O PUNITIVISMO NOSSO DE CADA DIA

16 jan

Vivemos em um país violento. Para além da dimensão simbólica representada pela linguagem agressiva e excludente e pela repressão social de cunho religioso e estatal, a violência física nos rodeia cotidianamente. E elaboramos relativizações de todos os tipos para conseguir sobreviver em meio a esse ambiente malsão e insalubre (se me desculpam a redundância).

 

Os recentes massacres de prisioneiros, que envolveram vários presídios amazônicos, esbarraram na indiferença de uma boa parte da população, quando não no júbilo escancarado dos partidários do hamurábico slogan “bandido bom é bandido morto”. Lamentavelmente, o sensacionalismo das coberturas televisivas, que sacrificam a qualidade da análise em prol da procura desbragada por audiência, não ajudou em nada a melhorar o clima de ódio que nos rodeia. Até deputados (de sanidade duvidosa) comemoraram a morte de outros seres que não consideram humanos.

 

Andei “dando tratos à bola” pensando de onde vem tanta desumanização. Lá pelas tantas, lembrei-me do padre jesuíta Jorge Benci e seu Economia cristã dos senhores no governo de seus escravos e das discussões na disciplina de Brasil I com Silvia Hunold Lara, Brasil II com Sidney Chalhoub e História Econômica do Brasil com José Roberto do Amaral Lapa, no fim dos anos 80, quando eu cursava minha graduação na UNICAMP. E ainda estou tentando organizar as ideias que ora exponho a vocês.

 

A obra de Jorge Benci data da primeira década dos anos 1700 e define as obrigações dos proprietários cristãos de escravos naquele Brasil colonial. Assim como seu colega Ribeiro Rocha e a ortodoxia católica da época, o padre Benci defende que os africanos estão sendo escravizados para purgar seus pecados originais, seu paganismo e seu primitivismo e que é dever dos senhores convertê-los à fé católica para salvar suas almas. Nesse sentido, define um conjunto de deveres essenciais aos senhores cristãos de escravos.

 

No Discurso III, Benci disserta longamente sobre o papel e o caráter dos castigos no mundo cristão e na escravidão em particular. A ideia de que castigo deve ser justo e exemplar, que o escravo tem que saber exatamente porque está sendo punido, que é necessário às vezes perdoar faltas leves para mostrar-se magnanimamente misericordioso e, assim, pedagogicamente ensinar sobre o cristianismo, que a tortura e as sevícias não podem fazer parte do castigo, que jamais se deve castigar quando não tenha havido falta ou erro. Açoites e trabalhos devem ser considerados castigos “justos” (aspas minhas).

 

Essa mentalidade do “castigo justo” acompanhou nossa sociedade século XIX adentro até o Segundo Reinado, quando escravos que considerassem um castigo desmedido e injusto atacavam seus senhores e corriam a colocar-se sob a mercê do Imperador, porque acreditavam que as galés imperiais seriam menos horríveis que o arbítrio dos senhores locais. Isso em uma relação de poder já de por si calcada nas mais variadas formas de violência desde a captura, passando pelo tráfico, a venda e a posterior exploração de seres humanos, que não eram vistos como tais.

 

Mas não devemos esquecer que essa é uma sociedade violenta desde seu âmago. Esses “senhores” espancavam seus próprios filhos com palmatórias de madeira como forma corriqueira de punição e assassinavam esposas e filhas se considerassem que sua “honra” estava em jogo. E ao confessar-se nas capelas, eram perdoados pelos representantes e propagandistas de uma religião punitivista e vingativa.

 

O cristianismo herdou do Judaísmo, e das outras religiões desde Hamurábi, essas noções de pecado, punição e vingança. O deus do Antigo Testamento é um genocida convicto e a trajetória das ideias cristãs na Europa e no Oriente Médio estão repletas de fogueiras, torturas e chacinas. O suplício dos Távoras em Portugal, a noite de São Bartolomeu na França, as cruzadas contra os albigenses e os muçulmanos e a sanha da Santa Inquisição contra os cristãos novos são exemplos mais do que comprovados da ausência de misericórdia em uma religião que exalta alguém que a defendia.

 

Não é de estranhar que a dubiedade desse discurso que exalta um Jesus de amor, enquanto cultua a vingança e o castigo, gerasse sociedades esquizofrenicamente organizadas em que todo mundo se acredita bom porque é cristão, enquanto suplicia aqueles que não considera como seus iguais. A desumanização está implícita na ambiguidade das mentes cristãs. E é esse tipo de educação e de tradição religiosa que gera a dicotomia entre “cidadãos de bem” e “bandidos”.

 

Nesse sentido, a bandidagem tem cor e classe social, assim como os “do bem” compartilham identidades ideológicas bem definidas. Os deputados da bancada da bala não surgiram por geração espontânea e seu discurso encontra eco em largas camadas da população porque as raízes históricas da desumanização estão definitivamente imbricadas com as tradições religiosas que confortam e dão identidade a esses cidadãos.

 

Não é de estranhar que os próprios prisioneiros, ao serem confinados nas cadeias, tenham criado seus códigos de conduta e procedam da mesma maneira punitivista que as autoridades que os encarceraram. E tome bíblia para justificar tanta barbárie…

 

 

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4 Respostas to “O PUNITIVISMO NOSSO DE CADA DIA”

  1. Douglas janeiro 16, 2017 às 9:10 pm #

    Boa tarde, professora! Ótimo texto, um dos melhores que li sobre o assunto. Obrigado por compartilhar seu conhecimento em história aqui na internet, é de grande ajuda para estudantes e contribui para elucidar questões que o senso comum distorce =).
    Antes de mais nada, cabe avisar que texto está aparecendo duplicado na postagem, não sei se é só aqui ou se está assim mesmo…

    Sobre o assunto, parece-me que a internet tem papel decisivo na relativização de atrocidades como essas que ocorreram recentemente nos presídios brasileiros. A distância e o anonimato com que se veicula no meio virtual opiniões que, pessoalmente, receberiam críticas e olhares feios, garante certa comodidade contra interlocutores mais críticos. Além disso, tem se propagado uma visão que ridiculariza a justiça social, acusando aqueles que acreditam nela de incorrer em exagero ou paranoia. Criou-se até um apelido para os que defendem pautas relacionadas, o “social justice warrior”. Esse anti-politicamente correto (na falta de uma expressão melhor), propagado através da internet por parte de canais da direita, tem feito sucesso e busca tornar aceitáveis perspectivas homofóbicas, racistas e cheias de preconceito no geral, numa forma de, na cabeça de seus adeptos, combater a assim denominada “ditadura” do politicamente correto. Não sei se a senhora concorda; talvez eu esteja sendo muito pessimista em relação ao papel das novas tecnologias no debate público…

    De qualquer forma, abraço e uma ótima semana para a senhora! =)

    • annagicelle janeiro 17, 2017 às 12:22 am #

      Obrigada por seu excelente comentário, Douglas 🙂 Já corrigi o erro de postagem, obrigada por avisar 🙂

  2. Paulo Pinheiro Machado janeiro 21, 2017 às 10:52 pm #

    Ótima análise. Para além da violência tradicional brasileira existe a violência cristã em geral.

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