Arquivo | fevereiro, 2017

O DOUTOR BEN CARSON E A REFORMA DO ENSINO MÉDIO

19 fev

Ben Carson é um laureado psiquiatra e neurocirurgião pediátrico estadunidense. Formado em Yale, dirigiu departamentos em instituições de prestígio como o Hospital John Hopkins, uma das referências em termos de ensino e pesquisa de excelência nos Estados Unidos. Foi responsável pela cirurgia mundialmente famosa que separou gêmeos siameses ligados pela cabeça em 1987.

 

Conservador e filiado ao Partido Republicano, esteve cotado para disputar a indicação como candidato à presidência por esse partido, nas últimas três eleições ocorridas em seu país. Escritor bastante bem sucedido na área de memórias de autoajuda, Carson teve sua vida transformada em filme e é considerado uma referência do “sonho americano”. E é aí que começam os problemas.

 

Um detalhe, Ben Carson vem de família simples. Filho de um pastor batista, hoje pertence às hostes da Igreja Adventista do Sétimo Dia. E por isso defende com unhas e dentes o Criacionismo e acredita que o Universo tem menos de dez mil anos.

 

A primeira vez que ouvi uma entrevista sua, meu cérebro se recusou a processar que uma pessoa conseguisse formar-se em medicina e especializar-se em modalidades com elevado grau de complexidade e continuasse negando os mais elementares conhecimentos de Biologia, Geologia e Astronomia. Passei a considerar com extremas ressalvas a universidade (tão prestigiada!) que lhe concedeu diplomas e títulos, bem como o sistema que lhe permite lecionar e ser referência em sua área. E ainda mais a sociedade acrítica que o celebra como um triunfo da “meritocracia”.

 

Sim, porque o doutor Ben Carson é o perfeito garoto propaganda que agrada os conservadores por seus valores cristãos e os liberais por sua trajetória vitoriosa escalando os degraus do mérito capitalista. É alguém que “venceu por seu próprio esforço” e “permaneceu fiel à sua fé” mesmo quando os conhecimentos mais básicos escolares em Ciências desafiam a força da mitologia que defende. É mais uma daquelas exceções muito bem calculadas que reforçam o sonho capitalista e jogam seu grupo social de origem em uma espiral de culpa por não conseguir realizar uma trajetória de mérito como a sua.

 

E, sendo negro, é o álibi perfeito para que os republicanos racistas (e outros tantos) possam apregoar sua própria “isenção” ao tolerá-lo no partido e a excelência do sistema que lhe permitiu “chegar tão longe”. É um “token” à vista de toda a sociedade, a exceção que confirma a regra.

 

Ben Carson engoliu a isca, o anzol e a chumbada da meritocracia e a defende em livros autolaudatórios. E não se envergonha de ir à frente das câmeras para oferecer uma explicação pseudocientífica para sua mitologia cristã primitiva. E eu pergunto: dá para ser um cirurgião brilhante e um perfeito ignorante ao mesmo tempo?

 

Dá sim, porque Ben Carson é o resultado de um sistema de ensino compartimentado, que permite que os conselhos escolares determinem o peso e o conteúdo de disciplinas obrigatórias ou eletivas de acordo com as idiossincrasias da comunidade a que servem; que permite que os alunos se especializem já no colegial, abrindo mão de uma educação mais universal e limitando suas escolhas para agradar a formação requerida pelo “mercado”; que oferece acesso a universidades claramente segregadas socialmente.

 

Em outras palavras, Ben Carson é o sonho dos defensores da infame reforma do Ensino Médio promovida pelo governo golpista do Brasil e dos partidários do igualmente infame projeto Escola sem Partido. É um médico brilhante (ponto para o mercado), um alienado político que defende o grupo social que oprime seus companheiros de origem e um defensor ignorante da anti-ciência (ponto para os fanáticos religiosos). É um cidadão exemplar premiado e condecorado que não ameaça o sistema vigente, mas que (ao contrário) defende o crescimento do obscurantismo e da ignorância ao propagandeá-los como parte de seu sucesso.

 

Esse tipo de ensino, que querem nos impor, é o responsável nos Estados Unidos pela manutenção das desigualdades porque sua formação pobre e socialmente segmentada é que abastece o mercado com uma reserva permanente de trabalhadores, mantendo os salários baixos, impedindo a organização e a luta por direitos trabalhistas elementares e promovendo a ignorância em tudo que não seja útil ou necessário ao desempenho profissional.

 

Nos projetos tupiniquins, como não poderia deixar de ser, existem agravantes monstruosos:

  1. A demonização dos professores e sua consequente desvalorização e perseguição.
  2. A perpetuação do racismo impedindo que as matérias ligadas ao conhecimento das origens africanas de uma parte significativa da população se incorporem ao ensino obrigatório.
  3. A perpetuação do machismo ao perseguir as discussões sobre gênero, sexualidade e planejamento familiar.
  4. O aumento da intolerância ao permitir que apenas as matrizes cristãs se manifestem na educação, jogando no lixo o Estado Laico e promovendo a perseguição das religiões de matriz africana e daqueles que não professam religião alguma.

 

O que estamos vendo é o desmantelamento de um sistema educacional, que já era precário, e a promoção de uma “reforma” que se destina à destruição sistemática de direitos e conquistas sociais históricos. A celebração da ignorância e da intolerância como elementos indispensáveis para sobreviver nessa nova ordem sociopolítica que ameaça mergulhar o país em índices sociais e econômicos de quarto mundo. O Brasil parece destinado a voltar a patamares de segregação e opressão sociais similares aos do início do século XX, eliminando cem anos de lutas em um uma canetada golpista.

 

Sinceramente, o tempo para discutir reformas e projetos está ficando escasso e o tempo para resistir e lutar está ficando urgente. Como faremos isso é a pergunta que me tira o sono e a saúde. A apatia que nos rodeia então…

A CIDADANIA E O POVO DO ABISMO

11 fev

Recentemente comentava em família que o cotidiano no Brasil está parecendo um daqueles romances do Dickens. Com as notícias se sucedendo com a regularidade e o melodrama do folhetim e aqueles tipos humanos surrados de sempre. Entre os meus amigos do Facebook tenho uma variada fauna de Estellas, Pips, Mr. Pickwicks, Doras e Stephen Blackpools; meu marido tem ao menos dois clientes que relembram Mr. Micawber e estamos sendo governados por uma quadrilha composta por Fagin, Thomas Gradgrind, Stirforth, Bill Sikes, Uriah Heep e Mr. Murdstone. Isso para ficar no mais óbvio.

 

Brinquei dizendo que não gostaria que passássemos de Dickens para Zola, ao que me foi respondido que pior que o Germinal seria se evoluíssemos para Jack London n’O Povo do Abismo. E essas analogias me deixaram pensando sobre como temos a tendência a catalogar os tipos humanos a partir de referências pessoais que nem sempre são intercambiáveis. Fiquei imaginando quantos dos meus jovens amigos da internet terão lido qualquer desses autores.

 

Para você que está meio que “boiando” e com preguiça de usar o Google já adianto que as personagens que citei acima estão presentes em Tempos Difíceis, Grandes Esperanças, Oliver Twist, David Coperfield e Pickwick Papers. Todos romances de Charles Dickens, prolífico escritor vitoriano que sensibilizou os leitores do Reino Unido com as mais variadas dimensões da miséria econômica e humana. Alguns de seus romances surgiram primeiro em forma de folhetins, que se tornaram muito populares, caindo no gosto inclusive das classes mais abastadas, e depois foram comercializados como livros convencionais.

 

Suas personagens são sempre tragadas por um mundo de adversidades, povoado por gente mesquinha, perigosa e por vezes francamente abjeta, e são obrigados a superar os obstáculos mais cruéis em seu processo de redenção. Há heroísmo, abnegação e a possibilidade de crescimento humano se você é um protagonista dickensiano, mas para isso terá que enfrentar sofrimentos atrozes e colocar à prova toda a sua fibra e seu caráter. Você pode chegar ao final da história em cacos, que ainda assim sairá engrandecido, o que já não se pode dizer da vasta fauna de miseráveis de espírito e bandidos que deverá enfrentar.

 

Já o Germinal de Emile Zola é um sólido romance naturalista, na linha dos irmãos Goncourt, ou seus equivalentes aqui no Brasil, Aluísio e Arthur Azevedo. Trata das peripécias dos mineiros de carvão na França do século XIX e das pavorosas consequências de uma greve levada ao limite quase revolucionário. Reflete a miséria sem redenção e suas personagens mais heroicas vivem situações sem saída, a não ser a Revolução ou a morte.

 

O Povo do Abismo, entretanto, não é um romance e sim o relatório de uma experiência antropológica levada a cabo por Jack London na Inglaterra vitoriana. O escritor socialista resolveu vivenciar a pobreza urbana já narrada por Dickens e nos mostra os meandros da exclusão e da miséria presentes nas fímbrias do entorno urbano resultante da Revolução Industrial. É um daqueles livros que são mais citados que lidos.

 

E como a nossa situação pode ser comparável a esse universo vitoriano de miséria, exploração e sofrimento?

 

Vivemos no limiar da convulsão social. As medidas implantadas pelo governo golpista são alarmantes em curto prazo, catastróficas em médio prazo e suicidas em termos de possibilidade de futuro. A destruição das políticas sociais e trabalhistas ameaça jogar o país de volta aos termos da relação capital/trabalho do século XIX.

 

Nesse sentido, subjacente à verborragia dos comentaristas televisivos, que não se cansam de esconder as informações relevantes para evitar ser confrontados com a irresponsabilidade de promover o caos que possibilitou golpe, encontra-se uma tendência insidiosa de demonização do meio intelectual. Uma celebração da mediocridade em programações deploráveis e com a promoção de subcelebridades asininas, que opinam sobre o que não sabem e fiscalizam lutos, genitálias e direitos alheios como se oráculos fossem. E, como se não bastasse, as redes sociais reverberam a opinião dos que mal sabem decifrar um texto, mas se arrogam ao direito de ditar e impor suas idiossincrasias religiosas e políticas ao coletivo da sociedade.

 

Todo esse lastimável caldo de cultura está produzindo ódio, violência e ignorância, de uma maneira que tende a tornar-se insanável na medida em que as pessoas que detém o conhecimento necessário para empreender análises sociais e históricas desta crise, e propor soluções, estão sendo solapadas, demonizadas e excluídas do diálogo social por propostas de leis estapafúrdias de censura. Às favas a República, a Democracia, os Direitos Humanos e a Cidadania!!! O loteamento dos três poderes do Estado republicano entre latifundiários, fundamentalistas religiosos, estafetas dos banqueiros e capachos das corporações transnacionais nunca esteve mais distante do ideal de cidadania plena.

 

Como se houvesse um abismo separando a população em dois extremos cresce o ativismo de uma extrema direita histriônica, sem projeto e que se promove a partir da disseminação do ódio ao diferente e da perseguição às minorias. Sempre que tentamos travar algum diálogo ou desenvolver argumentações sobre a situação social encontramos ouvidos moucos, chavões tolos e a mais rasa subserviência aos modelos de análise social da já superada Guerra Fria. Seria cômico se não fosse trágico e assustador.

 

A cada dia os noticiários divulgam ou escondem uma nova reviravolta ou peripécia que nos aproxima da miséria, da falta de perspectiva, da ausência de aposentadoria, da perda dos mais elementares direitos trabalhistas, da desumanização da sociedade. Quanto tempo levará de Dickens a Jack London eu nem imagino, mas não vejo sinais de que vá surgir algum movimento sensato que possa desarmar a bomba-relógio da convulsão social. Ao contrário, as instituições preparam-se para o enfrentamento fortalecendo as instâncias da repressão.

 

E a cidadania?

 

Evaporou.  Eleitores votam em um Executivo progressista porque percebem a melhora em seus meios de vida, mas votam em um Legislativo abjetamente conservador porque não querem aceitar de modo algum como iguais em direitos os cidadãos que são diferentes na forma. E esse Legislativo viciado de rancores sociais e religiosos destrói qualquer chance de futuro para o país.

 

E o grosso da população liga? Nem um pouco, preferem a miséria com seus deuses excludentes do que a prosperidade convivendo com inclusão social. Racismo, homofobia, xenofobia e machismo são a base que mantém no poder essa renca de sujeitinhos medíocres, lastimáveis e lombrosianos que promoveram o golpe.

 

E aqui estou eu de novo clamando no deserto. Publicando em um blog e compartilhando no Facebook para atingir, quando muito, duzentos leitores. E sendo a louca da palestra.

 

Mas tudo bem, antes a loucura racional que a sanidade alucinada que nos rodeia. Afinal. de nada adianta argumentar que os conceitos não podem e nem devem ser usados fora de seu significado original. A neurolinguística e outras panaceias da pós-modernidade vem ressignificando palavras, conceitos e realidades à nossa revelia.

 

Neste mundinho canhestro produzido pela autoajuda e os reality shows, a valorização da mediocridade reina em nome de um relativismo cultural, que se pretende liberal. Então chamamos de fascistas todo e qualquer autoritário, reacionário ou conservador, mesmo que sejam na verdade protofascistas ou nem isso. Relativizamos e nivelamos a linguagem ao alcance do espectador médio, de medo de não ser compreendidos, de não poder transmitir “nossa mensagem”.

 

E temos pavor de ser acerbamente criticados por tentar elevar o nível intelectual de qualquer debate. A Direita mantém uma cruzada secular de perseguição ao pensamento racional e ao cultivo do conhecimento entre as classes mais pobres. Nossos rednecks tupiniquins nada devem aos seus congêneres do Cinturão da Bíblia estadunidense.

 

Palavras e conceitos caem em desuso ou são toscamente ressignificados para adequar-se ao caldo de cultura de ódio e pobreza verbal que assola as redes sociais e a vida real. Não admira que a consciência de classe tenha sido esmagada em seu nascedouro por um século de perseguição implacável ou que a cidadania jamais tenha se concretizado, escamoteada por regimes que dizem ser o que não são.

Programa Noroeste em Ação: Conan Doyle e Agatha Christie

6 fev

 

Último programa Noroeste em Ação Especial de Literatura, que foi ao ar em 04/02/2017, abordando os romances policiais indiciários de Conan Doyle e Agatha Christie. Esta série de programas foi uma iniciativa da Rádio Noroeste FM, 105,9, rádio comunitária da Vila Boa Vista em Campinas, com apresentação de Jerry de Oliveira e produção de Cristiane Costa, além da participação de Anna Gicelle García Alaniz.