A DISPUTA PELA NARRATIVA

10 jan

O ano de 2016 já vai tarde e não vai deixar saudades em mais de um sentido. Perdemos pessoas queridas, companheiros de viagem, e o nosso inesquecível camarada Biscoito, que nos humanizou durante dezesseis anos. Perdemos a democracia na imolação simbólica de uma presidenta, legalmente eleita, que sempre foi de uma honestidade e lealdade a toda prova, e nossa sociedade perdeu a vergonha na cara de vez, abrindo passo à barbárie.

 

2016 foi o ano em que, pela primeira vez desde que desembarquei no Brasil e fiz desta terra meu lar, perdi o medo da rua e me fiz pública na defesa dos ideais que sempre acalentei. Empunhei um banner a favor da descriminalização do aborto e levei no peito minha crença incondicional na defesa da democracia. Perdi todas essas batalhas, mas isso já vem desde a minha infância, e estou mais do que acostumada a acumular derrotas.

 

Quando a situação política começou a deteriorar-se de vez, meu marido e eu resolvemos que não podíamos mais continuar como meros expectadores da tragédia e começamos, mesmo não sendo petistas, a participar do combate ao golpe que se desenhava. Os textos que publiquei neste blog e a participação no livro dos Historiadores pela Democracia foram parte de uma militância maior. Meu marido passou a frequentar reuniões na periferia de Campinas, promovidas pelo encontro de um grupo de advogados independentes com um grupo de militantes históricos dentro do PT, e eu fui a reboque. A ideia dessas reuniões era explicar à população o que estava encoberto pelo discurso moralista contra a corrupção e a balela das “pedaladas”.

 

Devo dizer que me emocionei várias vezes ao encontrar militantes dos movimentos populares e lideranças locais dignas e idealistas. Conheci pessoas que respeito e admiro e com quem tive a honra de marchar nas mirradas passeatas que conseguimos promover contra o golpe e a favor da democracia. Não me acanho de dizer que nesses momentos reencontrei aspectos do PT que conhecia e admirava em outras épocas, mesmo sendo comunista e tendo minhas ressalvas às soluções de conciliação.

 

Uma dessas reuniões na periferia foi abrilhantada pela presença de uma incrível família de militantes do movimento negro, cuja matriarca de mais de oitenta anos de idade compareceu perguntando como poderia ajudar a defender a democracia. E como ela, conheci várias senhoras lutadoras extremamente dignas e portadoras de uma legitimidade que me fez sentir pequena e jovem demais. Espero ainda chegar a crescer para ser um mínimo como elas.

 

Nessa mesma reunião esteve presente um quadro importante do PT local, por então radicado no governo em Brasília, e que trazia os informes sobre aquela medonha votação de abril. Além do óbvio, que todos nós cobrávamos, que era a constatação de que a política de alianças havia falhado, esperávamos alguma diretriz para a resistência ao golpe. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que a preocupação do diretório nacional era muito maior com a “narrativa” do que com a resistência propriamente dita.

 

Para o Campo Majoritário, a praga que vem assolando o partido desde que se chamava Articulação, Dilma não era prioridade, apenas um peão a ser sacrificado na disputa pela hegemonia narrativa. Estávamos ali para debater as questões jurídicas e históricas que caracterizavam o golpe, mas para o cinismo de alguns desses quadros (que nem presentes estavam) o importante era “colar a narrativa de golpe” na leitura social e não lutar contra o golpe como todos nós queríamos. Tentamos e tentamos dialogar com a sociedade, mas fomos constantemente sabotados pelo próprio partido, que considerava sua sobrevivência nas instâncias do poder como sendo mais importante que sua história e seus militantes.

 

Todos sabem o que aconteceu depois, a Constituição foi rasgada e descartada, um golpe de estado parlamentar totalmente chinfrim foi deflagrado e estamos amargando um governo ilegítimo que mais parece uma convenção de vilões de HQ’s. Vez por outra reencontro aqueles gatos pingados que ainda mantém a dignidade nas ruínas de um partido que se perdeu de si, geralmente em atos públicos de repúdio à violência de gênero e de defesa dos mesmos ideais que nos aproximaram de início. Acalentando o sonho de refundar, a partir das bases, o sonho socialista que tantos de nós compartilhamos, somos náufragos em uma sociedade que valoriza o virtual, o efêmero, o pragmático e a “narrativa”.

 

A cada dia que passa, vendo as esquerdas brasileiras (e planetárias) muito mais preocupadas com “colar narrativas” do que combater essa onda avassaladora de conservadorismo que nos arrasta, fico cada vez mais perplexa. Dá a impressão de que um meme de impacto no Facebook ou uma frase de efeito no Twitter são mais importantes que o diálogo social e as estratégias necessárias para manter a dignidade na luta. Ao abrir meu computador todas as manhãs, sou tomada por uma sensação de fastio ao constatar que anarquistas, trotskistas, leninistas e até alguns dinossauros stalinistas estão tornando-se meras caricaturas do que já foram, caçando likes e shares.

 

E o mundo virtual tornou-se um tribunal do falso moralismo, em que uns e outros esbanjam dedos apontados para desviar de si o ônus da ação social.

 

Se não gosto de funk carioca, sou acusada de elitismo, se defendo a democracia, sou insistentemente lembrada de que os pobres não tem acesso a ela, se discuto a situação do país a partir de uma perspectiva mais elaborada, sou rechaçada por “intelectualismo”. Mas um meme absolutamente tosco  afirma categoricamente que estamos em meio a uma “guerra civil”, enquanto mostra a ação policial em um uma favela e é um sucesso. A disputa demagógica pela narrativa rasamente nivelada transformou o terrorismo de estado em “guerra civil”?

 

Não me levem a mal, mas o que vemos diariamente na ação de prefeitos, governadores, golpistas ilegítimos e forças policiais várias, não passa do mais reles terrorismo de estado, prática comum desde Canudos, passando pelas revoltas republicanas da Vacina, da Chibata, pela repressão às greves das primeiras décadas do século XX, pela ação de Vargas contra os mais variados setores sociais, pela tortura e assassinatos covardes de 1964 e pela perseguição aos movimentos sociais na atualidade. Guerra Civil implicaria em que os perseguidos tomassem em armas e se defendessem e que o resto de nós tomasse partido e a sociedade se dividisse em combates aqui fora da internet, no mundo real. Guerra Civil não é o meganha jogando spray de pimenta na professora e sim os alunos se esfaqueando entre si em plena sala de aula, enquanto uns defendem o meganha e outros a professora.

 

Não devemos usar em vão as palavras. As palavras tem poder e quando são invocadas para formalizar uma realidade que não representam, podem tornar-se as precursoras do caos. De nada adianta reclamar das “pós-verdades” enquanto se “cola” narrativas apocalípticas.

 

Sofremos um golpe de estado parlamentar, cujo discurso foi articulado nas instâncias da mídia e legitimado por um Judiciário assaz interessado nos resultados para manter a equanimidade. Não precisamos de “narrativas” e sim de união e resistência, precisamos de uma pauta comum para retomar as lutas e refundar nossos sonhos. Não queremos memes apocalípticos, queremos a dignidade dos velhos militantes sendo respeitada.

 

Ao disputar a hegemonia da narrativa, privilegiando o discurso em detrimento da luta que nos chama à realidade, as esquerdas correm o risco de perder até isso e tornar-se coadjuvantes subalternas na realidade construída por quem já domina esses discursos. Precisamos sair das cordas e retomar a ofensiva, mas precisamos de menos drama e mais trabalho duro, menos “vestais” do esquerdismo e mais “ombros amigos” dispostos ao combate, precisamos parar de discutir e disputar para ver quem é a esquerda legítima e juntar nossas forças porque o inimigo é muito maior. E isso para ontem.

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2 Respostas to “A DISPUTA PELA NARRATIVA”

  1. Ytallo Ennos janeiro 14, 2017 às 7:36 pm #

    Parabéns, comecei a acompanhar seu trabalho agora, mas já vi que há muito conteúdo bacana e uma visão lúcida dos assuntos.

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