SHELDON, BONES E HOUSE: O CIENTISTA ESTEREOTIPADO COMO ENTRETENIMENTO

16 jan

O Dr. Sheldon Cooper é um físico teórico na comédia estadunidense The Big Bang Theory. É uma personagem composta a partir de um conjunto de características que lembram vagamente os comportamentos do espectro autista, mas sem uma definição precisa que possa ser contrastada com a realidade. Sheldon é grosseiro e insensível, mas ele não faz por mal, apenas é assim.

 

Uma das gags recorrentes quando alguém questiona sua sanidade é “I´m not mad, my Mom got me tested” (se a memória não me trai), que poderia ser traduzido como “eu não sou louco, minha Mãe me levou para ser testado”. A sitcom já se encontra com dez temporadas e, embora Sheldon tenha superado alguns de seus comportamentos mais ultrajantes, ainda apresenta uma sinceridade e um pensamento linear impermeável às figuras de linguagem, que repete as mesmas situações constrangedoras a cada novo episódio. E ele é um gênio brilhante, um menino prodígio em meio a outros cientistas medianos mais humanizados.

 

A Dra. Temperance Brennan, vulgo Bones (apelido que dá nome à série policial estadunidense), é uma antropóloga forense e escritora, que auxilia o FBI a desvendar assassinatos. Sua grosseria e insensibilidade, assim como seu distanciamento emocional, são decorrentes do trauma de ter perdido os pais e ter sido abandonada pelo irmão no sistema de Foster Homes (lares adotivos). Contando com uma dúzia de temporadas, esta série também acompanha o processo de “humanização” de sua protagonista, ao conviver com amigos e amantes menos brilhantes do ponto de vista científico.

 

O Dr. Gregory House é um médico brilhante especializado em diagnóstico de ponta (o que quer que isso queira dizer). Grosseiro, insensível, desbocado, manipulador, a justificativa para seu comportamento ultrajante vem da incapacidade para superar family issues, um acidente que o deixou com dores crônicas e um divórcio mal resolvido. A série (igualmente estadunidense) durou oito temporadas povoadas de lances dramáticos envolvendo drogas, prisões, morte de seres queridos e mesmo assim pouco avançou na humanização da personagem título.

 

Dá para notar um padrão?

 

Roteiristas de séries dos Estados Unidos, quer sejam comédias ou dramas, parecem acreditar que uma inteligência acima dos padrões considerados como “normais” sempre vem acompanhada de uma incapacidade para conectar-se emocionalmente aos outros seres humanos. Daí decorrem os comportamentos grosseiros e insensíveis das personagens ficcionais que meio mundo adora. Será que o público gostaria tanto se deparasse com esse tipo de comportamento ultrajante no mundo real? Tenho minhas dúvidas.

 

O estereótipo do gênio de mente brilhante, mas emocionalmente imaturo e distante parece hoje bem consolidado na Cultura Pop graças a esse tipo de entretenimento, criando expectativas nem sempre plausíveis.

 

Jamais conheci uma pessoa realmente brilhante em toda a minha vida. Meus colegas na universidade, nos mais variados cursos, eram pessoas como eu mesma, que superavam as etapas de aquisição de saberes com muito custo e sacrifício. Os cientistas que conheci variavam entre pessoas absolutamente tímidas e gentis e alguns narcisistas bem exibicionistas. Mas nenhum deles era gratuitamente grosseiro, insensível ou impermeável aos recursos estilísticos da linguagem.

 

Conheci pessoas arrogantes e sádicas ocupando cargos de encarregados e gerentes nas fábricas que trabalhei, tanto quanto nas universidades que frequentei e nas faculdades em que lecionei. E nem mesmo a convivência com pessoas incríveis conseguia humanizar o trato desses “sociopatas” (aspas porque não sou a pessoa indicada para diagnosticar essas condições).

 

O anti-intelectualismo e o deboche do conhecimento que caracterizam o cidadão médio dos Estados Unidos são constantemente alimentados pelas personagens estereotipadas da indústria do entretenimento. Em uma sociedade em que a religião interfere no currículo científico das escolas e a maior parte da população não acredita nos principais paradigmas físico-biológicos de compreensão do mundo ao nosso redor, isso não é de estranhar. A indústria do entretenimento vive de reforçar os estereótipos que confortam seu público, é isso que garante sua rentabilidade.

 

Pena que exportem seu medíocre senso comum junto com suas séries para o resto de nós…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: