 

A mídia golpista e entreguista martela ininterruptamente o nonsense dessas críticas superficiais e sem fatos que as comprovem e o discurso de ódio se espalha até mesmo entre alguns dos pobres que foram beneficiários do projeto de país defendido por Lula.  Uma pena imperdoável…

 

E já vou me antecipar à crítica dos leitores que não conseguem perceber a ironia e ir além da superfície de um texto. Sim, eu evitei entrar no mérito dos pensamentos e das intenções do Lula, mas não fiz o mesmo com seus algozes. E foi proposital.

 

Eu nunca fui formalmente apresentada ao Lula ou tive ocasião de degustar uma cerveja em sua companhia, consertando o mundo a partir da mesa de um boteco, por isso não posso arvorar-me em sua porta-voz. Mas eu convivo diariamente com as pessoas que o atacam e sei como pensam e como sentem, sei da inveja que os corrói, do ressentimento de classe que os assalta quando percebem que seus empregados e funcionários podem vir a ter um mínimo de chance de frequentar o mesmo espaço universitário que os seus filhos. Sei principalmente, e isso sentido na própria pele durante muitos anos, da ignorância abissal e da cegueira social que os impede de perceber a nós (“os outros”) como seres humanos tal e qual.

 

E é por isso que eu digo que não considero Lula um populista, e sim um político genuinamente popular. Sobre os escândalos que o cercam, jamais vi a menor evidência ou prova concreta que pudesse ser usada perante um tribunal honesto e imparcial (se é que esse tipo de tribunal existe). Sou uma pessoa instruída o suficiente para saber que opiniões e convicções não servem nem como fatos e nem como argumentos, por isso deixo bem clara a filiação do meu ponto de vista. E vocês?

A DISPUTA PELA NARRATIVA

10 jan

O ano de 2016 já vai tarde e não vai deixar saudades em mais de um sentido. Perdemos pessoas queridas, companheiros de viagem, e o nosso inesquecível camarada Biscoito, que nos humanizou durante dezesseis anos. Perdemos a democracia na imolação simbólica de uma presidenta, legalmente eleita, que sempre foi de uma honestidade e lealdade a toda prova, e nossa sociedade perdeu a vergonha na cara de vez, abrindo passo à barbárie.

 

2016 foi o ano em que, pela primeira vez desde que desembarquei no Brasil e fiz desta terra meu lar, perdi o medo da rua e me fiz pública na defesa dos ideais que sempre acalentei. Empunhei um banner a favor da descriminalização do aborto e levei no peito minha crença incondicional na defesa da democracia. Perdi todas essas batalhas, mas isso já vem desde a minha infância, e estou mais do que acostumada a acumular derrotas.

 

Quando a situação política começou a deteriorar-se de vez, meu marido e eu resolvemos que não podíamos mais continuar como meros expectadores da tragédia e começamos, mesmo não sendo petistas, a participar do combate ao golpe que se desenhava. Os textos que publiquei neste blog e a participação no livro dos Historiadores pela Democracia foram parte de uma militância maior. Meu marido passou a frequentar reuniões na periferia de Campinas, promovidas pelo encontro de um grupo de advogados independentes com um grupo de militantes históricos dentro do PT, e eu fui a reboque. A ideia dessas reuniões era explicar à população o que estava encoberto pelo discurso moralista contra a corrupção e a balela das “pedaladas”.

 

Devo dizer que me emocionei várias vezes ao encontrar militantes dos movimentos populares e lideranças locais dignas e idealistas. Conheci pessoas que respeito e admiro e com quem tive a honra de marchar nas mirradas passeatas que conseguimos promover contra o golpe e a favor da democracia. Não me acanho de dizer que nesses momentos reencontrei aspectos do PT que conhecia e admirava em outras épocas, mesmo sendo comunista e tendo minhas ressalvas às soluções de conciliação.

 

Uma dessas reuniões na periferia foi abrilhantada pela presença de uma incrível família de militantes do movimento negro, cuja matriarca de mais de oitenta anos de idade compareceu perguntando como poderia ajudar a defender a democracia. E como ela, conheci várias senhoras lutadoras extremamente dignas e portadoras de uma legitimidade que me fez sentir pequena e jovem demais. Espero ainda chegar a crescer para ser um mínimo como elas.

 

Nessa mesma reunião esteve presente um quadro importante do PT local, por então radicado no governo em Brasília, e que trazia os informes sobre aquela medonha votação de abril. Além do óbvio, que todos nós cobrávamos, que era a constatação de que a política de alianças havia falhado, esperávamos alguma diretriz para a resistência ao golpe. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que a preocupação do diretório nacional era muito maior com a “narrativa” do que com a resistência propriamente dita.

 

Para o Campo Majoritário, a praga que vem assolando o partido desde que se chamava Articulação, Dilma não era prioridade, apenas um peão a ser sacrificado na disputa pela hegemonia narrativa. Estávamos ali para debater as questões jurídicas e históricas que caracterizavam o golpe, mas para o cinismo de alguns desses quadros (que nem presentes estavam) o importante era “colar a narrativa de golpe” na leitura social e não lutar contra o golpe como todos nós queríamos. Tentamos e tentamos dialogar com a sociedade, mas fomos constantemente sabotados pelo próprio partido, que considerava sua sobrevivência nas instâncias do poder como sendo mais importante que sua história e seus militantes.

 

Todos sabem o que aconteceu depois, a Constituição foi rasgada e descartada, um golpe de estado parlamentar totalmente chinfrim foi deflagrado e estamos amargando um governo ilegítimo que mais parece uma convenção de vilões de HQ’s. Vez por outra reencontro aqueles gatos pingados que ainda mantém a dignidade nas ruínas de um partido que se perdeu de si, geralmente em atos públicos de repúdio à violência de gênero e de defesa dos mesmos ideais que nos aproximaram de início. Acalentando o sonho de refundar, a partir das bases, o sonho socialista que tantos de nós compartilhamos, somos náufragos em uma sociedade que valoriza o virtual, o efêmero, o pragmático e a “narrativa”.

 

A cada dia que passa, vendo as esquerdas brasileiras (e planetárias) muito mais preocupadas com “colar narrativas” do que combater essa onda avassaladora de conservadorismo que nos arrasta, fico cada vez mais perplexa. Dá a impressão de que um meme de impacto no Facebook ou uma frase de efeito no Twitter são mais importantes que o diálogo social e as estratégias necessárias para manter a dignidade na luta. Ao abrir meu computador todas as manhãs, sou tomada por uma sensação de fastio ao constatar que anarquistas, trotskistas, leninistas e até alguns dinossauros stalinistas estão tornando-se meras caricaturas do que já foram, caçando likes e shares.

 

E o mundo virtual tornou-se um tribunal do falso moralismo, em que uns e outros esbanjam dedos apontados para desviar de si o ônus da ação social.

 

Se não gosto de funk carioca, sou acusada de elitismo, se defendo a democracia, sou insistentemente lembrada de que os pobres não tem acesso a ela, se discuto a situação do país a partir de uma perspectiva mais elaborada, sou rechaçada por “intelectualismo”. Mas um meme absolutamente tosco  afirma categoricamente que estamos em meio a uma “guerra civil”, enquanto mostra a ação policial em um uma favela e é um sucesso. A disputa demagógica pela narrativa rasamente nivelada transformou o terrorismo de estado em “guerra civil”?

 

Não me levem a mal, mas o que vemos diariamente na ação de prefeitos, governadores, golpistas ilegítimos e forças policiais várias, não passa do mais reles terrorismo de estado, prática comum desde Canudos, passando pelas revoltas republicanas da Vacina, da Chibata, pela repressão às greves das primeiras décadas do século XX, pela ação de Vargas contra os mais variados setores sociais, pela tortura e assassinatos covardes de 1964 e pela perseguição aos movimentos sociais na atualidade. Guerra Civil implicaria em que os perseguidos tomassem em armas e se defendessem e que o resto de nós tomasse partido e a sociedade se dividisse em combates aqui fora da internet, no mundo real. Guerra Civil não é o meganha jogando spray de pimenta na professora e sim os alunos se esfaqueando entre si em plena sala de aula, enquanto uns defendem o meganha e outros a professora.

 

Não devemos usar em vão as palavras. As palavras tem poder e quando são invocadas para formalizar uma realidade que não representam, podem tornar-se as precursoras do caos. De nada adianta reclamar das “pós-verdades” enquanto se “cola” narrativas apocalípticas.

 

Sofremos um golpe de estado parlamentar, cujo discurso foi articulado nas instâncias da mídia e legitimado por um Judiciário assaz interessado nos resultados para manter a equanimidade. Não precisamos de “narrativas” e sim de união e resistência, precisamos de uma pauta comum para retomar as lutas e refundar nossos sonhos. Não queremos memes apocalípticos, queremos a dignidade dos velhos militantes sendo respeitada.

 

Ao disputar a hegemonia da narrativa, privilegiando o discurso em detrimento da luta que nos chama à realidade, as esquerdas correm o risco de perder até isso e tornar-se coadjuvantes subalternas na realidade construída por quem já domina esses discursos. Precisamos sair das cordas e retomar a ofensiva, mas precisamos de menos drama e mais trabalho duro, menos “vestais” do esquerdismo e mais “ombros amigos” dispostos ao combate, precisamos parar de discutir e disputar para ver quem é a esquerda legítima e juntar nossas forças porque o inimigo é muito maior. E isso para ontem.