SERÁ LULA POPULISTA?

16 jan

Estamos vivendo em tempos “interessantes” (e espero que entendam que essas aspas estão totalmente carregadas de ironia) em que a mentira mais deslavada passou a ser chamada de pós-verdade e o público opta por acreditar no que lhe convém, independente da realidade. Não se trata apenas do relativismo pós-moderno, há também toda uma tendência a confundir opiniões com fatos e liberdade de expressão com salvo-conduto para o ódio. Nesse sentido, as palavras e conceitos perdem seus significados originais e passam a ser usados até como xingamento, sem que quem os usa sequer entenda o que significam.

 

O jornalismo de última categoria, que assola emissoras de televisão e semanários venenosos, vem chamando Luís Inácio da Silva, o ex-presidente Lula, de populista e para a turba ignara de aldeões com tochas isso passou a ser um xingamento e um defeito. Nem vou entrar no mérito da questão do anacronismo de pensar o populismo fora do contexto da primeira metade do século XX, seria pedir demais que os jornalistas e o público leigo tivessem a capacidade de entender a temporalidade dos conceitos. Estamos rodeados de adjetivações despropositadas, deslocadas no tempo e no espaço, popularizadas por indivíduos com agendas políticas que atropelam e ignoram as especificidades da História e das sociedades.

 

O que me proponho neste breve texto é perguntar: será que o Lula pode mesmo ser considerado populista? Abstraindo o anacronismo e o preconceito, as atitudes do ex-presidente podem ser consideradas demagogicamente manipuladoras? Quem define a fronteira entre o popular e o populista?

 

Já de início esclareço que a minha abordagem não pretende adivinhar as intenções do ex-presidente, não tenho o poder “oracular” de quem sai atribuindo aos outros os próprios defeitos. Não me cabe entrar no mérito das adivinhações jornalísticas sobre como Lula pensa ou sente. Meu objetivo é uma análise do lugar social onde as ações acontecem e do pertencimento classista.

 

Nesse sentido, eu não apenas considero impossível Lula ser populista, como ainda me pergunto se as pessoas que repetem ad nauseam esse tipo de afirmação, sequer sabem do que estão falando. O passado de Lula é público e notório e ele jamais negou suas origens, sua trajetória social e política melhorou seu padrão de vida, mas não parece ter mudado seus gostos simples. Basta ver que em várias décadas de vida pública, o ex-presidente ainda continua torcendo pelo mesmo time de futebol e apreciando os mesmos divertimentos que os esnobes denominariam como “de classe C”.

 

Lula parece muito mais à vontade quando em meio a pessoas simples, com origens similares à sua, embora não se “avexe” de frequentar os ambientes dos poderosos quando seu papel político assim requer. Seus modos simples e sua oratória despretensiosa não são poses, não foram cuidadosamente estudadas e construídas para parecer algo que ele não é. Lula é, de fato, um retirante que se tornou operário, entrou para o sindicato, e ajudou a fundar um partido pelo qual foi eleito deputado federal e presidente da República, em uma trajetória de quase quatro décadas de vida pública.

 

Dito assim parece simples, mas não é, em um país que cultiva a “cordialidade” desde que cada um “saiba seu lugar”, a trajetória de Lula é uma ofensa imperdoável ao status quo, bem como suas atitudes são incompreensíveis para quem nunca foi pobre. Daí que os meios privilegiados não consigam entender seu comportamento e seu projeto de país e o julguem a partir de sua própria centenária hipocrisia. Percebem em Lula o que chamam de populismo, corrupção e demagogia porque é só o que enxergam ao olhar-se ao espelho e não conseguem conceber que pessoas provenientes de outros meios sociais possam apresentar comportamentos genuínos de simplicidade, sem que isso seja afetação ou fingimento.

 

E aí cabe aquela máxima de que não vemos a realidade como é e sim como somos. Eu me reconheço em Lula porque cresci em um lar operário e posso entender sua fascinação por botecos, futebol, churrascos e divertimentos simples. Posso entender seu projeto de distribuição de renda porque cresci em um meio comunista, com ideias muito mais radicais que as dele.

 

É nesse sentido que o prefeito recentemente eleito de São Paulo, grotescamente fantasiado de gari, fingindo limpar ruas que já haviam sido limpas previamente, em uma demonstração do mais obsoleto marketing “a la Jânio” não desperta a indignação dos seus congêneres e o Lula, de bermuda e chinelo em um churrasco com amigos parece uma ofensa pessoal. Qual dos dois comportamentos poderia ser considerado hipócrita e demagógico? Na resposta a essa questão se acumulam séculos de preconceito social e visões de mundo opostas.

 

Outro argumento que salta da boca dos críticos é a afirmação de que as políticas de reparação social são populistas porque arrebanham votos. Confundem o projeto de redistribuição de renda e integração das populações periféricas (amplamente respeitado e premiado no resto do mundo) com o clientelismo praticado largamente por seus próprios caudilhos. Confundem respeito com cabresto e depois não sabem o porquê de os considerarmos tão ignaros.

 

A mídia golpista e entreguista martela ininterruptamente o nonsense dessas críticas superficiais e sem fatos que as comprovem e o discurso de ódio se espalha até mesmo entre alguns dos pobres que foram beneficiários do projeto de país defendido por Lula.  Uma pena imperdoável…

 

E já vou me antecipar à crítica dos leitores que não conseguem perceber a ironia e ir além da superfície de um texto. Sim, eu evitei entrar no mérito dos pensamentos e das intenções do Lula, mas não fiz o mesmo com seus algozes. E foi proposital.

 

Eu nunca fui formalmente apresentada ao Lula ou tive ocasião de degustar uma cerveja em sua companhia, consertando o mundo a partir da mesa de um boteco, por isso não posso arvorar-me em sua porta-voz. Mas eu convivo diariamente com as pessoas que o atacam e sei como pensam e como sentem, sei da inveja que os corrói, do ressentimento de classe que os assalta quando percebem que seus empregados e funcionários podem vir a ter um mínimo de chance de frequentar o mesmo espaço universitário que os seus filhos. Sei principalmente, e isso sentido na própria pele durante muitos anos, da ignorância abissal e da cegueira social que os impede de perceber a nós (“os outros”) como seres humanos tal e qual.

 

E é por isso que eu digo que não considero Lula um populista, e sim um político genuinamente popular. Sobre os escândalos que o cercam, jamais vi a menor evidência ou prova concreta que pudesse ser usada perante um tribunal honesto e imparcial (se é que esse tipo de tribunal existe). Sou uma pessoa instruída o suficiente para saber que opiniões e convicções não servem nem como fatos e nem como argumentos, por isso deixo bem clara a filiação do meu ponto de vista. E vocês?

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Uma resposta to “SERÁ LULA POPULISTA?”

  1. elaine reis janeiro 17, 2017 às 4:10 am #

    Me sinto representada nas suas palavras. E, sinceramente, jamais houve cena mais linda no Palácio do Planalto como quando, em 2003, Lula assumiu a presidência.
    E concordo, só quem é ou já foi pobre e quem tem uma mente voltada para o coletivo (pq existem os zilhões de umbigocentristas) é que poderá entender que o que há de genuíno em Lula é a sua gana pela luta em prol do povo e pela equidade social. Os demais continuarão com a visão rasa alá Marco Antônio Vila, que só sabe pulverizar calúnias nas TVs em que tem o infortúnio de participar e posar de “belo, recatado e do lar”.

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