O ROMANCE POLICIAL INDICIÁRIO DE CONAN DOYLE E AGATHA CHRISTIE

29 jan

Este texto é o roteiro daquele que será meu último programa na Rádio Noroeste FM e que irá ao ar ao vivo no primeiro sábado de fevereiro. Durante um ano, participei do programa Noroeste em Ação, ao lado de Jerry de Oliveira, falando sobre Literatura e História. Este programa encerra um ciclo importante em minha vida.

 

Talvez por isso tenha reservado um tema que se constitui em uma das grandes paixões literárias de toda a minha vida. Li meu primeiro livro da Agatha Christie com onze anos, chamava-se Convite para um homicídio, e era um dos casos de Miss Marple, desde então tenho lido e relido para mais de quarenta títulos dessa autora e nunca me canso de seu estilo enganosamente simples. Sobre Conan Doyle posso dizer que li suas obras completas na Biblioteca Circulante do SESI durante a minha adolescência (assim como vários títulos de Júlio Verne e Alexandre Dumas).

 

Nos últimos quarenta anos, tenho lido todo tipo de romances policiais (é o que uso quando quero espairecer a mente) desde os da coleção amarela até um ou outro de Dickson Carr e Georges Simenon. Mas jamais encontrei estilos tão impecáveis, embora essencialmente diferentes entre si, que os Doyle e Christie. São meus dois autores favoritos no gênero e, reafirmando o clichê lastimável, aqueles que eu levaria para uma ilha deserta.

 

E passei a admirá-los muito mais ao conhecer a “costura” desse tipo de romance, o modo como sua lógica interna é construída. Isso se deu lá pelos anos 90, quando li o ensaio de Carlo Ginzburg intitulado Sinais: raízes de um paradigma indiciário, constante do livro Mitos, Emblemas, Sinais: Morfologia e História, lançado aqui no Brasil em 1989. Ginzburg já era um velho conhecido desde os tempos da graduação, devido a Os andarilhos do bem e O queijo e os vermes, que mudaram minha visão sobre a análise documental.

 

Nesse ensaio, ele descreve o que desde então passou a ser denominado “o paradigma indiciário”, um modelo de análise da evidência que se baseia em observar e reunir os indícios mais insignificantes para montar a partir deles uma explicação ou argumentação sobre os mais diversos assuntos. Ginzburg parte de três fenômenos intelectuais do século XIX para definir esse paradigma: Morelli (que criou um método para identificar obras de arte falsificadas, observando os detalhes mais insignificantes), Conan Doyle (que desenvolveu a personagem do detetive Sherlock Holmes, cujos feitos na arte da dedução a partir de pequenos nadas tornou-se um modelo para o gênero da ficção) e Freud (que investigava os processos mentais mais íntimos a partir de indícios na fala de seus pacientes). Ginzburg argumenta que esse modelo de análise a partir de indícios influenciou a cultura ocidental e o desenvolvimento de metodologias tão diversas quanto a psicanálise e a antropologia.

 

A ideia de que somos capazes de observar o ambiente e as pessoas e deduzir necessidades e comportamentos a partir de detalhes ínfimos liga-se ao nosso passado pré-histórico de caçadores e coletores. Define várias metodologias científicas, além das descritas pelo autor, como a clínica de diagnóstico e taxonomia. E pode ser encontrada na literatura nos romances policiais.

 

Os detetives que vemos na literatura, no cinema, teatro e televisão seguem esse modelo de perseguir “pistas” e montar com elas a solução de assassinatos e outros crimes. É o mote de toda essa enxurrada de séries de perícia e antropologia forense que surgiram na última década. Mas para várias gerações de leitores, o arquétipo do detetive tem nome e se chama Sherlock Holmes.

 

Devo dizer que sempre me ressenti do modo como Sherlock Holmes ofuscou o impecável C. Auguste Dupin, detetive protagonista de três contos célebres de Edgar Allan Poe (Os crimes da Rua Morgue, O mistério de Marie Rogêt e A carta roubada, todos do início da década de 1840). Onde Dupin era discrição e simplicidade, Holmes era histrionismo e afetação, por isso eu adorava a voz narrativa do Dr. Watson, que o criticava com ironia sutil. Os contos de Poe e de Conan Doyle fizeram as delícias da minha adolescência.

 

Na narrativa embasbacada do Dr. Watson, Holmes era capaz de deduzir origem, profissão, estado civil e bagagem emocional de qualquer pessoa apenas apegando-se à análise detalhes absolutamente insignificantes na roupa, na postura e na fala do interlocutor. Detalhes esses que permaneciam invisíveis ao resto dos mortais, inclusive nós leitores, mas que ajudavam a resolver os casos mais excêntricos e emocionantes. E, para os fãs de cinema, posso afirmar que jamais adaptação alguma fez jus à narrativa despretensiosa e levemente bronca, mas carregada de afeto fraternal do Dr. Watson sobre seu excêntrico colega de domicílio.

 

No entanto, Conan Doyle “trapaceia” o leitor por sua parcimônia na hora de compartilhar os indícios que o detetive vai encontrando e pelas reviravoltas dramáticas que os casos vão sofrendo. Por mais que eu lesse, sempre me sentia um cérebro muito aquém do grande detetive, jamais consegui resolver um único caso durante a leitura. O que ainda me fascina nesse autor é o sabor vitoriano de sua narrativa e a possibilidade de identificar-me com o Dr. Watson e ser “enrolada” por Holmes tanto quanto ele.

 

Watson humaniza Holmes, que de outro modo seria apenas um daqueles “gênios” absurdamente pedantes e sem qualquer consideração ou afeto por qualquer de seus semelhantes. Watson (e não Holmes) é o centro de estabilidade e o ponto de identidade com o leitor que sobressai da narrativa. Nesse sentido, a solidez e a consistência de Watson provavelmente provenham de ser o alter ego de Conan Doyle, oftalmologista de formação.

 

O que já não é o caso da diversidade literária produzida por Agatha Christie, cujos romances variam de personagens e de vozes narrativas com bastante frequência. Hercule Poirot, Miss Marple, o casal Beresford, o Sr. Satterwhite (um dos meus favoritos), o Superintendente Battle, o Coronel Race e a romancista Ariadne Oliver, seus principais protagonistas, dividem a cena com inspetores e personagens da gentry britânica, que vai sendo atropelada pelo século XX. Cada romance é um universo em separado e a autora passava um cortado tentando não se repetir durante décadas de produção literária.

 

O que chega a ser surpreendente, uma vez que se trata de uma autora autodidata, que mesmo tendo nascido em uma família cultivada não recebeu uma educação convencional, devido a uma mãe excêntrica que seguia ao sabor das novas teorias, uma orientação diferente para cada filho. Na voz de Prudence “Tuppence” Beresford podemos ver um pouco do aprendizado da própria autora:

 

– Tuppence, você já lia aos oito anos?

            – Já, aprendi com cinco. Quando eu era pequena, as crianças dessa idade já liam. Acho que nem era preciso aprender. Alguém lia as histórias alto e se você gostava podia pegar mais tarde na estante e olhá-las sozinho, até que um dia descobria que sabia lê-las, sem nunca ter aprendido a soletrar, ou coisa semelhante. Depois as coisas se complicaram, nunca aprendi ortografia corretamente, mas se tivessem me ensinado aos quatro anos, teria aprendido com perfeição. Meu pai ensinou-me a somar, subtrair e multiplicar. Dizia que a tabuada de multiplicação era a coisa mais útil que se podia aprender na vida. Eu sabia fazer aquelas divisões enormes também.”

(Portal do destino. pp.12-13. 1973.)

 

Os livros de Agatha Christie são deliciosamente emocionantes porque a vida em todas as suas dimensões pulsa em suas páginas. De um modo simples e despretensioso, enquanto a autora narra as peripécias de seus detetives tanto amadores quanto profissionais. Suas personagens são tão comovedoramente humanas que muitas vezes nos acompanham para além daquele mundinho estremecido por um ou mais assassinatos.

 

Como esquecer de Lynn Marchmont que voltou da guerra e não conseguia se encontrar? De Henrietta Savernake esculpindo argila furiosamente para sublimar a dor da perda? De Miss Marple definindo a solidão de envelhecer como o momento em que todos os que se lembravam de você em criança já morreram? De Tuppence Beresford enfrentando os achaques do envelhecimento com ironia e bom humor? De Vitória Jones, Lucy Eylesbarrow e Bundle Brent? As melhores personagens femininas que eu já vi em uma literatura que por muitos é considerada apenas como coisa ligeira.

 

E há ainda o fato de que Agatha Christie era escrupulosamente honesta na hora de fornecer as pistas para desvendar os crimes. Mesmo quando cometeu a suprema temeridade de redigir um romance em que o narrador é o assassino, as pistas e indícios ainda estão lá, disponíveis ao leitor. Mesmo quando ambientou um romance no Egito Antigo.

 

Para quem está acostumado a microscópios eletrônicos, centrífugas de extrair DNA e toda a pirotecnia das séries modernas, talvez esses romances do século XIX e XX pareçam lentos e com o cheiro de antiquário, mas para mim ainda são a melhor companhia em momentos de stress e exaustão.

 

Espero sinceramente que minha participação no Noroeste em Ação especial de literatura tenha ajudado a contagiar um ou outro ouvinte com minha paixão por autores e livros que me formaram e me humanizaram ao longo da vida. Só tenho a agradecer ao Jerry de Oliveira por ter-me proporcionado a oportunidade de participar de uma rádio comunitária e ir “aonde o povo está”. E parto agora para outros desafios.

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